quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Hitchens, Chesterton e “A Queda no Misticismo”

O poeta polaco e prémio Nobel Czeslaw Milosz afirmou certa vez que no seu país (antes de se mudar para os Estados Unidos) as pessoas às vezes comentavam que um determinado pensador tinha “caído no misticismo”, significando que se tinha tornado religioso e, consequentemente, desinteressante.

Milosz era católico, embora afectado pelos desafios modernos à crença religiosa. Mas o seu sentido é claro. Há muito que os evangélicos se lamentam do “fechar da mente evangélica”. A maioria dos católicos não liga ao pensamento católico e não percebem que a Igreja abraça a fé e a razão.

Muitos jovens (e outros menos jovens) que talvez se sentissem intrigados pela filosofia religiosa, a teologia, a literatura e, até, a complexa tradição mística, são confrontados por cristãos que lhes citam versículos da Bíblia, antes sequer de se terem apercebido da importância da Bíblia. Ou então conhecem católicos que são incapazes de oferecer um relato minimamente correcto daquilo em que a Igreja acredita, ou faz.

O Cristianismo, claro, é uma fé que ultrapassa aquilo que é racionalmente demonstrável. Mas a ciência também o faz ao postular que as coisas do mundo existem mesmo e podem ser compreendidas. Tanto a teologia como a ciência procuram relatos racionais de dados adquiridos, i.e. coisas a que não teriam conseguido chegar apenas pela reflexão racional.

É por isso que os grandes pensadores cristãos como Agostinho, Aquino e Newman são tão importantes para a fé como Galileu, Einstein e Hawkings para a ciência.

Uma das grandes diferenças entre estas formas de pensamento, claro, é que a fé não se limita à filosofia ou à teologia. Também tem de poder ser compreendida e praticada – ainda que imperfeitamente – por todos, uma vez que Deus se dirige a todos os homens e mulheres que criou.

Por isso os grandes apologistas do Cristianismo – as vozes que conseguem chegar às pessoas – são muito importantes. E nenhuma voz católica se tem erguido com a mesma eficácia nos últimos séculos do que a de G.K. Chesterton.

Duvidas? Então considere-se o seguinte: Christopher Hitchens, um brilhante jornalista, efusivamente elogiado enquanto morria de cancro do esófago o ano passado, escolheu usar o seu último fôlego, por assim dizer, para atacar Chesterton num artigo, o seu último, que acaba de ser publicado no The Atlantic.

Conhecia Hitchens muito mal. Era um malandro charmoso, sobretudo com as senhoras, de uma época britânica muito particular, o ocaso do domínio inglês. Isso, somado à sua qualidade evidentemente brilhante, garantiu-lhe um lugar proeminente no jornalismo de Washington.

Como muitos outros britânicos bem-educados da sua geração, movia-lhe um ódio particular pelo Cristianismo, que adorava ultrajar – indo ao ponto de criticar a Madre Teresa num livro chamado “The Missionary Position” [Posição de Missionário]. Uma vez que, tanto quanto sei, ele nunca levantou um único pedinte dos esgotos de Calcutá, nunca levei muito a sério a sua afirmação de que a Madre Teresa devia ser encarada como uma tirana beata.

Mas o seu ataque a GKC é um assunto diferente. Neste seu último assalto, Hitchens pretendeu enfrentar um homem – C.S. Lewis vem logo a seguir – que ainda tem o poder de persuasão junto das massas capaz de causar impacto. Caso contrário, para quê gastar os últimos dias com ele?

Ao contrário daquilo a que nos habituou, Hitchens não justifica porque é que o seu alvo merece a sua atenção. Cita T.S. Eliot, que elogiou as “baladas jornalísticas de primeira água” de Chesterton e o próprio Hitchens refere-se à sua poesia como tendo “a mágica faculdade de ser inesquecível”. Mais à frente, refere que Kingsley Amis, um crítico a ter em conta, lhe confessou que todos os anos relia “O Homem que era Quinta-feira”.

Mas para lá destes elogios, apenas um dos quais é do próprio Hitchens, ninguém diria que Chesterton era o autor de “The Everlasting Man” (a sua melhor obra), “The Ballad of the White Horse”, uma série de estudos brilhantes sobre Dickens, Chaucer e os vitorianos, “Francisco de Assis e Aquino”, e dois volumes essenciais: “Heretics” e “Ortodoxia”. Para quem valoriza Chesterton estas obras são o espectáculo principal, mas para Hitchens, aparentemente, não passam de uma distracção.

O reductio ad hitlerum é já uma ferramenta jornalística tão gasta que só um amador – coisa que Hitchens não era – recorre a ela. Mas passa muito tempo neste seu ensaio a falar da obiter dicta de GKC sobre os interesses financeiros dos judeus a que junta uma referência vagamente sinistra à “Concordata entre Hitler e o Vaticano” de 1933, como se a Santa Sé tivesse tratados com indivíduos e não com nações.

Esta acusação tem de ser vaga porque um olhar mais atento à concordata rebentaria nas mãos de quem a tentasse usar como prova de apoio ao regime em causa. Esta vaga associação de Chesterton ao Nazismo é um absurdo, um grande absurdo, dado o nojo que ele reservava para as tiranias modernas.

Chesterton e o seu camarada de armas Hilaire Belloc são culpados de muitas simplificações históricas e gaffes. O distributivismo agrário que eles defenderam como resposta tanto ao capitalismo como ao comunismo tem tantas fraquezas como qualidades. Mas – apesar de Hitchens – eles compreendiam como a tirania na política deriva frequentemente de erros de compreensão da religião.

Hitchens, pelo contrário, parece acreditar que uma perspectiva religiosa firme e tolerante apenas piora a situação:

Chesterton tornou-se parte de uma olvidável operação de retaguarda contra a era da incerteza, que agora se tornou definitivamente a nossa. Parece não haver quaisquer regras, de ouro ou não, naturais ou outras, pelas quais podemos definir o nosso lugar no universo ou no cosmos. Aqueles que afirmam saber mais são condenados por dizer que conhecem aquilo que não se pode conhecer. É um paradoxo, se assim quiserem.

Isto não passa, claro, de uma eloquente balela. A religião não está a desaparecer, salvo nalguns cantos decrépitos. E a busca pelo sentido e pela ordem também não. E Chesterton, como Hitchens reconhece, tinha a “mágica faculdade de ser inesquecível”, coisa que Hitchens não tem – precisamente porque não se ligou a qualquer verdade duradora.

Os livros de Chesterton ainda estão impressos e continuarão a sê-lo. A sua voz, apesar de todos os ataques, jamais se extinguirá, porque é a voz perene da sanidade humana.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 20 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

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