quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O novo Anticatolicismo

por Francis J. Beckwith

O anticatolicismo antigo encontrou expressão em meados do século XIX quando a primeira onda de imigrantes católicos chegou aos Estados Unidos. Alguns destes grupos estabeleceram escolas religiosas privadas. Muitos dos americanos não-católicos, porém, estavam convictos de que as escolas católicas doutrinavam os alunos com superstições que eram incompatíveis com os princípios da democracia americana. Logo, para ter a certeza que estas escolas não recebessem financiamento público, foi proposta legislação que proibia o uso de recursos públicos para propósitos “religiosos”, leia-se católicos.

A tentativa mais ambiciosa para transformar este sentimento em lei foi a chamada “Emenda Blaine”, baptizada com o nome do congressista que a propôs. No seu texto lê-se: “Nenhum Estado fará qualquer lei respeitante ao estabelecimento nem ao impedimento de livre prática de uma religião; nem o dinheiro dos impostos cobrados para o financiamento de escolas públicas, nem qualquer quantia de fundos públicos, nem quaisquer terrenos públicos poderão ser cedidos a qualquer seita religiosa, nem estes dinheiros ou terrenos poderão ser divididos entre seitas religiosas ou denominações.

Apesar de nunca se ter tornado parte da Constituição, alguns estados individuais passaram leis ou emendas constitucionais deste género que ainda estão em vigor. O espírito destas leis, bem como o anticatolicismo que motivaram, apenas começaram a dissipar-se depois da eleição de John F. Kennedy, o primeiro presidente católico da América, em 1960.

Mesmo uma das grandes figuras da história da minha universidade, J.M. Dawson (1879-1973), escreveu as seguintes linhas no seu livro “Separate Church and State Now”, de 1948: “Os católicos... aboliriam o nosso sistema de ensino público, que é o principal factor de unidade nacional, e substitui-lo-iam pelas suas escolas paroquiais medievais do velho-mundo, com as suas culturas estrangeiras. Ou então tornam claro que querem que sejam instalados meios para ensinaram a sua religião nas escolas públicas.

Este sentimento encontrava-se de tal forma generalizado que Kennedy foi forçado a confrontá-lo num discurso que proferiu no Greater Houston Ministerial Association durante a sua campanha presidencial.

Por mais fragilidades que o antigo anticatolicismo tivesse e por mais que fosse alimentado por preconceitos nalguns sectores, jamais exigiu ao Governo que obrigasse a Igreja Católica a alterar as suas práticas e crenças nos vários meios em que servia o povo americano. Por exemplo, não teria ocorrido aos antigos anticatólicos sugerir ao Governo que penalizasse de alguma forma hospitais católicos, organizações caritativas ou escolas caso estas não praticassem coisas que a Igreja considera gravemente imorais.

Isto porque o antigo anticatólico típico considerava-se guardião da tradição de separação entre a Igreja e o Estado proposta por James Madison e Thomas Jefferson, bem resumida nestas palavras de Jefferson: “Seja portanto decretado por esta Assembleia Geral que nenhum homem deve ser forçado a frequentar ou apoiar qualquer serviço religioso, lugar ou ministério que seja, nem será forçado, restringido, molestado ou ferido no seu corpo ou nos seus bens, nem sofrerá de qualquer forma por causa das suas crenças e da sua opinião religiosa; mas que todos os homens sejam livres de professar, e manter, livremente discutindo, as suas opiniões em matéria de religião, e que estas não sirvam para diminuir, engrandecer ou afectar as suas capacidades civis.

Thomas Jefferson
Uma vez que o antigo anticatólico defendia este princípio jeffersoniano, ele respeitava o direito dos católicos à liberdade religiosa e a desenvolver as suas instituições de saúde, académicas ou caritativas, para melhor poder praticar e propagar aquilo que acreditavam ser os ensinamentos de Cristo e da Sua Igreja. Desde que o Católico não exigisse que o Governo usasse o dinheiro do anticatólico para financiar estas instituições este estava mais que disposto a praticar a verdadeira tolerância para com o católico e a Sua Igreja, apesar de, tipicamente, considerar o Catolicismo uma religião falsa e repugnante.

O tempo do antigo anticatolicismo acabou há muito, mas há um novo anticatolicismo, assim apelidado pelo respeitado historiador Philip Jenkins, meu colega em Baylor. Expressa-se na hostilidade e profundo desprezo das muitas posições morais defendidas pela Igreja Católica. Em questões como o aborto, a eutanásia, as práticas homossexuais, o “casamento” homossexual, ordenação de mulheres e contracepção, o novo anticatolicismo é firmemente contra ecclesia.

Mas este novo anticatolicismo não adopta a postura do crítico humilde, disposto a aprender, que procura dialogar com a Igreja sobre assuntos acerca dos quais cidadãos racionais com diferentes tradições teológicas e morais podem discordar. Pelo contrário, recorre ao poder coercivo do Estado para forçar as instituições da Igreja a violar a teologia moral da própria Igreja e assim comprometer, ou tornar menos acessível, a sua missão de caridade e esperança.

O caso mais evidente foi a recusa recente por parte do Departamento de Saúde e Serviços Humanos de emendar os novos regulamentos que obrigariam todos os planos privados de saúde, incluindo aqueles oferecidos por instituições católicas, a fornecer contraceptivos, esterilização e alguns medicamentos abortivos sem taxa ou comparticipação. A única isenção religiosa é tão restritiva que não impede o Governo de obrigar praticamente todos os hospitais, universidades e organizações de identidade católica a cooperar materialmente com actos que a Igreja ensina que são gravemente imorais.

O novo anticatolicismo não só rejeita o princípio jeffersoniano; vira-o de pernas para o ar. Em vez de exigir que a Igreja Católica o deixe em paz, como defendia o antigo anticatólico, é o novo anticatólico que não deixa a Igreja em paz. O antigo anticatólico consideraria deselegante e mesmo antiamericano usar coerção do Estado para obrigar o católico a apoiar e pagar coisas que violem a sua consciência. O novo anticatólico está apostado em liderar um Movimento para Ocupar o Vaticano.


Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É um dos quatro principais autores de Journeys of Faith: Evangelicalism, Eastern Orthodoxy, Catholicism and Anglicanism (Zondervan, 2012), a ser publicado brevemente.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 3 de Fevereiro 2012 em www.thecatholicthing.org)

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