segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A quem servir o barrete…

Nas últimas semanas o Vaticano foi abalado pela revelação de documentos com denúncias, acusações e insinuações que, acima de tudo, mancham o bom nome da Igreja.

Num dos casos estavam em causa acusações de corrupção e clientelismo no Governo da Santa Sé, noutro falava-se de uma eventual conspiração para matar o Papa que, após uma primeira análise, se revelou uma tontice.

Contudo, em ambos os casos há membros da Cúria Romana, identificados claramente pelo nome, que ficam muito mal na fotografia. Independentemente de os dados relatados serem ou não verdade, estes casos trazem para a luz do dia algo que todos sabemos que existe mas que a maioria dos católicos prefere ignorar, que no Vaticano há politiquice, lutas de poder e jogo sujo. É triste, mas é verdade.

O que nos leva ao discurso proferido hoje por Bento XVI aos novos cardeais, uma boa parte dos quais trabalha precisamente no Vaticano.

“Não é fácil entrar na lógica do Evangelho, deixando a do poder e da glória”, disse Bento XVI, não como quem desculpa estes lapsos mas como quem alerta para o seu perigo.

Ao serem elevados ao cardinalato é sublinhada novamente a responsabilidade que estes homens receberam com o seu baptismo e viram realçada com a ordenação sacerdotal e, na maioria dos casos, episcopal: Viver a lógica do Evangelho, em que o maior é aquele que serve os seus irmãos.

Durante a cerimónia o Papa falou-lhes das vestes encarnadas que simbolizam a disponibilidade de derramar o próprio sangue, isto é, dar a própria vida se for necessário, por amor a Cristo, à Igreja e ao povo de Deus.

Não temos razão para acreditar que a esmagadora maioria dos 213 cardeais que actualmente existem não procura viver esta realidade no seu dia-a-dia. Mas infelizmente quem faz as manchetes são os poucos que parecem mais preocupados em promover a sua própria carreira, como Tiago e João que pediram a Jesus para lhes reservar os lugares à sua esquerda e direita, quando entrasse na sua glória.

Pode ter sido por acaso que o Papa referiu precisamente essa passagem do Evangelho e deixou aos cardeais os “avisos” que deixou. Pode ter sido coincidência, mas se foi não podia ter vindo em melhor momento.

Filipe d'Avillez 
(Publicado originalmente no dia 18 de Fevereiro aqui)

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