Começo com uma tristíssima
notícia. Mais de cem pessoas terão morrido num incêndio que deflagrou durante a
festa de um casamento, no norte do Iraque. Porque é que esta notícia diz
respeito à Actualidade Religiosa? Porque atingiu precisamente a já frágil e
sofredora comunidade cristã daquele país, embora a maioria dos órgãos de
comunicação social – certamente por ignorância e não por preconceito – não o
tenham referido. Aqui explico porque é que este é mais um golpe duro para os cristãos iraquianos.
É já no sábado o
consistório que elevará D. Américo Aguiar a cardeal. Em princípio eu estarei na SIC Notícias de
manhã para comentar o assunto, e sairá um artigo no Expresso sobre o Colégio
dos Cardeais depois desta nova remessa criada por Francisco, fiquem atentos e
para a semana envio links. Entretanto, o novo bispo de Setúbal deu uma
entrevista em que faz um balanço da JMJ.
Infelizmente, as minhas previsões sobre a tragédia humanitária e limpeza étnica em Nagorno
Karabakh estão a realizar-se. Mais de metade da população arménia daquele
enclave já se refugiou na Arménia propriamente dita. É o fim de uma cultura milenar,
num dos berços e últimos redutos do Cristianismo na região do Cáucaso.
A selecção portuguesa de rugby
está a entusiasmar e domingo tem um novo teste de fogo contra uma Austrália
aparentemente enfraquecida. O rugby é o tema do meu mais recente artigo no The Pillar. Mas o que é que o rugby tem a ver com
religião, perguntam? Pois perguntam muito bem. Talvez Nossa Senhora do Rugby
possa esclarecer.
O caso do Pe Rupnik continua a
dar que falar e agora tem uma nova dimensão portuguesa. Saibam tudo aqui.
E não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing em que Stephen White explica
porque é que um dos grandes problemas da nossa sociedade é o facto de termos
perdido a noção do pecado.
Costuma-se dizer, embora não tanto como se deve, que um
dos males dos nossos dias é a perda do sentido de pecado. O Papa Pio XII disse
isto mesmo num famoso discurso radiofónico aos catequistas, em 1946, e o Papa Francisco já repetiu a mesma
ideia mais que uma vez, comparando a hipocrisia de alguns cristãos à do Rei
David, incapaz de ver o seu próprio pecado até que o profeta Natã o colocou
diante dos olhos: “Esse homem és tu!”
De tempos a tempos todos nós precisamos de ser abanados e
acordados da nossa própria cegueira e complacência. Nas palavras do Papa
Francisco: “Que o Senhor nos dê a graça de enviar sempre um profeta – pode ser
um vizinho, um filho ou filha, uma mãe ou um pai – para nos dar umas
palmadinhas quando cairmos para um mundo em que tudo parece ser legítimo.”
É isto mesmo.
Talvez possamos ir mais longe e aplicar isto não só ao
reconhecimento da nossa cegueira para com as nossas próprias falhas, mas também
à sabedoria para rezar por correcção. Ser cego por causa dos nossos pecados,
incapaz de os ver, como David, é uma coisa. Mas perder a noção de que as nossas
acções podem ser julgadas por alguém, de acordo com um qualquer padrão que nos
ultrapassa, é outra.
A correcção fraterna pressupõe a existência de fraternidade.
Este tipo de correcção requer um sentido de responsabilidade e confiança mútua
entre as partes (como se esperaria encontrar entre irmãos). Mas a um nível mais
básico (quase pedante), a correcção fraternal pressupõe um sentido partilhado
da própria natureza e fonte da fraternidade: os irmãos são-no porque
partilham um mesmo pai.
Por isso, um cristão poderá ser convencido da necessidade
de se arrepender quando lhe forem reveladas as formas como se desviou da lei de
Deus ou da lei da Igreja. Mas isso depende do reconhecimento prévio por parte
do pecador da existência dessas mesmas leis, e um desejo, por mais imperfeito
que seja, de viver de acordo com elas.
E a pessoa que não reconhece tais leis, ou a autoridade
que as sustenta? E a pessoa que acredita que o mal é na verdade o bem? E a
pessoa que não conhece o Pai e nega os ensinamentos da nossa Mãe, a Igreja? Tal
pessoa não está para além da esperança da misericórdia e do arrependimento,
como é evidente, mas o apelo à lei (a lei de Deus, a lei da natureza, a lei da
Igreja ou até a lei do homem), cuja autoridade ele não reconhece, dificilmente a
levará ao arrependimento.
Em tais casos a perda do sentido do pecado não é apenas a
incapacidade de ver o meu próprio pecado, mas a perda da possibilidade de
reconhecer que o pecado é pecado sequer. Se perdemos Deus de vista, se perdemos
de vista o bem do qual o pecado é um afastamento ou uma negação, então a
própria categoria de pecado (para não falar de fraternidade) deixa de ter
qualquer sentido.
É interessante notar como chegámos à beira daquilo que
Nietzsche entendeu quando observou que “se nada é verdade, tudo é permitido”,
razão pela qual descrevia o seu projecto filosófico – aliás, a si mesmo – como
“Dionísio versus o Crucificado”.
E isto parece-me ser muito mais próximo daquilo que o
Papa Pio XII tinha em mente quando falou da perda do sentido de pecado nos
meses imediatamente a seguir aos horrores da Segunda Guerra Mundial. O remédio
que o Papa Pio propôs não era, pelo menos numa primeira instância, recordar o
mundo da lei moral de que se tinha esquecido, ou que tinha negado. Antes, o
remédio encontrar-se-ia no Cristo Crucificado. Nele, a realidade do pecado é
colocada em bruto contraste com aquele amor que todo o pecado ofende.
Vale a pena voltar a olhar para o discurso de Pio XII de
1946, onde regista o seu lamento pela perda do sentido de pecado exactamente
neste contexto:
Conhecer Jesus crucificado é conhecer o horror de Deus
ao pecado; a sua culpa apenas pôde ser purificada no precioso sangue do Filho
unigénito de Deus, feito homem.
Talvez o maior pecado no mundo hoje seja o facto de os
homens terem começado a perder o sentido do pecado. Se isso for abafado,
entorpecido – porque não pode ser totalmente extirpado do coração do homem – se
for impedido de ser despertado por qualquer vislumbre do Deus-homem a morrer na
cruz do Calvário para pagar a pena do pecado, que restará para impedir as
hordas dos inimigos de Deus de dominarem o egoísmo, orgulho, sensualidade e
ambições desmedidas do homem pecaminoso? Bastará a mera legislação humana? Os
acordos ou os tratados?
Não vivemos num mundo em que os corações e as
consciências do homem podem ser facilmente tocados pelos apelos à autoridade,
nem mesmo à autoridade de Deus. Mesmo dentro da Igreja, entre os baptizados,
nem sempre é eficiente apelar à autoridade da doutrina ou à Divina Revelação.
Poderíamos desejar que não fosse assim, mas é.
O que nos resta, portanto, é proclamar a Boa Nova de uma
forma que o mundo ainda consiga entender. Se os apelos à autoridade não tiverem
adesão, então resta um caminho que é tão convincente hoje como sempre foi.
Ouçamos novamente Pio XII.
No Sermão da Montanha, o divino Redentor iluminou o
caminho que conduz à vontade do Pai e à vida eterna; mas do cadafalso do
Calvário flui a torrente sempre plena e constante de graças, de força e de
coragem, a única que permite ao homem trilhar esse caminho com um andar firme e
certo.
Esse percurso é nos revelado por aquele que o trilhou
antes de nós – embora ele não tenha precisado de um Natã para o corrigir –
aquele sobre quem Pilatos falava quando clamou: “Eis o Homem”. Nada condena
mais o pecador que o amor incomensurável de Deus. Nada penetra até ao cerne da
consciência do homem mais do que a própria misericórdia de Deus. E a força e a
coragem para percorrer esse caminho jorram até nós desde cima.
Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no
Centro de Ética e de Política Pública em Washington.
(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 21 de Setembro de
2023)
The Catholic Thing é um fórum de opinião católica
inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus
autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com
o consentimento de The Catholic Thing.
Mais de 100 pessoas morreram num incêndio que deflagrou
durante uma festa de casamento no norte do Iraque, na terça-feira, e outras 150
ficaram feridas.
A tragédia aconteceu na cidade de Qaraqosh, também conhecida
como Baghdeda, ou Bakhtida, que tem a particularidade de ser a única cidade
100% cristã do Iraque. Embora existam cristãos de diferentes ritos e igrejas na
cidade, este parece ter sido um evento da comunidade Siríaca Católica (e não a ortodoxa, como erradamente afirmei de início).
Um acidente destes é sempre uma enorme tragédia, não há
vidas mais valiosas que outras, mas este incidente tem a dimensão acrescida de
representar mais um grave golpe contra a comunidade cristã do Iraque.
Qaraqosh sempre foi um símbolo para a comunidade cristã deste
país. O facto de serem maioria permitiu aos cristãos daqui manterem as suas tradições
e costumes durante os anos de caos que se seguiram à invasão americana de 2003.
Podiam praticar a sua religião sem qualquer medo ou restrição.
O primeiro grande teste para Qaraqosh veio com a ascensão
do Estado Islâmico. A cidade foi ocupada pelos jihadistas quando varreram a
região em torno de Mossul, mas todos os cristãos conseguiram fugir. Contudo, a
instabilidade geral e o medo de que a situação se possa repetir no futuro levaram
muitos cristãos a preferir emigrar, ou a permanecer no Curdistão Iraquiano, que
é mais seguro e estável.
Os cristãos que regressaram a Qaraqosh são aqueles que
resistiram, são aqueles que não quiseram, ou não puderam, sair do país. São,
numa palavra, a esperança para o futuro do Cristianismo no Iraque.
Que 100, ou mais, dos membros dessa comunidade tenham
morrido num acidente desta natureza é mais do que um desperdício de vidas, é um
ataque a essa mesma esperança, mais uma razão na já longa lista de razões para
simplesmente desistirem e saírem para a Europa, América do Norte ou Austrália,
onde de geração em geração os seus costumes, práticas, língua e espiritualidade
se vão dissipando.
Rezemos pelos cristãos do Iraque que, mais uma vez,
enfrentam o desespero e a morte. Que Deus lhes dê coragem para resistir, que a
luz do Evangelho se mantenha naquele país. E que Deus dê eterno descanso às
vítimas deste incêndio, e a graça da recuperação aos feridos.
Acaba de ser anunciada oficialmente a nomeação de D. Américo Aguiar para bispo de
Setúbal. Aqui encontram a minha análise a esta nomeação, e aqui podem ver o novo brasão do futuro cardeal.
As autoridades de Nagorno
Karabakh apresentaram ontem a sua rendição às forças do Azerbaijão que sitiavam
o território há meses e que nos últimos dias lançaram ataques em larga escala. Salvam-se
assim muitas vidas, que sem dúvida se perderiam se a guerra continuasse, mas a
perda em termos de património histórico e cultural é incalculável. Este é um
tema que me é caro porque eu já estive em Nagorno Karabakh. Andei pelas trincheiras que agora foram
ocupadas, visitei monumentos que agora muito provavelmente serão destruídos,
conheci pessoas que estão agora a ver se conseguem fugir. Neste texto tentei retratar um pouco do que se está a passar, explicando, por
exemplo, porque é que isto é uma derrota também para a Rússia e até, de certa
forma, para o Vaticano.
E por tudo isto, pela Ucrânia,
por Nagorno Karabakh, por Moçambique e tantos outros sítios onde as armas não
se calam e o ódio move as pessoas, devemos unir-nos mais uma vez à iniciativa
da fundação Ajuda à Igreja que Sofre de pôr um milhão de crianças a rezar o
terço, no dia 18 de Outubro. Todos os anos chega-se um pouco mais perto desse
número. Desafie os seus filhos, netos e amigos. Toda a informação aqui.
Não percam ainda o artigo
desta semana do The Catholic Thing, no qual Francis X. Maier nos desafia a
desligar-nos um pouco mais das redes, libertando-nos da dependência da tecnologia
que nos rodeia. Tomem o comprimido encarnado.
Foi hoje anunciada oficialmente a nomeação de D. Américo
Aguiar para bispo de Setúbal. Chegam assim ao fim duas sagas: a de saber para
onde iria, afinal de contas, o futuro cardeal, e a da diocese de Setúbal, que
está sem pastor há mais de 600 dias.
Podemos pensar num bispo como uma mera figura de proa
para um sistema bastante bem montado, e que até pode funcionar sozinho – afinal
de contas, Setúbal está há quase dois anos com um administrador apostólico em
vez de um bispo e as coisas vão andando – mas isso seria um terrível erro. Ou pelo
menos devia ser.
Um bispo faz muita falta a uma diocese, como ponto de referência
para os seus fiéis e, sobretudo, como ponto de referência e de concórdia para
os seus padres. Faz falta quem determine um rumo; faz falta quem congregue as
ovelhas, que de outro modo tendem a dispersar.
Sem ir mais longe, reparemos que Setúbal esteve sem bispo
durante todo este tempo em que a Igreja teve de enfrentar a crise dos abusos
sexuais, quando mais era preciso haver vozes firmes para conduzir uma Igreja
local ferida, magoada, revoltada e com medo. Quando mais era preciso colocar
alguma ordem, precisamente nesse assunto, cujo tratamento em Setúbal tem
deixado muito a desejar.
Também por todas as razões elencadas acima, não basta uma
diocese ter um bispo, tem de ser um bom bispo. Um bispo que não seja apenas um
burocrata. Setúbal, depois de tudo o que passou, merece um bispo activo, capaz
e comprometido com o seu rebanho.
D. Américo tem potencial para fazer um bom trabalho em
Setúbal e para ser essa figura, e assim espero que seja.
É verdade que ele não é a pessoa mais consensual do
mundo, mas há boas razões para pensar que as dificuldades que sentiu em Lisboa não
se repetirão na sua nova diocese.
D. Américo entrou em Lisboa como o braço direito de D.
Manuel Clemente, que trabalhou com ele quando foi bispo do Porto. Ao contrário
de D. Manuel, que regressava a uma casa onde era já conhecido e estimado, o
então Padre Américo vinha de fora com aura de protegido e com atitude de cão de
guarda do pastor (o termo é dele, e não meu). Isso não caiu bem entre muito do
clero lisboeta.
Desde cedo começou a coleccionar cargos. Desde presidente
do Conselho de Administração da Renascença – uma máquina influente e enorme,
mas fragilizada e a precisar de reformas corajosas e urgentes – a homem de
ponta para lidar com a crise dos abusos e, mais tarde, arquitecto daquele que
foi simplesmente o maior evento que Portugal alguma vez recebeu, e alguma vez
receberá.
Entretanto foi nomeado bispo auxiliar de Lisboa. Bispo auxiliar
é um cargo complicado, não é carne, nem é peixe. É bispo, certo, mas não é a
cabeça da diocese, nem é visto como tal pelo clero. Sei que muitos padres
ficaram desagradados com a forma como ele exerceu esse cargo, nomeadamente na
relação com o clero, agindo como seu superior – que era, hierarquicamente – o
que foi interpretado por alguns como uma usurpação da autoridade do Patriarca.
Agora D. Américo não terá esse problema. É ele o pastor
de Setúbal e espera-se mesmo que se comporte como tal. Sobretudo porque Setúbal
precisa urgentemente de alguém que ponha ordem na diocese e consiga resolver
problemas complicados, incluindo financeiros, que ela enfrenta. D. Américo pode
ter muitos defeitos, mas é um homem de acção e que gosta de ter a “mão na massa”,
o que aqui será um enorme benefício.
O novo bispo de Setúbal chega “em alta”, tendo sido a
face do enorme sucesso que foi a Jornada Mundial da Juventude e entrará
oficialmente na diocese já como cardeal, o que não deixa de constituir uma enorme
honra para uma diocese que tem menos de 50 anos.
Todos os caminhos iam dar a
Roma…
O que nos leva à segunda questão. Então e Roma?
Durante meses era dado como certo que D. Américo estaria
a caminho de um cargo na cúria romana, a pedido específico do Papa Francisco. O
que é que terá acontecido? Não sei, mas não se pode excluir que o próprio D.
Américo tenha preferido ficar em Portugal, numa diocese onde pode desenvolver
uma acção mais directa e no terreno, do que num gabinete no Vaticano. Se assim
for é bom sinal, pois revela ausência de carreirismo.
Pode ter contribuído para isso o facto de o futuro
cardeal não dominar línguas estrangeiras, nomeadamente o italiano, que é
essencial para conseguir trabalhar em Roma.
O que espero, sinceramente, é que D. Américo não esteja a
prazo em Setúbal. Não digo que tenha de lá ficar a cumprir o mandato até aos 75
anos, mas pelo menos tempo suficiente para traçar um plano de acção e o concretizar,
tempo para lançar raízes e deixar trabalho feito. A passagem relâmpago de D. José
Ornelas não deixou especiais saudades aos setubalenses e a última coisa de que
precisam é de um bispo que dê ares de estar simplesmente a pousar antes de
partir para voos mais altos.
D. Américo é novo, só faz 50 anos em Dezembro. Tem mais
que tempo, ainda, para fazer um bom trabalho na sua nova diocese. E o facto de
ser cardeal significa que certamente terá também cargos em Roma que o obriguem
a viajar e a pôr a render os talentos que Francisco reconheceu nele.
Em 2016 viajei com um grupo de jornalistas para o enclave de Nagorno Karabakh. Fomos primeiro para Yerevan, na Arménia, e
de lá era suposto seremos levados de helicóptero para Stepanakert. Por causa do
mau tempo, porém, tivemos de partir de autocarro por volta da 1h00, para fazer
quase cinco horas de estrada, sempre com curvas e a subir montanhas.
Chegámos de madrugada à autoproclamada República de
Artsakh, um território historicamente povoado por arménios, dentro do Azerbaijão.
Quando a União Soviética se desintegrou, os Arménios de Karabakh, que era
administrada pelo Azerbaijão, declararam independência, o que conduziu a uma
guerra. Foram cometidas atrocidades de parte a parte, morreram famílias
inteiras, mas os arménios venceram e consolidaram o seu controlo sobre a
região. Declararam uma independência que nunca foi reconhecida por ninguém, nem
sequer pela Arménia, e assim viveram durante 30 anos, rodeados de inimigos, ligados
ao mundo exterior apenas pelo corredor de Lachin, que lhes permitia ter acesso
à Arménia.
Em Karabakh assistimos às comemorações dos 25 anos da "independência", junto ao cemitério militar. Uma das coisas mais impressionantes da viagem foi mesmo ver as inúmeras campas de soldados mortos ao longo dos anos a defender aquela terra. Num caso em particular estavam três irmãos que morreram na mesma batalha, outros tinham imagens gravadas no mármore dos mortos fardados e de arma na mão; visitámos ainda a linha da frente, onde recebi de um oficial um Novo Testamento arménio, camuflado, e fomos ao famoso monumento "Nós somos as nossas montanhas" que é o símbolo de Artsakh. Os arménios de Karabakh queriam mostrar-nos que estavam a defender mais que um país, estavam a lutar por uma herança, pela terra onde tinham vivido e morrido os seus antepassados, ao longo de séculos, e que contra todas as expectativas estavam a conseguir fazê-lo.
Tudo isso acabou ontem.
Depois de anos a rearmar-se e a incentivar um ódio étnico
e cultural aos arménios, e com o apoio imprescindível da Turquia, o Azerbaijão voltou
a atacar Karabakh, como tem feito sempre por esta altura do ano, ao longo dos
últimos dois anos. Desta vez, com o corredor de Lachin bloqueado por alegados activistas
ambientais, sabendo que a Arménia não se iria comprometer com uma guerra total
contra os azeris, e sem o apoio da Rússia, as autoridades de Nagorno Karabakh
anunciaram a sua rendição. Artsakh morreu.
Estão neste momento a ser negociadas as condições da
rendição, mas o que se avizinha é previsível. A perseguição dos arménios que não
fugirem – do aeroporto de Stepanakert já chegam as imagens de caos que acompanha
sempre estes momentos – e o apagamento sistemático da milenar herança cultural
e religiosa arménia da região.
Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, perguntei neste texto o que aconteceria se Moscovo perdesse a guerra, acrescentando
que perder a guerra, neste contexto, era tudo o que ficasse aquém da ocupação
de Kiev em três dias. Uma das minhas previsões era exactamente a tragédia que
agora se está a desenrolar à nossa frente.
Mas esta é também, de certa forma, uma derrota
diplomática para o Vaticano. Em 2016 Francisco visitou tanto a Arménia como o
Azerbaijão. O objectivo era tentar promover a pacificação. Mais recentemente o
cardeal Parolin também esteve em missão entre os dois estados para tentar impedir
o recrudescimento do conflito. Ao menos tentaram, mas sem sucesso.
Karabakh não é apenas mais um território. É para os
arménios o que Guimarães é para Portugal, o que o Kosovo é para os Sérvios
(outros cuja dependência do amigo Putin de pouco lhes tem valido). Independentemente
do direito internacional, que de facto reconhece a região como parte do
Azerbaijão, o que se está a passar ali é uma dor de alma. É o coração de um
povo que está a ser arrancado e esmagado diante dos seus olhos.
É também o recordar de tragédias colectivas do passado.
Os azeris são turcomanos, e existe uma expressão na Turquia e no Azerbaijão: Um
povo, dois estados. Por isso mesmo, e pela importância da mão de Erdogan nisto
tudo, os arménios sentem que este é apenas mais um capítulo do terrível
genocídio de 1915.
Como me disse um arménio quando estive lá em 2016: “Em 1915
mataram os arménios ocidentais, agora querem acabar o trabalho”.
"They protect the land" - Música dedicada a Nagorno Karabakh pela banda System of a Down, constituída por arménios americanos
O momento mais icónico do cinema do final dos anos 90 é a
escolha que Neo tem de fazer no primeiro filme da série Matrix. Para
quem não se lembra, o Matrix retrata um futuro em que os seres humanos
vivem num mundo ilusório de aparente normalidade, mas na realidade cada pessoa
está a flutuar num banho de narcóticos, administrado por máquinas sencientes.
Os humanos criaram as máquinas e dotaram-nas de inteligência. Depois as
máquinas escravizaram os humanos, que agora são usados como fontes vivas e
anestesiadas de energia.
O enredo é bastante simples. Neo (um anagrama para “One”,
o escolhido) é um programador e hacker que sente que há algo indefinível de
errado no tecido da vida diária. Neo é contactado online por membros de uma
resistência humana que procuram destruir as máquinas. Estes dão-lhe a escolher
entre dois comprimidos. O azul levá-lo-á de volta aos prazeres da sua realidade
imaginada, sem qualquer memória do que se passou. O encarnado abre-lhe os olhos
para a dura verdade. Neo toma o comprimido encarnado e liberta a sua mente.
Acabará por se tornar, para todos os efeitos, o salvador da humanidade.
Escrito e realizado pelos Irmãos Wachowski (actualmente,
graças ao “milagre” dos medicamentos hormonais e de cirurgia, as Irmãs
Wachowski) o filme é uma mistela de génio imaginativo, messianismo bíblico e
misticismo oriental, que captura de forma perfeita o custo de o homem brincar
ao Aprendiz de Feiticeiro; o custo de sobrestimar a nossa sabedoria e
subestimar as consequências das ferramentas que criamos.
Aquilo a que chamamos progresso vem sempre com um senão.
Se a tecnologia nos dá, também nos tira. A escrita permite gravar os nossos
pensamentos, mas como Platão argumentou, também enfraquece a memória. O
automóvel transporta-nos mais depressa, mas também polui a atmosfera. É o mesmo
com qualquer nova tecnologia.
E no mundo do Matrix esta nova ferramenta tira
tudo, a começar pela liberdade e dignidade humana. As máquinas alimentam-se,
literalmente, da vida e da energia das suas vítimas iludidas, tal como os
ídolos pagãos, naturalmente vazios, vampirizam a vida dos seus idólatras.
Claro que o Matrix é ficção científica. É apenas
uma história, muito longe do mundo em que vivemos aqui e agora. Mas talvez não
tão longe como gostaríamos de pensar. Consideremos o seguinte trecho, escrito à
menos de dois anos:
Às vezes fico acordado à noite, ou deambulo pelo campo
atrás da minha casa, ou passeio pela rua da vila em que vivo e penso que a
consigo ver toda a volta: a rede. As veias e tendões da máquina que nos rodeia,
que nos paralisa e que agora nos sustenta e nos define. Imagino uma espécie de
rede de fios luminosos no ar, brilhando como uma teia de aranha coberta de
orvalho ao nascer do sol. Imagino os cabos e as ligações de satélites, os
filmes e as palavras e os discos e as opiniões, os nós e os centros de dados
que rastreiam e registam os detalhes da minha vida. Imagino a malha criada
pelas transacções bancárias e as compras, os pedidos de passaporte e as
mensagens enviadas. Vejo esta coisa, seja o que for, a ser construída, a
construir-se à minha volta, vejo-a a erguer-se e a apertar o punho, e vejo que
nenhum de nós a pode impedir de evoluir para se tornar o que seja que se está a
tornar.
Vejo a Máquina, a zumbir gentilmente para si mesmo
enquanto nos prende com as suas ofertas, seduzindo-nos com as suas promessas enquanto
nos puxa devagarinho para dentro. Penso sobre as partes com que interagimos
diariamente, a interface brilhante e branca à qual revelamos voluntariamente
cada detalhe das nossas vidas em troca de informação, ou prazeres, ou histórias
contadas por corporações globais de entretenimento que mercantilizam a nossa
cultura para no-la revender. Penso nas palavras que usamos para descrever esta
interface, que carregamos nos nossos bolsos para todo o lado, que nos rastreia
em cada rua, em cada floresta que ainda existe: a teia [web], a rede.
E penso: Isto são coisas concebidas para apanhar
presas.
Trata-se de uma passagem da extraordinária série de
ensaios The Tale of the Machine, escrito pelo autor
britânico Paul Kingsnorth, que recentemente se tornou cristão (ortodoxo). Este
ensaio em particular chama-se You Are Harvest, e foi publicado em Outubro de 2021. É
leitura importante, como toda a série. O seu site no Substack, The Abbey of
Misrule, está ao nível do The Upheaval de N.S. Lyon e de Archedelia de
Matthew B. Crawford, alguns dos melhores comentários culturais disponíveis
actualmente.
Devemos evitar a tentação de achar que Kingsnorth está
meramente a ser alarmista ou excessivo. O grande filósofo e teólogo protestante
francês Jacques Ellul disse o mesmo e ainda mais em A Sociedade Tecnológica,
há quase 70 anos.
Ellul argumentava que a adição moderna à tecnologia
enquanto panaceia leva inevitavelmente o “estado a tornar-se totalitário, a
absorver completamente as vidas dos seus cidadãos. Mesmo quando o estado é
liberal e democrático, não pode se não tornar-se totalitário. Pode fazê-lo
directamente, ou como no caso dos Estados Unidos, através de interpostas
pessoas. Mas independentemente das diferenças, todos os sistemas acabam por
chegar ao mesmo resultado.” O adolescente médio americano passa agora até nove
horas por dia a olhar para ecrãs. Isso tem consequências psicológicas, logo
sociais, logo políticas.
No Matrix o despertar de Neo para a realidade
implica desligar-se literalmente das máquinas e suportar uma recuperação
dolorosa, embora salvífica. Paul Kingsnorth livrou a vida diária da sua família
de grande parte do casulo narcótico de alta tecnologia. (Não deixou de escrever
no computador, não é propriamente chanfrado).
E está mais feliz por isso – por uma boa razão. Não
podemos ser as criaturas de dignidade que Deus quis; não podemos ser fermento
neste mundo; não podemos servir Jesus Cristo e ver claramente aquilo que deve
ser feito no mundo, se formos apenas montes de detrito adormecidos. Fomos
feitos para mais do que isso. Como escreve São Paulo, fomos feitos para ser
filhos e filhas da luz, por isso, “não durmamos, pois, como os demais, antes
vigiemos e sejamos sóbrios” (Tess. 5,6).
Por outras palavras: Toma o comprimido.
Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do
arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do
National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da
Arquidiocese de Denver entre 1993-96.
Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 14 de Setembro de
2023)
The Catholic Thing é um fórum de opinião católica
inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus
autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.