Mostrar mensagens com a etiqueta Pio XII. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Pio XII. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

O Papa e Hitler: Notícias Falsas e Mentiras

George J. Marlin
Na sua mensagem de Natal “Urbi et Orbi”, no dia 24 de Dezembro de 1940, o Papa Pio XII condenou a Alemanha Nazi pelo seu “uso ilegal de forças destrutivas contra não-combatentes, fugitivos, idosos e crianças; um desprezo pela dignidade, liberdade e vida humana que dá lugar a actos que clamam a Deus por vingança…”

No dia de Natal, um editorial do New York Times reconheceu que “a ordem moral do Papa, numa palavra, está em total contradição com a de Hitler”.

Um ano mais tarde, o discurso de Natal do Santo Padre para o Colégio de Cardeais denunciou os nazis pela violação dos direitos das minorias. Não podia haver lugar, disse, para “(1) opressão aberta ou subtil das características culturais e linguísticas de minorias nacionais; (2) contradição das suas capacidades económicas; (3) limitação ou abolição da sua fecundidade natural”.

Mais uma vez o editorial do dia de Natal do New York Times não só aplaudiu as afirmações do Papa, mas declarou que “a voz de Pio XII é uma voz solitária no silêncio e na escuridão que envolvem a Europa neste Natal… Ele é dos únicos líderes no continente europeu que ainda se atreve a erguer a voz sequer… Não deixou qualquer dúvida de que os objectivos dos nazis são também irreconciliáveis com a sua própria concepção de uma paz cristã”.

Na sua mensagem de Natal de 1942, afirmou: “A Igreja não seria verdadeira consigo mesma, deixaria de ser mãe, se fosse surda ao choro das crianças sofredoras, de todas as classes da família humana, que lhe chega aos ouvidos”. Exigiu que os opositores dos nazis jurassem solenemente “nunca descansar até que as legiões das almas corajosas de todos os povos e todas as nações se ergam, resolvidas a trazer a sociedade de volta para o seu centro de gravidade amovível na Lei Divina e se dediquem ao serviço da pessoa humana e de uma sociedade humana nobre e divina.” Este juramento, concluiu, devia ser feito em nome das vítimas da guerra, “as centenas de milhares que, sem qualquer culpa, mas apenas por causa da sua nação ou raça, foram condenadas à morte ou à extinção progressiva”.

Mais uma vez a direcção editorial do Times louvou o Papa: “Nenhuma homilia de Natal chega a mais gente que a mensagem que o Papa Pio XII endereça a um mundo devastado pela guerra nesta época. Este Natal, mais do que nunca, ele é uma voz solitária a clamar do silêncio de um continente. O púlpito de onde fala assemelha-se mais do que nunca à rocha sobre a qual a Igreja foi fundada, uma ilha minúscula fustigada e cercada por um mar em guerra”.

O editorial referiu ainda que o Papa não é um líder político, mas um “pregador, destinado a erguer-se acima da batalha, imparcialmente ligado… a todas as pessoas prontas a colaborar numa nova ordem que traga uma paz justa”. E concluiu, “o Papa Pio expressa com tanta paixão como qualquer outro líder do nosso lado os objectivos de guerra desta luta pela liberdade, quando diz que todos os que trabalham para construir um novo mundo devem lutar pela liberdade de escolha de Governo e de religião.”

Aquilo que acaba de ler não são “notícias falsas”. A verdade é que a Igreja foi uma opositora incansável de Hitler. O que é falso é a propaganda anticatólica que chegou primeiro dos soviéticos e mais recentemente de intelectuais.

Se mais provas fossem necessárias, o novo livro de Peter Bartley, “Catholics Confronting Hitler”, que é de muito fácil e agradável leitura, descreve os movimentos de resistência católicos e as operações de salvamento levados a cabo no Vaticano e em toda a Europa ocupada pelos nazis. Muitas vezes este trabalho foi feito em colaboração com judeus e protestantes.

Os católicos pagaram o preço pela sua resistência. Bispos foram exilados ou assassinados, padres e leigos detidos ou executados em campos de morte. Com a bênção do Papa, a hierarquia católica alemã denunciou repetidamente dos púlpitos o programa de eutanásia nazi, bem como o seu neopaganismo e anti-semitismo. Ajudaram e esconderam judeus e, em 1943, os bispos “emitiram uma declaração conjunta a lamentar o despejo e assassinato de judeus”.

Em França os jornais clandestinos escritos por jesuítas e aprovados pelo Papa expuseram os males dos nazis, em particular as teorias raciais, e encorajaram a resistência, inclusivamente contra o Governo fantoche de Vichy. Os núncios papais na Eslováquia, Hungria, Balcãs e países ocupados da Europa ocidental, fiéis às ordens do Papa, protestaram publicamente cada vez que os judeus eram detidos ou arrebanhados para serem deportados. Os seus actos causavam frequentemente atrasos e suspensão de ordens de deportação, permitindo a dezenas de milhares de judeus encontrar refúgio nas casas e edifícios da Igreja.

O futuro Papa São João XXIII era delegado apostólico na Turquia e na Grécia durante a guerra e salvou a vida a incontáveis judeus na Hungria, Eslováquia, Bulgária e Roménia. Salvou pelo menos 50 mil judeus, emitindo certificados de baptismo.

Para além destes esforços clandestinos, a Pontifícia Comissão de Assistência, criada pelo Papa Pio XII, distribuía comida, artigos médicos e roupa a centenas de milhares de pessoas desalojadas. O Gabinete de Informação do Vaticano, segundo Bartley, “permitiu a dois milhões de pessoas manterem-se em contacto com entes queridos, pessoas que se julgavam desaparecidas, presos de guerra e pessoas em campos de concentração”. Países amigos “tinham de exceder as suas quotas de refugiados judeus quando estes chegavam às suas fronteiras munidos de documentos assinados por oficiais do Vaticano”.

Estas respostas à opressão nazi levaram Albert Einstein a reconhecer que “só a Igreja Católica se opôs ao ataque hitleriano contra a liberdade”.

E em Setembro de 2008, numa conferência internacional, académicos judeus e rabinos disseram ao Papa Bento XVI que o Papa Pio XII tinha ajudado a salvar perto de um milhão de vidas judaicas.

Então porque é que persiste este mito sobre o “silêncio” da Igreja? Pela mesma razão que outros mitos anticatólicos se alojaram na nossa cultura. Neste caso não se trata apenas de “notícias falsas”. Porque quando os esforços heroicos de salvamento da Igreja são ignorados ou até mesmo transformados no seu contrário, estamos perante mentiras claras, motivadas pelo Pai da Mentira.  



George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org


The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Memórias de infância para acordar terroristas

A acordar terroristas desde 2014
Regressei ontem de Bruxelas, onde estive a cobrir um seminário sobre a resposta da União Europeia ao terrorismo.

Uma das oradoras era uma senhora francesa especializada em processos de desradicalização que explica aqui como uma das chaves para despertar a humanidade dos fundamentalistas são as memórias da infância.

Tive ainda o privilégio de poder ver a homenagem do Parlamento Europeu pelo Dia da Memória do Holocausto, que contou com a presença de sobreviventes. No final o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz, disse que é inaceitável comparar o tratamento dos refugiados por parte de alguns países europeus à perseguição dos judeus pelos nazis.

Por falar em judeus e em nazis, quem não ouviu dizer que o Papa Pio XII não fez o suficiente para contrariar Hitler? O debate dura há anos, mas pode ter chegado ao fim, como pode ver neste artigo do The Catholic Thing, que refere documentação recentemente divulgada pela Santa Sé.

Também podem ir ver a transcrição integral da entrevista que fiz ao responsável pela Igreja Católica de rito latino na Jordânia, que aborda uma variedade de temas, incluindo a situação dos refugiados (cá e lá) e a situação do Médio Oriente cinco anos depois da Primavera Árabe.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

A Guerra Secreta de Pio XII Contra Hitler

George J. Marlin
Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado" – que o mundo tem aturado a conversa de que Pio XII foi o “Papa de Hitler”. Há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que isso se trata de uma distorção deliberada, mas agora temos a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade.

Quando o Cardeal Eugenio Pacelli se tornou Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, um padre laicizado, que preparasse um dossier sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que tinha negociado com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma.

Pacelli também acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Pior, pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o anti-semitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII estava a reunir-se com cardeais alemães e a discutir o problema de Hitler. As transcrições mostram que ele se queixou que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi que gabou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O Cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937 “Com Grande Ansiedade” (Mit Brennender Sorge, publicada em alemão e não em latim). O texto, escrito em parte por Pacelli antes de este se ter tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber, “a questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado directamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”. Propôs que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e actualizada.” O Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina. Quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. O Papa concordou.

Assim nasceu o plano para construir uma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu interessantíssimo livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler”, Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e actas secretas acabadas de divulgar que descrevem detalhadamente as tácticas clandestinas usadas por Pio XII para tentar derrubar o regime nazi.

Depois de Hitler ter invadido a Polónia em 1939 o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A sua encíclica “Summi Pontificatus” rejeitou o racismo, dizendo que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo.

O Papa foi amplamente louvado por isto – um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas ele próprio sentia que era pouco.

Convencido de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos, que respondiam directamente a ele, que colaborassem com acções clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era um tal Josef Muller, advogado e herói da Primeira Guerra Mundial.

Muller organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Eles forneciam o Vaticano com informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942 Muller conseguiu introduzir Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objectivo era “fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões, para que os cristãos pudessem coordenar a sua luta contra Hitler”.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam todas, devido ao que Muller apelidou de “sorte do diabo”. Mas em relação a estes planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano Valquíria a Gestepo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. No dia 4 de Abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. Depois de um julgamento fantoche foram condenados à morte.

Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o e disse que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que durante a visita de Muller ao Vaticano o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra.

Muller disse que durante a guerra a sua organização anti-Nazi na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras e isso teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis do que já estavam, tendo restringido imensamente a sua liberdade de acção na resistência ao regime. O Dr. Muller disse que a política da resistência católica in interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. Disse ainda que o Papa tinha seguido sempre este seu conselho durante a guerra.

Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu nemesis.

Pode adquirir um exemplar de “Church of Spies” da loja do The Catholic Thing na Amazon, clicando aqui.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

A Morte de um Grande Rabino

Filip Mazurczak
No domingo dia 19 de Abril, dias antes de fazer 100 anos, morreu Elio Toaff, antigo rabino-mor de Roma. Grande promotor do diálogo entre católicos e judeus e amigo de São João Paulo II, o rabino Toaff testemunhou uma era em que católicos e judeus – que para além do Antigo Testamento partilham uma herança espiritual com origem em Abraão, mas que foram frequentemente separados pela história – abandonaram, de forma dramática, preconceitos antigos.

Embora o Cristianismo tenha surgido do seio do Judaísmo, as relações entre judeus e cristãos foram muitas vezes dolorosas. Em 1215, o Quarto Concílio de Latrão decretou que os judeus deviam usar roupas que os distinguissem dos cristãos. Em 1555 o Papa Paulo IV criou o gueto judeu de Roma, que foi o último gueto europeu até ser abolido em 1888. Muitos cristãos acusaram os judeus de terem morto Cristo e as encenações de Sexta-feira Santa serviram frequentemente de inspiração para fomentar violência anti-judaica pela Europa fora.

Mas as relações entre cristãos e judeus nem sempre foram marcadas pela hostilidade. Na Idade Média os judeus foram muitas vezes defendidos, sobretudo por figuras como São Bernardo de Clairvaux (a razão pela qual muitos judeus ainda se chamam Bernardo) e o Papa Inocêncio IV. A corte pontifícia empregava médicos judeus e o Papa Gregório I promovia a tolerância para com os judeus já no século VII. Em todo o caso, a desconfiança continuou a separar cristãos e judeus durante vários séculos.

No século XX isto mudou radicalmente, para melhor. Hoje, as orações ecuménicas entre judeus e cristãos são um aspecto comum da vida religiosa em todo o mundo. Os líderes cristãos condenam frequentemente o anti-semitismo. Actualmente, o principal bastião de anti-semitismo católico é a Sociedade de São Pio X, um grupo cismático. Entretanto, afirmações escandalosas como as do Cardeal Oscar Rodrigues Maradiaga, que afirmou que os meios de comunicação social controlados por judeus usam as histórias de abusos sexuais de padres católicos para desviar as atenções do conflito israelo-árabe, são a excepção e não a norma.

Esta transformação foi possível graças á boa-vontade de pessoas como Elio Toaff.

Nascido na Toscânia em 1915, filho de um rabino, Toaff passou a II Guerra Mundial a combater na resistência anti-fascista italiana. Testemunhou o massacre de mais de 500 civis em Sant’Anna di Stazzema, na Toscânia e na última entrevista publicada antes da sua morte, disse ao site italiano judeu Moked que tinha experienciado hostilidade enquanto judeu na Itália de Mussolini, o maior aliado do Terceiro Reich. A única razão pela qual não saiu da Europa foi porque se recusou a abandonar a sua comunidade em tempo de perigo.

Mas Toaff testemunhou também a significativa ajuda que um grande número de católicos deu a judeus, apesar dos preconceitos da altura. Embora se tenha tornado moda falar do Papa Pio XII como o “Papa silencioso”, ele condenou regularmente o nazismo na Rádio Vaticano e apelou aos conventos italianos para darem refúgio a crianças judias, tendo ele mesmo escondido várias em Castel Gandolfo e no Vaticano.

Tendo visto a ajuda que os católicos deram aos judeus, Toaff – que se veio a tornar rabino-mor de Roma em 1951 – comentou, após a morte de Pio XII: “Os judeus recordar-se-ão sempre do que a Igreja Católica fez por eles, por ordem do Papa, durante a Segunda Guerra Mundial. Quando a guerra estava no auge, Pio XII levantou a voz várias vezes para condenar a falsa teoria das raças”.
João Paulo II e o rabino Toaff

Pouco tempo depois viriam mudanças significativas. São João XXIII removeu a oração “pela conversão dos pérfidos judeus”da liturgia da Sexta-feira Santa e, em 1965, a Igreja promulgou o Nostra Aetate, que declarou que os judeus, enquanto povo, não são responsáveis pela morte de Cristo.

A reconciliação entre judeus e católicos acelerou depois da eleição de João Paulo II em 1978. Ele já tinha muitos amigos judeus na sua Polónia natal; o mais próximo dos quais, Jerzy Kluger, tinha combatido no exército polaco que libertou a Itália dos Nazis. Kluger permaneceu em Roma até à sua morte, acabando por se tornar um elo importante entre o Papa e o mundo judeu.

Entretanto, quando o Governo comunista da Polónia iniciou uma campanha anti-semita em 1968, forçando muitos judeus a emigrar, o cardeal Karol Wojtyla visitou a sinagoga de Cracóvia e expressou a sua solidariedade para com os judeus polacos.

Providencialmente, o rabino Toaff liderava nessa altura a comunidade judaica de Roma. Em 1986, João Paulo II fez uma visita oficial à Grande Sinagoga de Roma, tornando-se o primeiro Papa desde São Pedro a visitar um local de culto judeu. Os dois homens cumprimentaram-se e rezaram. A imagem do Papa polaco e do rabino italiano a abraçarem-se e a sorrir tornou-se uma das mais icónicas do pontificado de João Paulo II. Foi Toaff quem iniciou este evento histórico, tendo tomado a iniciativa de convidar o Papa a visitar a sinagoga. Essa foi a primeira ocasião em que o Papa disse que os judeus são os “irmãos mais velhos na fé”, uma frase original de Adam Mickiewicz, o poeta nacional filo-semítico da Polónia.

A amizade entre os dois foi imediata. Mais tarde, no mesmo ano, João Paulo II convidou Toaff para participar com ele e com os líderes de muitas das outras religiões mundiais no Dia Mundial da Oração pela Paz, em Assis. Em 1994 Toaff e João Paulo II presidiram a um concerto no Vaticano para comemorar as vítimas da Shoah. Entretanto, Toaff ajudou a coordenar a visita de João Paulo II à Terra Santa, no ano 2000. Toaff foi uma de apenas duas pessoas referidas no testamento do Papa, a outra sendo o seu secretário, o arcebispo (agora cardeal) Stanislaw Dziwisz.

Tendo visto em primeira mão o fascismo, a ocupação de Itália pelos nazis, o anti-semitismo e o renascimento da comunidade judaica de Roma, o rabino Elio Toaff foi testemunha da história do Judaísmo no seu país. Mas acima de tudo ele possuía um coração aberto ao diálogo e à reconciliação. Os seus gestos para com os católicos e a sua amizade com São João Paulo II desempenharam um papel crucial no verdadeiro milagre que foi a mudança radical da era de desconfiança mútua para uma era em que os judeus são novamente os nossos “irmãos mais velhos”.

Alav Ha-sholom.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Abril de 2015 em 
The Catholic Thing
)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Iraque, Iraque... pobre Iraque!


Cristão refugiado no Iraque
Faz sentido armar os cristãos iraquianos para poderem defender uma região autónoma? Alguns activistas acreditam que sim. Mardean Isaac, a residir em Londres, diz que nestes assuntos os cristãos no Médio Oriente não deviam ter de seguir os seus bispos.

É que os bispos discordam, tanto num ponto como no outro, como me disse há quase três anos o agora Patriarca dos Caldeus. Contudo, face ao agravamento das perseguições nos últimos dias, Louis Sako exige uma intervenção internacional.

Como de costume temos as transcrições completas da entrevista a Mardean Isaac. Numa primeira parte ele explica quem são os assírios, um termo que designa os cristãos daquela região, mas cuja utilização nem sempre é pacífica. Na segunda fala, então, do projecto de criação de uma região autónoma.

Não se esqueçam, entretanto, que amanhã é o dia de oração pelos cristãos iraquianos e leiam, se ainda não o fizeram, o excelente texto de David Warren sobre a perseguição que está a ter lugar.

Uma voz consistente de apoio aos cristãos perseguidos tem sido a da baronesa Warsi, no Reino Unido. Mas a única ministra muçulmana do actual Governo britânico apresentou hoje a sua demissão por não concordar com a posição de Cameron face ao conflito em Gaza.

Conheça ainda o plano de Hitler para raptar o Papa Pio XII e o cónego de Viseu que está prestes a fazer 100 anos. (Não, Hitler não queria raptar o cónego, que em 1939 nem era cónego ainda, mas já era padre).

terça-feira, 3 de julho de 2012

A Igreja que queria ser Basílica e programas libaneses

A Igreja que queria ser uma basílica
Querido Papa,
Estou quase a fazer 300 anos e o presente que mais queria era ser uma basílica. O meu bispo diz que fará os possíveis, mas que isto depende de si…
Saudações,
Igreja de Santo Cristo, Bragança

Não se sabe se Bento XVI receberá este pedido, uma vez que foi hoje de férias para Castel Gandolfo.

Em Setembro, já com as férias terminadas, o Papa vai ao Líbano. O programa foi divulgado hoje. Resta saber se a situação na Síria não vai alterar os planos…

O museu do holocausto, Yad Vashem, amenizou as críticas que fazia a Pio XII. Não o exonera completamente, mas reconhece que a sua actuação no período da Segunda Guerra Mundial está aberta ao debate.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Nas trincheiras, ou à volta da mesa?

Presidente Raul Castro e Cardeal Ortega, frente-a-frente
A questão é tão velha como a própria Igreja. Se é verdade que esta tem a obrigação de defender a verdade, os oprimidos, os perseguidos e os pobres, nem sempre é claro qual deve ser a fórmula para o conseguir.

Tomemos um caso concreto que na altura deu muito que falar. No auge da perseguição aos timorenses pelos indonésios, a Igreja, sobretudo a nível internacional, foi criticadíssima por não falar mais firmemente em favor dos timorenses, que ainda por cima são na vasta maioria católicos e se mantinham firmemente agarrados à sua identidade cristã.

O Vaticano não falava abertamente por medo de hostilizar ainda mais o regime de Jakarta, com potenciais repercussões para as outras comunidades cristãs que vivem naquele arquipélago. Recorde-se que, na altura, ninguém tinha grande esperança numa eventual libertação de Timor-Leste.

Todavia, trabalhava-se nos bastidores, e havia gestos. O Papa João Paulo II, por exemplo, beijava sempre o solo de um novo país. Quando chegou a Dili todos aguardavam para ver qual seria o gesto. O Papa beijou um crucifixo, que depois levou ao solo.

E há muitos outros casos também. O mais polémico, ainda hoje, tem a ver com Pio XII e a Alemanha Nazi. Os seus críticos alegam que não fez o suficiente para condenar os crimes dos nazis, mas os seus defensores dizem que é fácil falar em retrospectiva, mas que na altura ele tinha que decidir entre trabalhar nos bastidores ou hostilizar abertamente um regime que depois poderia vingar-se na população católica não só da Alemanha mas também dos países ocupados. Tomou a decisão correcta? O debate continuará aceso, sem dúvida.

Não é por isso surpreendente que estejamos a assistir a uma situação parecida em Cuba. A Igreja foi muito louvada por conseguir sacar importantes cedências do regime, sobretudo a libertação de dezenas de presos políticos. Mas essas cedências só se conseguem com proximidade, e a proximidade tem um preço. Agora são alguns opositores que acusam o Arcebispo de Havana de ser um “lacaio” do regime.

A questão é séria. A atitude da Igreja em Cuba estará a credibilizar o regime e, por isso, a prolonga-lo? Seria mais vantajoso colocar-se numa posição de hostilidade aberta? Devemos estar sequer a falar de vantagens ou desvantagens, numa questão que se prende com a fidelidade ao Evangelho e defesa de direitos humanos básicos?

Não são questões fáceis mas são importantes, nem que seja para realçar os perigos inerentes a estas “relações próximas” com regimes ditatoriais.

Filipe d’Avillez

Partilhar