Thursday, 9 May 2013

Três Papas no Vaticano...

É uma daquelas pessoas a quem faz impressão ver dois papas no Vaticano? Então saiba que a partir de hoje estão lá três… Mas não se preocupe, um deles é o Papa Tawadros, da Igreja Copta Ortodoxa.

Como se não bastasse o recorde de “papas no Vaticano ao mesmo tempo”, no Domingo o Papa Francisco vai-se tornar também um recordista de canonizações. Com mais de 800 de uma assentada, ultrapassa em larga escala o Papa João Paulo II.



Não fazem eles, faço eu: Não deixem de passar pelo blogue do Actualidade Religiosa, onde podem ler um artigo do The Catholic Thing sobre os padres enquanto “Ungidos de Deus”, visitem o grupo no Facebook, que hoje ultrapassou as 1300 pessoas e já conta com dois novos administradores, e se estiverem no Twitter, sigam-me para estarem a par das mais recentes novidades!

E por fim, se vivem na área da grande Lisboa marquem o dia 18 de Maio na agenda e peçam convites para ir à festa do Ponto de Apoio à Vida, uma organização que ajuda, no terreno, as mulheres a escolher a vida e que bem merece as “25 vidas” que custa o convite. A festa promete, nem que seja porque eu vou lá estar e, se me pedirem discretamente, dou autógrafos.

Wednesday, 8 May 2013

Das directas e dos ungidos de Deus

Clicar para aumentar
O Papa reuniu-se hoje com superioras gerais de ordens religiosas e sublinhou o aspecto maternal da sua vocação, bem como a ideia de obediência e de autoridade.






E por fim, atenção jovens de Braga… quem quiser fazer uma directa com Deus, é só clicar na imagem para saberem como se podem inscrever!

O Papa Francisco e os “Ungidos de Deus”

Padre Bevil Bramwell, OMI
Acontece tanta coisa durante um ano litúrgico que muitos eventos importantes passam sem sequer darmos por eles. Um acontecimento bastante importante – ao qual quase ninguém deu importância na altura – foi quando o Papa Francisco falou especificamente ao clero, mesmo antes da Páscoa, sobre o sacerdócio, durante a sua homilia na missa crismal, em São Pedro. Vale a pena olhar de perto para as suas palavras.

Na missa crismal o bispo benze os óleos que serão usados durante o ano para os baptismos, crismas, unção dos doentes e ordenações. A graça desses sacramentos preserva e ajuda a desenvolver a Igreja pela qual ele é responsável.

Em Roma, o Papa Francisco disse: “As Leituras e o Salmo falam-nos dos «Ungidos»: o Servo de Javé referido por Isaías, o rei David e Jesus nosso Senhor. Nos três, aparece um dado comum: a unção recebida destina-se ao povo fiel de Deus, de quem são servidores; a sua unção «é para» os pobres, os presos, os oprimidos”.

Ele não disse que era para os “católicos pobres”, etc. Há muito que a Igreja atende a, e defende, os pobres e oprimidos de qualquer comunidade em que está presente.

A expressão usada pelo Papa recorda as palavras amargas usadas pelo último imperador pagão de Roma, Juliano, o Apóstata: “Enquanto os sacerdotes pagãos ignoram os pobres, os odiosos galileus [i.e., cristãos] dedicam-se a obras de caridade e, ao exibir esta falsa compaixão estabeleceram e efectivaram os seus erros perigosos. Esta prática é comum entre eles e conduz ao desprezo pelos nossos deuses”. (Epístola aos sumos sacerdotes pagãos)

Claro que os “Deuses” de Juliano não existiam. E numa cultura que os promovia, actos de verdadeira caridade mostravam até que ponto esses “deuses” eram de facto nada mais que imaginação. Não devemos encarar isto com leveza, tendo em conta que os dois falsos deuses, criados da imaginação moderna – o nazismo e o marxismo – assassinaram dezenas de milhões de pessoas no século XX e a contagem do extremismo liberal em assuntos como o aborto na nossa própria sociedade é grande e continua a crescer.

O Papa estabelece uma ligação entre a unção e os actos dos ungidos, os padres. Originalmente: “Também no peitoral [do sacerdote] estavam gravados os nomes das doze tribos de Israel (cf. Ex 28, 21). Isto significa que o sacerdote celebra levando sobre os ombros o povo que lhe está confiado e tendo os seus nomes gravados no coração. Quando envergamos a nossa casula humilde pode fazer-nos bem sentir sobre os ombros e no coração o peso e o rosto do nosso povo fiel, dos nossos santos e dos nossos mártires, que são tantos neste tempo”.

Psicológica e espiritualmente, estamos perante um homem de natureza diferente. Este padre que conscientemente “carrega” o seu povo quando se aproxima do altar do Senhor. A graça e o esforço moldaram a sua consciência para agir dessa forma. O padroeiro dos padres, São João Vianney, considerava-se responsável pelas falhas morais do seu povo.


Francisco usa repetidamente o termo “seu povo”. O padre não é um director executivo, mas o pastor do seu rebanho. O termo, retirado das escrituras, ainda tem peso. Não foi substituído por alternativas seculares e modernas.

Mais, o pastor tem um efeito sobre o seu rebanho:

“O bom sacerdote reconhece-se pelo modo como é ungido o seu povo; temos aqui uma prova clara. Nota-se quando o nosso povo é ungido com óleo da alegria; por exemplo, quando sai da Missa com o rosto de quem recebeu uma boa notícia. O nosso povo gosta do Evangelho quando é pregado com unção, quando o Evangelho que pregamos chega ao seu dia a dia, quando escorre como o óleo de Aarão até às bordas da realidade, quando ilumina as situações extremas, ‘as periferias’ onde o povo fiel está mais exposto à invasão daqueles que querem saquear a sua fé. “

Não estamos perante a boa nova da homilia de “duas piadas e um anúncio”, mas da verdadeira Boa Nova, com maiúsculas. Além disso, o Papa faz esta afirmação sabendo por experiência que a fé genuína é recebida com hostilidade.

A sua reflexão termina com um olhar sobre a paróquia:

“As pessoas agradecem-nos porque sentem que rezámos a partir das realidades da sua vida de todos os dias, as suas penas e alegrias, as suas angústias e esperanças. E, quando sentem que, através de nós, lhes chega o perfume do Ungido, de Cristo, animam-se a confiar-nos tudo o que elas querem que chegue ao Senhor: ‘Reze por mim, padre, porque tenho este problema’, ‘abençoe-me, padre’, ‘reze para mim’… Estas confidências são o sinal de que a unção chegou à orla do manto, porque é transformada em súplica – súplica do Povo de Deus.”

A visão que o Papa tem de uma verdadeira paróquia é sumamente interpessoal e verdadeiramente comunal (a “comunidade”, infelizmente é um conceito que foi esvaziado de verdadeiro sentido nos Estados Unidos). Ele enfatizou o aspecto interpessoal de forma negativa também, falando do padre que “não colocando em jogo a pele e o próprio coração, não recebem aquele agradecimento carinhoso que nasce do coração”.

Este é um Papa que tem uma forma bastante terra-a-terra, mas solidamente teológica, de comunicar a fé. E ainda agora começou.


(Publicado pela primeira vez no Domingo, 5 de Maio 2013 em The Catholic Thing)

Bevil Brawwell é sacerdote dos Oblatos de Maria Imaculada e professor de Teologia na Catholic Distance University. Recebeu um doutoramento de Boston College e trabalha no campo da Eclesiologia.

© 2013 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 6 May 2013

O'Malley nos Açores, Ameal em Seoul

PSY reconhece superioridade de Thereza Ameal
Este fim-de-semana estive nos Açores para cobrir as festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres e entrevistar o Cardeal Sean O’Malley.


Como sempre pode ler a transcrição integral aqui. A conversa decorreu toda em português.

As festas em si foram marcadas, infelizmente, pela greve da Sata, que deixou milhares de emigrantes apeados. Mas dos que conseguiram voltar à terra Natal para as festas todos concordam que nada se compara ao original.

Entretanto o Papa também falou dos abusos na Igreja, este fim-de-semana, pedindo coragem na defesa das crianças. Dirigiu ainda umas palavras às mães, por ter sido dia da Mãe em muitos países.


Abusos sexuais: Nos EUA pior já passou


Transcrição integral da entrevista feita ao Cardeal O’Malley. Notícias aqui e aqui. A entrevista foi realizada inteiramente em português.

O que significa para si participar nestas celebrações do Santo Cristo dos Milagres?
É uma alegria imensa poder estar aqui, sobretudo durante o ano da fé. Fui bispo de Fall River durante 10 anos e tive muitas vezes a oportunidade de celebrar com os nossos fiéis, onde metade dos católicos são açorianos e mantém muitas das tradições portuguesas, como as festas do Divino Espírito Santo, e as do Santo Cristo, que são muito importantes. Assim, poder ir ao sítio onde têm origem estas devoções é um privilégio e uma alegria muito grande.

No seu trabalho pastoral tem trabalhado muito com portugueses e é conhecida a sua simpatia por esta comunidade e pelo país. O que é que realçaria da prática religiosa dos portugueses?
Em Washington, quando era um padre jovem trabalhava com emigrantes, sobretudo da América Central, mas também alguns retornados portugueses de África, que voltando para Portugal acabaram por ir para os EUA e assim começámos uma paróquia portuguesa em Washington. Depois de 10 anos como bispo das Ilhas Virgens, fui nomeado bispo de Fall River, onde há muitíssimos portugueses, quase todos açorianos, e assim fiquei a conhecer muito bem as suas tradições. Para os emigrantes a religião e a fé são muito importantes para a sua própria identidade. A Igreja é o centro da sua vida religiosa e social.

Há muitas comunidades diferentes na Igreja nos Estados Unidos. Faz sentido falar de um catolicismo americano?
Somos uma Igreja de imigrantes, mas os emigrantes americanos formam um mosaico entre si e os portugueses americanos já não são iguais aos portugueses de Portugal, os irlandeses americanos têm uma experiência diferente. Têm diferentes tradições mas também se integram numa nova realidade.

Ao longo dos últimos anos temos notado uma interessante evolução na Igreja Americana. Olhando para a hierarquia vemos uma Igreja unida, forte, influente, sem medo de participar nos debates públicos… mas a nível dos fiéis a situação parece semelhante a muitos outros países, com os católicos a revelar opiniões divergentes às oficiais em relação a muitos assuntos. Como vê a evolução da situação nos próximos anos?
A Igreja tem muitos desafios nos EUA mas estamos a crescer sobretudo devido aos novos imigrantes que chegam, que são sobretudo católicos. Para nós é um grande desafio ter vocações suficientes para ter padres e religiosas e pessoas para trabalhar com os recém-chegados.

Também há um processo de secularização nos EUA, que para nós é algo novo, porque apesar de ser um país muito desenvolvido, os americanos são crentes e religiosos, mas estamos a começar a experimentar um pouco o que já existe na Europa, muita gente que não pertence a nenhuma Igreja, o que para nós é uma coisa nova, mas é uma realidade sobretudo entre os mais jovens, pelo que temos de dedicar-nos ao que a Igreja chama a nova evangelização, evangelizar os católicos e os cristãos que já não praticam a sua fé, que receberam uma vez a mensagem do Evangelho mas que agora estão afastados. É um desafio muito grande mas importante para o nosso futuro.

Nos últimos anos temos assistido a vários momentos de tensão entre a hierarquia e o Governo. Há quem diga que há um clima quase de perseguição da Igreja. É real esse medo?
Nos Estados Unidos não existe um partido político católico. Os republicanos e democratas têm coisas que estão de acordo com a Igreja e outras que não.

A administração actual tem tido muitos conflitos, sobretudo por causa do aborto e o casamento homossexual. Por outro lado os democratas, no que diz respeito a emigração e justiça social económica, estão mais perto das posições da Igreja. Mas a tensão é real e para nós o Evangelho da Vida é o centro do nosso evangelho de doutrina social católica.

Com este processo de secularização penso que as tensões entre Igreja e Estado vão aumentar, infelizmente, mas é uma realidade e temos de preparar o nosso povo para dar testemunho da fé num ambiente por vezes hostil.

Como sabemos, a crise dos abusos sexuais foi muito forte nos Estados Unidos. O pior já passou?
Acho que sim, porque todos os casos são de há 20, 30 ou 40 anos. Ultimamente os casos são muito, muito raros. Mas têm feito muito dano à credibilidade da hierarquia da Igreja.

Há muitos anos os bispos iniciaram umas normas muito exigentes para proteger as crianças e têm sido muito eficazes, acho que as nossas instituições, igrejas e escolas são os sítios mais seguros para crianças que existem no nosso país, nenhuma outra Igreja, nem o Governo, fazem as coisas que nós fazemos para proteger as nossas crianças.

Enquanto arcebispo tem de lidar com estes assuntos, mas não pode deixar de o afectar, ter de estar tão próximo destes problemas.
Sim, porque levo muitos anos com estes problemas tão sérios e eu tenho reunido muitas vezes com vítimas, as suas famílias, tenho visto de perto o grande dano que tem feito e quando se trata de pessoal da Igreja a traição é maior porque o dano que faz é também espiritual.

Tenho sido bispo em quatro dioceses e em três foi precisamente para tratar destes problemas. São já 20 anos a lidar com isto, e é duro.

Em alguns países da Europa começam agora a surgir casos de abusos na imprensa. Que conselhos daria às igrejas dos países em que o problema começa agora a manifestar-se?
O Papa Bento mandou que todas as conferências episcopais no mundo preparem normas sobre estes casos de abuso sexual. Nas normas também indica que deviam ter muita transparência, muita atenção às vítimas e tolerância zero para casos de pedofilia na Igreja. É muito importante que as conferências episcopais o façam.

Eu sei que em muitos países não há muitos recursos e é difícil, mas acho que os países que têm passado por estes problemas podem aconselhar e ajudar estas conferências episcopais, mas é muito importante.

Acho que o novo Papa Francisco concorda com a importância de continuar a dar atenção necessária ao problema de abusos de crianças que, não é um problema clerical nem da Igreja, é um problema humano e existe muito mais fora da Igreja do que dentro, da Igreja, mas como tenho dito, quando se trata de um sacerdote ou de um religioso, o dano é maior para a vítima.

Cardeal O'Malley prostrado numa cerimónia
penitencial pelos crimes de abusos sexuais
Recentemente foi nomeado para uma comissão que vai aconselhar o Papa sobre a reforma da Cúria. A primeira reunião será só em Outubro… porquê esperar tanto tempo?
Sim, mas temos começado a trabalhar por correio, entre nós, mas a primeira reunião, quando nos reunimos todos, porque somos de todos os continentes, é só em Outubro.

Já tem algumas ideias a apresentar ao Papa?
Estou a pensar, estou também a consultar com várias pessoas.

Fala-se muito de problemas da Cúria, até que ponto é que os problemas residem mesmo aí?
Estou a começar a conhecer a realidade da Cúria, há muitas pessoas muito dedicadas e muito capazes que trabalham ali. Acho que os meios de comunicação falam muito do Vatileaks e dos problemas que tem havido, mas há também trabalho de muito valor que se faz ali.

Queremos encontrar formas de coordenar melhor e com maior comunicação entre os vários dicastérios e a sua relação entre a Cúria e as conferências episcopais no mundo inteiro para que haja mais colaboração e coordenação.

O Banco do Vaticano também tem sido muito criticado. Na sua opinião faz sentido o Vaticano ter um banco?
Essa é uma das coisas que estamos a estudar. O nosso banco não é muito grande, mas vemos como muitos bancos europeus e também americanos têm tido problemas.

O dinheiro que está no banco pertence às ordens religiosas benéficas da Igreja e isso é uma grande responsabilidade, por isso vamos procurar proteger esses recursos da melhor maneira. Sei que o Papa Bento XVI contratou um novo dirigente, um perito nestes assuntos, vamos ver.

Temos reuniões com várias pessoas sobre isto e acho que vamos ter tempo para o estudar, mas eu pessoalmente não creio que a Igreja deva fechar o banco sem estudar muito o caso, porque vimos o que está a acontecer noutras partes e talvez a situação fosse pior.

Este Papa tem sido uma surpresa para muita gente, tem-no sido também para quem o elegeu?
Sim e não, conheço o Papa há muitos anos, de Buenos Aires.

Um bispo que vem da América, sobretudo da América Latina tem uma experiência muito diferente que um bispo da Europa. A sua maneira de proceder é uma reflexão da sua experiência pastoral na América Latina. Também, ele é religioso, mas acho que vai dar muita importância ao Evangelho Social da Igreja, que é muito importante.

Na América Latina houve muita controvérsia sobre a Teologia da Libertação e muitas pessoas entenderam isso como a Igreja a perder a sua opção preferencial pelos pobres.

Acho que este Papa vai por a ênfase no Evangelho Social da Igreja, o que na América Latina é muito importante, porque há muita gente muito pobre, muitos problemas sociais, e também o Papa assumiu o nome Francisco por isso, porque para São Francisco o pobre é um sacramento de Cristo Crucificado. Também Francisco queria fazer-se um irmão universal. Acho que neste Papa vamos ver os temas de Francisco no seu pontificado.

O Papa está num Estado de Graça, faz homilias públicas todos os dias, a imprensa está a trata-lo bem. Não há o perigo que isso passe?
Acho que vão criticar o Santo Padre quando escutarem os seus ensinamentos sobre questões morais, mas acho que todo o mundo está feliz com o seu estilo, e acho que isso vai continuar igual.

Dizem que o número de pessoas que está a chegar a Roma para as audiências é muito grande. Cresceu com Bento XVI, mas com Francisco continua a crescer. Acho que é um bom indício de entusiasmo que o povo tem.

Os meios de comunicação secular têm outra visão do mundo e da vida e sempre vão estar em desacordo com a Igreja, e sobretudo com o Papa que é o nosso mestre principal, mas acho que até os inimigos da Igreja gostam do seu estilo e isso vai continuar igual.

Thursday, 2 May 2013

Sinais mistos do mundo islâmico

A partir desta tarde viverão dois papas no Vaticano. Bento XVI está de regresso.


A maioria dos muçulmanos quer que a lei islâmica impere nos seus países. Por outro lado, vêem com bons olhos a liberdade de culto para outras religiões.

Tribunais Problemáticos

Randall Smith
Entre os vários empregos que tive quando estava na universidade, inclui-se ter trabalhado para uma companhia aérea. Uma das coisas que descobri nesse emprego foi que há toda uma série de dificuldades que irritam os passageiros, mas há um problema que garantidamente os alienará para sempre.

Os passageiros não gostam de atrasos, não gostam de falta de espaço para as pernas, nem de funcionários mal-educados e insensíveis. Mas nenhuma destas coisas os impedirá de escolher a mesma companhia numa próxima ocasião. Contudo, se lhes perdermos as malas, acabou-se. Não voltarão nos próximos anos, talvez nunca. A questão é que é muito fácil estarmos tão preocupados em garantir que as pessoas entram e saem dos aviões, que nos esquecemos este tipo de detalhe, mas é algo que tem um enorme impacto na vida dos passageiros.

Tenho percebido que há um problema semelhante que afecta as dioceses católicas. A má qualidade das músicas, as homilias pobres, as igrejas feias, tudo isso irrita, mas continuarão a vir – pelo menos por algum tempo. Mas basta liderar mal um processo de nulidade e nunca mais os apanham. Assisti a isto vezes demais: Um católico fiel e dedicado aborda a Igreja procurando um juízo sincero sobre se um casamento foi ou não foi válido e é recebido com má educação, atrasos burocráticos, papelada perdida, maus conselhos, indicações erradas e, por vezes, mentiras.

Facilmente os responsáveis ficam tão embrenhados na gestão diária das paróquias que se esquecem dos pequenos assuntos que são muito importantes na vida das pessoas envolvidas. A dor e a amargura causada por se lidar mal com um processo de nulidade não vão desaparecer tão depressa.

Atenção, não estou a pedir processos de nulidade mais fáceis ou mais frequentes. Os critérios para uma declaração de nulidade estão fixas no direito canónico e nas Escrituras. O meu apelo tem antes a ver com a dimensão pastoral e burocrática da questão. Dossiers perdidos, maus conselhos, secretárias mal-educadas e falta de sensibilidade pastoral entre os funcionários dos tribunais eclesiásticos causam danos sérios.

Não tenho a menor dúvida de que praticamente todos os tribunais eclesiásticos deste país têm falta de pessoal. A maioria dos bispos estão, e bem, focados nos assuntos diários das paróquias. Contudo, não podem ignorar a competência dos seus tribunais diocesanos, da mesma maneira que as companhias aéreas não podem ignorar a questão da bagagem desviada. O resultado será católicos perdidos para a Igreja – às vezes para sempre.

E depois, claro, há os casos de benfeitores ricos que doam milhares à Igreja e vêem os seus processos de nulidade tratados em quatro semanas, enquanto os dossiers de todos os outros se perdem ou ficam meses em cima de uma secretária. As histórias destes pequenos favores quase sempre se tornam conhecidas, por mais que os bispos pensem que as podem manter escondidas.

Há ainda os padres insensatos que aconselham cinicamente os seus paroquianos (com um piscar de olho), que se mudarem os detalhes do seu testemunho, tudo será mais fácil. Este tipo de comportamento irresponsável apenas convence as pessoas envolvidas de que o processo não é uma procura séria pela verdade, mas apenas um jogo legal.



E tragicamente encontramos católicos a quem foram concedidos decretos de nulidade, com bases sólidas, mas que ainda têm dúvidas sobre a sentença porque o trabalho do tribunal foi tão mal feito, ou até porque houve casos de corrupção. Algumas destas pessoas passarão a vida a acreditar (e a dizer a toda a gente), que a nulidade é simplesmente um “divórcio católico”.

Os fiéis merecem melhor. Precisam que seja determinado, com seriedade, se estavam de facto casados ou não, com base num processo aberto e transparente com critérios e provas claramente definidos. Devem ter acesso a este juízo num prazo razoável e o processo deve ser explicado de forma clara antes e a cada passo do caminho. Os católicos têm direito a receber conselhos bem-informados e não a ouvir os esquemas cínicos de clérigos que pensam que sabem manipular o sistema. Precisam de ser atendidos por funcionários que não percam os seus formulários e que lhes falem de forma respeitosa, cientes de que a pessoa do outro lado está a atravessar um processo terrível e que provavelmente não está no seu melhor.

Acima de tudo, precisam que lhes digam repetidamente que estão a atravessar um processo que é legal e pastoral. É pastoral porque envolve uma séria e por vezes difícil auto-examinação que provavelmente será desconfortável mas que, se abordada de forma honesta, pode acarretar compreensão e sabedoria para um futuro melhor. Porém, embora pastoral, este é também um procedimento legal, com categorias e padrões.

No fim de contas, não é apenas uma questão de saber se os esposos sentiam que estavam casados, ou não. A questão está em saber se, com base nas leis de Deus e da Igreja, estavam ou não casados. Se sim, não há poder nenhum no mundo que possa dissolver essa ligação.

Católicos que procuram uma declaração de nulidade devem estar preparados para percorrer um caminho duro. Um processo de nulidade é difícil, porque toca a vida das pessoas envolvidas nos seus pontos mais íntimos e vulneráveis e porque requer algumas das maiores expressões de honestidade que um católico pode ser chamado a exercer. Não há como evitar estas dificuldades, e não vale a pena dourar a pílula.

Mas por amor de Deus, ao menos lidem com a papelada e cheguem a uma decisão dentro de um prazo razoável. Depois de dois ou três anos sem decisão, até o mais fiel dos católicos terá começado a namorar outra vez, o que poderá ter dolorosas consequências se a nulidade não for concedida. Percam-lhes os formulários pelo caminho e mesmo que tudo corra bem, o mais natural é que os tenham perdido para sempre do rebanho. Não os conseguiremos convencer de que esta é a Igreja dos pobres e dos sofredores se, quando vêm ter connosco no período mais difícil e triste das suas vidas, e não formos capazes sequer de tratar da papelada.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no quinta-feira, 25 de Abril 2013 em The Catholic Thing)

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