quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Reflexões sobre o caso Charlie Hebdo

David Warren
O ataque por parte de muçulmanos fanáticos à redacção do Charlie Hebdo, em Paris, acendeu por momentos em mim as emoções e os impulsos de jornalista. Era notícia, mas mais que isso, o ataque era contra “nós”. Algo devia ser feito, escrito, submetido, o que fosse – logo! Mesmo antes de pensar.

Membros importantes da redacção, incluindo o conhecido editor e quatro cartoonistas famosos, estavam mortos. Mas dezenas de milhares de pessoas encheram as ruas com cartazes a dizer “Je Suis Charlie” e outras indicações de solidariedade transitória.

Tanto quanto consigo ver, os fanáticos conseguiram tudo o que queriam. Os homens que consideravam blasfemos foram executados. Todo o país parou para reflectir sobre a sua acção. E muçulmanos em todo o mundo passaram a ser vistos como parasitas. Tudo isto eram objectivos dos terroristas.

Talvez fossem psicopatas, mas qualquer pessoa que tenha visto as imagens percebe que estavam bem treinados. Isto não foi uma “operação de imitação”, como outras que têm atingido França, em que muçulmanos tresloucados conduziram os seus carros para o meio de multidões.

Esta operação foi bem planeada, disciplinada, e é uma indicação do que podemos esperar no futuro, com o regresso à Europa e à América de assassinos bem treinados do “califado” na Síria e no Iraque. São impiedosos e sabem que nós não somos. Isto dá-lhes uma vantagem que ultrapassa a mera escolha de armas.

Muito do discurso que temos ouvido tem sido sobre a “defesa dos nossos valores”. Isto é precisamente o que os fanáticos querem, porque eles sabem bem que nós não temos valores. Querem acentuar o contraste entre os crentes e os infiéis; querem convencer os seus correligionários, sobretudo os mais novos, que a nossa única defesa é a blasfémia e que esta pode ser derrotada.

Eles querem que os jovens muçulmanos, já a viver no Ocidente, se sintam isolados também. Querem levar os polícias a persegui-los mesmo até ao coração do gueto, onde perceberão que não são mesmo nada bem-vindos.

Em França, como no resto do mundo, as organizações islâmicas que defendem o princípio da coexistência criticaram imediatamente os ataques. Já aprenderam a fazê-lo rapidamente. Também já aprenderam a não serem ambíguos nas suas condenações. Se acham que o Charlie Hebdo é um jornal de mau gosto, que gozava frequentemente e de forma crassa com o seu profeta, agora não é a altura certa para o dizer.

Mas também isto tornou-se um efeito desejado destes ataques violentos: envergonhar os “moderados”. A mensagem para os jovens cheios de testosterona é: “Nós conseguimos os resultados, eles não conseguem nada.”

Talvez o factor mais desencorajador nesta nossa “guerra ao terrorismo” seja a resposta que é dada pelos verdadeiros tontos do Ocidente: aqueles que dizem “isto não tem a ver com o Islão”, quando até eles sabem perfeitamente que tem a ver unicamente com o Islão.

Já os politicamente correctos não permitem qualquer comentário. Estão presos porque não têm valores positivos a defender e, por isso, não têm qualquer forma de compreender as pessoas que os pretendem aniquilar. Estão pré-aniquilados, e os fanáticos muçulmanos sabem-no. Aliás, sabem mais sobre nós do que nós sobre eles, graças à nossa cegueira voluntária.

Em vez dos valores positivos do Cristianismo, que respondem aos muçulmanos ponto por ponto, seja em acordo ou em desacordo, hoje em dia não apresentamos nada. A nossa “liberdade” é articulada em termos puramente negativos como os “direitos” humanos de gozar qualquer tipo de comportamento de uma forma imediata e material, “desde que não afecte os outros”.

Considerem, por exemplo, uma capa que o Charlie Hebdo teve em 2010. A caricatura mostra o Papa Bento XVI a elevar um preservativo e a dizer: “Eis o meu corpo”. Foi um exemplo típico por parte do jornal de tentar chocar. Foi uma boa tentativa, mas não chegou a ser blasfemo porque, no ocidente moderno, a blasfémia é simplesmente impossível.

Salvo a minoria que continua a ser cristã, e que na maior parte compreende que é preciso ser-se cristão para se poder blasfemar o Cristianismo, o Ocidente já não tem qualquer Deus a quem ofender.

Quando o presidente François Hollande foi à redacção do Charlie Hebdo, depois do massacre, não foi capaz de outra coisa que não repetir uma série de clichés. Foi como uma visita de cortesia, mas aos mortos.

Podemos dizer, altivamente, que a imprensa livre não pode ser silenciada; mas pode, e foi, como se viu por estes eventos. Mas também não tem qualquer problema em silenciar-se a si mesma, como se viu em muitos órgãos de comunicação social em que se desfocaram as imagens de caricaturas que pudessem “ser consideradas ofensivas pelos muçulmanos”.

Excepto quando está a seguir uma multidão, a “imprensa livre” costuma ser cobarde. A única coisa que admiro nos falecidos editores e cartoonistas do Charlie Hebdo é que não eram cobardes. Chegaram mesmo a dizer: “Para nos calar vão ter de nos matar”, e estavam a falar a sério. O seu desafio aos muçulmanos fanáticos redobrou depois de lhes terem incendiado a redacção em 2011.

Nisto são um exemplo a seguir por nós católicos.

O Islão é uma força positiva. Os seus seguidores acreditam em coisas e muitos estão dispostos a lutar por elas. Os fanáticos podem ser deturpados, mas a sua causa não é egoisticamente pessoal. Pretendem conquistar a Europa – assuntos do século VII que ficaram por resolver – e as suas tácticas e estratégias são tudo menos contraproducentes.

Com cada novo atentado ganham respeito e inspiram mais jovens muçulmanos a segui-los. Cada murro que espetam revela como o peito do Ocidente decadente está oco. Nem sequer reconhecemos que estamos em guerra, tamanha é a nossa capitulação.

Mas a verdadeira batalha, conforme eles o entendem, não é entre o Islão e uma libertinagem vazia. Essa é demasiado fácil de ganhar. É entre Cristo e Maomé: a única batalha em que podem ser colocados na defensiva; em que os seus próprios filhos se podem voltar contra eles.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2015 em The Catholic Thing)

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1 comentário:

  1. Nisto são um exemplo a seguir por nós católicos. Não são exemplo a seguir por ninguém, desculpem-me.

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