segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A nomeação de D. Manuel Clemente para Cardeal

Agora finalmente os que insistem em dizer
Cardeal Patriarca vão ter razão!
Demorou um ano, mas chegou!

Em bom rigor, como expliquei aqui em Janeiro de 2014, D. Manuel Clemente deveria ter sido nomeado Cardeal no consistório de 2014. Deveria, digo, não porque me apetece, não pelos seus lindos olhos, não porque “é costume”, mas porque existe uma bula que estipula que o Patriarca de Lisboa é nomeado Cardeal no primeiro consistório depois de tomar posse e essa bula, com força de lei, nunca foi revogada.

O ano passado, contudo, não foi e quem quiser saber o que eu concluí disso pode ler o texto. O que interessa é que este ano já foi. O que é que mudou?

Em primeiro lugar, mudou o facto de D. José Policarpo, infelizmente, já não estar vivo. Se estivesse, ainda seria eleitor e poderia por isso ser um impedimento à elevação de D. Manuel Clemente, por força de uma tradição mais recente da Igreja, mas que não é uma regra escrita, que estipula que não haja mais que um cardeal eleitor por diocese.

Contudo, olhando para dioceses como Veneza, que também é patriarcado, e Bruxelas, ambas consideradas dioceses “cardinalícias”, vemos que isso não é garantia nenhuma. Francisco voltou, novamente, a ignorar os bispos daquelas dioceses que assim continuam a não ser cardeais. Em vez disso decidiu elevar bispos de países como Tonga, Cabo Verde e Birmânia, algumas das quais, tanto quanto sei, nunca tinham tido um cardeal nem teriam grande esperança de vir a ter.

Está mais que visto que o Papa não liga à tradição das dioceses “cardinalícias” e por isso eu diria que a inclusão de D. Manuel Clemente na lista se deve sobretudo à existência da bula. Sei perfeitamente que não passaria pela cabeça do Patriarca fazer “lobbying” para ver este seu direito reconhecido, mas já não diria o mesmo sobre o Ministério dos Negócios Estrangeiros que poderá bem ter insistido junto da Santa Sé para que esta honrasse a sua própria lei. Não tenho aqui qualquer informação privilegiada, é uma mera suposição.

Mas a verdade é que, olhando para a lista dos novos cardeais, a inclusão de D. Manuel é um facto importantíssimo para a Igreja portuguesa que muito nos deve alegrar. Lembremo-nos que para além da não inclusão de várias dioceses que tradicionalmente têm cardeais, não houve um único nomeado da América do Norte, por exemplo.

Um espelho do mundo
O ano passado falou-se muito de o Papa ter incluído nomeações de países como o Haiti e Burkina Faso. Na altura isso até podia ser lido como uma mensagem, o Papa a querer abanar um bocadinho a consciência dos cardeais com as suas primeiras nomeações e brincar um bocado com a sua fama de imprevisibilidade. Mas as nomeações deste ano mostram que não se tratou de uma ideia passageira. Esta tendência veio, julgo eu, para ficar, e vai marcar a Igreja de forma importante nos próximos anos e, se assim continuar, no próximo consistório.

Como? Para começar, um grupo de cardeais completamente disperso, que só se conhecem e estão juntos nos consistórios que de tempos a tempos são convocados, têm maior dificuldade em formar grupos de pressão e lobbies para eleger os seus candidatos preferidos. E atenção que vejo ambas as coisas como normais, não é um comentário depreciativo. Ora, se isso acontecer, e ao contrário do que se pensava ser a tendência com Francisco, quem fica a ganhar mais são os cardeais da cúria romana, que se conhecem bem e estão juntos a toda a hora. É apenas um dado interessante, claro que a Igreja tem muito a ganhar em ter presente uma voz que fale pelos católicos do Tonga e das outras ilhas do Pacífico, bem como do Haiti, de Cabo Verde e tantos outros sítios.

Outras ausências
Por fim, o ano passado lamentei a não inclusão do Patriarca da Igreja Greco-Católica da Ucrânia na lista dos novos cardeais, sendo ele o líder da maior das Igrejas Católicas de Rito Oriental. Este ano o líder da Igreja Católica Etíope foi incluído, o que me parece excelente, mas o ucraniano não. É pena, sobretudo, porque existe a possibilidade de essa exclusão ser para não “ofender” Moscovo. Se for o caso é lamentável. Esperemos que não seja.

Teria sido também um gesto bonito, à luz da realidade actual, o Papa nomear um Patriarca de uma das Igrejas do Médio Oriente. Há pelo menos dois que não são Cardeais e poderiam ser: o Patriarca Sako, dos Caldeus (principalmente Iraque) e o Patriarca Inácio José Younan, da Igreja Siro-Católica. Younan seria uma escolha especialmente adequada, uma vez que a maioria dos católicos que estão actualmente refugiados na zona de Mosul e Planície de Nínive serão fiéis desta Igreja. Contudo, é possível que, à imagem do actual Patriarca da Igreja Melquita, estes tenham dito que não estão interessados, o que todavia não me parece provável.

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