segunda-feira, 4 de novembro de 2013

“Quem está a viver um segundo casamento não pode vir a ser santo?”

Transcrição integral da entrevista feita ao Cónego Carlos Paes a propósito da “Lineamenta” do sínodo da Família. Notícia aqui.

Qual é o sentido destas perguntas que a Santa Sé envia para as conferências episcopais?
Penso que isso traduz a vontade deste Papa Francisco de estabelecer um modelo da Igreja em regime mais colegial e até mais sinodal. Ele quer juntar o colégio dos bispos às suas decisões que dizem respeito às pessoas em geral. O sínodo serve para dar voz e vez a todos os que responsavelmente fazem parte deste corpo eclesial que tem Cristo como cabeça. São ideias velhas na Igreja, mas que este Papa quer activar ainda mais.

O que é, exactamente, o movimento das Equipas de Santa Isabel?
Existem Equipas de Nossa Senhora, criadas pelo padre Caffarel, para casais normais. São equipas de espiritualidade conjugal que depois estendem o seu percurso à família inteira e os grupos acabam por ser familiares e não apenas de casais. O sucesso dessas equipas fez com que outros casais, que não estão em condições para as integrar, porque são recasados ou apenas divorciados, aspirassem a ter uma coisa do género.

O Papa João Paulo II, na “Familiaris Consortio”, disse que a Igreja não devia esquecer esses casos especiais, porque o seu sentimento íntimo é pensarem que estão excomungados, ou que estão castigados, uma vez que foram privados da recepção de alguns sacramentos. De qualquer forma o Papa sugeriu que se desse atenção pastoral. Foi nessa linha que nasceram as Equipas de Santa Isabel, criada por mim e por um casal das Equipas de Nossa Senhora, que pilotou uma equipa de divorciados e recasados.
Assim como Nossa Senhora é prima de Santa Isabel, também as Equipas de Santa Isabel são primas do movimento das ENS.

As Equipas de Santa Isabel juntam casais que agora estão a viver uma outra aliança, a anterior foi desfeita, não se vê que se possa voltar a ela, as pessoas seguiram caminhos diferentes, há outras famílias, mas as famílias que agora existem, sobretudo os filhos que resultaram delas têm o direito a sentir-se apoiados e integrados de pleno direito na comunidade cristã. É isso que procuro fazer, fazendo-lhes perceber que embora estejam privados da absolvição sacramental e da comunhão eucarística, isso não significa que estejam fora de um processo de reconciliação ou de outras formas de comunhão. É isso que procuro valorizar, dentro das balizas que a Igreja define.

Muitos casais que se encontram nessa situação esperam um dia poder ter acesso aos sacramentos. Na sua opinião, isso é algo que pode mudar no próximo sínodo?
Eventualmente. A Igreja não irá proporcionar soluções em saldo ou de tudo ou nada. É uma ponderação que deve ser feita, equivalente à que os nossos irmãos ortodoxos fazem, permitindo uma segunda aliança depois do fracasso do primeiro matrimónio, mas dentro de balizas que significa da parte do casal em causa um sentimento por um lado penitenciar o que não conseguiram fazer no primeiro casamento, mas que querem fazer agora com todo o empenho, salvaguardando os deveres da justiça e da caridade para com a história que foi passada. Não se pode eliminar de qualquer forma uma aliança que existiu, que teve alguma duração, que produziu frutos, os mais bonitos dos quais são os filhos, mas não só. Tudo isso deve ser ponderado e não fazer uma solução em saldo sem ter em conta o bem maior e um caminho de santidade para essas pessoas.

Às vezes pergunto-me: Quem está a viver um segundo casamento, efectivamente, está privado de um caminho de santidade? Não pode vir a ser santo? Se a resposta é que pode, como acho que é, então temos de criar condições para que isso possa acontecer no quadro de uma integração eclesial e de uma participação efectiva, mas isso tem de ser feito com ponderação e sem simplesmente procurar soluções apressadas só para não ficar atrás dos outros.

Às vezes até, revendo a história dessa primeira união que existiu, chega-se à conclusão que não foi um verdadeiro sacramento, por isso pode-se fazer uma declaração de nulidade da primeira união, resolvendo-se o problema na raiz. 

2 comentários:

  1. Obrigada por este esclarecimento tão claro. tão justo e em que nada afecta a minha Fé

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  2. "Muitos casais que se encontram nessa situação esperam um dia poder ter acesso aos sacramentos. Na sua opinião, isso é algo que pode mudar no próximo sínodo?
    Eventualmente."

    Ahhh!!!?????

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