Showing posts with label Cónego Carlos Paes. Show all posts
Showing posts with label Cónego Carlos Paes. Show all posts

Monday, 5 October 2015

"Sínodo deve revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural"

Transcrição da entrevista feita ao cónego Carlos Paes, que acompanha muitos casais em uniões irregulares através das Equipas de Santa Isabel. A reportagem pode ser lida aqui.

Na sua experiência de trabalho com casais em uniões irregulares que tentam, na medida do possível, viver a fé católica, esta questão do acesso aos sacramentos é fonte de sofrimento?
Normalmente sim, até por motivos psicológicos. Uma pessoa que está privada do acesso à comunhão, nomeadamente, mas também à absolvição sacramental, acaba sempre por ter o sentimento de alguma exclusão, de alguma penitência, que lhe é imposta.

Às vezes aquilo que se passa na consciência de cada um é diferente do juízo que pode ser feito por fora. É por isso que desde a Familiaris Consortio que o Papa assinalou que essas pessoas continuam a ser membros da Igreja e não estão fora da comunhão, não estão excomungadas, embora não possam receber os sacramentos como as outras pessoas. Mas isso não quer dizer que não tenham acesso a outras formas de comunhão e, além disso, não estão castigadas, porque às vezes as pessoas têm a sensação que fizeram uma coisa má  e agora têm de suportar o castigo. Também não estão castigadas.

Esse é o ponto de partida, depois a Familiaris Consortio, e isso continua com este Papa Francisco, sugere caminhos de integração, de participação, de inclusão, dessas pessoas, para que não se sintam marginalizadas.  

Como é evidente não sabe quais serão as conclusões do sínodo, mas nesta altura parece inevitável que ficará muita gente desiludida, seja qual for. Acredita que será possível ainda encontrar uma proposta que satisfaça todas as partes?
Que satisfaça todas as partes, não prevejo, porque há pessoas que são mais radicais, mais exigentes, temem que possa ser uma "Igreja em saldos" para ser mais bem acolhida... Mas eu acredito sobretudo que começar por essas questões é começar pelo fim, porque há todo um trabalho a montante que será a melhor solução para uma reintegração positiva dessas pessoas e até para que esses casos não se multipliquem, como parece continuar a acontecer.

Acho que seria pobre fixarmo-nos aí e só procurarmos se vai haver solução, abertura, absolvição geral... Não. Porque o problema dessas situações resulta também do modo como esses casamentos, a montante, surgiram. As próprias pessoas têm consciência de que não viveram um verdadeiro sacramento de matrimónio, embora tenham vivido um casamento natural muito justo, muito razoável... Mas mesmo o casamento natural não foi perfeito porque se houve a ruptura alguma coisa falhou.

Às vezes há uma certa cultura do descarte, do descompromisso, imaginam que se houver algum problema separam-se, sem mais, mas não é para isso que as pessoas se casam.

Há muita ignorância acerca da beleza do matrimónio e da família, como célula base e mais importante, quer para a sociedade civil, quer para a comunidade religiosa, seja cristã ou de outra religião. Portanto há toda uma riqueza que se pode perder no meio dessa discussão, se vão ser admitidos ou não, se podem receber absolvição ou não, isso não é o principal com certeza e ficaria desiludido se a tónica principal fosse essa e não fosse exactamente revalorizar o matrimónio na sua dignidade natural e sobrenatural. 

Na sua dignidade quer para a sociedade civil quer para a comunidade cristã.

Tem-se falado muito na palavra misericórdia, mais especificamente numa “abordagem misericordiosa”. O que é isto?
A abordagem misericordiosa é, sobretudo, uma abordagem criativa, uma abordagem medicinal, uma abordagem transformadora, uma abordagem reveladora. 

Às vezes pensamos que é simplesmente passar um pano, para limpar, sem mais. Não. A abordagem misericordiosa é sempre reconstrutiva, porque o Deus que é misericordioso, antes de o ser, é misericordioso. E todos os gestos de Deus trazem a marca da criação e Deus cria e recria constantemente o seu povo  e os membros do povo de Deus em geral e também individualmente, exactamente oferecendo uma possibilidade de reconstrução e regeneração. 

Às vezes as pessoas parece que querem simplesmente que não lhes levantem mais problemas, mas que deixem passar, não tem importância, Deus é misericordioso... Não, há aqui um trabalho bonito que tem a ver com o próprio sentido positivo da penitência, a penitência não é um sacramento passa-culpas, a penitência é um sacramento onde cada um tem a oportunidade de olhar para a sua história de vida e perceber que aí pode introduzir um espírito criador novo, pode introduzir uma energia reconsrutiva, que lhe pode fazer divisar capítulos muito mais bonitos, não esquecer as coisas tristes do passado, mas sobretudo capítulos muito mais bonitos, muito mais reconhecidos no seu valor. Porque Deus usa todos os acontecimentos, até mesmo as vicissitudes da vida, para nos proporcionar uma reconstrução, uma regeneração, uma recriação. É sobretudo essa a ideia, isso está muito ligado ao sacramento da penitência.

As pessoas querem simplesmente satisfazer os seus desejos, as suas revoluções, ou estão abertas a uma conversão permanente de vida que lhes permita participar construtivamente, quer na regeneração da sociedade civil, quer na conversão da comunidade cristã.

Neste contexto seria de sublinhar a importância que tem a família no seio da Igreja e da comunidade civil, porque a família é, no seu todo, uma unidade responsável. Não é apenas um ajuntamento de pessoas na mesma casa, a família é para a Igreja a primeira unidade pastoral. 

O melhor que se pode imaginar para se tornarem cada vez mais pessoas responsáveis, mais participativas... ai daquele que não tiver uma experiência positiva, construtiva e feliz de família. 

Pela sua experiência com casais em situação irregular, nomeadamente através das Equipas de Santa Isabel, também há aí famílias sólidas que contribuem para  a Igreja e para a sociedade dessa forma?
Muitas vezes o que se passa é que eles próprios têm consciência que é agora que estão a viver uma verdadeira família, porque aquilo que aconteceu a montante não correu bem, acabou por se desfazer porque não chegaram a mergulhar na verdade. Às vezes um primeiro erro pode dar oportunidade a uma reconstrução mais consciente, mais participativa e às vezes esses casais são excelentes porque já tiveram de aceitar humildemente que nem tudo correu bem, mas que acreditam que é possível e às vezes... 

Entretanto dessas famílias nascem muitas vezes mais filhos. Esses filhos têm direito a encontrar em sua casa um lar feliz, completo, cristão. Eles não podem ser discriminados porque os pais vivem em união de facto ou não são casados pela Igreja. Às vezes estão num processo, não podemos discriminar com base no facto de serem casados ou não, terem ido à Igreja ou não, cumprirem ou não. Temos de perceber qual é a dinâmica daquele casal, o que é que estão a viver? Sentem-se ou não uma família renovada? Com que alegria é que buscam isso? Os filhos têm o direito de se sentirem perfeitamente normais no seio de uma família cristã e participativa, este é todo um trabalho que é muito bonito, muito estimulante e que não podemos esquecer, para felicidade de todos.

O cónego Carlos Paes foi alvo de outra entrevista o ano passado, na antecipação do primeiro sínodo, e que pode ser lida aqui.

Monday, 4 November 2013

“Quem está a viver um segundo casamento não pode vir a ser santo?”

Transcrição integral da entrevista feita ao Cónego Carlos Paes a propósito da “Lineamenta” do sínodo da Família. Notícia aqui.

Qual é o sentido destas perguntas que a Santa Sé envia para as conferências episcopais?
Penso que isso traduz a vontade deste Papa Francisco de estabelecer um modelo da Igreja em regime mais colegial e até mais sinodal. Ele quer juntar o colégio dos bispos às suas decisões que dizem respeito às pessoas em geral. O sínodo serve para dar voz e vez a todos os que responsavelmente fazem parte deste corpo eclesial que tem Cristo como cabeça. São ideias velhas na Igreja, mas que este Papa quer activar ainda mais.

O que é, exactamente, o movimento das Equipas de Santa Isabel?
Existem Equipas de Nossa Senhora, criadas pelo padre Caffarel, para casais normais. São equipas de espiritualidade conjugal que depois estendem o seu percurso à família inteira e os grupos acabam por ser familiares e não apenas de casais. O sucesso dessas equipas fez com que outros casais, que não estão em condições para as integrar, porque são recasados ou apenas divorciados, aspirassem a ter uma coisa do género.

O Papa João Paulo II, na “Familiaris Consortio”, disse que a Igreja não devia esquecer esses casos especiais, porque o seu sentimento íntimo é pensarem que estão excomungados, ou que estão castigados, uma vez que foram privados da recepção de alguns sacramentos. De qualquer forma o Papa sugeriu que se desse atenção pastoral. Foi nessa linha que nasceram as Equipas de Santa Isabel, criada por mim e por um casal das Equipas de Nossa Senhora, que pilotou uma equipa de divorciados e recasados.
Assim como Nossa Senhora é prima de Santa Isabel, também as Equipas de Santa Isabel são primas do movimento das ENS.

As Equipas de Santa Isabel juntam casais que agora estão a viver uma outra aliança, a anterior foi desfeita, não se vê que se possa voltar a ela, as pessoas seguiram caminhos diferentes, há outras famílias, mas as famílias que agora existem, sobretudo os filhos que resultaram delas têm o direito a sentir-se apoiados e integrados de pleno direito na comunidade cristã. É isso que procuro fazer, fazendo-lhes perceber que embora estejam privados da absolvição sacramental e da comunhão eucarística, isso não significa que estejam fora de um processo de reconciliação ou de outras formas de comunhão. É isso que procuro valorizar, dentro das balizas que a Igreja define.

Muitos casais que se encontram nessa situação esperam um dia poder ter acesso aos sacramentos. Na sua opinião, isso é algo que pode mudar no próximo sínodo?
Eventualmente. A Igreja não irá proporcionar soluções em saldo ou de tudo ou nada. É uma ponderação que deve ser feita, equivalente à que os nossos irmãos ortodoxos fazem, permitindo uma segunda aliança depois do fracasso do primeiro matrimónio, mas dentro de balizas que significa da parte do casal em causa um sentimento por um lado penitenciar o que não conseguiram fazer no primeiro casamento, mas que querem fazer agora com todo o empenho, salvaguardando os deveres da justiça e da caridade para com a história que foi passada. Não se pode eliminar de qualquer forma uma aliança que existiu, que teve alguma duração, que produziu frutos, os mais bonitos dos quais são os filhos, mas não só. Tudo isso deve ser ponderado e não fazer uma solução em saldo sem ter em conta o bem maior e um caminho de santidade para essas pessoas.

Às vezes pergunto-me: Quem está a viver um segundo casamento, efectivamente, está privado de um caminho de santidade? Não pode vir a ser santo? Se a resposta é que pode, como acho que é, então temos de criar condições para que isso possa acontecer no quadro de uma integração eclesial e de uma participação efectiva, mas isso tem de ser feito com ponderação e sem simplesmente procurar soluções apressadas só para não ficar atrás dos outros.

Às vezes até, revendo a história dessa primeira união que existiu, chega-se à conclusão que não foi um verdadeiro sacramento, por isso pode-se fazer uma declaração de nulidade da primeira união, resolvendo-se o problema na raiz. 

Partilhar