domingo, 10 de novembro de 2013

"Maioria dos que usam métodos naturais não o fazem por razões religiosas"

Transcrição de entrevista a Mary Anne d’Avillez, sobre os métodos naturais de planeamento familiar, a propósito do inquérito preparativo para o sínodo dos bispos sobre a família, que se realizará em Outubro de 2014. Entrevista conduzida por Ângela Roque. Ver notícia aqui.


Os cristãos em geral conhecem a doutrina da Igreja para esta área, o que a Igreja propõe?
A grande maioria tem uma vaga ideia que é tudo proibido, mas nunca se deram ao trabalho de procurar melhor, de irem ler a “Humanae Vitae”, de pensar e reflectir sobre isso. Claro que há excepções, há grupos ligados a movimentos da Igreja, mais bem formados nesta área.

Mas a não ser pessoas que estejam nestes meios, onde essa informação circula, esta mensagem não passa...
A mensagem não passa. Os cristãos vivem na sociedade e são muito influenciados pela cultura que os rodeia, pelos meios de comunicação, pelo que ouvem falar. A maior parte das pessoas não conhecem ou não sabem que existem métodos de regulação natural do nascimento que são extremamente fiáveis e reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde.

Há dois métodos principais, o método de ovulação Billings e o método sinto-térmico, e o método sinto-térmico tem uma eficácia ligeiramente maior.

O método Billings, com um estudo que foi feito na China, por um médico estatal, no ano 2000, indicou uma eficácia – e isto com milhões de casais, porque na China é sempre tudo aos milhões – uma eficácia de 99%. Um estudo mais recente feito pela universidade de Heidelberg na Alemanha indicou uma eficácia de 99,4% ou 99,6%, que é até mais alto do que a pílula.

Agora, o que é essencial é que esses métodos sejam bem ensinados, e sejam bem aprendidos. Os casais têm de ser acompanhados por uma monitora, ou um médico ou uma médica.

Como é que estes métodos chegam às pessoas? São alguns movimentos ligados à Igreja que os difundem, não é?
Sim, ligados à Igreja. Na zona de Lisboa conheço dois, o Movimento Defesa da Vida (MDV) onde eu trabalho, e uma associação chamada “Família e Sociedade” que dá dois cursos por ano.

Nada disto é falado nas escolas? Há educação sexual mas estes métodos são falados?
São falados se eu for lá... de resto duvido. Agora, mais importante que nas escolas é isto ser falado nas famílias, e as famílias também ignoram. Às vezes convidam-me para ir falar aos, Cursos de preparação para o Matrimónio. Curiosamente, em muitos, o planeamento familiar não faz parte, não é um dos temas...

E devia ser, do seu ponto de vista? São cursos promovidos pela Igreja...
Claro que devia ser. Eu vou extraprograma, convidada. Ao Algueirão já vou há bastantes anos, fui muitas vezes à Portela de Sacavém e a outras paróquias, pontualmente, e também ao Cupav, o Centro Universitário dos Jesuítas, que tem dois cursos por ano de preparação para o matrimónio.

As pessoas têm de perceber que os métodos de regulação natural da fertilidade fazem parte da gama de escolha de métodos de planeamento familiar, em que há uns que são técnicos, que são os métodos contraceptivos, e há outros que são naturais, que são estes que usam a fisiologia da mulher, para a mulher perceber quando está fértil e quando está infértil, não implicam tomar nem colocar nada. E um casal não tem liberdade de escolha se não conhece todos. Portanto, onde se fala só sobre contracepção sem falar sobre os métodos naturais está errado, onde se fala só sobre os métodos naturais sem falar nos contraceptivos também acho errado, no sentido em que não é permitido às pessoas fazerem a avaliação da diferença moral que existe entre uns e outros, uma avaliação ética.

É essa diferença moral, ou ética, que justifica a posição da Igreja relativamente à contracepção?
Justifica, pois. Claro que estes métodos só funcionam bem num casal estável, em que ambos querem. Este documento [questionário de preparação para o Sínodo da Famíli] fala sobre casais cristãos, não é um cristão que quer depois estar a dormir com A, B, C e D, implica uma moral e uma ética.

Nestes métodos a pessoa aceita a sua fertilidade como um todo, e aceita a fertilidade do seu marido e o marido da mulher, e não está a tentar fugir ou apagá-la, ou eliminá-la, mas estão em casal a geri-la.

Do ponto de vista relacional é muito positivo porque obriga o casal a dialogar constantemente. No fundo tem que ter uma conversa todos os dias, “como é que tu estás?”, “estamos numa fase fértil, não estamos, como é que é o nosso projecto de vida, como é que vamos gerir”.

Depois do ponto de vista ecológico é ideal. Eu posso dizer que a maioria das pessoas que me tem procurado para aprender os métodos naturais não tem sido por razões religiosas, tem sido por razões ecológicas ou de saúde, mulheres que têm problemas graves e não podem mesmo usar o método contraceptivo. Eu diria que a maioria não é por razões religiosas.

Também há quem pense que quem segue estes métodos é por razões religiosas.
Há.

Está-me a dizer exactamente o contrário…
Estou a dizer o contrário.

Acho que na Igreja deixou-se de falar mesmo entre muitos padres há uma grande ignorância sobre a eficácia e como funcionam os métodos naturais.

Paulo VI, em cujo pontificado
se produziu o Humanae Vitae
Também pode haver alguma vergonha em falar do assunto, pouco à vontade.
Alguma vergonha, pouco à vontade, é difícil falar sobre sexualidade. Medo que lhe digam “ai, não sabe nada disto, é celibatário, e não sabe o que é que está a falar”.

Este não é um método de Igreja, é um método de planeamento familiar que pertence à gama de métodos de planeamento familiar que a Igreja defende ou propõe porque de facto a Igreja olha para a pessoa como um todo, criada por Deus, e aqui a fertilidade é aceite e gerida, e não é eliminada. É toda uma atitude perante a vida. Como é que devia ser passada? Devia ser passada de mãe para filha, mas grande parte das mães também desconhecem.

Aqui o papel dos leigos é fundamental...
Eu acho que é fundamental. Eu fui reler a “Humanae Vitae”, e o Papa Paulo VI diz que aqui os grandes apóstolos são os leigos e são os casais.

Do seu ponto de vista o que é que será ideal acontecer cá em Portugal, na Igreja portuguesa, como é que espera que a Igreja reaja ao inquérito e ponha isto a andar?
Podia haver mais encorajamento e abertura, talvez até mais interesse da parte dos padres em geral. Tem de haver uma grande mudança de mentalidade.

Eu acho primeiro que se isto vai partir dos bispos e dos padres eles próprios têm de ser bem instruídos nesta área, e saber falar com uma linguagem actual e de beleza, e para isso é preciso aprender...

Quem estiver interessado em aprender, informar-se, saber mais, o que é que pode fazer?

Contactar o Movimento Defesa da Vida, que tem um site, ou a Associação da Família e Sociedade, que também ensina os métodos. Isso é que era muito importante, haver mais gente.

2 comentários:

  1. Parece haver aqui algumas confusões quando se fala em ética/moral.
    Diz-se que "Nestes métodos a pessoa aceita a sua fertilidade como um todo (...) e não está a tentar fugir ou apagá-la, ou eliminá-la". Bem, isso não parece totalmente correcto, pois se o casal não pretende ter filhos e, portanto, apenas tem relações sexuais nos períodos inferteis, então o casal está a "fugir" à fertilidade.
    Diz-se também que "aqui a fertilidade é aceite e gerida". Mas num casal com métodos contraceptivos (como a pílula ou preservativos) a fertilidade também pode ser aceite. Será que todos os casais que tomam contraceptivos não têm filhos? Ora, se muitos dos casais que tomam contraceptivos têm filhos, então segue-se que eles aceitam a fertilidade.
    Além disso, não ficou claro por que razão os métodos naturais são mais morais ou éticos. Por que razão à luz da ética de Stuart Mill serão mais éticos? E já agora serão mais morais à luz da ética kantiana?
    Sinceramente não vejo qualquer problema de se utilizarem métodos naturais ou artificiais para se prevenir a gravidez. Agora acho absurda a atitude da Igreja de condenar tudo o que não seja métodos naturais e obrigarem os casais a usar estes métodos.

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  2. Antigamente nas igrejas, ao Domingo, só se via avançarem para a comunhão senhoras já bem para lá da menopausa. Ficavam no lugar 95% e só comungavam 5% dos fiéis. Hoje é o contrário, até se tem vergonha de ficar sentado. E comungam jovens rapazes adolescentes - decerto iguaizinhos nos mesmos pecados aos de antes -, jovens famílias com apenas dois, máximo 3 filhos. Eu sou fruto de uma falha do Calendário Católico e sei bem o que minha Mãe sofreu, em casa e nos vários confessionários, com a recusa da absolvição, Será que os 95% que hoje comungam passaram a usar todos, com extraordinária eficácia, os métodos naturais? Ou passou a ser absolvido no segredo dos confessionários o que antes recebia uma nega de absolvição? É por todas estas contradições que eu acho que nenhum Papa, nem o pobre do Papa Francisco, vai poder alterar uma linha que seja naquilo que oficialmente tem sido defendido em público. Continuando, caem-lhe em cima os que desde sempre estão contra a Humanae Vitae. Virando o disco, caem-lhe em cima os que durante anos sofreram ou viram sofrer o que eu vi a minha Mãe sofrer. É por isso que oficialmente a teoria é uma, mas o que todos os Domingos se vê demonstra que a prática é outra, uma enorme hipocrisia. Ou então, ao contrário do que a entrevistada diz, estão todos, padres e fiéis, muitíssimo bem esclarecidos sobre os métodos naturais!!! 'Tá bem, abelha!!

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