quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Aprendendo a Amar Raoul de Cambrai

Brad Miner
A literatura arturiana (sendo que o Rei Artur é a figura por excelência da imaginação das histórias de cavalaria) é especialmente optimista quanto ao carácter dos cavaleiros, embora se centre sempre no “verdadeiro” cavaleiro. Os contos de Artur, Lancelot, Gauvain e os restantes foram, do ano 1100 até cerca de 1400, o principal entretenimento da época, os primeiros romances.

As obras de não-ficção daquele tempo, porém, embora raras e muitas vezes tão imaginativas como as fábulas, contam uma história bastante mais cruenta dos cavaleiros.

A “Era do Cavalheirismo” era frequentemente brutal e moralista. Há uma história que chega para mostrar porque é que o excesso de sentimentalismo à volta da figura do cavaleiro é inapropriado.

Há uma “chanson de geste”, uma de quase duzentas baladas “francesas” desta época (a França, a bem dizer, não era ainda França), escritas por trovadores, sobre os paladinos (cavaleiros) dos séculos XI e XII, sobre um grande herói, um tal Raoul de Cambrai. Pertence a um subgénero específico: “vassalos rebeldes”. Trata-se, segundo o autor, de um testemunho em primeira mão.

Raoul é católico, filho leal da Igreja, embora possivelmente um convertido recente de uma ou outra forma de paganismo. Estes dados sobre a sua “fé” tornam particularmente chocante o relato de como arrasa um convento durante uma das suas campanhas na Côte-d’Or.

Mais tarde, na sua tenda, enquanto sacode o pó e as cinzas da roupa e lava o sangue das mãos, pede ao seu senescal – uma mistura entre criado e tenente – “Preparai-me comida e far-me-eis um grande serviço”. (Assassinar freiras suscita um grande apetite num homem). Raoul é específico sobre o que quer comer: “Pavão assado e ganso apimentado, e veado em abundância”. E quer que o seu séquito fique saciado também, pois “nem por todo o ouro de uma cidade aceitaria que os meus barões me achassem egoísta”.

Mas o senescal fica de boca aberta e, arriscando a saúde e a vida, censura o seu amo:
“Em nome de Nossa Senhora”, grita, “que estais a pensar? Estais a negar o Cristianismo e o vosso baptismo e o Deus da majestade! É Quaresma, quando todos devem jejuar; é a Sexta-feira santa da paixão, na qual os pecadores sempre honraram a Cruz”.

Agora, sem dúvida, a sua voz começa a tremer com vergonha e raiva: “E nós miseráveis homens que aqui viemos, queimámos freiras e violámos a Igreja e jamais nos reconciliaremos com Deus se a sua misericórdia não for maior que a nossa maldade”.

Chega então a vez de Raoul ficar pasmado. Abana o seu punho poderoso na direcção do senescal: “Seu filho de uma escrava”, diz – e apenas podemos imaginar o olhar de nojo na face do cavaleiro – e começa então a gritar com o seu servo aterrorizado: Aquelas malditas freiras tiveram a lata de insultar dois dos meus escudeiros! Tinham de pagar – e pagar bem. E, por Deus, que bem pagaram! Está estupefacto com a impudência e a ingenuidade do seu servo. O senescal de um grande cavaleiro devia compreender como funciona o mundo.


Mas então Raoul suspira, e deixa cair o seu punho erguido.

“Em todo o caso”, diz, encolhendo os ombros, “tendes razão: Tinha-me esquecido que é Quaresma.” 

E por isso Raoul, agora diante de um prato sem carne, senta-se para jogar xadrez com um dos seus barões.

Nas palavras de um comentador académico desta chanson: “Eis que os quarenta dias de Cristo no deserto são piedosamente comemorados”.

Desde o início do cavalheirismo que os homens têm bem noção do fosso que existe entre o ideal e a realidade; têm tido noção da tensão entre o alegre optimismo e o desapontamento. Mas os primeiros cavaleiros que juravam proteger os fracos ao mesmo tempo que os espezinhavam não eram propriamente hipócritas, nem que seja porque acreditavam tanto na hierarquia como na fragilidade humana de uma maneira que nós já não acreditamos.

Sabiam a diferença entre o bem e o mal da mesma maneira que nós, mas faltava-lhes o optimismo sobre o carácter e a primazia do que é bom. E sentiam que o status social era ordenado pelo destino, que é como quem diz, por Deus.

O Estado de direito ainda não existia completamente. Havia um legado do direito romano, e uma lei comum em lenta evolução que servia para adjudicar alguns conflitos, e todavia aquilo que hoje em dia entendemos como justiça naquela altura era perturbado pela falta de constituições, conceitos de direitos civis e forças de manutenção da ordem. A justiça era altamente subjectiva e executada ad hoc; para a maioria dos membros da sociedade não parecia haver alternativa à opressiva hierarquia do privilégio, exemplificada pelo “droit de seigneur”, pela qual o senhor feudal tinha direito a manter relações sexuais com a noiva de um vassalo na noite de núpcias. Embora esses direitos fossem raramente reivindicados, mantinham-se como uma lembrança fria do poder do senhor.

Por outro lado, durante o XI e XII séculos, existiu também um gradual soltar das amarras feudais. Os servos tornaram-se camponeses e começaram a ter alguns direitos de posse. O aumento de rendimentos levou à mobilidade e as cidades europeias começaram a expandir-se; os artesãos e os mercadores começaram a vingar. Vários constrangimentos – legais, éticos e religiosos – começaram a moderar o sentido de poder dos cavaleiros.

Não é que o cavalheirismo nunca tenha existido. Existiu, mas sobretudo na imaginação de homens bons. Talvez possamos dizer do cavalheirismo o que G.K. Chesterton disse do ideal Cristão: “Não é que tenha sido experimentado e considerado insatisfatório. Foi considerado difícil e ficou por experimentar”.

Rauol viveu e morreu pela espada. Tinha tudo o que é preciso para ser um verdadeiro cavaleiro, excepto “courtoisie” e “franchise”. Faltava-lhe amor no coração e uma mente nobre.


(Publicado pela primeira vez na Segunda-feira, 18 de Novembro 2013 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador senior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

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