terça-feira, 12 de novembro de 2013

“Concílio não teve o propósito de alargar fosso com protestantes”

Transcrição integral da entrevista ao bispo D. Nuno Brás, sobre os 450 anos do concílio de Trento. Notícia aqui.

Que peso é que o Concílio teve para a Igreja?
O Concílio de Trento é um marco essencial na história da Igreja em primeiro lugar porque responde a um desejo de reforma de há muitos séculos. O concílio reuniu-se em 1545, mas há várias dezenas de anos que havia este desejo de reforma. É óbvio que a reforma protestante, todo o drama de Lutero, toda a essa questão, veio de certo modo apressar e mostrar a inevitabilidade do concílio, mas o concílio abordou, praticamente, todos os âmbitos da Igreja, seja de disciplina seja doutrinais, fez uma revisão completa disciplinar e doutrinal do que é a Igreja Católica. Muitas das realidades que hoje vivemos foram fixadas claramente nessa altura.

Na sua opinião qual das decisões do concílio teve mais impacto?
Temos por exemplo em termos pastorais a obrigatoriedade dos bispos e párocos residirem nas dioceses e nas paróquias, que era uma coisa que até essa altura não existia. Temos a criação dos seminários, que também não existiam.

Depois, em termos doutrinais, a fixação clara daquilo que é a Sagrada Escritura, quais os livros que fazem parte da Sagrada Escritura. Isso foi claro sempre, mas havia algumas dúvidas concretamente acerca do livro do Apocalipse, da parte dos protestantes acerca da epístola de Santiago. O Concílio decide isso claramente e diz quais são os livros que fazem parte.

Depois, toda a questão da justificação. Como é que nos relacionamos com Deus, qual é o lugar da Graça e qual a do Ser Humano, uma das realidades colocada em causa pela reforma protestante. Há uma série de matérias doutrinais, que o concílio fixa, por exemplo, em termos da presença real de Jesus na Eucaristia. Das questões disciplinares, nem todos ainda colocados em prática. O Concílio fez uma reforma geral do que era a Igreja Católica naquela altura.

Havia dúvidas sobre as questões doutrinais, ou foram apenas reafirmadas?
Trata-se de reafirmar aquilo que sempre foi a tradição, o ensino apostólico, mas de o reafirmar claramente e de colocar um ponto final em várias discussões em termos de interpretação sobre essas questões. É óbvio depois do concílio que o próprio texto precisa de ser interpretado e por isso mesmo surgiram depois outros elementos de debate, que faz sempre parte da vida da Igreja. E existem realidades sobre as quais o concílio não se pronuncia, ou deixa portas em aberto.

Mas sim, trata-se de reafirmar o que foi sempre o ensino apostólico mas de colocar muitas vezes pontos finais em relação às discussões. Ou então, caso isso não fosse possível e caso as discussões não estivessem amadurecidas suficientemente, deixar essas realidades em aberto de forma que outros concílios pudessem depois pronunciar-se acerca disso.

Várias das decisões surgem em consequência do ambiente da reforma protestante. Pode-se dizer que o sínodo aprofundou as divisões, tornando-as inconciliáveis?
O Concílio já foi celebrado numa altura em que era clara a divisão. Depois, coloca claramente a posição católica, em resposta àquilo que são as posições luteranas e calvinistas.

Enquanto coloca a doutrina clara e mostra a realidade daquilo em que a Igreja acredita em termos doutrinais, sem margem para dúvidas, pelo menos em muitas partes, nesse sentido podemos dizer que sim.

Mas o concílio não teve nunca o propósito de alargar o fosso, o pensamento dos padres de Trento foi de dizer qual é a fé da Igreja Católica, no sentido de permanecer na verdade daquilo que é a fé apostólica. Não foi nunca de dizer “bom, os irmãos reformados pensam assim, nós temos de pensar ao contrário”. Aliás, há muitas coisas em que o concílio e Lutero estão muito próximos.

É interessante que muitos dos documentos acerca da justificação, que foram assinados há relativamente pouco tempo com os protestantes, retomam o que é a intuição de Trento. Ou seja, Trento não teve como preocupação afundar o fosso que separava, teve como preocupação mostrar o mais claramente possível, tanto quanto se podia na altura, dizer de forma clara aquilo que é a fé dos apóstolos.

Pode-se dizer que o concílio, aliado ao ambiente de contra-reforma que se vivia na altura, levou a um certo desequilíbrio na prática católica? No campo da revelação e tradição, por exemplo?
É importante tomarmos consciência de que os primeiros decretos do Concílio são precisamente sobre a revelação e a tradição, acerca da Sagrada Escritura. Podemos dizer que se os reformados dizem que a revelação está toda contida na Sagrada Escritura, Trento diz que a revelação está toda contida em Jesus Cristo, naquilo a que Trento chama O Evangelho, na linha da carta de São Paulo aos romanos.

Algumas leituras de Trento, de facto, marginalizaram de certa forma, pelo menos na piedade do católico normal, nunca na reflexão teológica, propriamente, mas na piedade católica corrente, marginalizaram por vezes a Sagrada Escritura, que o Concílio Vaticano II retoma e reafirma, mas o Concílio Vaticano II retoma e reafirma precisamente na sequência de Trento. Portanto a questão não foi tanto Trento, foi a leitura que depois na prática se fez, seja de Trento, seja da própria dialéctica entre católicos e protestantes. 

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