terça-feira, 12 de novembro de 2013

“Reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor”

Transcrição integral da entrevista ao pastor baptista Tiago Cavaco, acerca dos 450 anos do Concílio de Trento. Notícia aqui.

450 anos depois como é que um protestante olha para o Concílio de Trento?
Pelo facto de o dia da Reforma Protestante ter sido celebrado agora a 31 de Outubro, é difícil falar da reforma sem falar daquilo que Trento significa. Nesse sentido a minha relação com Trento, como protestante, é marcada muito mais por uma referência pela negativa do que por um conhecimento do concílio na sua inteireza, no contexto que terá para a Igreja Católica.

Mas diria que a definição que o concílio veio trazer naquela altura continua a ser importante para marcar as diferenças que continuam a existir. Nesse sentido, apesar de o mundo ter mudado, muito positivamente, no que diz respeito ao relacionamento entre católicos e protestantes, que é melhor e preferível o de hoje, sendo até fraterno, diria que o Concílio de Trento continua a ser pertinente. Essas diferenças de 450 anos continuam a ser importantes para se compreender o Cristianismo no seu todo.

Pode dar alguns exemplos dessas diferenças de que fala?
Ainda o outro dia estava a falar sobre a reforma na Igreja onde trabalho, a Igreja Baptista que se reúne na Lapa, e por exemplo uma das coisas incontornáveis quando se pensa no contributo de Lutero e que depois vem a ser de uma maneira ou outra aprofundado pelas afirmações de Trento tem a ver com a relação com a Escritura.

Uma das coisas que eu dizia é que é óbvio que a relação que os católicos têm com a Escritura é diferente do que era há 450 anos. Hoje, graças a Deus, existe um empenho na Igreja de Roma para a leitura da Bíblia, de maneira nenhuma podemos equiparar Trento com o que é hoje uma busca pela leitura da Bíblia no contexto da Igreja Católica.

Mas mesmo a partir dessa abertura que hoje é diferente, é a partir da leitura da Bíblia que se funda uma das diferenças mais inconciliáveis entre o Catolicismo Romano e o Protestantismo, que tem a ver com a justificação pela Fé e a absoluta incontornável relação do Cristão com a fonte da autoridade máxima. Passados 450 anos a Igreja Católica continua para todos os efeitos a Igreja de Trento, lendo a Bíblia de uma maneira diferente da que os protestantes lêem, como fonte de autoridade principal.

Em relação à justificação, há um documento conjunto entre a Igreja Católica e a Igreja Luterana, pelo menos uma das suas vertentes. Com as Igrejas Baptistas seria possível uma solução desse tipo?
Não me custa, enquanto Baptista, reconhecer o percurso da Igreja Católica no século XX e sobretudo nos últimos anos, de um diálogo frutuoso com outras confissões, sendo o diálogo com esses Luteranos uma prova disso. E mesmo com baptistas. No outro dia encontrei uma pequena afirmação conjunta da Aliança Baptista Mundial com a Igreja Católica Romana.

Creio que é louvável e apreciável essa capacidade demonstrada por ambas as partes de fazer um caminho comum, de qualquer modo creio não ser possível deixar de afirmar que, no que diz respeito à questão da justificação pela Fé, essa própria interpretação varia bastante, mesmo dentro do contexto evangélico e protestante. Isto quer dizer que o facto de alguns luteranos conseguirem chegar a alguns consensos com a Igreja Católica, não é de todo expressivo em relação a toda a largura do movimento Evangélico e protestante.

Por isso, apesar de atribuirmos às vezes quase que romanticamente, a Lutero a reforma protestante, ele é um dos principais mas a partir daí o que se gerou nas igrejas que são herdeiras da reforma vai muito além do que a Igreja luterana pode representar. Como baptista, que neste sentido me considero reformado também, diria que o facto de haver este documento em comum, não é expressivo de todos os outros reformados que, mesmo em relação aos luteranos têm visões não necessariamente conciliáveis em relação à justificação pela fé. A reforma protestante acarreta muita diferença.

O Concílio agravou o cisma com os reformadores?
É difícil que um protestante não ache que num certo sentido tenha agravado, até porque um protestante dirá que a reforma não foi feita contra a Igreja, foi feita a favor. É verdade que até pela própria palavra, protestante, alguém que está contra alguma coisa, que protesta, as pessoas associam isso a um carácter negativo e não à preocupação primordial dos reformadores, que sentiam que o caminho tinha de passar fora de Roma, mas que era a favor da Igreja e não contra ela.

Portanto Trento, necessariamente, acabou por aprofundar as diferenças que se tornavam na altura, e muitas ainda são, insanáveis, para aquilo que os protestantes consideravam ser uma reforma que a Igreja precisava de fazer.

É verdade que 450 anos depois a Igreja Católica, e digo-o fraternamente e num espírito de boa-fé, acabou por dar passos que em muito foram na direcção de coisas que os protestantes estavam a dizer há séculos. Isso serve para provar que a Igreja Católica tem feito um caminho e aprendido com aquilo que eu acho que posso dizer que são os seus erros.

De qualquer modo Trento teve uma função importante no contexto da Igreja Católica, mas que um protestante terá de dizer que foi negativa, pelo menos para a reforma que achamos que a Igreja precisava.

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