sexta-feira, 29 de novembro de 2013

“Defender os ciganos é a quinta-essência do Cristianismo”

Transcrição integral da entrevista a Francisco Monteiro, director executivo da Pastoral dos Ciganos. Notícia aqui.

Como é que se começou a envolver com as comunidades ciganas?
Há 14 anos um dos primeiros directores nacionais da Pastoral dos Ciganos, o Padre Filipe Figueiredo, que já morreu há anos, disse-lhe que estava um bocado mais livre, porque tinha saído de um cargo importante numa universidade, e ele pediu-me para o ajudar a preparar uma exposição internacional da cultura cigana, em 1997, para coincidir com a Expo de Lisboa. Caí na asneira de dizer que sim, mas é claro que não estou arrependido e estou a trabalhar com ciganos, como voluntário, desde então.

A minha experiência com ciganos então era nula. Não conhecia nada. Foi uma aprendizagem a partir do zero.

Mas tinha conceitos, nem que fossem preconceitos…
Tinha aqueles de criança, que em adulto não me afectavam muito. O que ouvíamos em criança, que os ciganos roubavam as crianças, coisas desse género. Mas na fase adulta eram pessoas que se cruzavam comigo. Tinha tido uma paixão muito grande pelos africanos, em Moçambique, onde estive três anos. Mas os ciganos descobri-os rigorosamente em 1997.

Nas conclusões do vosso encontro lê-se que faltam mais iniciativas de actos litúrgicos que envolvam as pessoas de etnia cigana e que se adaptem à sua cultura. Por exemplo?
Faltam mais experiências dessas. Já houve uma em Cuba, no Alentejo, pelo pároco local. Ele decidiu fazer umas celebrações por alma dos ciganos falecidos. Cerimónias pelos mortos, uma coisa a que os ciganos são muito sensíveis. Foram leituras da Bíblia, orações pelos defuntos, uma coisa extraordinária, com um acesso enorme.

Em Lisboa desenvolvemos um projecto chamado Palavra, durante três anos e três anos no Fogueteiro. Um projecto de oração, de meditação da palavra e de esclarecimento da parte espiritual, de evangelização, com o objectivo de preparar ciganos para eles próprios assumirem o papel. Esta última parte é que falhou um bocado, mas a primeira sim, correu muito bem. As pessoas vinham, estavam muito interessadas, houve uns certos conhecimentos do Evangelho, da Bíblia, que foram adquiridos. Tocávamos músicas religiosas, muitas actividades desse género, mas quando as coisas terminaram, terminaram.

A liturgia em África é muito africanizada. As liturgias católicas de rito oriental também são próprias. Não é difícil fazer liturgias adaptadas a ciganos, mas era preciso promover esse tipo de acções.

Celebração evangélica cigana
Seria necessário haver uma maior participação dos ciganos na vida da Igreja, mas a esmagadora maioria dos ciganos não são católicos…
Os ciganos já foram católicos e ainda hoje em dia há católicos. Os que tivemos no encontro são católicos e há católicos que vão regularmente à missa em Lisboa ou noutros sítios. Agora é certo que a maioria, actualmente, passou-se um pouco para a Igreja Evangélica, porque é uma Igreja Cigana. Chama-se mesmo a Igreja de Filadelfia Cigana de Portugal, em que os pastores são ciganos, os cânticos são ciganos, são cânticos para Deus, como dizem, e as regras são ciganas.

É preciso que se diga que a Igreja Evangélica teve uma influência enorme positiva entre os ciganos para os afastar do álcool, da droga, de outros procedimentos errados, foi muito importante e é preciso dizer isso.

A cultura cigana é por natureza religiosa?
É por natureza religiosa. Os ciganos são profundamente religiosos, evidentemente à sua maneira. Os ciganos trazem o seu substrato religioso do Norte da Índia, de onde vêm, e vão-se adaptando às religiões dos países onde passam e onde se estabelecem. Havia uns bastante nómadas, hoje em dia entre nós quase não há nómadas, e por isso chegaram a Portugal e adaptaram-se à religião católica.

Simplesmente a Igreja nem sempre os aceitou bem nem sempre os integrou normalmente, portanto aí não se sentem em casa. Não percebem muito da liturgia. Mesmo os que tivemos no Fogueteiro não iam à missa porque a Igreja da Amora era longe. Depois os scalabrianos construíram uma igreja mesmo no Fogueteiro, mas mesmo assim continuam a não ir. Vão à Igreja de Filadélfia, porque lá as raparigas encontram rapazes para se casarem, etc. A Igreja Católica não lhes diz muito.

Tínhamos de fazer aqui alguma coisa ao nível da Igreja. As cerimónias que tivemos na Amora eram exemplares, porque o pároco em vez de fazer cerimónias separadas só para os ciganos, fê-las integradas nas missas normais, o que foi notável.

Tem conhecimento de algum religioso cigano em Portugal?
Há um, não sei se é padre, que veio de longe e está radicado cá. Mas não se manifesta como cigano. Em Espanha há, mas temos um problema estatístico. Os ciganos em Portugal são 50 ou 60 mil, em Espanha são 700 mil, há muito maior campo de evangelização e facilidade de as pessoas aderirem. Mas é um ponto que nos toca bastante, e que nos faz muita pena, de não haver nenhuma vocação religiosa entre os ciganos em Portugal

Fala-se muito na integração dos ciganos. Os ciganos querem ser integrados?
Os ciganos não querem ser integrados, mas querem ser integrados. Ou seja, eles não querem ser integrados mas querem ser incluídos.

O SOS Racismo fez um inquérito nas câmaras há uns anos, e uma das respostas que obtiveram foi “ciganos sim, desde que sejam iguais a nós”. Os ciganos não querem ser iguais a nós em termos de cultura. Têm a sua cultura própria a que são fortemente fiéis, e muito bem.

A Europa conhece a diversidade cultural e Portugal, que tem uma tradição tão rica de diversidade cultural também o devia aceitar. Eles querem ser incluídos na sociedade, querem ser parte da sociedade, querem funcionar connosco, não querem ser discriminados, e são, sistematicamente, há 500 anos. Expulsos, perseguidos, toda a classe de coisas que depois gera neles um sentimento de autoprotecção e de rejeição da sociedade maioritária onde se inserem.

Eles querem ser incluídos, não querem ser aculturados. Devemos ter respeito pela cultura deles, como disse muito claramente D. Joaquim Mendes, no encontro. Aliás os documentos da Igreja dizem-no claramente, a cultura dos ciganos é rica e tem de ser respeitada. Temos de ir ao encontro.

Dou alguns exemplos. Ao nível escolar havia, e há, o problema da integração das crianças no sistema escolar. Nós tínhamos obrigação de ter um sistema escolar plural, mas não temos, temos um sistema monolítico. As várias experiências que tem havido de adaptar o sistema escolar aos ciganos têm tido pleno êxito, inclusivamente os programas que fazem a ponte entre as comunidades ciganas e as estruturas escolares.

Peregrinos ciganos em Saintes Maries de la Mer
Estamos a falar de programas noutros países?
Estou a falar de Portugal. Temos um programa que é o PIEF, do PIEC, que depende não do Ministério da Educação mas do Ministério da Segurança Social e que tem sido um enorme sucesso. Ainda recentemente tivemos oportunidade de assistir a uma experiência dessas em Évora, na Malagueira, que é a endogeneização do sistema escolar à cultura cigana. Ou seja, a cultura cigana comanda o sistema escolar, ou o sistema escolar adapta-se. Realmente nestes PIEF do PIEC são as próprias famílias que vêm também apoiar a escolarização das crianças e dos jovens. É uma coisa extraordinária, porque demos o passo de dizer, “senhores venham cá”, que é o que se fizéssemos na Igreja também daria resultados.

Para além disto há muita vivência cristã em que a pastoral dos ciganos, quer a nacional quer a das dioceses, faz em relação aos ciganos. No sábado fomos visitar a obra que o Secretariado Diocesano de Lisboa tem na Quinta da Fonte, na Apelação, o famoso bairro que tanto apareceu nas televisões há poucos anos, e que é um trabalho extraordinário de integração dos vários grupos étnicos naquele bairro.

Existe também a ideia de que estamos perante uma cultura extremamente patriarcal, onde a mulher tem um papel subalterno. Não é contraditório querer preservar esta cultura numa sociedade que se quer igualitária?
É uma ideia errada, não é uma sociedade patriarcal, pelo contrário é matriarcal. São as mulheres que transmitem a cultura cigana, os homens observam e protegem a cultura cigana, mas quem verdadeiramente transmite são as mulheres.

Agora, preservar não é preservar as coisas más de uma cultura. As coisas que não batem com a cultura maioritária não podem ser preservadas. Agora, a maneira de ser, a estima que têm pela família… Mas não aquela coisa que eu tanto tenho combatido entre as famílias que conheço, que é deixarem as crianças não irem à escola porque não lhes apeteceu, e eles respeitam as crianças em tudo o que querem, é evidente que isso tem de ser combatido, não há dúvida nenhuma. Mas o respeito pelas crianças e a estima que têm por elas, isso sim temos de aprender com eles. É aproveitar os valores positivos da cultura cigana e tentar que as mentalidades se vão adaptando, o que tem sido feito, realmente.

O estereótipo associa os ciganos à criminalidade, à subsidiodependência, ao tráfego, à venda de artigos contrafeitos etc. É só um estereótipo, ou existe mesmo um problema entre a comunidade? E se sim, como combater?
São as duas coisas. Existem problemas com eles, como existem com qualquer pessoa. Mas aí é que começa o estereótipo. Quando um cigano faz alguma coisa dizem “todos os ciganos fazem”. É como se uma pessoa de alguma terra fizesse alguma coisa e viéssemos dizer que todas as pessoas daquela terra são criminosos. Não estou a exagerar. É tal e qual o que acontece com os ciganos. Recentemente tivemos um caso desses.

Agora, atenção, a comunicação social tem feito um caminho notável contra a estereotipização dos casos com ciganos. Tão notável que quando acontece uma coisa do género dizia-se logo que era de etnia cigana, hoje em dia ainda vão dizendo, mas neste momento acontecem coisas em bairros onde sabemos que vivem muitos ciganos e eu tenho de ligar para lá para saber, porque a comunicação social não associou logo as coisas. A comunicação tem feito isso e muitas outras coisas boas também, por exemplo programas sobre a cultura cigana, sobre as festas ciganas, o que tem sido muito positivo para mostrar que as populações ciganas são muito melhores do que as pessoas pensam que são.

São pobres, na maioria vivem muito mal. Mas a subsidiodependência é mentira, a esmagadora maioria das pessoas que recebem o rendimento social de inserção não são ciganas. Depois há crimes, como cortarem sem qualquer razão o rendimento mínimo a uma família que conheço de 12 pessoas, algumas crianças e bebés. Isto são crimes que nós cometemos contra alguns ciganos.

A recente história da menina “Maria”, na Grécia, prejudicou o vosso trabalho?
Para ser franco, foi positivo para os ciganos, porque isso foi desmontado. Foi descoberto que a criança não tinha sido roubada àquela família irlandesa, pelo ADN que a criança era mesmo cigana e tinha sido mesmo uma família albanesa que a tinha dado a uma família grega, por não a poder criar. Foi um caso miserável da parte da comunicação social, que assumiu como facto uma situação completamente falsa. Assumiu, mas depois não a desmentiu com a mesma força com que assumiu. Essas coisas falsificam a imagem e revoltam e afastam as pessoas, contribuem para as pessoas não serem compreensivas e interculturais. Como D. Joaquim disse no encontro anteontem, rejeitar é pecado. Não pode ser assim.

Beato Zefferino Giménez
Primeiro beato cigano
Os ciganos que vieram de outros países vieram desestabilizar a vida dos ciganos em Portugal?
Eles não se dão muito, embora tenhamos tido um projecto com os ciganos romenos em 2002 que foi operacionalizado por duas ciganas portuguesas, duas irmãs. Foi um projecto relativamente curto.

Os ciganos romenos têm a sua própria história na Roménia, que trazem com eles. É completamente diferente dos nossos neste momento, os nossos também já andaram a pedir, agora de uma maneira geral não o fazem, dedicam-se à venda e a outras coisas.

Veio realmente prejudicar a imagem dos ciganos portugueses que estão cá. Não se reconhecem muito neles. Os ciganos romenos têm uma cultura até bastante boa, conseguia falar normalmente com eles em inglês, mas é um fenómeno à parte, tem de ser tratado à parte.

O Papa Francisco tem tido várias vezes que a Igreja não é uma ONG e que o trabalho social deve ser acompanhado de evangelização. Tendo em conta que os ciganos são na maior parte evangélicos, faz-se alguma coisa no sentido de evangelizar e procurar aproximá-los da Igreja Católica?
Temos os projectos que já mencionei, temos secretariados em todo o país. Tem havido essa proximidade. O Sr. D. Joaquim disse muito claramente que a Igreja primitiva é uma Igreja que foi de caridade e a seguir de evangelização.

A Santa Sé, nos seus documentos, diz sempre que a evangelização não pode ser divorciada da acção social. Quando nós defendemos os direitos dos ciganos, quando há um problema desse tipo e nós o denunciamos, quando intervimos em projectos para defender os ciganos, estamos a dar um testemunho nosso, cristão, perante uma população que é muito carente, que está entre aquela população que o Papa Francisco menciona como os mais marginais, estamos com eles, a ajudá-los a serem eles próprios a reagirem contra a marginalidade. Isto é o Cristianismo na sua quinta-essência, verdadeiramente.

Qual é a sua formação
Sou de filosofia, de pedagogia, educação, teologia também. Trabalhei durante muitos anos na banca e trabalhei sempre bastante na evangelização e acção social sob todas as formas.

É casado?
Sim.

Tem filhos?
Sim

Eles acompanham esta sua paixão pela cultura cigana?
Acompanham no sentido em que empatizam e simpatizam com esta minha actividade.

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