Thursday, 7 July 2022

Hospital de Campanha - Episódio 8: A Crise na Saúde

Foi preciso esperar nove episódios, mas no Hospital de Campanha desta semana temos finalmente um médico a sério em estúdio. 

O José Diogo Ferreira Martins é um crente no SNS, mas isso não o impede de fazer um diagnóstico pessimista ao SNS. O também presidente da Associação de Médicos Católicos fala também das ameaças à objecção de consciência, dos desafios de se viver no mundo da medicina com fé e da forma como a pandemia afectou os cuidados espirituais nos hospitais. 

Foi uma excelente conversa, vale bem a pena ouvir!


Wednesday, 6 July 2022

“Nulla Scriptura”

Michael Pakaluk

Os católicos conhecem o argumento de que a “sagrada tradição” é necessária como regra de fé juntamente com a Sagrada Escritura. Não é verdade que é preciso a autoridade da Igreja para determinar o que constitui Escritura (o Cânone)? Aqueles que rejeitam a ideia da existência da autoridade da “sucessão apostólica”, que é explicada na tradição (Clemente de Roma, Inácio de Antioquia), afirmam precisamente que não está nas Escrituras.

Logicamente a Escritura não pode determinar o seu próprio Cânone. Mais, a doutrina protestante da “sola scriptura” (só Escritura) é contraditória, pois ela também não está nas Escrituras.

Mas o que podemos dizer da ideia mais provocatória de que a tradição não só é necessária, como devia até ser suficiente, e que a Escritura devia ser desnecessária? Chamemos-lhe “nulla Escritura” (“sem Escritura”).

Esta visão aparece de forma embrionária no tratado do dominicano Melchor Cano, Fontes Teológicas (De Locis Theologicis, Salamanca, 1562). Cano argumenta, e bem, que a Igreja é anterior à Escritura; que o Senhor não escreveu qualquer livro, nem mandou os Apóstolos escrever livros, mas antes que os mandou pregar, e que muitas questões em que os cristãos têm de crer, como a existência de três pessoas numa só natureza, não estão explícitas nas Escrituras.

Depois refere que Paulo e João, nas suas epístolas, referem os ensinamentos que transmitiram oralmente, mas que não foram escritos, acrescentando que São Pedro escreveu duas epístolas, mas sabemos que ele esteve sete anos em Antioquia e outros 25 em Roma:

Devemos então acreditar que ele não ensinou nada por palavras para além daquilo que deixou por escrito nestas duas epístolas? Como é que é possível? E não é verdade que André, Tomé, Bartolomeu e Filipe fundaram igrejas nos lugares para onde foram enviados, e onde permaneceram, na continuidade da nossa fé e da nossa religião, apenas com base nas palavras e sem quaisquer escritos? Reconheçamos então – nem se pode negar – que a doutrina da fé, na sua totalidade, não está resumida ao que está escrito, mas chegou-nos em parte nas palavras que radicam nos apóstolos.” [Ênfase minha]

A frase é mesmo essa, “sem quaisquer escritos”. Essa foi a condição da Igreja primitiva durante pelo menos trinta anos.

Entretanto encontrei esta mesma posição explanada em mais detalhe na maravilhosa série de 90 homilias sobre Mateus de São João Crisóstomo. Começa assim:

O ideal seria nem precisarmos da Palavra escrita, mas exibir uma vida tão pura que a graça do Espírito devia estar antes nas nossas almas do que nos livros, e que tal como estes estão inscritos com tinta, também os nossos corações deviam estar inscritos com o Espírito. Mas uma vez que afastámos de tal maneira de nós esta graça, pelo menos que nos valhamos da segunda hipótese.

O Santo mostra como Deus falou de modo familiar com Noé, Abraão, Job e Moisés, sem escritos. Mais, a Palavra Incarnada não deixou escritos aos Apóstolos, como poderia ter feito, mas antes lhes prometeu e concedeu o Espírito.

Mas então porque é que temos as Escrituras? Pela mesma razão, diz, que Moisés trouxe as tábuas da Lei, por causa da nossa maldade: “uma vez que, passados os anos, naufragámos, uns em relação à doutrina, outros em relação à vida e às maneiras, houve novamente a necessidade de que fossem recordados pela palavra escrita”.

Tudo isto apenas sublinha a importância actual, diz Crisóstomo, de estudar a Escritura: “Reflictam então sobre como é um grande mal para nós, que devemos viver de forma tão pura que nem precisamos de palavras escritas, entregando os nossos corações, como livros, ao Espírito; agora que perdemos essa honra, e temos necessidade delas, voltarmos a falhar em fazer bom proveito até deste segundo remédio”.

E acrescenta, para encorajar ainda mais o seu rebanho: “Se estamos em falha por precisar do auxílio de palavras escritas, e não termos feito descer sobre nós a graça do Espírito, então considerem quão grave será a acusação de optar por não lucrar até com este auxílio, mas antes tratar com desprezo aquilo que está escrito, como se fosse uma obra sem propósito, aleatória, invocando sobre nós um castigo ainda mais duro”.

Tudo isto faz sentido. O Espírito está connosco, tão certo como o Filho estava connosco na Fundação da Igreja. Mas porque é que a Sua presença, que em princípio nos devia bastar, não nos basta na prática?

Não podemos regressar às primeiras décadas da Igreja, mas podemos pensar na vida cristã como estando estratificada. Imaginem, primeiro, que tudo o que está escrito nos era retirado. Não só a Bíblia, mas todos os escritos dos Concílios, isto é, a tradição entretanto escrita. Continuamos com consideráveis riquezas. Tiramos delas o melhor proveito?

O que é que quero dizer com isto? Quero dizer que conhecemos o Credo, as orações mais básicas, o terço. Podemos ir ao sacrário e rezar diante do Senhor. Logo veremos que precisamos de rezar muito mais, para nos tornarmos mais familiares com Deus. E que devemos praticar a mortificação, para criar aberturas para o Espírito.

Temos os exemplos dos santos, cujas vidas conhecemos. Provavelmente temos conhecimento de milagres entre os nossos amigos. Mesmo a existência de bispos, seja qual for a sua santidade, testemunha a realidade da fundação da Igreja. Qualquer padre é um testemunho da instituição da Eucaristia.

E temos os sacramentos.

Tente viver assim no Espírito. Agora acrescente a Escritura e a tradição escrita. Claro que estes estratos não são temporais, nem isoláveis, mas cada um tem por objectivo complementar o outro.

Podemos até argumentar que o conceito de “sola scriptura” apenas poderia parecer uma regra necessária para os reformadores protestantes porque os católicos daquela altura claramente não estavam a viver de forma suficiente a fé “nulla scriptura”.


Michael Pakaluk, é um académico associado a Academia Pontifícia de São Tomás Aquino e professor da Busch School of Business and Economics, da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, com a sua mulher Catherine e os seus oito filhos.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 6 de Julho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 



Tuesday, 5 July 2022

Temas de Ética - Reflexões e Desafios

Foi um enorme privilégio ser convidado para escrever um capítulo do livro "Temas de Ética - Reflexões e Desafios", publicado recentemente pelo Movimento Acção Ética.

O livro contém 14 capítulos sobre variados temas, o meu explora a ética no jornalismo e nas redes sociais. Sem pretensiosismos, procuro abordar o assunto da perspectiva prática, apontando alguns dos pontos principais a ter em conta num assunto cada vez mais importante. 

O livro está à venda nas livrarias e através do site do MAE. Toda a informação aqui.

Outros temas abordados no livro são a objecção de consciência, relações internacionais, desporto, política e medicina. Podem ler o índice aqui.

Lista completa de autores: André Azevedo Alves, Isabel Almeida e Brito, Filipe Almeida, Filipe d’Avillez, José Carlos Lima, João César das Neves, José Manuel Moreira, Manuel Monteiro, Margarida Góis Moreira, Margarida Machado Gil, Margarida Mateus, Maria da Glória Garcia, Maria do Céu Patrão Neves, Marta Lince Faria, Paulo Otero, Pedro Afonso e Pedro Vaz Patto, assinam os catorze artigos, a maioria a título individual, alguns em co-autoria.

Thursday, 30 June 2022

Uma mão cheia de mártires e a "maneira católica"

Anjo das crianças de rua
Esta foi uma semana triste para os padres católicos no mundo. Dois foram assassinados na Nigéria no mesmo fim-de-semana, e outros dois no México, situação lamentada publicamente pelo Papa. Estamos a falar de dois dos países onde é mais perigoso ser-se sacerdote.

Também no fim-de-semana uma freira italiana foi assassinada no Haiti. Era conhecida como o “anjo das crianças de rua”. Outra freira que foi raptada no Burkina Faso há mais de 70 dias continua desaparecida.

Entretanto o mundo continua a reagir, de diferentes formas e feitios, à notícia da revogação do Roe v. Wade, nos EUA. Algumas pessoas estão a reagir com fúria, prometendo vingança contra todos os que contribuíram para este resultado, incluindo Igrejas católicas e centros de apoio a grávidas em risco. Como se responde a este tipo de ameaça? Randall Smith explica que gostaria de responder “à maneira de Chicago”, prometendo retaliação em dobro por cada acto cometido. Mas claro que não pode ser assim. Há outra maneira, a “maneira católica”, e é muito diferente. Leiam que vale a pena.

Já a semana passada tinha enviado uma série de links para artigos que ajudam a compreender o alcance desta decisão. Um dos links, contudo, estava errado. Por tal peço desculpa. O meu artigo, escrito ainda antes da decisão formal, que explica o que muda, o que não muda e como tudo isto nos pode afectar a nós, na Europa, está aqui.

Se ainda não ouviram, não deixem de escutar o episódio da semana passada do podcast Hospital de Campanha, em que falámos sobre as nomeações de novos cardeais, os 20 anos de independência de Timor Leste e os desenvolvimentos eclesiais na Ucrânia. Para a semana há novo episódio!

Wednesday, 29 June 2022

A Maneira de Chicago versus a Maneira Católica

Randall Smith

Quem decidiu divulgar a sentença do caso Dobbs na Solenidade do Sagrado Coração de Jesus foi um génio. O padre que celebrou a missa a que fui nesse dia não conseguia disfarçar a alegria com este maravilhoso dom. Suponho que essa alegria tenha sido um pouco amainada quando uma mulher entrou aos gritos na Igreja, na altura em que ele preparava a Eucaristia para a adoração, nessa tarde. Felizmente, conseguimos afugentá-la, e quando saí encontrei o nosso padre dominicano a falar com ela de forma calma, mas firme, no adro da Igreja.  

Há quem esteja zangado. Muito zangado. Como escreveu um amigo: “Os democratas não estavam tão zangados desde que Lincoln libertou os seus escravos e o Supremo Tribunal acabou com a segregação das suas escolas públicas”. Quando esses “direitos” lhes foram negados – “direitos” baseados, então, como hoje, na negação da plena humanidade de outros seres humanos – essas pessoas ficaram mesmo muito zangadas.

Tal como muitas outras pessoas, estou preocupado com o aumento das ameaças às igrejas católicas e aos centros de apoio a grávidas em crise. Houve pelo menos sessenta e três destes ataques desde que um rascunho da sentença de Dobbs foi divulgado há várias semanas. Um grupo chamado “A Vingança de Jane” está a apelar à participação em motins no que chamou um “Verão de Ira”. O seu lema é: “Aos nossos opressores: se o aborto não for seguro, vocês também não estarão”.

Como devemos responder?

Eu quero dizer o seguinte:

Ouçam lá, Vingança de Jane. Se os centros de apoio a grávidas em risco não estão seguros, vocês também não. Se gostam de dar, também vão levar, faz parte das regras do jogo.

Pensam que estão zangados? Há cinquenta anos que, pacifica e pacientemente, vivemos com um regime opressivo de aborto, sem qualquer capacidade de nos fazermos ouvir no sistema democrático que nos foi deixado pelos nossos fundadores, tentando, de todas as formas legais, proteger a vida intrauterina.

Por isso aqui fica um recado para os nossos opressores. Por cada um dos nossos que cair, caem dois dos vossos. É a “maneira de Chicago”.

Talvez se recordem dessa cena do filme “Os Intocáveis” em que o inestimável Sean Connery diz a Eliot Ness, protagonizado por Kevin Costner: “Queres apanhar o Capone? É assim que se faz. Ele puxa de uma navalha, tu puxas de uma pistola, ele envia um dos teus para o hospital, tu envias dois dos dele para a morgue. À maneira de Chicago”.

Para nós, Vingança de Jane, vocês são o Capone. Porque, sejamos honestos, é mesmo isso que vocês são: rebentam com crianças inocentes no útero, e ganham dinheiro com isso. Mantêm as mulheres reféns até pagarem. Os centros de apoio pró-vida oferecem serviços médicos, mas vocês incendeiam-nos para que as mulheres fiquem sem outras opções.

Por isso, Vingança de Jane, ouçam este conselho. Vocês não querem declarar guerra a um povo que tem uma tradição de mártires e que tem lutado para proteger os nascituros diante de oposição constante ao longo de cinquenta anos. Especialmente porque é claro que não passam de meros cobardes que gostam de fazer vandalismo adolescente a meio da noite e que ameaçam os filhos dos juízes do Supremo Tribunal. Ui, que corajosos.

É isso que eu quero dizer, mas não é isso que eu devo dizer. Porque a “maneira de Chicago” não é “a maneira americana”. Nem é a “maneira católica”.

Comecemos com a “maneira americana”, que demasiadas pessoas parecem ter esquecido.

Eu tinha um aluno magnífico que certa vez concluiu que existia uma injustiça na nossa universidade.

“Muito bem, e o que pretendes fazer sobre o assunto?”, perguntei.

“Organizar uma manifestação?”, respondeu.
“Essa é a tua primeira opção? E que tal votar? E que tal seres eleito e trabalhares pela mudança, mudando os corações e o espírito dos teus colegas?”

“Ah, pois é”, disse, mas sem estar completamente convencido.

A participação cívica e o governo democrático tornaram-se a última coisa em que as pessoas pensam hoje em dia, quando devia ser a primeira. Essa é a maneira americana.

E que dizer dos outros, com as suas t-shirts pretas e máscaras, que partem vidros e lançam cocktails Molotov? São fascistas. Pesquisam “camisas negras em Itália” e vejam o que aparece. Pesquisem “Kristallnacht”. Estão a ver quem é que usa camisas negras e parte vidros?

Agora vejam vídeos dos motins que se realizaram quando os primeiros alunos negros foram escoltados para a Universidade do Alabama, em 1963. Verão raparigas brancas com saias de feltro e meia curta a gritar aos altos berros, com ar de quem está prestes a morrer.

Vejam imagens dos protestos passivos de negros nos restaurantes segregados: pessoas a gritar, a fazer birras, a entornar bebidas e a atirar comida aos alunos pacíficos que se encontram sentados ao balcão. Os fascistas são assim. Tal e qual os manifestantes pro-aborto enraivecidos à porta do Tribunal.

Eu não levo a mal as pessoas que discordam com a sentença do caso Dobbs, mas não faz qualquer sentido dizer que uma decisão que leva o assunto de volta aos eleitores representa “a destruição da nossa democracia”.

Devolver um assunto aos eleitores é “antidemocrático”? Pessoas com t-shirts pretas e máscaras a vandalizar propriedade são antifascistas? Claro. E “guerra é paz”, “liberdade é escravatura” e “ignorância é força”.

Mas não se deixem enganar: todas estas medidas políticas, por mais importantes que sejam, não são as nossas principais armas. As nossas principais armas são o que sempre foram: oração, jejum, esmola, sacrifício pessoal, coragem, paciência, apoio incansável para mulheres e crianças necessitadas, e esforços pacíficos para converter mentes e corações.

Essa é a maneira católica. Foi assim que chegámos onde estamos. É nisso que temos de confiar enquanto caminhamos para um futuro incerto. Podemos alegrar-nos, mas o trabalho em prol dos bebés por nascer deve intensificar-se.

Os nossos opositores já deixaram bem claro o que pretendem. Deixemos também nós bem claro o que queremos. Estamos dispostos a qualquer sacrifício, sofreremos qualquer indignidade, e trabalharemos sem descanso e sem retribuição para proteger estas crianças e as suas mães. Diremos: “Se nos tirarem um, construiremos outros dois”. “Obriguem-nos a carregar este fardo durante uma milha, e carregá-la-emos durante duas”.

Essa é a maneira católica.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 28 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 23 June 2022

Hospital de Campanha - Episódio 7: Novidades cardinalícias

O Papa Francisco nomeou uma série de novos cardeais, que vão ser elevados ao cargo no próximo mês de Agosto. Neste episódio analisamos essas nomeações e o que significam à luz do pontificado de Francisco. 
Nesta lista não consta nenhum português, mas há muito de interesse para Portugal nos nomeados!

Um dos novos cardeais vem de Timor Leste, é o primeiro deste país. Este facto serve de ponto de partida para falar um pouco sobre os 20 anos da independência do mais novo país lusófono do mundo. 

Por fim, alguns minutos para falar das novidades sobre as Igrejas ortodoxas na Ucrânia e na Rússia, onde se registaram mudanças importantes nas últimas semanas. 


Tuesday, 21 June 2022

A Visão Profética de Samuel Alito

David F. Forte
Em breve saberemos se o rascunho da sentença de Samuel Alito no caso Dobbs v. Jackson Women’s Health Organization sobrevive enquanto opinião maioritária e ganha força de lei. Aconteça o que acontecer, o rascunho de Alito permanecerá como uma das maiores e mais corajosas decisões alguma fez redigidas por um juiz do Supremo Tribunal. É um documento purificador, que limpa muitos dos argumentos pretensiosos e errados feitos pelo Tribunal no passado.

A opinião é profética – no sentido clássico do termo. Frequentemente usamos a palavra profecia como sinónimo da previsão do futuro. Mas na Escritura os profetas não eram principalmente videntes, embora alguns emitissem avisos sobre o que aí vinha (Jonas ao povo de Nínive), ou afirmações sobre as coisas grandes e boas que Deus preparou (Isaías sobre a vinda do Messias).

O profeta não é, por isso, um leitor de sinas, mas aquele que diz a verdade. Ele dirige-se àqueles que se encontram apaixonados pelo seu próprio poder, tão envolvidos pela sua própria vontade ilimitada que cometem pecados graves. Foi nesse tom que Natã falou a David, que Eliseu desafiou Acab, Ester expôs Hamã e João Baptista condenou Herodes. Por sua parte, Alito expõe (de forma mal-educada, segundo os seus críticos) a sobranceria de Harry Blackmun, autor da sentença Roe v. Wade, que não só inventou um “direito” que não tem qualquer base na história ou na Constituição, mas apresenta também uma análise da gravidez que não tem lógica interna nem qualquer relação com a realidade médica.

Nas Escrituras os profetas não eram conhecidos pela sua linguagem polida. As palavras de Eliseu eram “como uma fornalha ardente”. De igual modo, o juiz Samuel Alito há muito que é conhecido por expor os factos por detrás de um caso, por mais feios ou chocantes que possam ser.

Em Stevens v. United States, por exemplo, na qualidade de único dissidente, Alito descreveu os gritos aflitos de um gatinho a ser morto num vídeo pornográfico “crush”*, apesar de a maioria ter revogado a lei do congresso que proíbe tais vídeos, com base na Primeira Emenda da Constituição.

Em Brown v. Enterntainment Merchants Association falou de jogos de computador em que: 

Dezenas de vítimas são mortas com qualquer utensílio imaginável, incluindo metralhadoras, caçadeiras, bastões, martelos, machados, espadas e motosserras. As vítimas são desmembradas, decapitadas, esventradas, imoladas e cortadas aos pedaços. Gritam em agonia e imploram por misericórdia. O sangue escorre, salpica e acumula. Partes de corpo decepadas e pedaços de restos mortais são exibidos de forma gráfica.

O Tribunal acabou por abolir uma lei que proibia a venda de tais jogos a menores e Alito votou com a maioria, mas apenas porque uma parte da lei era pouco clara.

E em Snyder v. Phelps protestou contra a protecção que a maioria decidiu dar a manifestantes em enterros de soldados mortos em combate, com cartazes como “Deus odeia-te”, “Vais para o Inferno”, “Deus odeia maricas” e “Maricas condenam nações”.

Mais do que qualquer outro juiz de memória recente – certamente mais do que o juiz Antonin Scalia – Alito condena o mal moral que é causado por raciocínios judiciais desnecessariamente rígidos: o mal moral da crueldade cometida contra animais, de permitir a jovens que se mascarem de assassinos em série, de permitir que pessoas maliciosas transformem a dor de um pai enlutado em agonia ou, no caso de United States v. Alvarez, de deixar que alguém roube a honra de heróis caídos, fingindo ser detentor de uma Medalha de Honra.

Referindo-se ao aborto como “uma questão moral profunda”, Alito volta a ir à essência do propósito da lei.

Em Dobbs, o tom de Alito deve-se à sua discordância com muitos dos seus colegas que desprezaram a sua vocação em nome do poder, chegando a consagrar esse mesmo poder em fórmulas solipsistas como a “passagem mistério” do juiz Kennedy**.

Alito “endireita as sendas” até à verdade, descartando pelo caminho os falsos ídolos que o Tribunal ergueu para justificar o direito a matar o inocente, e – por isso – ferindo gravemente o próprio Tribunal e dividindo a nação em facções ferozmente opostas.

Samnuel Alito

Não deixa nenhuma falsidade por revelar:

• A análise da história do aborto em Roe “varia entre o constitucionalmente irrelevante (…) e o simplesmente incorrecto”. De facto, a história revela que o aborto sempre foi tratado na lei como algum tipo de mal.

• “A Constituição não faz qualquer referência ao aborto, e tal direito não está implicitamente protegido por qualquer provisão constitucional”.

• A sentença maioritária em Planned Parenthood v. Casey modificou muito a sentença de Roe, enquanto afirmava, contraditoriamente, que estava a sustentá-la.

• “Roe estava profundamente errada desde início. A sua lógica era excepcionalmente fraca e a sentença tem tido consequências danosas”.

• Em vez de pôr fim à discussão, como o Tribunal presunçosamente afirmava, a sentença Roe v. Wade “inflamou” a questão e tornou-a ainda mais “amargamente divisiva”.

• Não existe direito de igualdade de protecção ao aborto, uma vez que a regulamentação do aborto não é uma classificação feita com base no sexo.

• A regra do respeito pelos precedentes não justifica manter esta sentença tão profundamente cheia de falhas.

• O conceito de viabilidade fetal é indeterminado e “nada tem a ver com o estatuto de um feto”.

• A questão essencial a tratar pelo legislador é saber se está em causa um ser humano. Nenhum dos precedentes citados pelo lado contrário toca nesta questão.

O juiz Alito conseguiu separar o trigo do joio. Mas um profeta não é um líder, um juiz não é um legislador. Não lhe cabe, em sua opinião, fazer a travessia para a terra prometida onde a vida intrauterina é protegida por lei. O seu sentido de vocação impele-o a ficar do seu lado do rio, mas indica o caminho para os Estados e para o povo.

Os legisladores, diz ele, só precisam de dar um passo racional para proteger aqueles bens morais que são do mais elementar senso comum:

respeito por, e protecção de, vida prenatal em todos os estágios de desenvolvimento; a protecção da saúde e segurança materna, a eliminação de procedimentos médicos particularmente grotescos ou bárbaros; a preservação da integridade da profissão médica; a mitigação da dor fetal; e a prevenção da discriminação com base em raça, sexo ou deficiência.

Se a opinião de Alito se tornar lei, como é que os americanos vão responder ao seu desafio? Alguns farão certamente como David fez com Natã, e escutá-lo-ão. Outros, como Herodes, tentarão cortar a cabeça ao profeta.

* Se, como eu, não fazia ideia o que é um filme “crush”, este artigo faz uma descrição bastante simples e, felizmente, não gráfica [NT].

** Refere-se a uma expressão que ficou conhecida na decisão Planned Parenthood v. Casey, em que o juiz Anthony Kennedy escreveu: “No cerne da Liberdade está o direito a definir o nosso próprio conceito de existência, de sentido, do universo e do mistério da vida humana”. Esta passagem tem sido ridicularizada desde então por conservadores, tendo sido definida por um como “jurisprudência new age” [NT].


David Forte é Professor Emérito na Universidade Estadual de Cleveland e faz parte do Conselho de Académicos na James Wilson Institute.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Terça-feira, 21 de Junho de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

 

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