quarta-feira, 15 de julho de 2015

Fé: Luz Espiritual que Ilumina a Mente

Randall Smith
Recentemente uma das minhas alunas estava a ler um livro que dizia que a fé é “uma luz espiritual que ilumina a mente” e que “vemos através dessa luz”. Perguntou-me o que é que isso queria dizer. O que é uma “luz espiritual” e como é que pode “iluminar a mente?”. “Sei que ‘luz’ é apenas uma metáfora, mas não deixa de me parecer um pouco vago. Do que é que o autor está a falar?”

Consideremos o seguinte caso, disse-lhe. Digamos que há uma jovem rapariga que sofre de depressão crónica e que, desde muito nova, tem problemas com a sua imagem corporal. Ela pensa que é gorda e feia, mas não é. Na verdade, é capaz até de ser demasiado magra para o seu bem, mas é até bastante atraente.

Agora digamos que esta jovem mulher recebe ajuda de um bom psicólogo e/ou que responde da melhor forma ao amor de um pai, de uma amigo ou do seu marido. E digamos que depois desta alteração na sua disposição, quando se olha ao espelho, já não se vê como gorda e feia, apesar de o seu índice de massa corporal estar exactamente na mesma. Por alguma razão ela agora já acredita, ao contrário de antes, no seu marido, ou na sua mãe ou nos amigos, quando estes lhe dizem “não és gorda, és linda”. Antes até lhe custava ouvir tais palavras.

Como é que descreveríamos esta nova visão que a jovem passou a ter de si mesma, e de si em relação ao mundo? Que tal uma espécie de “luz espiritual” que lhe “iluminou a mente?”

Porquê esta descrição? Porque antes ela estava convencida na sua mente que era gorda e feia. Ninguém lhe poderia demonstrar o contrário. Por isso a mudança não foi puramente intelectual. Ninguém lhe deu novas provas; ninguém lhe mostrou fotografias que antes não tinha visto. A mudança aconteceu nalgum lado dentro dela que não apenas o intelecto. Não foi apenas uma mudança na sua mente; foi uma mudança em toda uma atitude para consigo mesma e em relação a outras pessoas e ao mundo.

Onde antes tinha existido uma espécie de desespero porque as coisas nunca seriam diferentes, agora existe uma esperança. Não se trata de um sonho ilusório e impossível (como eu dizer, por exemplo, que um dia seria capaz de jogar no NBA), mas uma esperança baseada numa nova percepção da realidade das coisas como verdadeiramente são. Não dizemos apenas que ela “espera” que não seja gorda. Não, ela vê a verdade de que não é gorda, coisa que antes não era capaz de ver, nem de imaginar. Podemos dizer, por isso, que esta nova “luz espiritual” lhe “iluminou” a mente, de forma a que ela consegue agora ver com os seus olhos e compreender com a sua mente a sua verdadeira imagem e o seu verdadeiro valor, que antes estavam abafados por uma ilusão.

Poderá ser que esta nova capacidade de se ver a si mesma e ao mundo se tornou possível porque finalmente acreditou no amor de um amigo, ou do seu marido, ou por alguma razão que ela provavelmente não consegue explicar. Ou talvez se trate de algo para além da “razão”, pelo menos de acordo com o que ela considerava “razoável”. E esta nova “visão” de si mesma e do mundo, que se tornou possível por ter dito finalmente que “sim” ao amor, também abriu as portas a uma nova esperança e à capacidade para amar de forma mais completa. Na verdade, se calhar ela simplesmente disse a si mesma: “Prefiro dizer que sim à realidade do amor e a tudo o que isso promete em vez de dizer que não e permanecer presa na triste realidade que me convenci a mim mesma que é a única que poderia possivelmente existir.”

Este dizer que “sim” na esperança da promessa da realidade que o amor pode tornar possível é aquilo a que os cristãos chamam “fé”. Não é apenas um acto de vontade: Não me limito a querer acreditar naquilo que é impossível. Antes, é uma nova visão do intelecto, uma luz espiritual nova na qual nos conseguimos ver a nós mesmos e ao mundo de forma mais clara, uma visão que se torna possível dizendo “sim” ao amor e à sua promessa daquilo que pode vir a ser, mas ainda não é.

Seria bom se, quando lidamos com jovens deste tipo que se convenceram de que são feias, pudéssemos simplesmente fornecer-lhes provas no sentido contrário. Mas por alguma razão, na maior parte das vezes, o “sim” da fé, esperança e amor precisam de vir primeiro. Este tipo de pessoa não começa por ver a verdade e depois decide, com base em critérios racionais, a amar-se a si mesmos e aos outros. Primeiro têm de aceitar a realidade do amor e depois deixá-lo desabrochar num novo tipo de esperança que lhes permite ver a realidade como ela é verdadeiramente.

Se duvida que o amor torna possível uma visão mais verdadeira e clara da realidade – sobretudo da realidade das pessoas – do que teria sido possível de outra forma, então é porque não passou tempo suficiente a ouvir mães a falar dos seus filhos. Sobretudo, digamos, a mãe de um filho com Trissomia XXI. Tanto quanto consigo ver (não sendo uma daquelas pessoas que se baba por bebés), se não pudesse ver com os olhos de um amor que é capaz de olhar para além das evidências e com uma esperança por possibilidades que ainda não estão presentes (ou que nem parecem muito prováveis), aquela mãe não estaria a apostar a sua vida no futuro destas crianças.

Mas é isso mesmo que as mães fazem, todos os dias.

O que é que elas vêem nestas crianças que eu não vejo? Provavelmente o mesmo que os santos vêem no mundo e nas outras pessoas que o resto da humanidade não vê: A graça amorosa de Deus em acção, tornando possíveis realidades que mal podemos conceber e que na maior parte das vezes nem conseguimos imaginar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 1 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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