quarta-feira, 22 de julho de 2015

A Transcendência Passa Pelo Lar

James V. Schall S.J.
Num artigo chamado “A próxima guerra cultural”, publicado no New York Time, no passado dia 30 de Junho, David Brooks nota que o Cristianismo está em rápido declínio, se não mesmo em vias de eliminação. O seu termo para descrever o que resta – conservadores sociais – é infeliz. Tal como Chesterton anteviu há mais de 100 anos, este resto será composto por “hereges”. Só eles terão a coragem de afirmar que a relva é verde, ou que casamento é casamento, e não, segundo a nossa percepção voluntarista da realidade, aquilo que nós queremos que seja. “A revolução sexual não será desfeita tão cedo. O desafio mais prático passa por reparar uma sociedade atomizada, sem compaixão e inóspita”, escreve Brooks, num tom que recorda claramente o Papa Francisco.

Depois de ler o artigo de Brooks, acabei de ler o livro de Daniel James Brown, “The Boys in the Boat”, um relato dos oito tripulantes que ganharam a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Na nota de autor, Brown escreve: “Por fim, este é, em muitos sentidos, um livro sobre a longa viagem de um jovem de volta ao lugar a que chama casa; escrever esta história recordou-me novamente que ninguém é mais abençoado no seu lar do que eu”. Brown é casado e tem duas filhas.

Não pretendo fazer aqui uma crítica a este excelente livro. Há um clube de leitores em Maryland que diz que todos os habitantes do Estado o deviam ler. É um bom conselho. Mas seja como for que se vê este livro, é claramente contra-corrente. Hesito dizê-lo com medo de que hesitem lê-lo.

Brown presta particular atenção à vida familiar de Joe Rantz, o herói do livro, e à vida dos outros rapazes tripulantes, bem como aquilo que lhes acontece até às suas mortes. Todos menos um casam, têm filhos, lares, memórias. O livro depende em grande parte das memórias da filha de Rantz. É um livro sobre homens, homens bons e novos que, como muitos turistas de visita à Alemanha pela primeira vez, bebem demasiada cerveja. Mas é também um livro sobre mulheres, filhas, irmãs e mães, nenhuma das quais remava. É um livro que compreende o casamento, a sua relação aos sexos, a filhos, a pais e mães. Relações que podem ser, por vezes, agonizantes, mas não existem dúvidas sobre o que deviam ser.

O protagonista filosófico do livro é um inglês chamado George Pocock. Cada capítulo começa com uma afirmação de Pocock sobre a majestade do remo. Pocock é o construtor dos melhores skiffs de cedro de oito lugares. É também uma figura importante na sede da tripulação na Universidade de Washington, onde constrói e vende os seus barcos. O drama do livro está centrado em Joe Rantz, um dos principais remadores da tripulação. A sua vida familiar foi afectada pela morte da sua mãe e o segundo casamento do seu pai, que resultou em quatro meios-irmãos e irmãs. Para todos os efeitos o seu pai e a sua madrasta abandonaram-no quando ainda era rapaz.

Ao analisar a psicologia de Joe e o seu enquadramento na equipa, Pocock chega à conclusão que o que o incomoda é a sua relação difícil com o seu pai que, como Joe, é muito pobre. Esta é uma das passagens centrais do livro:

O facto de a mãe de Pocock ter morrido seis meses depois de ele ter nascido ajudava. A segunda mulher do seu pai morreu poucos anos depois, antes de George ter idade sequer para se lembrar dela. Ele sabia bem o que era crescer numa casa sem mãe, do buraco que isso deixa no coração de um rapaz. Conhecia bem aquela vontade incessante de se tornar completo, esse desejo infindável. Lentamente, começou a compreender a essência de Joe Rantz.

Mas que coisa estranha esta?! Um rapaz precisa de uma mãe? Da sua mãe?

Joe Rantz teve apenas uma namorada na sua juventude. Casou com ela no mesmo dia em que ambos se licenciaram na Universidade de Washington. A sua mulher, Joyce, que também ajudou a criar os seus meios-irmãos, foi uma esposa dedicada, descrita da seguinte maneira por Brown:

Ao longo dos anos Joe e Joyce tiveram cinco filhos – Fred, Judy, Jerry, Barb e Jenny. Em todos esses anos, a Joyce nunca se esqueceu do que o Joe tinha passado nos seus primeiros anos e nunca se desviou do juramento que fizera a si mesma no início da sua relação: Acontecesse o que acontecesse, ela nunca o deixaria passar por algo do género, nunca o deixaria sentir-se abandonado, ele teria sempre um lar caloroso e cheio de amor.

Joyce morreu antes de Joe. Na sua velhice e morte, os seus filhos cuidaram dele.

“A próxima guerra cultural?” Homem, mulher, fidelidade, votos, trabalho, lar, glória – estas são as coisas que temos estado a destruir, as coisas que os homens e as mulheres, rapazes e raparigas, mais querem, se é que querem algo para além disso. Porque será, perguntou Chesterton, que sentimos “saudades de casa em nossa própria casa?” Se os “rapazes no barco” nos ensinam alguma coisa é que para sermos o que somos temos de saber, por experiência ou por esperança, o que é um lar – pai, mãe e os seus filhos. A transcendência passa pelo lar.


James V. Schall, S.J., foi professor na Universidade de Georgetown durante mais de 35 anos e é um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seus mais recentes livros são The Mind That Is Catholic, The Modern Age, Political Philosophy and Revelation: A Catholic Reading, e Reasonable Pleasures

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 21 de Julho de 2015 em The Catholic Thing)

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