quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Ciência e Religião, Bem Entendidas

Começo por confessar que passei grande parte da minha juventude fascinado por matemática e ciência – quanto mais abstractas melhor: Física particular fundamental em vez de química; Cosmologia em vez de biologia. Na minha ingenuidade juvenil este parecia ser o caminho para a sabedoria, para o verdadeiro cerne das questões.

Acabaria por tomar consciência do meu erro, mas ainda hoje gosto de ler sobre estes assuntos – acabo de ler uma análise fascinante sobre aquilo que se sabe actualmente acerca de partículas subatómicas. É claro que tudo isto tornou-se bastante complexo. A ciência mais básica requer agora níveis de conhecimento matemático muito elevados e fora do alcance do mero amador. Ainda assim, sinto orgulho e humildade quando penso no trabalho e no génio dos cientistas e engenheiros que, não só através de teorias mas também através do desenho e desenvolvimento de maquinaria e experiências, conseguiram levar-nos de volta ao tempo de Planck, que parece ser o limite máximo de observação neste universo, ou isto:



Trata-se de uma equação bastante simples, na realidade, que significa cerca de 10-43 segundos depois do Big Bang. Se ao menos os nossos filósofos e teólogos abordassem os seus respectivos assuntos com esta ambição e precisão!

Os cientistas têm feito descobertas fantásticas mesmo em relação às realidades mais humildes e minúsculas. Até meados do século XX, o átomo continuava a parecer um minissistema solar. Não é uma visão inteiramente falsa e serve para alguns propósitos, mas a imagem complicou-se através da descoberta de partículas com nomes como quark, muon, tau, já para não falar de novas forças, campos e antimatéria.

Tudo isto pode parecer inútil para a pessoa comum, mas é precisamente através desta análise cuidadosa dos elementos constitutivos do universo (pelo menos assim pensamos, por enquanto), que a nossa raça gloriosa e trágica conseguiu chegar ao Big Bang que poderá, eventualmente, apontar para algum tipo de transcendência. Como a boa filosofia e teologia perceberam há muito tempo, o nosso mundo de seres contingentes tem de depender de algum ser que esteja, necessariamente, para além das “coisas”. Mas esta não é a única razão para nos interessarmos pelos avanços científicos.

Vale a pena lembrar que a calúnia de que a Igreja é contra a ciência não surgiu por que a Igreja se opunha à ciência em si. A resistência a Copérnico, Kepler e Galileu baseava-se na teimosa fidelidade a uma modelo científico anterior, o sistema geocêntrico de Ptolomeu, por parte de alguns clérigos (não todos). A Comédia Divina de Dante encarna brilhantemente a profunda interligação entre essa ciência e as verdades espirituais na alta Idade Média.

A grande ironia é que a Igreja não estava sequer a defender uma cosmologia bíblica (na medida em que se pode dizer que a Bíblia tem uma cosmologia), mas o sistema ptolemaico desenvolvido por gregos pagãos. Essa cosmologia serviu bem no seu tempo, mas foi ultrapassado, como todos os modelos acabam por ser, por avanços registados posteriormente. (O livro “The Discarded Image” de C.S. Lewis é o melhor e mais sábio guia dessa mundivisão ultrapassada). Mas há aqui uma lição.


Alguns dos meus amigos afirmam que o Big Bang, ou outras teorias científicas, estão ligadas à doutrina da criação. É interessante que o padre belga Georges Lemaître, o matemático que propôs pela primeira vez uma teoria para um universo inflacionário em 1927, apesar da resistência de Einstein, protestou quando Pio XII fez essa mesma ligação. A física é o limite da ciência, que tem apenas relações indirectas com a metafísica. Se o Big Bang acabar por ser apenas mais um modelo intermédio, não fará qualquer diferença à noção da Criação.

O padre Robert Spitzer conhece bem a ciência actual e aborda-a com a cautela necessária – aliada a um génio fora do comum – no seu recente “New Proofs for the Existence of God”. Outros, infelizmente, são menos contidos ao abraçar ou criticar a ciência moderna.

Entre estes últimos incluo os nossos irmãos e irmãs na comunicação social. É impressionante o quão pouco aprendem ou recordam no que diz respeito à relação entre religião e ciência. A maioria dos jornalistas não sabe quase nada sobre ciência moderna, mas partem do princípio que deve levantar obstáculos à crença religiosa.

O Papa Francisco afirmou recentemente que a evolução e a criação não são incompatíveis – uma verdade que praticamente não precisa de ser repetida. O resultado foi um furor mediático. Num discurso à Academia Pontifícia das Ciências em 1996, João Paulo II disse que a evolução era “mais do que uma hipótese”. A reacção foi parecida. Nessa altura eu fui convidado para falar na CNN e disse ao pivot incrédulo que tinha aprendido essencialmente a mesma coisa dita por freiras com hábito completo durante os anos 60 no meu liceu católico (ainda por cima nas trevas do mundo anterior ao Concílio Vaticano II).

Os católicos não são fundamentalistas. Estamos constantemente a repetir isto não só aos media, mas a família, amigos e colegas, agentes da praça pública. Acreditamos tanto na fé como na razão e acolhemos a ciência e as tecnologias apropriadas, como fazem a maioria das pessoas sãs. Não devia ser necessário estarmos sempre a recordar toda a gente deste facto, mas é um peso que carregamos graças a certos tipos de cristãos que temem a razão humana, que nos foi dada por Deus.

Encontramo-nos num conflito constante com jornalistas preguiçosos e pouco rigorosos e um estabelecimento educacional que continua a acreditar que Cristóvão Colombo descobriu que o mundo era redondo (leiam Dante, amigos!).

Pensam todos que quem acredita no Cristianismo tradicional deve acreditar também, como os mais extremos de entre os fundamentalistas, que o mundo começou há 4000 anos e que a evolução é incompatível com a Bíblia.

Daí que se compreenda a palhaçada das reacções cada vez que um Papa – como fizeram todos desde Pio XII na década de 50 – declara que a Criação e a evolução não são contraditórias. Temos muito a reparar nesta cultura, nem que seja para fazer justiça aos nossos antepassados. O tempo de pegar nesse fardo, seja qual for a nossa posição na vida, já tarda.  


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 4 de Novembro de 2014)

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