quarta-feira, 11 de junho de 2014

Medicina Ideológica

Matthew Hanley
Há poucas semanas a Centers for Disease Control (CDC) anunciou novas recomendações para a prevenção da SIDA. Pessoas não-infectadas em risco de contracção de HIV deviam tomar um comprimido – um medicamento antiretroviral – diariamente. Refere-se a isto como profilaxia “pré-exposição”.

A ideia de uma pessoa não infectada ter de tomar o mesmo medicamento que um infectado, por um período indefinido, é de certa forma triste, mesmo sem ter em conta a despesa, as possibilidades de efeitos secundários graves e as implicações em termos de resistência aos medicamentos no futuro.

Nem toda a gente acredita que o comprimido vai mudar o rumo da prática actual, devido à forma imperfeita de protecção que providencia, a potencial falta de adesão e o facto do efeito preventivo poder ser anulado por um aumento de comportamentos de risco (como se viu quando se introduziram os antiretrovirais e profilaxia de pós-exposição). Mas a medida está a ser anunciada como uma revelação.

Seja como for, esta nova recomendação – que corresponde a uma mudança de ênfase – surge acompanhada de um reconhecimento que foi pouco divulgado. Os responsáveis da CDC, segundo o New York Times, “há muito que estão frustrados pelo facto de o número de infecções de HIV nos Estados Unidos mal ter mudado ao longo de uma década, mantendo-se teimosamente nos 50,000 por ano, apesar de 30 anos a recomendar o uso de preservativos para bloquear a transmissão”.

Não digam a ninguém, mas isto significa, basicamente, que Bento XVI tinha razão quando teve a ousadia de observar que o preservativo não é a solução para a crise da SIDA. Por isto, como se recordam, foi criticado e acusado de ser uma ameaça à saúde pública. Que conclusões devemos tirar dos nossos próprios responsáveis de saúde?

Este falhanço tem de ser encarado com silêncio porque a questão mais séria – que precisamos de humanizar a sexualidade – é considerada anátema. Nem quando estamos perante uma morbidez grave as autoridades sentem que se deve ir por aí.

Estamos perante aquilo que o bispo e especialista em bioética Elio Sgreccia referiu como “medicina ideológica”, que se opõe claramente à medicina tradicional e hipocrática. A medicina ideológica preocupa-se com poder – com a imposição de uma agenda que “ignora ou ultrapassa a questão da verdade”. No seu diagnóstico, esta realidade corresponde precisamente à “exploração da profissão médica para fins ideológicos, legais ou não, que estão presentes na sociedade”.

A disciplina de Saúde Pública tem sido utilizada para avançar o objectivo ideológico da normalização. (Aliás, seria difícil encontrar uma profissão que não tenha sido sujeita às mesmas pressões). Os exemplos são muitos, mas a Dra. Vanessa Cullins, vice-presidente para “questões médicas” na Planned Parenthood deu-nos recentemente um exemplo claríssimo, num recente vídeo de “orientação” online: “Em termos de doenças sexualmente transmissíveis, deve esperar contrair o Vírus Papiloma Humano quando iniciar a sua intimidade sexual”.


Ou então o editorial recente do New England Journal of Medicine, que afirma que “a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pode melhorar a saúde e o acesso a cuidados de saúde para pessoas da comunidade LGBT”. Porquê? “Pessoas LGBT que vivem em estados que proíbem o casamento homossexual têm maiores probabilidades que os seus pares noutros estados de, por exemplo, apresentar sintomas de depressão, ansiedade e abuso de álcool”.

Não faço ideia se o editor que deu espaço a este artigo de propaganda acredita verdadeiramente que se trata de uma contribuição medicamente útil. Também não sei o que é que é pior: pensar que sim, ou pensar que não mas aceitar ainda assim. O que realmente vale a pena notar, contudo, é o assumir implícito de que estes sintomas “depressão, ansiedade e abuso de álcool”, resultam do facto de não se legalizar o casamento homossexual.

A medicina ideológica insiste que estes sintomas não podem verdadeiramente, decisivamente, derivar do comportamento em si (incluindo traumas prévios). Li algures, numa fonte de confiança, que o índice de suicídio entre jovens homossexuais é muito mais alto do que a média nacional. Tanto quanto sei não existe uma solução técnica para isso.

Em todos os casos, seja por causa do risco acrescido de contracção de HIV ou de suicídio, é necessário manter-se a ilusão de que o comportamento subjacente é normativo e saudável. A fachada de que os pacientes possam estar a ser bem servidos desta forma é um exemplo clássico de medicina ideológica.

Seria muito melhor, embora rebuscado, se o responsável pela CDC fosse um discípulo de Pascal. Acreditar no que ele escreveu nos seus Pensamentos seria um obstáculo ao avanço profissional, mas chegaria ao cerne do problema com a filosofia actual de “redução de riscos”:

É perigoso mostrar claramente ao homem a sua igualdade com as bestas sem lhe revelar também a sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe demasiado claramente a sua grandeza, sem a sua vileza. É ainda mais perigoso deixá-lo na ignorância de ambas.

As estratégias médicas para prevenção da SIDA conseguem simultaneamente ter o homem em demasiado alta e demasiado baixa conta. Demasiado alta no sentido em que justificam e facilitam qualquer forma de comportamento, sem ver qualquer necessidade de emenda, porque consideram que o homem não pode fazer o mal; em demasiado baixa conta porque acreditam que o homem não tem capacidade de mudar e está irrevogavelmente preso a estilos de vida destrutivos.

Ir demasiado longe em qualquer um destes sentidos é pedir um desastre. E nós já fomos longe de mais.

A lei inscrita no coração do homem, como testemunha Santo Agostinho nas suas Confissões, é tal que nem o mal mais entranhado pode apagar. Não me parece ingénuo dizer que a esperança que deriva desta verdade vale mais do que qualquer profilaxia farmacêutica.

Mas em vez de se tornar prioridade, essa esperança é posta de lado. As pessoas que trabalham tão arduamente para esconder a verdade deviam compreender claramente, nas palavras de Romano Guardini, que estão a “privar o homem da sua humanidade”; mesmo as verdades mais evidentes são colocadas à margem, porque a sua “realização os esmagaria e destruiria”.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 5 de Junho 2014 em The Catholic Thing)

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3 comentários:

  1. Se o numero de infeçoes se mantem constante a 50,000 ha 30 anos, quando a populaçao era 100 milhoes mais pequena, entao quer dizer que os casos por mil habitantes descerem de 0,22 para 0,15. Parece que afinal o preservativo funciona.

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  2. A questão nunca esteve na eficácia do preservativo. Vivi no Zimbabwe entre 2000 e 2004 em que o preservativo foi o último recurso para travar a sangria na população em idade reprodutiva no país.
    A questão na Medicina Ideológica está em que esta deixa de estar ao serviço do Homem tal como ele é e na sua circunstância real, para passar a estar ao serviço de um Homem Económico idealmente criado pelos Poderes Económicos e normativamente formulado pelo Poder Político.

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  3. Anónimo... em primeiro lugar o aumento não foi de 100 milhões, mas de cerca de 80 milhões, mas adiante.
    Segundo essa lógica, deveríamos estar satisfeitos se ainda tivessemos Pólio e Influenza... já agora se de vez em quando tivessemos epidemias de peste negra, isso também não seria grave, desde que proporcionalmente não houvesse mais vitimas que o aumento da população.

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