Mostrar mensagens com a etiqueta Medicina. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Medicina. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Ideologia de Género como Abuso

A chegada do frio outonal traz consigo o começo da época de futebol americano, que é bem-vinda, ainda que ser adepto de alguns clubes (tal como os meus San Francisco 49ers) requeira novamente um acto de fé sobrenatural este ano. Mas para Bennet Omalu, o “médico das contusões” – nome ganho pelo seu papel na revelação do fenómeno neste desporto – esta é uma época melancólica. O médico examinador-chefe do condado de San Joaquin, especulou recentemente que deixar os jovens jogar futebol americano levará eventualmente a um processo, porque o futebol é, nas suas palavras, a “definição de abuso infantil”.

Com tantos abusos reais para nos preocupar, uma afirmação destas pode parecer exagerada, ainda que possamos desconfiar da sabedoria de deixar crianças muito pequenas andar a bater com as cabeças umas nas outras. Mas esta cruzada contra o futebol americano está a ser levada bastante a sério. Quase tão a sério como a cruzada a favor da normalização da “fluidez de género”.

Recentemente veio-me parar às mãos a edição da Stanford Medicine News do Verão de 2017. A manchete era: “Jovens e Transgénero: Cuidando de Crianças na Transição” e elogiava uma endocrinologista pediátrica pelos seus esforços para “ajudar” estas crianças, utilizando medicamentos para bloquear a puberdade e outros “tratamentos” semelhantes. “Ao tratar os adolescentes transgénero com hormonas”, afirma a médica “estamos a afirmar quem eles são”. Ou seja, a cirurgia é apenas outra forma de afirmar que os seus corpos estão errados ao desenvolver-se correctamente.

Não pretendo implicar unicamente com a Stanford. A submissão à agenda transgénero tornou-se uma epidemia. A mais recente edição da “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” substituiu o antigo diagnóstico de “desordem de identidade de género” por “disforia” de género. E assim – voilá – deixa de haver uma “desordem” para tratar psiquiatricamente e o caminho certo torna-se necessariamente a mutilação através de hormonas ou de cirurgia.

A Associação Psiquiátrica Americana, deixando de lado o seu juízo, afirma simplesmente que a transição de género não envolve qualquer ilusão ou incapacidade psicológica – sendo que ilusão, neste caso, é definida como “uma crença falsa, ou juízo errado, mantido com convicção apesar de provas incontestáveis de sentido contrário”.

Para chegar a uma conclusão dessas é necessário negar a realidade objectiva ou, então, declarar que ela é subordinada à forma como os pacientes querem definir a “sua” realidade. Elas são quem afirmam ser, se o dizem. Mas se formos por esse caminho então ninguém pode ser classificado como sofrendo de ilusões e invalida-se por inteiro o próprio conceito de uma desordem psiquiátrica. Estarão os psiquiatras americanos a tentar acabar com a sua própria profissão?

A adesão de tantos profissionais altamente treinados e inteligentes a uma mentira tão óbvia é uma visão verdadeiramente triste. Algumas podem acreditar nos dogmas “oficiais” de género, por mais irracionais que sejam, mas acho que a maioria não acredita. Pelo menos não verdadeiramente. Mas há que salvar a face e preservar o emprego, por isso alinham.

A forma como se conseguiu este conformismo ao melhor estilo soviético sem um politburo é um fenómeno verdadeiramente impressionante. É o último elogio ao pós-modernismo. Não que o Congresso estadual da Califórnia (para citar apenas um exemplo) não esteja a tentar alcançar o estatuto de politburo; eles querem multar ou enviar para a cadeia pessoas em situações de prestação de cuidados de saúde que não se referem aos pacientes utilizando o pronome escolhido, ou seja, o errado.

O triunfo da desonestidade intelectual já é mau por si, mas forçar os outros a concordar com algo que sabem ser uma mentira é um dos maiores sinais de totalitarismo. Pior, “ajudar as crianças a transitar”, ao contrário de encorajá-las a jogar futebol americano ou qualquer outro desporto, é verdadeiramente uma forma de abuso infantil.

É isso que diz a Drª Michelle Cretella, presidente da Ordem Americana de Pediatras, que tem coragem de falar sem papas na língua. Mas muitos dos seus colegas não têm essa coragem. Aliás, o número de “profissionais” dispostos a dar ares de legitimidade médica à ideia de “transitar” de género supera até os que se querem submeter a essa absoluta impossibilidade. Com tantos autoproclamados defensores da “ciência” neste mundo, não deveria ser necessário dizer que os “sentimentos” não podem negar o veredicto contido nos cromossomas masculinos ou femininos presentes em cada célula do corpo.

Alguns dirão que afirmar a realidade é uma atitude “julgadora”. Mas a tentativa de obrigar à aceitação das teorias de transgenerismo viola o próprio credo do não-julgar. Por isso, já que se estão a fazer julgamentos, a maioria das pessoas concordaria que os profissionais que contribuem, de forma abusiva, para estas “transições” são muito mais culpados do que os adolescentes desorientados que precisam de compaixão e orientação firme. Os resultados para os que se submetem a operações de mudança de sexo não são bons. Os dados revelam-no. Profissionais de saúde que fingem – juntamente com escolas, media, corporações e outros – que a anormalidade é normal são, por definição, abusadores.

E nem falemos do preocupante paralelo entre a mutilação de anatomia saudável envolvida numa “transição” e a prática, justamente condenada, de mutilação genital feminina.

A “transição” é apresentada como um triunfo da ciência e do progresso, mas com a compreensão de que alguns tipos de transição não deviam ser permitidos de todo. Refiro-me, claro está, à perspectiva de alguém que queira mudar a sua orientação sexual de homo para hétero.

Que isto seja prescrito e literalmente criminalizado nalguns contextos denuncia a farsa. Quando a escolha pessoal é tão claramente rejeitada, não obstante toda a retórica tradicional em sentido contrário, isso é um sinal claro de que tudo isto tem a ver com o avançar de uma conclusão já determinada e nada a ver com a vitória da liberdade de escolha em si.

O fim para o qual caminhamos não é outra coisa que a obliteração da ordem e da ética que derivam da tradição judaico-cristã. Tem tudo a ver com o poder para se mudar as regras, trocar o que é bom por aquilo que é mau. É o jogo da desintegração total.

O abuso não é um subproduto ocasional e acidental de uma revolução maior, na qual a fluidez de género é apenas a mais recente rajada. É mesmo o cerne da questão.

Leia também:


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica e autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 20 de Setembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A Medicina ao Serviço do Poder

Matthew Hanley
O ciclo noticioso é hoje em dia tão rápido que mesmo os assuntos mais mediáticos podem desaparecer da vista – e da memória – em tempo nenhum. Se perdeu a cobertura intensiva da recente “Marcha pela Ciência”, não se preocupe, voltará a seu tempo. A narrativa é demasiado útil para ser descartada: almas corajosas a defender a ciência contra forças antediluvianas até que um político esclarecido possa restaurá-la ao seu “devido” lugar.

Quando a coisa estava no auge surgiu a seguinte manchete: “The Perils of Trumping Science in Global Health”. Poderia vir de qualquer órgão – Washington Post, New York Times, MSNBC, NPR – certo? Mas não, é do outrora bastião da ciência, o New England Journal of Medicine (NEJM).

Os autores são médicos de Stanford e a sua queixa é antiga e gasta: a escassez de contraceptivos e a descontinuação do financiamento americano para o aborto no estrangeiro são proposições perigosamente anticientíficas que põem vidas em perigo.

Artigos deste género não são movidos por dados objectivos, mas pelo interesse em avançar uma causa política – normalmente a destruição de uma ou outra classe de pessoas. Não é propriamente uma boa premissa para um argumento, seja científica ou não. Em defesa desta minha afirmação, voltemos a nossa atenção não para o Catecismo, mas para outro artigo no NEJM.

Este começa por afirmar secamente: “A ciência, debaixo de uma ditadura, torna-se subordinada à filosofia orientadora da ditadura”. Identifica o princípio filosófico orientador, de “utilidade racional”, como sendo de natureza hegeliana e lamenta que “tenha vindo substituir os valores morais, éticos e religiosos”.  

Este não é o tipo de coisa que estamos habituados a ouvir. Como é que se reconciliam estas visões tão diferentes – na mesma revista médica?

Bom, se calhar devia referir que este último é de 1949. O seu título era: “Medical Science Under Dictatorship” e foi escrita pelo Dr. Leo Alexander, que contribuiu para o Código de Nuremberg. Trata-se de uma reflexão sobre a sua investigação da cumplicidade da profissão médica (na altura ainda não se dizia “comunidade”) com os horrores da Segunda Guerra Mundial.

Alexander realçou o rapidíssimo declínio da ética profissional, manifestada na eliminação massiva dos inúteis, indesejados, doentes crónicos e desleais. A “ciência” médica daquele tempo descobriu diagnósticos como “antipatia inveterada contra os alemães” para facilitar o processo de liquidação.

A programa geral de investigação médica estava direcionado à “destruição e prevenção da vida”. Alexander refere-se mesmo a esta iniciativa como a “ciência da aniquilação”. A conclusão de que neste contexto seria bom ser-se um “inimigo da ciência” parece-me um imperativo moral.

Chega mesmo a inventar o termo “ktenologia” para esta ciência da matança; talvez não conste de todos os dicionários, mas com todos os meios de esmagar a vida que empregamos actualmente – e que procuramos para amanhã – devíamos ter algum termo em uso corrente. (O mais próximo talvez seja mesmo “cultura da morte”).

Obviamente os abusos do regime Nazi chegaram a proporções maciças, mas o que se tornou evidente para investigadores como o Alexander foi que “começaram com coisas pequenas”. O início foi marcado por mudanças subtis de atitude – a aceitação da premissa básica do movimento da eutanásia de que algumas vidas são um fardo sem sentido. Mais vale despachá-las.

Nem toda a gente cedeu. Os médicos da Holanda ocupada foram capazes de ver para além dos lemas aparentemente inócuos, resistiram às insistências e suportaram perseguições brutais, mas não participaram nem na eutanásia nem nas esterilizações. O Terceiro Reich já pertence ao passado, mas entretanto a Holanda tornou-se o epicentro da eutanásia, o que sugere que as ideias abraçadas pelos nazis – pelo menos o seu utilitarismo impiedoso – triunfaram, tal como muito do estilo político da União Soviética persiste por entre os absurdos do politicamente correcto.

O artigo de Alexander conta muitos episódios perturbadores, mas não deixa de ser edificante devido à sua clareza. Lê-lo é como ver um daqueles filmes a preto e branco que melhorou com a idade, é qualquer coisa que nos enche de uma sensação de exílio. As fronteiras poderão não ter mudado, mas o panorama ideológico sim – de uma forma de tal maneira sísmica que é o presente, e não o passado, que parece agora um país estrangeiro.

Ezekiel Emanuel - Contra a objecção de consciência
A “mesma” NEJM causou alguma polémica o mês passado ao dar voz ao médico, agora político, Ezekiel Emanuel que defende que as “sociedades profissionais deviam declarar que a objecção de consciência viola a ética”.

Emanuel refere-se à objecção contra variadas formas de destruir, prevenir ou mutilar a vida humana que se encaixam na sua visão deturpada de “cuidados” – os mesmos meios que Alexander criticou quando Nuremberga era ainda uma memória recente. Leu bem: Emanuel considera que é contra a ética ser objector de consciência contra tais coisas; a sua posição implica, nas palavras de Wesley Smith, que toda a gente que é pró-vida devia abandonar o ramo da medicina.

Às vezes os paralelos com as atrocidades nazis podem ser exageradas, mas a descrição que Alexander faz das atitudes que conduziram a esse desastre parecem aplicar-se perfeitamente à mentalidade de Emanuel e companhia. Parecem estar a exigir o que Himmler exigiu e, eventualmente, conseguiu: a cooperação de médicos e da ciência médica da Alemanha para levar a cabo monstruosidades consideradas necessárias para promover uma agenda maior, obviamente não-científica e desumana.

Emanuel quer reavivar a tática de intimidação que Alexander criticou: “qualquer indício de tibieza ou falta de entusiasmo pelos métodos do governo totalitário devem ser considerados uma ameaça a todo o grupo”. Tal como os que o antecederam nesta ignomínia, Emanuel intui que aquele que se recusa a matar é uma ameaça aos desígnios – e consciências – de quem o fará.

Que “cientistas” como Emanuel queiram um tipo de “progresso” que abandone a ética do Código de Nuremberga devia ser uma pista para todos nós. O que Emanuel e companhia querem é, parafraseando C.S. Lewis, poder exercido por alguns – como eles – sobre todos os outros, tendo a “ciência” como instrumento. Em última análise estão a apostar na conquista final que C.S. Lewis vislumbrou: A Abolição do Homem.

É contra este tipo de coisa que devíamos estar a marchar.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 13 de Junho 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Medicina Ideológica

Matthew Hanley
Há poucas semanas a Centers for Disease Control (CDC) anunciou novas recomendações para a prevenção da SIDA. Pessoas não-infectadas em risco de contracção de HIV deviam tomar um comprimido – um medicamento antiretroviral – diariamente. Refere-se a isto como profilaxia “pré-exposição”.

A ideia de uma pessoa não infectada ter de tomar o mesmo medicamento que um infectado, por um período indefinido, é de certa forma triste, mesmo sem ter em conta a despesa, as possibilidades de efeitos secundários graves e as implicações em termos de resistência aos medicamentos no futuro.

Nem toda a gente acredita que o comprimido vai mudar o rumo da prática actual, devido à forma imperfeita de protecção que providencia, a potencial falta de adesão e o facto do efeito preventivo poder ser anulado por um aumento de comportamentos de risco (como se viu quando se introduziram os antiretrovirais e profilaxia de pós-exposição). Mas a medida está a ser anunciada como uma revelação.

Seja como for, esta nova recomendação – que corresponde a uma mudança de ênfase – surge acompanhada de um reconhecimento que foi pouco divulgado. Os responsáveis da CDC, segundo o New York Times, “há muito que estão frustrados pelo facto de o número de infecções de HIV nos Estados Unidos mal ter mudado ao longo de uma década, mantendo-se teimosamente nos 50,000 por ano, apesar de 30 anos a recomendar o uso de preservativos para bloquear a transmissão”.

Não digam a ninguém, mas isto significa, basicamente, que Bento XVI tinha razão quando teve a ousadia de observar que o preservativo não é a solução para a crise da SIDA. Por isto, como se recordam, foi criticado e acusado de ser uma ameaça à saúde pública. Que conclusões devemos tirar dos nossos próprios responsáveis de saúde?

Este falhanço tem de ser encarado com silêncio porque a questão mais séria – que precisamos de humanizar a sexualidade – é considerada anátema. Nem quando estamos perante uma morbidez grave as autoridades sentem que se deve ir por aí.

Estamos perante aquilo que o bispo e especialista em bioética Elio Sgreccia referiu como “medicina ideológica”, que se opõe claramente à medicina tradicional e hipocrática. A medicina ideológica preocupa-se com poder – com a imposição de uma agenda que “ignora ou ultrapassa a questão da verdade”. No seu diagnóstico, esta realidade corresponde precisamente à “exploração da profissão médica para fins ideológicos, legais ou não, que estão presentes na sociedade”.

A disciplina de Saúde Pública tem sido utilizada para avançar o objectivo ideológico da normalização. (Aliás, seria difícil encontrar uma profissão que não tenha sido sujeita às mesmas pressões). Os exemplos são muitos, mas a Dra. Vanessa Cullins, vice-presidente para “questões médicas” na Planned Parenthood deu-nos recentemente um exemplo claríssimo, num recente vídeo de “orientação” online: “Em termos de doenças sexualmente transmissíveis, deve esperar contrair o Vírus Papiloma Humano quando iniciar a sua intimidade sexual”.


Ou então o editorial recente do New England Journal of Medicine, que afirma que “a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo pode melhorar a saúde e o acesso a cuidados de saúde para pessoas da comunidade LGBT”. Porquê? “Pessoas LGBT que vivem em estados que proíbem o casamento homossexual têm maiores probabilidades que os seus pares noutros estados de, por exemplo, apresentar sintomas de depressão, ansiedade e abuso de álcool”.

Não faço ideia se o editor que deu espaço a este artigo de propaganda acredita verdadeiramente que se trata de uma contribuição medicamente útil. Também não sei o que é que é pior: pensar que sim, ou pensar que não mas aceitar ainda assim. O que realmente vale a pena notar, contudo, é o assumir implícito de que estes sintomas “depressão, ansiedade e abuso de álcool”, resultam do facto de não se legalizar o casamento homossexual.

A medicina ideológica insiste que estes sintomas não podem verdadeiramente, decisivamente, derivar do comportamento em si (incluindo traumas prévios). Li algures, numa fonte de confiança, que o índice de suicídio entre jovens homossexuais é muito mais alto do que a média nacional. Tanto quanto sei não existe uma solução técnica para isso.

Em todos os casos, seja por causa do risco acrescido de contracção de HIV ou de suicídio, é necessário manter-se a ilusão de que o comportamento subjacente é normativo e saudável. A fachada de que os pacientes possam estar a ser bem servidos desta forma é um exemplo clássico de medicina ideológica.

Seria muito melhor, embora rebuscado, se o responsável pela CDC fosse um discípulo de Pascal. Acreditar no que ele escreveu nos seus Pensamentos seria um obstáculo ao avanço profissional, mas chegaria ao cerne do problema com a filosofia actual de “redução de riscos”:

É perigoso mostrar claramente ao homem a sua igualdade com as bestas sem lhe revelar também a sua grandeza. É também perigoso mostrar-lhe demasiado claramente a sua grandeza, sem a sua vileza. É ainda mais perigoso deixá-lo na ignorância de ambas.

As estratégias médicas para prevenção da SIDA conseguem simultaneamente ter o homem em demasiado alta e demasiado baixa conta. Demasiado alta no sentido em que justificam e facilitam qualquer forma de comportamento, sem ver qualquer necessidade de emenda, porque consideram que o homem não pode fazer o mal; em demasiado baixa conta porque acreditam que o homem não tem capacidade de mudar e está irrevogavelmente preso a estilos de vida destrutivos.

Ir demasiado longe em qualquer um destes sentidos é pedir um desastre. E nós já fomos longe de mais.

A lei inscrita no coração do homem, como testemunha Santo Agostinho nas suas Confissões, é tal que nem o mal mais entranhado pode apagar. Não me parece ingénuo dizer que a esperança que deriva desta verdade vale mais do que qualquer profilaxia farmacêutica.

Mas em vez de se tornar prioridade, essa esperança é posta de lado. As pessoas que trabalham tão arduamente para esconder a verdade deviam compreender claramente, nas palavras de Romano Guardini, que estão a “privar o homem da sua humanidade”; mesmo as verdades mais evidentes são colocadas à margem, porque a sua “realização os esmagaria e destruiria”.


Matthew Hanley é Investigador sénior no Centro Nacional de Bioética Católica. Matthew Hanley é autor, juntamente com Jokin de Irala, de ‘Affirming Love, Avoiding AIDS: What Africa Can Teach the West’, que foi recentemente premiado como melhor livro pelo Catholic Press Association. As opiniões expressas são próprias, e não da NCBC.

(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 5 de Junho 2014 em The Catholic Thing)

© 2014 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Partilhar