quarta-feira, 5 de março de 2014

Uma Revolução sobre o Casamento – Em Roma?

No sábado o Il Foglio, o mais importante jornal conservador de Itália, publicou o texto completo do discurso inaugural do Cardeal Kasper ao Consistório sobre a Família, que se realizou no Vaticano, uma reunião preparatória para o Sínodo Extraordinário da Família que terá lugar de 5-19 de Outubro, em Roma. O texto apenas está disponível em italiano (embora haja passagens significativas em inglês aqui). O Cardeal, conforme a sua própria descrição, “colocou questões”, questões altamente controversas, sobre o tratamento pastoral dos católicos divorciados e recasados, em particular no que diz respeito à readmissão à comunhão.

O discurso não era para ser secreto, na verdade, era suposto ter sido publicado em forma de livro, presumivelmente com outro material. Mas ao aparecer de repente, como apareceu, e com sugestões aparentemente revolucionárias inspiradas em práticas antigas, é evidente que se vai tornar um assunto quente para os próximos meses. Alguns comentadores já estão a dizer que se agora a Igreja não permitir que os divorciados e recasados recebam comunhão, passaremos por outro período de choque e revolta, semelhante ao que se seguiu à publicação por Paulo VI do “Humanae Vitae” em 1968, que reafirmou o ensinamento cristão sobre a contracepção.

Estamos a colocar vários carros à frente de vários bois. O texto de Kasper é cauteloso, embora pareça apontar numa direcção revolucionária. Ele reafirma a proibição que Jesus fez ao divórcio, enquanto explora como lidar com algo que se tornou um difícil problema moderno.

Não há um católico hoje que não conheça alguém que viva em circunstâncias matrimoniais irregulares. O divórcio, mesmo entre católicos praticantes, é cada vez mais comum e – dada a loucura sexual e a pressão económica e cultural das sociedades modernas – nem sempre a culpa é de apenas um. Essa é uma razão pela qual vários papas – João Paulo II, Bento XVI e agora Francisco – sugeriram a exploração de soluções pastorais. O porta-voz do Vaticano, padre Federico Lombardi, já disse que o pensamento de Kasper está em linha com o do Papa.

Dito isso, contudo, o discurso dá a ideia de estar a fazer algo que, pelo menos à superfície, é contraditório. Kasper fala da necessidade de se “alterar o paradigma”, com a Igreja a tornar-se o Bom Samaritano para aqueles que pedem socorro. Mas na mesma passagem afirma a indissolubilidade do casamento que “não pode ser abandonado ou desfeito, apelando a uma compreensão superficial de misericórdia barata”.

Ele compara a nossa situação à do Vaticano II, quando princípios dogmáticos pareciam impedir certas acções, mas o Concílio “abriu portas”. Apesar dos sinais de alarme que esta comparação possa despertar nalgumas pessoas, Kasper oferece, tentativamente, duas possíveis “aberturas”.

A primeira é o que pode ser considerado a “racionalização” e “personalização” do processo de nulidade. Em vez de passar por um processo canónico formal, “o bispo poderia confiar a tarefa a um padre com experiência espiritual e pastoral como um vigário episcopal ou penitenciário”. Presumivelmente este conheceria melhor as pessoas e a situação, evitando assim o incómodo de um processo impessoal e desajeitado. Alguns advogados canónicos já levantaram questões sobre como isto poderia funcionar na prática, mas pelo menos em teoria não é mais que um ajuste da ideia existente de que em certas condições a celebração de um casamento possa ser nula.


A “abertura” mais revolucionária, a segunda, sugere, depois de um período de penitência, “não um segundo casamento, mas sim uma tábua de salvação através da participação na comunhão”.

Aqui o argumento torna-se mais obscuro e precisa de ser clarificado. Roberto de Mattei, um historiador que já escreveu para o The Catholic Thing, respondeu no Il Foglio, no mesmo dia em que apareceu o texto de Kasper, que o Cardeal não pode anular a história e a doutrina “com uma revolução descarada na cultura e na prática”.

É difícil dizer se é isso que Kasper está a propor – embora de Mattei seja uma pessoa inteligente e pareça estar no caminho certo. O Cardeal acrescenta que o arrependimento em condições certas devia levar à confissão. Até aqui tudo bem. Mas depois lista cinco condições que poderão levar ao regresso à Comunhão para uma pessoa nesta situação:

1. se estiver arrependida do falhanço do primeiro casamento

2. se tiver clarificado as obrigações do primeiro casamento, se estiver definitivamente posto de parte que possa voltar atrás,

3. se não puder abandonar, sem causar danos, as responsabilidades assumidas pelo novo casamento civil,

4. se, contudo, estiver a fazer tudo ao seu alcance para viver as possibilidades do segundo casamento com base na fé e a educar as crianças na fé,

5. se desejar os sacramentos como fonte de força na sua situação, devemos ou podemos negar-lhe, depois de um período de tempo noutra direcção, de “metanoia”, o sacramento da penitência e, depois, de comunhão?

O Cardeal Kasper afirma que esta não poderia ser uma solução massiva, mas apenas aplicada a poucas pessoas em situações indesejáveis, que verdadeiramente queiram os sacramentos. E assenta as suas propostas em casos derivados da história antiga da Igreja – os ortodoxos ainda permite o divórcio e o recasamento – que poderiam ser aplicados cuidadosamente. Alguns académicos negam que esses casos existissem antes de os padrões se tornarem mais frouxos nos séculos posteriores do Império Bizantino.

Perguntei a um padre de confiança o que pensava desta linha de argumentação. Ele respondeu-me com uma perspectiva “pastoral” diferente:

“Enquanto pároco, sinto muito pelas boas pessoas que se encontraram, ou encontram, em casamentos falhados. Há entre eles algumas pessoas heróicas e santas – algumas das quais contraíram segundos casamentos. Gostaria verdadeiramente de as ajudar a encontrar uma forma de receber a Eucaristia e regularizar a sua situação, mas não vejo como a “solução de Kasper” possa resultar. Sei da forma como se lidava com alguns destes casos na Igreja primitiva, que havia um período de penitência e mesmo uma dimensão penitencial no segundo casamento, mas conseguem mesmo ver-nos a implementar estas práticas penitenciais? Conseguem imaginá-las a serem aceites? Eu não. E com todo o respeito, isto seria mais um tiro dado a um sacramento que já se encontra ferido pelo pelotão de fuzilamento cultural.”

Preparem-se. Vamos ouvir falar muito mais sobre este assunto no futuro próximo.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está agora disponível em capa mole da Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na segunda-feira, 3 de Março de 2014)

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