quarta-feira, 19 de março de 2014

Multiculturalismo

James V. Schall
A noção moderna de que todas as culturas e nações podem, e devem, viver juntas em harmonia requer uma destas duas proposições:
a) uma visão comum sobre as bases da virtude e da verdade ou,
b) a eliminação de qualquer diferença entre bem e mal, verdade e falsidade.

O “multiculturalismo”, em si uma construção mental, é o que acontece quando a alternativa b é aceite, não como “verdadeira”, mas como “prática”, com a qual se pode “trabalhar”.

As culturas, porém, não são filosófica e moralmente neutras. Dentro de cada uma podem-se encontrar certas configurações de hábitos, leis e costumes bons ou maus. Em épocas anteriores, apesar de ter havido migrações massivas, era difícil passar de um país para outro. Cada cultura determinava as normas segundo as quais tencionava viver.

Quando grandes números de pessoas podem emigrar, legal ou ilegalmente, para outros países, trazem consigo práticas culturais. As pessoas emigram para alcançar os seus “direitos”, aquilo que lhes é “devido”. Ao ir para outra cultura, uma vez que todas são iguais, ninguém pode ser obrigado a mudar os seus hábitos, língua, religião ou costumes. Toda a gente tem o “direito” a estabelecer no seu novo ambiente, o sistema que abandonou.

A visão contrária, assimilacionista, contudo, defende que quando alguém parte para outro país, deve tornar-se membro da nova sociedade, aprender a língua, as maneiras e os costumes. A razão pela qual o emigrante escolheu este novo país ou cultura é porque pensa que ela é melhor que a que abandonou. Esta visão parte do princípio que alguns regimes são melhores que outros. O propósito dos estados e das nações é de providenciar um lugar onde cada um pode viver a sua “verdade”, independentemente de como outros possam viver. Esta visão implica o poder de proteger a sua própria política.

Há quem defenda que todos os problemas do mundo são problemas locais. Se há um problema de tirania e de pobreza num país, ou numa área, então isso é da responsabilidade de todos. Todos os problemas são, desse ponto de vista, internacionais. Esta posição implica que de facto apenas existe um Estado mundial no qual todos os cidadãos têm “direitos” idênticos. Impostos, exércitos, polícias, leis e costumes devem adequar-se a uma ideia comum de cultura. Os verdadeiros inimigos são aqueles que defendem que a verdade, seja pela razão ou pela revelação, é possível. A paz apenas chegará ao mundo quando estas ideias forem eliminadas, a “verdade” oficial é que de que não existe verdade.

Daí que tanto os governos nacionais e mundiais devem garantir esses “direitos” estabelecidos. Basicamente, temos de nos livrar de todas as instituições e ideias que defendem que existe uma verdade transcendente. Temos de eliminar, sistematicamente, da ordem pública, e em nome dos “direitos”, todas as afirmações que radicam na ideia de uma “natureza” humana universal. Ideias como de que a família é uma instituição “natural”, composta por um homem, uma mulher e crianças; de que a distinção dos sexos significa algo, que o aborto está errado, e que não devemos reconfigurar o homem à nossa vontade devem ser declaradas “anti-humanas” e proscritas.
 
"Que é a verdade?"
 “O homem contemporâneo não pode ser definido pela ausência de referências morais”, escreve Chantal Delsol em “Icarus Fallen”:

“Mas pela rejeição do Mal e uma apologética do Bem que são consideradas evidentes e desligadas de qualquer ideia de uma verdade objectiva que as legitime. Não seria correcto, porém, ver nesta atitude uma incapacidade da mente descobrir as suas fundações. Pelo contrário, esta atitude significa uma recusa a procurar sequer estas fundações, por medo de as descobrir. O homem contemporâneo postula não um vazio de verdade, mas o perigo da verdade.”

E qual é o “perigo” da verdade? É de que a verdade existe e serve de medida para as nossas acções e pensamentos.

Neste sentido, todo o projecto multicultural de permitir tudo, com o Estado a servir de garante deste “direito” a tudo, atinge a incoerência. O único tipo de multiculturalismo que é possível é aquele que reconhece a ordem transcendente. Um multiculturalismo que a nega acaba por estabelecer e aplicar uma ordem mundial em que apenas aquilo que é objectivamente verdade é proibido. O “medo” é precisamente de que a verdade existe. A recusa em procurar esta verdade recorda-nos a cena em Górgias, de Platão, em que o político se recusa a ouvir um argumento, para não ser obrigado a admitir a sua lógica.

O “mal” que o multiculturalismo recusa é o “mal” que afirma a existência da verdade. A verdade não é “vazia”, a sua abundância é rejeitada. Existem maneiras de viver correctas, que se aplicam a todas as culturas. Esta afirmação não implica a existência de um só estado ou de uma só língua, pelo contrário. Mas implica, isso sim, uma distinção objectiva entre o bem e o mal, a verdade e a falsidade, em todas as culturas. Esta é a verdade que está na raiz do espírito transcendente que se encontrava inicialmente na filosofia grega, no direito romano e na revelação cristã.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 18 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

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1 comentário:

  1. Pseudo-renato
    Interpelante pequeno artigo! Muito obrigado pela sua divulgação. Bem precisamos!

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