quarta-feira, 3 de julho de 2013

Eutanásia: O Fundo do Poço

George J. Marlin
Pouco depois da invasão da Polónia, em 1939, Hitler autorizou os médicos alemães a empregar medidas de suicídio assistido involuntário. Foram abertos seis centros de eutanásia, designados, eufemisticamente, Fundações Caridosas para Cuidados Institucionais. Como o nome indica, a matança foi racionalizada como sendo um acto de compaixão.

Os julgamentos de Nuremberga revelaram que este programa inicial, limitado à Alemanha, tinha sido responsável pela morte de 70 mil adultos e cinco mil crianças, apesar de outras estimativas apontarem para os 400 mil. O programa foi encerrado em 1941 por ordem do Führer, porque estava a despertar oposição no país.

O bispo católico de Múnster, August von Galen, causou grande impacto público quando denunciou as políticas de eutanásia a partir do púlpito, em 1941:

Se estabelecermos e aplicarmos o princípio de que se pode “matar” seres humanos improdutivos, então ai de nós quando formos velhos e frágeis! Se podemos matar os improdutivos, então ai dos inválidos que esgotaram, sacrificaram e perderam a sua força e a sua saúde no processo produtivo... Pobres, doentes, improdutivos, e daí? Acaso eles perderam o direito à vida? Vocês e eu temos o direito a viver apenas enquanto formos produtivos?... Ninguém estaria a salvo. Quem poderia confiar no seu médico? O comportamento depravado e a suspeição que entrariam na vida familiar caso esta doutrina terrível seja tolerada, adoptada e praticada são inconcebíveis.

Houve protestos públicos – uma raridade na Alemanha nazi.

A resposta dos nazis foi de transferir os programas para os países conquistados, a leste, onde acabaram por se transformar na Solução Final. O suicídio assistido involuntário tornou-se a “solução médica” para eliminar não só os doentes, mas também os judeus, ciganos e eslavos, que eram considerados raças “doentes”.

Depois da Segunda Guerra Mundial o movimento para o suicídio assistido voltou à clandestinidade. Mas nos anos 60 e 70 estava a regressar, levando o comentador britânico Malcolm Muggeridge a dizer: “Podem submeter isto ao livro dos recordes do Guinness: leva apenas trinta anos para a nossa sociedade humanista transformar um crime de guerra num acto de compaixão.”

Eis que a Euthanasia Education Council mudou de nome para Concern for Dying, Inc.; e a Euthanasia Society of America se transformou na Society for the Right to Die, Inc. Apareceram outras organizações, como a Choice in Dying.

Não deixa de ser preocupante que as mesmas nações que fazem fronteira com a Alemanha e que testemunharam as políticas grotescas de Hitler – A Bélgica, Holanda e o Luxemburgo – tenham legalizado a eutanásia, consagrando-a como direito humano fundamental.

Desde a década de 70 que os tribunais holandeses têm estado a aumentar a quantidade de candidatos à eutanásia. No início dos anos 90 o poder judicial já permitia o suicídio assistido para doentes psiquiátricos que estavam fisicamente sãos. Num caso um psiquiatra foi ilibado de ajudar um doente mental a suicidar-se porque o tribunal concluiu que o doente, embora mentalmente doente, era competente e livre de decidir que queria morrer. O tribunal considerou que seria discriminatório permitir o suicídio assistido apenas para pessoas que sofriam de forma física. A dor psicológica ou mesmo a infelicidade não podem ser excluídas como razões válidas para o suicídio.

Os tribunais holandeses decidiram que quando a consciência de um médico está em conflito com a lei, ele está autorizado a receitar a eutanásia para aliviar o sofrimento. É apresentado como um exemplo de força maior, uma série de eventos imprevistos que anulam as necessidades legais normais.

Propaganda nazi pela eutanásia.
"Negro deficiente mental (inglês). 16 anos a cargo
do Estado a um custo de 35 mil marcos"

Num artigo do “Wall Street Journal”, publicado no dia 14 de Junho de 2013, Naftali Bendavid informa que os casos de eutanásia na Bélgica, onde o procedimento foi legalizado em 2002, aumentaram de 200 em 2002 para 1133 em 2011.

Actualmente, segundo Bendavid, “A lei belga reserva a eutanásia para doentes com sofrimento insuportável e condições incuráveis. Mas o sofrimento não precisa de ser físico nem a doença terminal. A lei também não requer que o doente informe a sua família da decisão.”

Para piorar a situação, é esperado que o Parlamento belga aprove uma lei que permita a eutanásia para menores desde que “um psiquiatra determine que a criança tem capacidade de discernimento” e “desde que os seus pais concordem”.

O Conselho para os Direitos dos Doentes comentou, acerca disto: “Se pôr fim ao sofrimento é uma boa prática médica, porque não há-de o ser para quem tem três anos, cinco ou oito?”

Em resposta, o Arcebispo de Bruxelas, André-Joseph Léonard, disse: “Os menores são considerados incapazes para certos actos, como comprar e vender, casar, e por aí fora. E agora, de repente, são suficientemente maturos aos olhos da lei para poderem pedir a alguém que lhes tire a vida?”

A Bélgica e a Holanda já chegaram ao fundo de um poço. Estão a matar, voluntariamente, os nascituros, os doentes, os novos e os velhos – tudo em nome da compaixão.

João Paulo II já nos avisava para isto na sua encíclica de 1995, “O Evangelho da Vida”:

Mesmo quando não é motivada pela recusa egoísta de cuidar da vida de quem sofre, a eutanásia deve designar-se uma falsa compaixão, antes uma preocupante “perversão” da mesma: a verdadeira “compaixão”, de facto, torna solidário com a dor alheia, não suprime aquele de quem não se pode suportar o sofrimento. E mais perverso ainda se manifesta o gesto da eutanásia, quando é realizado por aqueles que — como os parentes — deveriam assistir com paciência e amor o seu familiar, ou por quantos — como os médicos —, pela sua específica profissão, deveriam tratar o doente, inclusive nas condições terminais mais penosas.

Se deixarmos de cultivar um sentido da sacralidade da vida humana até ao seu fim natural – e neste momento a reforma do sistema de saúde de Obama parece apontar nessa direcção – então não se admirem se os nossos hospitais e lares se transformarem em matadouros “compassivos”.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Junho de 2013 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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