quinta-feira, 4 de julho de 2013

Um olhar sobre o Egipto pós-Morsi

O primeiro Presidente democraticamente eleito no Egipto não durou mais que um ano.

Mohamed Morsi foi ontem deposto através de um golpe militar anunciado. O mais interessante, para mim, é o facto de os militares se terem reunido previamente com os principais líderes religiosos do país, que sancionaram a sua actuação.

Do lado cristão, a escolha era óbvia. O carismático e recém-eleito Papa Tawadros II esteve presente e fez questão de dar a sua aprovação à acção dos militares e aos manifestantes que se encontravam nas ruas.

Do lado muçulmano, o escolhido era o líder da Universidade Al-Azhar, a principal e mais prestigiada instituição de ensino em todo o mundo islâmico. Mas aqui é que a situação fica mais complexa. Como se sabe, o Islão não tem uma hierarquia centralizada. Cada sheikh, ou imã, é virtualmente independente. Em alguns países há cargos oficiais criados pelo Governo, ou então há cargos como este que carregam inerentemente grande prestígio, mas as suas bases não são teológicas e, por isso, não é difícil outras correntes apresentarem objecções ou darem a sua fidelidade a outros líderes.

Por isso, não se pode presumir que, pelo simples facto de o presidente do Al-Azhar ter “dado a sua bênção”, os militares contem agora com o apoio dos islamistas. A Irmandade Muçulmana, e todos os seus seguidores, estão tudo menos contentes com o golpe.

Isto porque, no meu entender, a Irmandade Muçulmana é a grande derrotada deste golpe militar. Quando caiu o regime de Hosni Mubarak ela era, de longe, a força social e política mais bem organizada do país. Foi com naturalidade que chegou ao poder, através do seu Partido da Justiça e da Liberdade, e fez eleger o seu candidato à presidência. Um ano depois o Presidente foi deposto, depois de ter sido abandonado por todos os seus aliados, à excepção da Irmandade, e os líderes do movimento estão detidos.

Tenho sérias dúvidas de que a Irmandade recupere a sua legitimidade e capacidade de acção. Mesmo que lhe seja permitida concorrer a novas eleições. Mas o problema é que isso deixa em aberto um espaço vazio que poderá muito bem ser preenchido por forças bastante mais fundamentalistas. É que em vários aspectos a Irmandade Muçulmana é bastante moderada.

O futuro do Egipto é, portanto, incerto nesta altura. É esperar para ver.

E os cristãos? 10% da população, os coptas são a mais importante comunidade cristã de todo o Médio Oriente. Eles estavam publicamente desiludidos com o regime de Morsi e as suas políticas islamizantes e recordavam frequentemente que ao longo dos últimos anos o número de ataques anticristãos tinha crescido, em relação ao regime de Mubarak.

O apoio dado pelo Papa Tawadros às forças armadas e aos protestos foi impressionante e muito explícita. A sua “glorificação” dos militares é curiosa, tendo em conta a forma como os coptas os criticaram quando há cerca de dois anos mataram uns 25 cristãos desarmados durante uma manifestação.

A seguir à queda de Mubarak todos os egípcios acabaram por revelar a sua impaciência com o tempo levado pelos militares a abandonar o poder aos civis. Agora veremos quando tempo é que as Forças Armadas continuam nas boas graças dos defensores da democracia.

Em todo o caso, o que parece evidente é que os coptas têm em Tawadros um líder forte, sem medo de se comprometer com as causas e de dizer a verdade e defender o seu rebanho. Tawadros é carismático e de sorriso fácil e está a ser levado a sério pelos actores políticos, neste caso pelos militares, o que é bom augúrio para o estatuto dos cristãos no futuro próximo do Egipto.

Vejamos se é desta que o Egipto experimenta mesmo uma Primavera, ou se vem aí outro verão quente seguido de inverno.

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