segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre as irmãs oblatas e o “bordel” na Mouraria

Na Quinta-feira, salvo erro, o Jornal de Negócios publicou um artigo com um título que dizia que a Câmara Municipal de Lisboa vai abrir um bordel na Mouraria, que será gerido pelas freiras Oblatas do Santíssimo Redentor (não confundir com as outras Oblatas, que trabalham na área do ensino).

Claro que deu brado. Nessa noite as televisões pegaram no assunto e no dia seguinte vinha em todos os jornais.

Na Renascença temos uma responsabilidade acrescida no que diz respeito a notícias que metem religião e a Igreja Católica ao barulho. Por isso, e porque a notícia não parecia estar bem explicada, decidiu-se enviar alguém para falar mesmo com as freiras e suas colaboradoras. Calhou-me a mim.

O resultado foi esta reportagem. Mas no que diz respeito à polémica, explica-se rapidamente do seguinte modo.

  1. Esta ordem trabalha exclusivamente com prostitutas, em vários países do mundo.
  2. A Câmara está a fazer a requalificação da Mouraria e, nesse âmbito, as freiras pediram que fosse cedido um espaço para apoio às prostitutas daquela zona.
  3. No sentido de responsabilizar o grupo de prostitutas com quem trabalham, as freiras e a equipa técnica (que inclui leigas), decidiu deixar a elas a decisão do uso a dar à casa. Cito: “Pensou-se então em criar um espaço no Intendente onde elas se reunissem e se organizassem elas próprias, porque, até este momento, somos sempre nós a possibilitar-lhes estes serviços. Aqui era para lhes dar voz e serem elas as protagonistas, a dizerem o que precisavam, se de formação, de apoio na saúde ou de outra coisa. Se elas decidissem que era um espaço onde queriam que se praticasse o trabalho sexual para terem melhores condições de segurança, garantindo a saúde e a higiene, que pudessem fazer também essa escolha”.
  4. A casa é da Câmara, a gestão seria das prostitutas, as Oblatas, em todo o processo fariam apenas de intermediárias.
  5. Não foi ainda tomada qualquer decisão. Não se deve partir do princípio que a decisão passe por ter “um espaço para praticar o trabalho sexual” e, o que não é de somenos, não é nada claro que a Câmara o aceitasse de qualquer maneira, sobretudo depois da polémica dos últimos dias.
Mouraria
Feito este resumo, não queria deixar de dar a minha opinião sobre tudo isto.

Em primeiro lugar penso que não é demais elogiar, muito, o trabalho que estas pessoas fazem junto das mulheres mais marginalizadas da nossa sociedade. Eu sei que há prostitutas de luxo, e algumas que se calhar fazem aquele trabalho por escolha e não por obrigação etc. etc. Pela explicação que me foi dada, não são essas com quem as Oblatas trabalham. Elas estão junto de quem mais precisa e, crucialmente, transmitem-lhes a ideia de que são pessoas, com dignidade, com valor. Humanizam quem, pelo trabalho que exerce, é diariamente desumanizada por clientes, chulos e sociedade.

Segundo, acredito que seja de facto possível que para muitas prostitutas o simples exercício de se organizarem, tomarem decisões e sentirem que alguém lhes confia essa responsabilidade, possa ser o empurrão que faltava para procurar outras soluções.

Terceiro, não obstante tudo isso e sem perder o imenso respeito que ganhei ao tomar conhecimento do trabalho que fazem junto das prostitutas, não concordo com a possibilidade sequer de aquela casa poder ser usada para o exercício da prostituição.

Não posso deixar de pensar nisto pela perspectiva de pai. Tenho duas filhas que, salvo alguma tragédia, jamais conhecerão algo que se pareça sequer com a vida de uma prostituta. Mas se por acaso isso acontecesse?

Como pai faria tudo, mas tudo, o que estivesse ao meu alcance para as “resgatar”, mostrar-lhes que têm valor. Jamais lhes viraria as costas nem as colocaria fora da minha vida. Agora daí a abrir as portas da minha casa para que pudessem exercer... não. Não sou capaz de achar bem que se abram as portas de outras casas para aquelas que não sendo minhas filhas, são filhas de alguém.

Há aqui, por mais que se tente olhar de perspectivas diferentes, um selo de aprovação inerente, que parece legitimar o “trabalho sexual”. Não me refiro às intenções de quem neste caso está a “mediar” o processo, falo sobretudo da impressão que pode causar na sociedade e nas próprias prostitutas. Não me convenço de que seja benéfico.

Eu sei que isto não é um assunto fácil, e claro que não sou eu que lá estou noite após noite a tentar ajudar estas mulheres, a ver o que sofrem. Por outro lado, às vezes é preciso estar de fora para ter uma visão menos influenciada das coisas.

A existência da casa parece-me bem, evidentemente. A formação, apoio sanitário, psicológico e tudo o resto, não posso deixar de louvar, mesmo muito. Mas penso que é importante passar uma mensagem clara. A prostituição não é mais digna por ser “higiénica e segura”, é uma instrumentalização que atenta sempre, sempre, contra a dignidade inerente das mulheres e se não pode ser ignorada, não deve de forma alguma ser encorajada, mesmo que seja visto apenas como um mal menor para se conseguir o objectivo final de possibilitar o abandono daquela vida.

Concluindo, contudo, deixo aqui o contacto da instituição, porque eu vi com os meus olhos muitos dos serviços práticos que prestam, de enormíssimo valor, e sei que obras destas precisam sempre da ajuda que lhes possamos dispensar, seja material, financeiro ou humano. Quem estiver interessado em contactá-las pode fazê-lo para aqui: irmasoblatas@gmail.com.

Filipe d’Avillez

4 comentários:

  1. Uma coisa é caridade e ajuda para o bem; outra coisa é ajuda ou permissão de maior comodidade ou segurança para práticas condenáveis. Por que não pedir uma casa para tudo o que for lícito, exceptuando a prática da prostituição?

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  2. Artigo muito bom!
    Rodrigo

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  3. Oxalá,
    todos os cidadaós, mesmo os clientes, pensassem um pouquito, antes de sair de suas casas, na dignidade de cada mulher, começando por sua esposa, amante, filha ou seja lá o que for...
    se gostaria de vê-la nessa situaçáo?!
    O trabalho dessas abnegadas pessoas que chegam até âs discriminadas (despois de serem usadas), é por demais benéfico para elas. Lhes ajuda a repensar sua vida, actitudes irreponsáveis para ela e seus clientes. As doenças sexualmente transmissíveis... etc. etc. Parabéns âs Irmás pela sua generosidade.

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  4. Falta agora abordar a parte da entrevista em que as irmãs assumem que distribuem preservativos e acompanham estas senhoras a matar os seus filhos. Se o autor desta noticia pudesse falar sobre isto eu agradecia.

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