terça-feira, 20 de março de 2012

Os rebeldes que “estão no Céu” e os Bispos que “estão no Inferno”

Hoje realiza-se, em Roma, a ante-estreia do filme “Cristada”, que está na forja há pelo menos dois anos.

O filme aborda a guerra dos Cristeros, uma força paramilitar composta por católicos que se levantaram contra o regime anticlerical do México.

Os Cristeros combatiam sob o estandarte de Cristo Rei e muitos foram martirizados, entre eles alguns são santos da Igreja Católica.

O movimento Cristero está para o século XX como a revolta da Vendeia está para a época da Revolução Francesa.


O ano passado, no âmbito do congresso sobre os 100 anos da separação entre Igreja e Estado, que se realizou na Universidade Católica, tive a oportunidade de entrevistar Laura O'Dogherty Madrazo, historiadora da Universidade Autónoma de México.

Ela explicou da seguinte maneira o enquadramento da insurreição cristera:

Depois da revolução de 1910 aprovou-se uma Constituição que tinha uma série de artigos anticlericais, como por exemplo que o Estado poderia limitar o número máximo de clérigos de cada Igreja. O primeiro sítio onde esta lei foi posta em prática foi em Guadalajara, e as pessoas manifestaram-se pacificamente contra a sua implementação, conseguindo que ela fosse revogada. Uma das medidas tomadas em protesto foi a supressão do culto por parte da Igreja.

Em 1926 o Estado procura implementar a mesma lei, e a Igreja tenta combatê-la da mesma forma, declarando a suspensão do culto. Mas nesta altura já tinha havido muitos anos de anticlericalismo, e penso que foi isso que provocou um levantamento popular nas zonas mais católicas.

Como é que a situação foi resolvida?
A Igreja hierárquica nunca aprovou o levantamento armado, salvo algumas excepções isoladas. A partir do momento em que começa o levantamento alguns bispos procuram intervir, juntamente com Roma, para alcançar a paz.

Mas para o cristeros, negociar com este Estado era como negociar com o demónio. As negociações culminam em 1929 com um acordo que não anula as leis anticlericais mas deixa subentendida uma aplicação mais lata das mesmas.

Os cristeros não estão de acordo, mas a partir do momento em que volta a haver o culto, em que as Igrejas reabrem ao culto, os cristeros depõem as armas.

Voltará a haver um levantamento na década de 30, também por causa do anticlericalismo.

Em meu entender os cristeros perderam. Perderam, não por terem sido derrotados pelas armas, mas porque foram traídos pela hierarquia da Igreja.


Certa vez, num jantar em que se falava deste assunto, um padre meu conhecido exclamou, com um estilo muito próprio: “Os bispos traíram os fiéis. Neste momento, os bispos estão no Inferno e os cristeros estão no Céu”…

Filipe d'Avillez

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