quarta-feira, 1 de junho de 2016

A Ditadura do Horror

Há meses que temos ouvido elogios à biografia do Cardeal Robert Sarah “Deus ou Nada”. E com razão. É um texto belíssimo. Uma longa conversa entre o jornalista francês Nicholas Diat e um homem belo e santo. Recorda com grande detalhe a sua infância em África; a santidade dos seus pais, da família e da aldeia e a profunda influência que os europeus que vieram evangelizar a Guiné tiveram sobre ele e sobre tantos outros.

Por estranho que pareça, fez-me lembrar o retrato igualmente gentil que Bento XVI pinta da sua infância numa aldeia bávara, permeada por festas católicas e uma fé comum, no seu livro “O Sal da Terra”. Lidos em conjunto – e se ainda não o fez, deve ler ambos – fornecem uma bela imagem da vida católica em ambientes muito diferentes, simultaneamente intensamente particular e transculturalmente universal.

Em ambas as figuras podemos ver que a bondade que encontraram na sua juventude não os cegou à realidade do pecado e do mal. Ratzinger sentiu-se repelido pelos esforços nazis de impor o culto do Volk no lugar das festas cristãs tradicionais. E Sarah teve a sua quota-parte de dificuldades com homens fortes e pequenos tiranos em África. Mas tanto num caso como no outro o facto de terem tido contacto bem cedo com o bem permitiu que enfrentassem – e avaliassem correctamente – o mal.

Essa sanidade básica faz com que seja ainda mais pertinente quando alguém como Sarah resume grande parte daquilo a que assistimos hoje, dizendo que “a destruição da vida humana já não é só um acto bárbaro, mas um sinal do progresso da civilização… Já não é uma forma de decadência, mas, antes, uma ditadura do horror, um genocídio programado de que são culpadas as potências ocidentais. Esta campanha incansável contra a vida é uma fase nova e definitiva de uma campanha incansável contra o plano de Deus.”

A semana passada disse coisas semelhantes no National Catholic Prayer Breakfast, em Washington. Trata-se de mais do que uma variação do famoso aviso de Bento XVI sobre a “ditadura do relativismo”, uma vez que aponta para algo que o mundo se esforça por não ver, ao mesmo tempo que se congratula por combater males selectivos. A Fundação Gates, por exemplo, gasta milhões em contraceptivos, alegadamente para promover a dignidade das mulheres. Mas Sarah questiona se o verdadeiro propósito não será eliminar africanos pobres. A promoção mundial do aborto e da eutanásia é, também ela, uma forma de insensibilidade mascarada de compaixão.

Mas não é só no estrangeiro. Nos Estados Unidos temos estado a tentar expor a Planned Parenthood como aquilo que é: o maior matadouro de crianças nascituras – por vezes vendendo os seus restos mortais – através de 300,000 abortos por ano. Trata-se do equivalente às melhores estimativas de civis mortos na guerra civil da Síria. Com a Síria assistimos à revolta internacional, mas os dados do aborto são só mais uma estatística, neste caso anual.

As organizações de socorro calculam que já morreram 14,000 crianças no conflito sírio. É horrível mas, fazendo as contas, são apenas algumas semanas de trabalho na Planned Parenthood.

Barack Obama acaba de visitar Hiroshima, recordando as duas bombas atómicas que os americanos largaram sobre o Japão e encorajando o mundo a nunca mais usar este tipo de armamento. Em Hiroshima e Nagasaki morreram 130,000 mil pessoas.

Mas vamos a mais números. A China relata 13 milhões de abortos por ano. Os peritos dizem, contudo, que muitos casos são escondidos por razões políticas e que o verdadeiro número pode ser o dobro. Todas as ofensas à vida humana interessam e os meros números nunca contam a história toda. Mas mesmo esse dado oficial significa que a China comunista é responsável (em muitos casos através de abortos forçados) por 100 vezes mais mortes por ano do que houve vítimas dos ataques nucleares ao Japão – cerca de metade dos mortos em batalha durante a II Guerra Mundial. Estamos a falar de dados anuais, todos os anos, durante décadas. Em todo o mundo, ao longo dos últimos trinta anos, houve provavelmente uns 1,2 mil milhões de abortos.

Nunca houve uma guerra, holocausto ou praga natural que se aproximasse sequer desta escala.

A “ditadura do horror” de Sarah mostra claramente como adoramos lamentar-nos de coisas de que é fácil não gostar, mas fazemos por não reparar nos massacres muito maiores que se passam diária e anualmente não só aqui e na China mas na Europa, na América Latina e na Ásia.

Cardeal Robert Sarah
Longe de tentar impedir que estas coisas continuem, as organizações internacionais como a ONU, a União Europeia e, infelizmente, o Governo Americano sub regno Obamae, estão activamente a promover o massacre moderno de inocentes sob o disfarce de um direito humano.

Recentemente o Papa Francisco sublinhou outro horror que até há muito pouco tempo era invisível: a tragédia de milhões de refugiados e migrantes – só esta semana dúzias de cadáveres de refugiados e migrantes que tentavam atravessar o Mediterrâneo deram à costa. Centenas de outros morreram só este ano a tentar fazer a travessia. Estas são verdadeiras tragédias humanas, que devem ser levadas a sério, sem que deixemos de recordar os outros massacres que o mundo prefere ignorar.

Sendo africano, o Cardeal Sarah repara nestas coisas e noutras ainda, que nos passam despercebidas. Muitas vezes é ignorado por essa mesma razão. Mas é difícil ignorar passagens como esta: “Os europeus não compreendem como os africanos ficam chocados com a falta de atenção que é dada aos idosos nos países ocidentais. Esta tendência para esconder e marginalizar a velhice é sinal de um egoísmo preocupante, de falta de coração ou, mais precisamente, de dureza de coração. Sim, as pessoas têm todo o conforto e o acompanhamento físico de que precisam. Mas falta-lhes o calor, a proximidade e o afecto humano dos seus parentes e amigos, que estão demasiado ocupados com as suas obrigações profissionais, tempos livres e férias.”

O desejo por conforto também está associado à dependência global pelo aborto e uma atracção crescente pela eutanásia. O cardeal Sarah foi educado de forma diferente: “Eu aprendi dos meus pais a dar. Estávamos habituados a receber visitas, o que me ensinou a importância da generosidade e da hospitalidade. Para os meus pais, e para todos os habitantes da minha aldeia, no acto de receber convidados estava implícita a ideia de que os queríamos agradar. A harmonia familiar pode ser um reflexo da harmonia celeste.”

Os valores da família podem ser pervertidos e transformados em falso tribalismo, diz ainda o Cardeal, mas a ausência de relações próximas poderá ser hoje o mais comum de todos os horrores, porque toca na raiz da nossa humanidade: “A batalha para preservar as raízes da humanidade é talvez o maior desafio que o nosso mundo enfrenta desde que foi criado”.


Robert Royal é editor de The Catholic Thing e presidente do Faith and Reason Institute em Washington D.C. O seu mais recente livro é A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century, da Ignatius Press. The God That Did Not Fail: How Religion Built and Sustains the West está também disponível pela Encounter Books.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 28 de Maio de 2016)

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7 comentários:

  1. Onde podemos comprar este livro do cardeal Sarah em Portugal? E o Sal da Terra do Papa Bento?
    Obrigado.

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  2. Olá!
    Penso que o livro do Sarah não está traduzido ainda para português. No texto, se clicar no título do livro de Bento XVI chega à loja online Wook, onde pode encomendar. A editora é a Multinova. Já tem uns bons anos, não sei se as lojas terão em stock.

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    1. Está traduzido para o português e publicado pela Fons Sapientiae, um selo editorial da Distribuidora Loyola de Livros.
      Sou jornalista e fiz a assessoria de imprensa do livro.

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    2. Muito obrigado Guilherme. Presumo que esteja a referir-se a uma edição em português do Brasil. Em todo o caso fica a informação! Deve ser possível encomendar.

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  3. Muito bom artigo, denotando como o maior massacre jamais conseguido pelo Ser Humano..., ocorre actualmente, e dá pelo nome de aborto. Os campeões, são os socialistas chineses, seguidos quase na certa pelos hedonistas americanos.
    Porque a Igreja não defende a criação de uma coluna militar em locais do Norte de África, a fim de evitar as travessias de imigrantes. Seria melhor para eles, serem lá ajudados, com o apoio da NATO e ONU, em vez de virem para a Europa, fomentar o ócio e violência, pois a maioria não conseguirá emprego!

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  4. É UMA PERGUNTA: O CARDEAL ROBERT SARAH ESCREVEU UM LIVRO CHAMADO "FORÇA DO SILENCIO?"
    grato

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  5. É um livro/entrevista, se bem percebo. Mas sim, é dele, editado em Portugal pela Princípia.
    Cumprimentos

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