quarta-feira, 15 de junho de 2016

Conservadorismo na Encruzilhada

Francis J. Beckwith
Reza a história que Robert Johnson, o lendário cantor de blues, vendeu a alma ao diabo a troco de se tornar um dos melhores guitarristas que alguma vez pisou a terra. Foi à meia-noite, quando se encontrava numa encruzilhada no Mississippi.  

I went to the crossroad, fell down on my knees
I went to the crossroad, fell down on my knees
Asked the Lord above, “Have mercy, now save poor Bob, if you please”
(“Crossroads Blues”)

Pouco tempo depois dessa alegada transacção, quando tinha apenas 27 anos, Johnson morreu. Talvez venha daí a expressão “chegar à encruzilhada” em referência ao momento em que se tem de escolher entre o sucesso mundano e a integridade da alma.

Parece-me que o conservadorismo americano chegou precisamente a uma dessas encruzilhadas, em que os seus defensores têm de decidir se o movimento deve ser guiado por um conservadorismo ancorado nas verdades inalteráveis da natureza humana que nos apontam na direcção do bem, da verdade e do belo, ou se devem alinhar com o conservadorismo do mero mercado.

Este “conservadorismo de mercado” consiste na ideia de que como o mercado livre tem sido tão eficiente a produzir riqueza e prosperidade, permitindo-nos gozar de muitos outros bens, a lógica do mercado deve ser aplicada a todos os aspectos da vida. Uma vez que o valor dos bens é calculado com base no preço que as pessoas estão dispostas a pagar por eles, o valor de todos os bens aparentes – incluindo as supracitadas inclinações da natureza humana – não acarretam qualquer peso normativo para o conservador de mercado.

Do seu ponto de vista, longe de serem verdades básicas da natureza humana sobre as quais depende o bem comum, estas são limites à liberdade de cada indivíduo para poder perseguir a sua própria visão subjectiva do que constitui uma vida boa. Por esta razão, para o conservador de mercado o objectivo praticamente único da política é garantir o Governo limitado, isto significa a economia de mercado livre mas também a eliminação de leis e costumes que interfiram com a demanda do consumidor. Assim, segundo esta narrativa, o bem comum (se é que o termo se aplica) é medido de acordo com a libertação de amarras como a tradição, a natureza, as ligações familiares, religião, etc. para poder adquirir o que deseja quando o deseja.

Todavia, em termos práticos, os conservadores de mercado e os defensores da moral tradicional tem usado muitas vezes o mesmo vocabulário e chegado a conclusões semelhantes em termos de política, embora as razões de fundo sejam muito diferentes. Tal como o conservador de mercado, o defensor da moral tradicional costuma defender a ideia do governo limitado. Assim, por exemplo, ambos apoiam o mercado livre, uma vez que esse sistema económico é o que tem o melhor registo em termos de melhoria de qualidade de vida. 

Mas o que é que interessa melhorar a qualidade de vida? Para o conservador de mercado, “o grande propósito”, nas palavras de C.S. Lewis em “A Abolição do Homem” é “alimentar e vestir as pessoas”. (O próprio Lewis não era um conservador de mercado). A questão de como é que estes cidadãos conduziam as suas vidas – se seguiam ou não os preceitos da justiça natural – não compete à jurisdição da lei, desde que a sua conduta não interfira com as escolhas privadas dos seus concidadãos para perseguirem as suas próprias ideias de boa vida.


O defensor da moral tradicional concorda com o conservador de mercado sobre os benefícios de as pessoas estarem bem alimentadas e vestidas, mas na sua opinião elas são apenas úteis na medida em que o ajudam a cumprir com as suas obrigações para com esposo, prole, vizinho, nação e Deus. Para ele, a liberdade é a possibilidade de poder procurar os bens não escolhidos de justiça natural sem ter de se preocupar com obstáculos exteriores como criminosos ou governos injustos. Para o conservador de mercado, a liberdade é a possibilidade de poder satisfazer os seus desejos sem ter de se preocupar com quaisquer obrigações não escolhidas para com esposo, prole, vizinho, nação ou Deus. Para o defensor da moral tradicional, é o bem que é desejável por si, enquanto para o conservador de mercado o desejo é o que confere valor a algo e o torna bom.

Na medida em que o mercado livre e os seus limites morais estavam contextualizados numa infra-estrutura moral que não era conscientemente hostil aos objectivos do defensor da moral tradicional, fazia muito sentido uma aliança entre estes dois tipos de conservadorismo. O defensor da moral tradicional tinha boas razões para apoiar o mercado livre, enquanto o conservador de mercado tinha razões pragmáticas para aceitar os dados adquiridos da cultura mais alargada, cujos mandarins não tinham como objectivo principal esmagar as instituições e o modo de vida tradicionais, bem como qualquer oposição pública que delas pudesse brotar.

Mas esse já não é o mundo em que vivemos. Vivemos num mundo em que as grandes empresas criaram um cartel cultural – um monopólio moral – com o qual esperam tornar a resistência tão cara e a anuência tão barata, que os seus concorrentes ideológicos sejam levados a declarar bancarrota civilizacional ou sofrer uma OPA hostil.

Alguns consideram que o conservador de mercado nunca foi verdadeiramente amigo do defensor da moral tradicional, que tudo não passava de um casamento de conveniência, destinado ao divórcio logo que um dos dois encontrasse uma alternativa melhor. Talvez, embora eu considere que é uma teoria algo simplista. O que não podemos fazer é ignorar o lugar e a hora em que nos encontramos: É meia-noite e chegámos à encruzilhada.


(Publicado pela primeira vez na Quinta-feira, 9 de Junho 2016 em The Catholic Thing)

Francis J. Beckwith é professor de Filosofia e Estudos Estado-Igreja na Universidade de Baylor. É autor de Politics for Christians: Statecraft as Soulcraft, e (juntamente com Robert P. George e Susan McWilliams), A Second Look at First Things: A Case for Conservative Politics.

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