quarta-feira, 26 de junho de 2013

Sobre “Penitências Severas”

James V. Schall S.J.
O autor australiano Frank Sheed, fundador, juntamente com a sua mulher Maisie Ward, da famosa editora católica Sheed & Ward, adorava falar das suas experiências com a Catholic Truth Society (CTS). Ele e os amigos apresentavam e debatiam questões de fé com quem quisesse aparecer na esquina de Hyde Park, ou outros lugares famosos de debate e discussão em Londres. Tratava-se de um jogo de verdade e de perspicácia. Recentemente encontrei um ensaio de Sheed chamado “The Church and I”, no qual ele recorda estas experiências de controvérsia na via pública (Catholic Digest, Janeiro 1975).

Certo dia um dos seus colegas foi insultado e desafiado por uma mulher barulhenta e bastante pouco atraente. Era conhecida pelos seus pontos de vista sobre a Igreja, tudo menos positivos. O homem da CTS falava sobre confissão quando a senhora o interrompeu, em tom jocoso: “Oh, eu conheço-vos, católicos. Os vossos rapazes vão se confessar à Igreja que fica em frente à minha casa. A seguir vêm ter comigo para fazer amor”. Era preciso lidar com esta mulher de forma cuidadosa.

O homem da CTS esperou para que a gravidade da acusação tivesse o seu devido efeito. Depois respondeu, solenemente: “Minha senhora, não fazia ideia que os padres estavam a dar penitências tão severas hoje em dia”. Há que louvar o recurso à destreza e ao humor na teologia!

É preciso conhecer bem a prática e o ensinamento católico para apreciar o humor nesta resposta. Muitas pessoas não acreditam no pecado e disputam se, na prática, existe tal realidade. No entanto não deixam de acusar os católicos de hipocrisia porque alguns deles confessam os seus pecados, cumprem as penitências e depois, apesar das admoestações, voltam a cometê-los.

O próprio Cristo foi questionado sobre a quantidade de vezes que se deve perdoar ao pecador. “Até setenta vezes sete”, disse, em Mateus 18,22. O Senhor parece ter ficado menos surpreendido com a existência de pecadores insistentes do que nós. Ele percebeu, como Aristóteles, a dificuldade que temos em ultrapassar os nossos vícios.

Cristo disse várias vezes que os rectos não precisam de arrependimento. Ele veio salvar os pecadores, cuja existência parecia ser uma evidência. A salvação dos pecadores pressupõe logicamente: a) a existência do pecado (ou, melhor, que não fomos capazes de fazer o bem quando o podíamos ter feito); e b) a existência de algum meio pelo qual esses pecados podem ser reconhecidos e perdoados, nomeadamente uma “penitência”, seguida de reconhecimento de culpa pelo sucedido por parte do pecador. Mais, o pecado não é apenas uma rejeição humana e desordenada de um padrão objectivo do bem, carrega consigo a noção de que todos os pecados são pessoais e que tocam na verdadeira essência do pecador. Esta realidade explica porque razão nem os homens nem os anjos podem “perdoar” os pecados, mas apenas Deus.

A desordem do pecado é algo que atinge até a divindade. Jesus escandalizou os escribas e os fariseus ao afirmar que tinha o poder de perdoar os pecados. Eles bem sabiam que ele estava a reclamar para si um poder divino, que ele provou possuir implicitamente através dos milagres que fazia nestas ocasiões.


Na verdade, as “penitências severas” serviam para mostrar que o penitente estava consciente da desordem causada pelos seus pecados. Era tudo o que se podia fazer para restaurar os danos causados à ordem moral. Platão já tinha dito, e com razão, que por essa mesma razão devíamos desejar o castigo.

A ausência de penitência, severa ou outra, implica, no meu entender, um mundo em que nada do que fazemos importa realmente. Isto é precisamente o contrário do mundo que Deus criou. Neste mundo a sabedoria e o pecado podem existir lado a lado. Porque quando a Palavra foi feita carne o pecado deixou de ter a última palavra.

Será por isso que lemos nos Evangelhos que há mais alegria no Céu por um penitente do que por 99 justos que não precisam de “arrependimento?” (Lucas, 15,7)


Nota: Por decisão minha, retirei os primeiros dois parágrafos deste artigo, pois para além de complexos não encontrei neles grande ligação ao resto do texto. Contudo, para que não falte nada aos nossos leitores, aqui ficam os dois parágrafos completos.

Filipe d’Avillez

Na audiência geral de 17 de Outubro de 2012 o Papa Bento XVI disse que muitos problemas são causados pela compreensão incorrecta ou incompleta de palavras precisas e sentidos de doutrina, em particular do Credo. Pensamos que, desde que haja boas intenções, não precisamos de ser demasiado precisos sobre o que ensinamos. Não é verdade que devemos a nossa obediência a uma “Pessoa” e não a verdades abstractas? É verdade, desde que percebamos que a verdade consiste numa pessoa afirmar, cuidadosamente, aquilo que é verdade e a negar aquilo que não é.

A precisão do discurso e da definição estão na base da nossa liberdade na lei. Cristo, como explicou Peter Kreeft no seu livro “Philosophy of Jesus”, apresentou-se como um orador e pensador preciso. O termo “a Palavra fez-se carne” carrega consigo uma longa história de pensamentos confusos, que tiveram como efeito prático muitas coisas indesejáveis no nosso tempo. Dizer “Cristo, enquanto pessoa, é a Verdade”, não nos livra de ter de falar em termos precisos sobre quem e o que é que Ele é. Nem todas as palavras têm o mesmo sentido.


James V. Schall, S.J., é professor na Universidade de Georgetown e um dos autores católicos mais prolíficos da América. O seu mais recente livro chama-se The Mind That Is Catholic.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 25 de Junho 2013 em The Catholic Thing)

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3 comentários:

  1. "Ele percebeu, com Aristóteles, a dificuldade que temos em ultrapassar os nossos vícios"

    Dá a ideia que Cristo aprendeu a essência da Humanidade com outro sábio... Mas como Cristo é Deus já o sabia, claro.
    Rodrigo

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  2. Olá Rodrigo,
    Para evitar a confusão mudei para "Ele percebeu, como Aristóteles"

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  3. voltei a ler, mas pela segunda vez em simultaneo com a 'xungaria no céu'. épico.

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