quarta-feira, 19 de junho de 2013

As Pequenas Almas Sofredoras III: Brendan Kelly de Great Falls

(Este é o segundo artigo de Austin Ruse sobre este tema. O primeiro encontra-se aqui e o segundo, aqui)

Duas semanas antes de morrer, quando tinha 16 anos, Brendan Kelly foi-se deitar com a ajuda de uma tia. Os tratamentos à base de esteróides, usados para combater o desgaste causado pela quimioterapia, tinham levado este rapaz, já por si grande, a pesar mais de 90 quilos. Portanto era difícil pô-lo na cama, ainda mais por causa das feridas que lhe cobriam todo o corpo.

Todo o seu corpo doía, excepto a cabeça. Por isso a sua tia fez-lhe umas festinhas na fronte e ele disse: “Tia Kelly, estou tão feliz. Tudo o que é preciso para se ser feliz é abrir o coração a Jesus”.

Uma psiquiatra que tinha sido contratada para o ajudar a ultrapassar as principais dificuldades causadas pela leucemia acabou por não cobrar a maioria das consultas. Depois de ele morrer ela disse que falar com Brendan era como falar com Deus. Como é que se pode cobrar uma experiência dessas? Disse também que a morte do rapaz tinha sido a experiência mais difícil da sua vida.

O Brendan tinha uma capacidade sobrenatural de identificar a dor dos outros e de a curar, como um cirurgião. A sua mãe era treinadora da equipa de basebol das raparigas. Uma das miúdas na equipa vinha de uma família disfuncional. Era má e pouco comunicativa. Mas o Brendan não lhe deu descanso, sentava-se com ela, encostava a cabeça no seu ombro, falava com ela, tentava fazê-la rir e falava-lhe de Jesus.

Durou semanas. De início ela odiou. Eventualmente sorriu, depois riu-se e eventualmente transformou-se numa pessoa inteiramente nova, que ainda hoje é. Este género de coisas era uma constante na vida de Brendan.

O Brendan nasceu com trissomia 21. Aos quatro anos foi diagnosticado com leucemia, um cancro com altos índices de remissão, mas cujo tratamento é devastador. Inunda-se o corpo de quimioterapia e depois dá-se doses cavalares de esteróides. Isto pode ser feito intervaladamente durante meses e os efeitos são terríveis.

Após o diagnóstico a sua família candidatou-se à fundação Make-a-Wish: Ele queria conhecer o Papa. De início a fundação não acreditou, até então nenhuma outra criança tinha feito esse pedido. Por isso encontraram-se com ele em privado. Ofereceram-lhe a Disney World, uma viagem de submarino e encontros com estrelas de basebol. Queriam garantir que o encontro com o Papa era o seu desejo e não o dos seus pais. Mas ele insistiu.

Em Setembro de 2001 a família juntou-se a outras em Castel Gandolfo, para se encontrarem com João Paulo II. Quando o Papa entrou, em vez de esperar pela sua vez, o Brendan correu de encontro a ele e deu-lhe o braço enquanto ele cumprimentava todos os outros peregrinos. O Brendan não saía de lá por nada, e o Papa estava encantado. Passou o tempo todo a olhar para ele e a sorrir.

Quando o Papa começou a sair, aliás, quando já estava fora da porta e a desaparecer de vista, o Brendan gritou: “Adeus Papa!”. João Paulo Magno voltou atrás e a família tirou a fotografia que ilustra este artigo.
 
Brendan Kelly encanta João Paulo II
O Brendan era um místico. Conversava continuamente com Jesus e com o seu anjo da guarda. Depois de se confessar, certa noite, fez uma penitência que durou muito tempo. Lá fora o seu pai perguntou-lhe o que tinha demorado tanto. O Brendan respondeu que tinha estado a falar com Jesus. “No sacrário?”, perguntou o seu pai. “Não, na luz por cima do sacrário”, respondeu. Segundo o pároco, padre Drummond, não havia uma única luz acesa na Igreja.

O Brendan não passava por uma Igreja sem soprar um beijo e gritar, “Olá Jesus”. Esta reacção era para ele tão natural que um padre do Opus Dei ainda a usa como exemplo de um estado avançado de vida interior.

Estava tão apaixonado pela Eucaristia que depois da quimioterapia, quando ele tinha de estar em isolamento porque o seu sistema imunitário estava de rastos, a família ficava à porta da Igreja, dentro do carro. Quando chegava altura da comunhão o padre Drummond descia do altar, saía da Igreja e dava a Brendan o Santíssimo Sacramento através da janela.

A leucemia perseguiu-o durante a sua vida quase toda. Foi diagnosticado aos quatro anos e foi submetido a um tratamento de dois anos e meio. Regressou aos 10 anos e foram mais dois anos de tratamento. Aos 14 voltou de novo e fez um transplante de medula.

Oferecia o seu sofrimento pelos outros. Entre as suas intenções especiais estava a Bella Santorum [filha do político Rick Santorum], que devia ter morrido à nascença devido às suas malformações. Quando estava a sofrer de forma particularmente dura o Brendan gritava: “Amo-te Bella”. A Bella ainda vive.

Há muitas histórias fantásticas sobre Brendan Kelly. Certo dia o seu pai recebeu um e-mail urgente de um colega que tinha acabado de ser feito refém por terroristas em Bombaím e pedia as orações de Brendan. O Brendan fê-lo e disse que o homem seria salvo. O facto de ele ter sido salvo nessa mesma noite é menos interessante do que, num momento de absoluto terror, ele tenha solicitado a intercessão de um rapaz com síndrome de Down e leucemia.

O Brendan era um rapaz normal. Adorava desporto e filmes e tinha um sentido de humor infantil. Não queria estar doente, nem morrer, e perguntava porque é que Deus atendia todas as orações que ele fazia por outros, mas não por ele mesmo. Por vezes sofria de ansiedade e até depressão. O padre Drummond diz que até isto o Brendan estava disposto a carregar como a sua cruz.

Quando o padre Drummond lhe perguntou se queria ser acólito ele respondeu imediatamente que sim. Quando lhe disseram que teria de usar uma batina e uma sobrepeliz ficou com um olhar distante e sussurrou: “adoro-os”.

Brendan Kelly foi sepultado há um mês com a sua batina e a sobrepeliz. Brendan Kelly, rogai por nós.


Austin Ruse é presidente do Catholic Family & Human Rights Institute (C-FAM), sedeado em Nova Iorque e em Washington D.C., uma instituição de pesquisa que se concentra unicamente nas políticas sociais internacionais. As opiniões aqui expressas são apenas as dele e não reflectem necessariamente as políticas ou as posições da C-FAM.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 14 de Junho 2013 em The Catholic Thing)


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