segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

7 – Boko Haram e o espectro da guerra religiosa na Nigéria

Cristãs aterrorizadas fogem do local de um atentado
Uma das coisas mais deprimentes que há é quando tragédias começam a ser tão comuns que deixam de ser notícia.

Há o sério risco de isso acontecer na Nigéria. Já perdi a conta às vezes que fiz notícias sobre ataques a alvos cristãos naquele país, ao ponto de ter de puxar pela cabeça para inventar títulos, porque “Igreja atacada na Nigéria” ou mesmo “Mais um ataque a cristãos na Nigéria” simplesmente não diz nada.

Todos os dias em África morrem pessoas vítimas de terrorismo, assassinadas por um dos milhentos grupos armados que lá opera ou então mesmo pelas Forças Armadas oficiais que por vezes pouco mais são que bandos armados também. Mas os ataques na Nigéria são particularmente importantes pelo potencial explosivo que têm. Para o compreender temos que ver o contexto do país.

A Nigéria é, em termos demográficos, o maior país de África, com cerca de 170 milhões de habitantes. Ainda em termos demográficos é quase um modelo do continente em si, dividido mais ou menos ao meio entre cristãos, no Sul, e muçulmanos, no Norte.

É neste contexto que nasce o grupo armado Boko Haram, simplesmente como expressão mais extrema de uma tendência já existente no Norte da Nigéria de islamização e imposição da Sharia nos Estados de maioria islâmica. São vários os Estados que já têm leis islâmicas e os membros do Boko Haram simplesmente querem aprofundar isso e aplicar a lei a todo o país, incluindo ao Sul maioritariamente cristão.

Houve vários incidentes antes de 2010, muitos nem foram levados a cabo pelo Boko Haram, mas um dos piores ataques foi no dia de Natal de 2010, com ataques concertados a Igrejas cristãs. Em 2011 repetiu-se a dose e, a duas semanas do Natal, veremos se não acontece este ano o mesmo. Mas parece que para este grupo terrorista o Natal é mesmo quando o homem quer e portanto todos os domingos qualquer Igreja no Norte ou centro do país torna-se um potencial alvo. Só este ano foram dezenas de ataques e centenas de mortos.
Comunicação do líder do Boko Haram
Provavelmente sobre paz e amor...

Em abono da verdade, o Boko Haram não ataca só cristãos. Já mataram polícias, militares, políticos e até muçulmanos que não partilhem da sua visão. Atacaram a sede da ONU em Abuja e são responsáveis, ao todo, por centenas, se não milhares de mortos.

A violência perpetrada pelo Boko Haram é interessante do ponto de vista religioso, então, por três motivos. Em primeiro lugar porque se insere no quadro mais geral do aumento do Islão político fundamentalista no Norte da Nigéria, em segundo lugar porque os terroristas agem motivados sobretudo por razões religiosas e em terceiro lugar pelo potencial que existe de se motivar uma guerra civil entre o Norte muçulmano e o Sul cristão que poderiam ter ramificações absolutamente terríveis a nível de todo o continente.

Foi sobre isto que falei com um padre nigeriano em Setembro deste ano. O padre Michael disse-me que os bispos católicos e outros líderes cristãos estão a fazer grandes esforços para evitar que os seus fiéis entrem na lógica da retaliação. É verdade que tem havido alguns incidentes, sobretudo em cidades onde a mistura de populações é mais equilibrada e onde tem havido também massacres de muçulmanos por cristãos, normalmente em resposta a ataques prévios. Mas não existe do lado cristão um equivalente ao Boko Haram nem existe no Sul do país um movimento equivalente ao islamista no Norte, que queira impor um modo de vida e leis religiosas ao resto do país. Mas o facto de isso não ter acontecido ainda não significa que não venha a acontecer. Esperemos que não.

É que uma guerra civil na Nigéria dificilmente deixaria de se tornar logo um conflito de âmbito continental, com efeitos imediatos noutros países com população mista.

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