terça-feira, 11 de dezembro de 2012

6 – Auto-imolações no Tibete

Cada vez mais penso que os europeus não estão equipados para lidar com o fenómeno das auto-imolações no Tibete. De que outra maneira se pode explicar que depois de 95 casos (sim 95!), cada nova notícia de imolação é tratada com uma notícia de um ou dois parágrafos?

Muitos têm dificuldade em compreender que haja quem esteja disposto a morrer por uma causa, mas isso, ainda assim, é um conceito que faz parte da nossa cultura cristã, religião fundada por vagas sucessivas de mártires. Deploramos o facto de haver quem esteja disposto a matar, matando-se no processo, por uma causa ou por uma fé. Isso já não faz parte da nossa matriz. Mas há algo repulsivamente lógico em dar a nossa vida desde que consigamos causar danos graves ao “inimigo”, ou matar mais deles do que os que perdemos.

Mas o que se passa no Tibete é totalmente diferente. Lá, homens, mulheres e jovens estão a tirar a sua própria vida como manifestação política, sem ferir mais ninguém. Estão-se a imolar em ambos os sentidos da palavra, isto é, fazendo-se consumir pelo fogo mas também como acto sacrificial.

É por isso que, como já escrevi aqui, o gesto da auto-imolação tem tão maior impacto que outras formas de suicídio. A imolação pelo fogo tem recorda-nos temas religiosos, os sacrifícios do Antigo Testamento. Nada disto é acidental.

Em dois anos são 95 as pessoas que, em defesa da liberdade da sua nação e em protesto contra o exílio do seu líder, se regam com gasolina e dão a vida às chamas. Dois dos casos, pelo menos, deram-se fora do país, um na Índia e outro em França.

Se nós temos dificuldade em lidar com isto os chineses também têm. Como é que se impede este tipo de protesto? Como é que se continua a dizer que os tibetanos estão melhor com a China do que estavam quando eram independentes quando as pessoas em causa se incendeiam para protestar a sua presença?

A solução até agora tem passado por culpar o Dalai Lama. Este, por sua vez, já disse que os tibetanos devem evitar este tipo de actos, mas os Governo tibetano no exílio recusa-se a condenar as vítimas e fala actos compreensíveis e uma “expressão de liberdade”.

Não está aqui em causa a glorificação do acto. Um acto que para os cristãos, e não só, é inteiramente condenável, por ser suicídio, mas que revela também a diferente visão que os budistas têm da vida e da existência humana, como essencialmente marcada por sofrimento e decadência da qual nos devemos tentar libertar.*

Estas notícias têm, por isso, uma incontornável carga religiosa. Primeiro porque o Tibete é uma nação profundamente religiosa e o Dalai Lama, por quem estas pessoas dão a vida, é antes de mais um líder religioso. Depois, porque é precisamente a religião budista, professada pela esmagadora maioria dos tibetanos, que molda e informa esta opção tão extrema.

Dizia, não está em causa a glorificação mas sim o espanto por este tema não ser tratado com a seriedade que merece. Mas como podemos esperar que os media tratem um assunto que simplesmente não conseguem compreender? E atenção que me incluo nesta crítica, eu que me tenho esforçado por acompanhar o problema e dar as notícias, mas que também tenho dificuldade em captar o seu verdadeiro significado e a sua verdadeira magnitude.

* Tendo em conta que surgiram algumas dúvidas, não estou a insinuar que essa "libertação" deva ser alcançada por via do suicídio.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Partilhar