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Wednesday, 17 January 2024

Três previsões esperançosas para o Ano Novo

Stephen P. White
O começo de um novo ano é sempre tempo de olhar para trás sobre a mais recente volta dada ao sol, fazendo contas ao que se passou, tanto de bom como de mau, e de fazer resoluções sobre aquilo que pode ser feito melhor, ou pelo menos diferente, durante a volta seguinte.

Na minha experiência, a frescura do novo ano tende a encher-nos de optimismo. Mas também na minha experiência, esse optimismo raramente perdura para além de Quarta-feira de Cinzas. O optimismo do início de Janeiro raramente chega sequer intacto a Fevereiro. Pelo início da Quaresma eu já estou pronto para penitência.

Dito isto, Janeiro também é um bom mês para prognósticos. Agora é tão boa altura como qualquer outra para antecipar o que nos trará 2024 – tanto de bom como de mau – para que possamos estar o mais preparados possível para o que vier. E para que em Janeiro do ano que vem possamos olhar para trás para as nossas previsões e rirmo-nos por termos sido exageradamente esperançosos ou desnecessariamente preocupados com todas as coisas erradas.

É por isso num espírito de autocrítica preventiva que submeto as seguintes três previsões para este ano de Nosso Senhor de 2024.

Primeiro, como devem saber, aqui nos Estados Unidos estamos novamente em ano de eleições. As eleições nacionais nos Estados Unidos, sobretudo as presidenciais, tornaram-se exercícios de medo e ódio em massa. Medo, na medida em que este mais recente episódio de “a eleição mais importante de sempre”, levou ambos os lados a convencerem-se de que a fasquia nunca esteve tão alta, e que a situação nunca foi tão desesperada. Ódio, no sentido em que toda a gente, em ambos os partidos, parece desgostar do seu próprio lado só um bocadinho menos do que odeiam os bárbaros do outro lado da coxia. 

Pelo menos às vezes parece tratar-se de “todos”. Eu não gosto de desdramatizar a importância da política, até quando, ou talvez especialmente quando, a nossa cena política parece estar tão fracturada. Nem faz o meu género menosprezar a gravidade dos desafios que enfrentamos, que há muito deixaram de ter a ver com como atingir os nossos objectivos comuns, transformando-se em profundos desentendimentos sobre a própria natureza e propósito do ser humano, e por isso da própria sociedade.

A história, como nos recordou João Paulo II, tem-nos demonstrado que até as democracias se podem transformar em totalitarismos mais ou menos disfarçados, se não tiverem as fundações morais e filosóficas adequadas. É possível insistir tanto que a ameaça é real, e até que o processo já está avançado, e ao mesmo tempo que estamos muito longe de chegar ao ponto crítico de não regresso. As “teorias do declínio” não são muito úteis enquanto “teorias de bater no fundo”, salvo em restrospectiva.

Bom, passando à minha previsão: 2024 vai ser um ano duro em termos políticos, mas os piores medos tanto da direita como da esquerda não serão realizados no dia da tomada de posse, em 2024, e a pessoa que fizer o juramento enquanto Presidente dos Estados Unidos será a mais velha de sempre a fazê-lo.

Falando de eleições, esta será a primeira presidencial desde a decisão de anular Roe v. Wade. Por esta altura já todos devem ter percebido que as discussões políticas sobre o aborto não vão desaparecer tão depressa. Mas o lugar do aborto na política americana transformou-se desde a decisão de Dobbs. Há, e continuará a haver, menos enfoque no processo político de conseguir a combinação certa de juízes no Supremo Tribunal, e muito mais nas leis estaduais.

Aquilo que quero sublinhar aqui é a forma como os bispos católicos, tanto individual como colectivamente, se relacionam com a política de um mundo pós-Roe. O aborto continua a ser uma das grandes preocupações dos bispos. Aliás, os bispos reafirmaram recentemente a sua posição, sem as polémicas de anos recentes, de que a ameaça do aborto continua a ser a sua “prioridade preeminente”. Durante quase meio século isso significava, em primeiro lugar, reverter Roe.

A verdade é que, embora nenhum dos bispos deseje o seu regresso, Roe v. Wade desempenhava um papel galvanizante, tanto eclesiástica como politicamente. A sua anulação era um objectivo claro, alcançável e justo. Sem ele, a ameaça do aborto não deixou de ser grave ou urgente, mas enquanto questão política para católicos, assumiu um carácter mais difuso.

Neste próximo ano teremos um primeiro vislumbre do novo “status quo” do envolvimento episcopal na política presidencial. Os católicos estarão de olho nos seus bispos, e os bispos estarão de olho uns nos outros. A isto vem somar-se a antipatia geral que a maioria dos bispos sentem tanto para com o actual Presidente, como para com o mais que provável candidato republicano, Donald Trump. Prevejo, por isso, um ano de envolvimento político bastante reservado para os nossos bispos.

A minha terceira previsão: O Congresso Eucarístico Nacional poderá ser a última, e melhor, esperança para a sinodalidade ganhar alguma aderência nos Estados Unidos. O Sínodo sobre a Sinodalidade, de Outubro, não incendiou propriamente muitos corações. Uma recente missiva da Conferência Episcopal a pedir mais uma ronda de sessões de escuta sinodais não foi recebida propriamente com grande entusiasmo. As polémicas sobre a Fiducia Supplicans também não fizeram grandes favores ao sínodo, parecendo até contradizer a visão de sinodalidade que o Papa Francisco tanto tem proposto.

Então como é que um encontro de 70 mil católicos em Indianápolis pode revigorar a sinodalidade? Juntando dezenas e dezenas de milhares de católicos de toda a nação para escutar a palavra de Deus e adorar o Senhor. Na medida em que o Congresso conseguir criar um sentido de fraternidade e comunhão, criando um sentido vital de participação na vida da Igreja, e plantar nos seus participantes a semente do zelo missionário, o Congresso Eucarístico terá feito avançar a missão da Igreja na América de uma forma que nenhum encontro sinodal em Roma alguma vez poderia fazer. Isso seria uma enorme vitória para a Igreja nos Estados Unidos e para a sinodalidade. Acredito que Roma concordaria.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 11 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Tuesday, 13 October 2020

Balanço positivo de Fátima, Trump a descer entre cristãos

O Arcebispo de Braga veio pedir hoje que os cemitérios não estejam fechados nos dias 1 e 2 de novembro – ecoando assim o apelo da CEP – mas pediu também que as autoridades tenham o cuidado de evitar concentrações. As romagens e celebrações na arquidiocese não se irão realizar.

Ontem e hoje foram as primeiras celebrações em Fátima com as regras de contingência da Covid. Houve menos gente no santuário, apenas cerca de seis mil pessoas, mas o balanço feito é positivo.

D. José Ornelas presidiu às celebrações. Ontem criticou os movimentos populistas e hoje juntou a essa lista os egoísmos conflituosos.

D. António Marto também falou ontem, dizendo que em termos de liberdade de culto não pode acontecer no Natal o que aconteceu na Páscoa.

Olhamos agora para os EUA, onde uma sondagem revelada hoje mostra que Trump está a perder apoio entre cristãos brancos, mas continua a ser o seu candidato preferido. Já Joe Biden é o preferido de todos os outros grupos religiosos. Saiba tudo aqui.

Hoje destaque para outro dos artigos do The Catholic Thing que foi publicado nas últimas semanas. O padre Paul Scalia desfaz uma confusão comum, explicando que existe uma grande diferença entre ser pecador – todos somos – e ser hipócrita, coisa a que ninguém deve aspirar. Vale bem a pena ler e partilhar.

Wednesday, 3 June 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 8 January 2020

E o ano ainda agora começou...

O assunto do momento é o Irão. Este é um conflito que vai muito para além da religião, mas que também não se compreende sem a sua dimensão religiosa. Convido-vos a ler este artigo explicador que escrevi para a Renascença logo no dia depois do assassinato de Qassem Soleimani e aqui podem encontrar uma cronologia para perceber o que nos trouxe até aqui.

Lembram-se do rapaz católico que foi crucificado pelo mundo por supostamente ter gozado com um ancião nativo-americano depois da Marcha Pela Vida em Washington, o ano passado? Soube-se entretanto que a história estava muito mal contada e hoje recebeu uma indemnização da CNN.

2019 foi um ano recorde para a hostilidade anticristã no mundo, diz a fundação Ajuda à Igreja que Sofre. Aqui trazemos-lhe o que esperar da agenda do Papa em 2020 e convido-vos ainda a ler o meu segundo artigo sobre coisas a ter debaixo de olho neste novo ano: Hoje foco o caso do Cardeal Pell, que vai conhecer o desfecho final.

Há cerca de um mês no grupo do Facebook, um lefebvriano comentou a notícia da morte de um rabino com a frase: “Mais um fariseu no inferno”. É por essas e por outras que me deu o maior gosto traduzir o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre a importância do legado do cardeal Lustiger, que escreveu sobre si mesmo: “Nasci judeu. Recebi o nome do meu avô, Aaron. Tendo-me tornado cristão pela fé e pelo baptismo, permaneci judeu. Tal como os Apóstolos.”

Thursday, 2 January 2020

Religião - onde realidade e ficção são por vezes difíceis de distinguir

Como prometi no último, a partir deste ano estes mails servirão mais para partilhar textos de opinião e análise do que apanhados de notícias. É precisamente com esse objetivo que vos escrevo hoje, na esperança de que tenham tido um Santo Natal e uma excelente entrada em 2020.

Ao longo dos próximos dias vou tentar publicar uma série de curtos textos sobre coisas a que devemos estar atentos em 2020. Hoje começo com os Estados Unidos, onde teremos a possível reeleição de Donald Trump e como isso poderá afetar o Supremo Tribunal, cuja importância é muitas vezes subestimada por quem não vive naquele país.

Tenho também para partilhar convosco o artigo do The Catholic Thing em português, em que Stephen P. White analisa a forma como está a mudar a nossa visão dos bispos e o seu papel e convida os leigos a assumir as suas responsabilidades para que a Igreja se renove verdadeiramente.

Noutras notícias, destaque para o número de missionários assassinados em 2019, que inclui a “nossa” irmã Antónia e também para este explicador sobre o filme “Os Dois Papas” – onde acaba a realidade e começa a ficção? Devo dizer que tenho acompanhado com interesse o debate em torno do filme, mas como ainda não tive oportunidade de o ver, não escrevi nada sobre ele.

Por fim, este texto ajuda a compreender o conflito em Montenegro que envolve a Igreja Ortodoxa e aqui podem ler sobre o pedido de desculpas do Papa Francisco por ter feito a uma peregrina aquilo que eu faço aos meus filhos quando me puxam a mão, várias vezes por dia…

Para estar atento em 2020 – Trump e Ginsburg

Donald Trump tem sido uma das figuras dos últimos quatro anos e vai continuar a sê-lo pelo menos até novembro de 2020. O mais provável mesmo é continuar a sê-lo até 2024, para horror de quase todo o resto do mundo bem-pensante.

Naturalmente não tenho uma bola de cristal, mas há grandes possibilidades de Trump vencer a reeleição em novembro deste ano. Pessoalmente, preferia outro republicano, mas pessoas bem-informadas com quem tenho falado garantem-me que nenhum republicano tem possibilidade de o retirar da corrida.

Não devemos subestimar o apelo de Trump para uma grande parte do eleitorado americano e por mais que tentemos dizer que se trata simplesmente de um misto explosivo de racismo e estupidez, isso é demasiado simplista. A subida da direita populista é preocupante, sim, mas é uma reação natural a décadas de deriva populista de esquerda que nos brindaram com marcos de progresso humanitário como casas de banho mistas e homens a competir na categoria feminina em desportos vários.

Enquanto arranca os cabelos, a esquerda que considera que toda a gente que fica aquém do Bloco é fascista deve pensar no papel que desempenhou em promover a extrema direita. Se Passos Coelho é fascista, se Assunção Cristas é fascista e agora chamam a André Ventura fascista, então que se lixe, fascistas por fascistas voto naqueles que de facto dão voz às minhas preocupações, pensa o eleitor do Chega. Se acontece aqui, não haveria de acontecer em Itália, Espanha e nos Estados Unidos?

Para quem não se identifica com a esquerda progressista (vulgos fascistas, na terminologia do admirável mundo novo), mas também não está disposto a colocar os populistas no pedestal, a vitória de Trump tem coisas desagradáveis, mas tem uma que vale ouro, a possibilidade de reformular o Supremo Tribunal.

Desde que foi eleito, Trump nomeou dois juízes para o Supremo Tribunal americano. Um foi para substituir o porta-estandarte dos conservadores no tribunal, Antonin Scalia, que morreu inesperadamente. Entrou outro conservador, ficou ela por ela (ou ele por ele). O segundo foi para substituir Anthony Kennedy, que era um conservador moderado, que votava frequentemente com a ala liberal, incluindo em assuntos-chave. Foi o seu voto que permitiu legalizar o casamento homossexual no país inteiro, por exemplo.

Com Ruth Bader Ginsburg, porta-estandarte dos progressistas a caminho dos 87 anos e a combater cancro do pulmão e do pâncreas e outro juiz liberal, Stephen Brayer, a caminho dos 82, é muito provável que o próximo Presidente tenha de fazer pelo menos uma, talvez duas nomeações para o Supremo. Goste-se ou não do modelo, a nomeação de dois conservadores para substituir dois liberais seria sem sombra de dúvida a maior vitória para os conservadores nos Estados Unidos, provavelmente mais importante que quaisquer danos reais que Trump pudesse impor ao país durante o resto do seu mandato.

Ruth Bader Ginsburg
Mais, as duas nomeações anteriores comprovam que Trump não tem medo de nomear conservadores reais e que, caso tenha o apoio do Congresso, não terá de fazer cedências e nomear alguém que seja conservador para algumas coisas e liberal para o que interessa.

A importância religiosa disto é evidente, uma vez que a liberdade religiosa está sob ataque como nunca esteve nos Estados Unidos (ver exemplos práticos aqui) e a esmagadora maioria desses casos só se decidem no Supremo.

Claro que nem tudo são rosas. Ter de aguentar mais quatro anos de figuras absurdas como Trump fez no anúncio da morte do líder do Estado Islâmico é penoso, como é penoso ter como figura de referência para um movimento que se quer de valores um homem que tão claramente não os parece ter. Para mim, o discurso desumanizante sobre os migrantes é também uma coisa gravíssima e lamentável. Contudo, os efeitos práticos de uma ou duas vitórias destas no Supremo não podem ser subestimados, como não pode ser subestimada a deriva progressista que acompanhará a eleição de qualquer candidato democrata.

Por isso é natural que a direita e os conservadores americanos, incluindo os que pessoalmente não gostam de Trump, estejam dispostos a aguentar com mais quatro anos deste por vezes triste espetáculo.

De uma coisa podem ter a certeza absoluta. Se Trump vencer em 2020 vamos ver uma campanha concertada entre fazedores de opinião e imprensa progressista para mudar o sistema do Tribunal, onde as nomeações são vitalícias e que em muitos casos funciona como um órgão legislativo. Esses apelos virão de precisamente as mesmas pessoas que aplaudiram de pé o Roe v. Wade, que legalizou o aborto e o Obergefell v. Hodges que legalizou o casamento gay, mas o que é a coerência para os arautos da nova humanidade?

Monday, 1 July 2019

Newman e ditadores ressuscitados

O Cardeal John Henry Newman vai ser canonizado no dia 13 de Outubro!

Espanha vai apresentar queixa formal sobre o núncio apostólico. A culpa é do Franco, claro.

Numa altura em que o segredo da confissão está sob ataque em vários sítios, o Vaticano emitiu um documento a falara da importância da inviolabilidade.



Ultimamente tenho lido, sobretudo nas redes sociais, várias referências aos trabalhadores das organizações que resgatam migrantes no Mediterrâneo como “negreiros” e traficantes humanos. Segundo esta lógica, evidentemente, as freiras que ajudam prostitutas são chulos e as instituições que socorrem grávidas adolescentes estão a incentivar a sexualidade desregrada. É a lógica dos “bloquistas de direita”.


Wednesday, 12 December 2018

A fé que moveu o autor na Rússia move agora o médico no Sudão

Apresento-vos o Dr. Tom Catena. Um herói dos nossos tempos, que atende cerca de 400 doentes por dia e faz mil cirurgias por ano. No Sudão. Como? Com muita fé.  


Donald Trump aprovou uma lei destinada a ajudar as vítimas do genocídio do Médio Oriente.

Na passada segunda-feira assinalaram-se os 70 anos da declaração universal dos Direitos do Homem. Podem esses direitos ser mudados? Se sim, valerá a pena sequer existir uma carta dos Direitos do Homem? O Papa Francisco pede aos líderes mundiais que ponham esses direitos no centro de todas as políticas.

E ontem assinalou-se outra efeméride importante, mas que passou despercebida à maioria. Aleksandr Solzhenitsyn foi dos maiores heróis do Século XX na luta contra o comunismo, juntamente com João Paulo II. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, Douglas Skries escreve sobre o autor e o homem que sofreu na pele os horrores do comunismo e o ajudou a desmascarar.

Tuesday, 10 July 2018

Kavanaugh e Nicarágua

A Igreja da Nicarágua suspendeu o seu papel de mediadora na crise política, depois de dois bispos e o núncio apostólico terem sido agredidos por paramilitares.

No Japão o número de mortos devido às cheias não pára de subir. O Papa enviou ontem um telegrama de solidariedade com aquele país.

Donald Trump nomeou ontem um candidato para suceder ao resignatário Anthony Kennedy, no Supremo Tribunal. Trata-se de Brett Kavanaugh.

E o que é que isso tem a ver com actualidade religiosa? Tudo, como se explica aqui.


Wednesday, 2 May 2018

Nossa Senhora de Fátima protegida pelos páras

Drama na República Centro-Africana, onde uma igreja foi atacada ontem. Morreu um padre e cerca de 20 fiéis. A igreja chama-se Nossa Senhora de Fátima e está neste momento a ser protegida por paraquedistas portugueses.

É já daqui a 27 dias que os nossos deputados discutem se o Estado deve matar os seus cidadãos doentes e frágeis. A Renascença falou hoje com uma psicóloga belga que diz algo que deveria parecer óbvio: “A Eutanásia por sofrimento mental compromete todo o sector dos cuidados em saúde mental”.

Enquanto se fala de eutanásia já vai avançando a questão da mudança de género. O assunto vai ser debatido nos Jerónimos na sexta-feira, não percam. Detalhes no anexo.

A Administração americana é acusada de não fazer o suficiente para proteger a liberdade religiosa no mundo.

Há um novo príncipe! Não, não é o Louis… Este tem 73 anos e bigode e é o novo grão-mestre da Ordem de Malta.

Os bispos alemães criticam a decisão do Governo regional da Baviera de colocar crucifixos nos edifícios públicos.

Ainda o caso Alfie Evans, desta vez no artigo do The Catholic Thing desta semana, onde Stephen White põe o dedo na ferida e destaca o perigo inerente à ingerência do Estado os assuntos das famílias, apoiado nas palavras de Leão XIII.

Wednesday, 24 January 2018

Avaliando o Progresso na Luta pela Vida

Alan L. Anderson
Na passada sexta-feira realizou-se a 45.ª Marcha pela Vida, em Washington, pelo que vale a pena ponderar os significativos progressos feitos ao longo do último ano na tentativa de assegurar o mais fundamental dos direitos que Deus nos concede – o direito à vida. As conquistas têm sido ao nível público e por vezes político, mas nestas questões convém lembrar sempre que os nossos verdadeiros inimigos são os “poderes e potestades”, “tronos e dominações”, sobre os quais São Paulo nos avisou.

Alguns pró-vida, sobretudo os que estavam preocupados com as credenciais de Donald Trump neste campo, poderão estar agradavelmente surpreendidos com o facto de, durante este seu primeiro ano no poder, se ter revelado um aliado fiável. Seja qual for a opinião dele no geral, agiu de forma rápida e sólida para inverter o percurso impiedoso e anti-vida do seu antecessor Barack Obama. Trump nomeou e garantiu a confirmação do juiz pró-vida Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal americano. Foi a nomeação pró-vida mais importante de várias, incluindo o senador Jeff Sessions para procurador-geral e Sarah Huckabee Sanders como chefe do gabinete de imprensa.

Na arena política, Trump não só reinstituiu como expandiu dramaticamente a Política da Cidade do México, que proíbe o financiamento federal de organizações não-governamentais que praticam e promovem o aborto; retirou também o financiamento ao Fundo de População das Nações Unidas e promulgou regulamentos que permitem aos Estados desviar fundos da Planned Parenthood.

Em Outubro o Departamento de Saúde e Serviços Humanos expandiu significativamente as objecções de consciência para funcionários ao abrigo do Mandato de Contracepção do Obamacare. Também em Outubro a Câmara dos Representantes aprovou uma lei que protege nascituros capazes de sentir dor, embora essa lei esteja actualmente presa no Senado. Da mesma forma (graças a senadores como Marco Rubio e Mike Lee, que se mantiveram firmes para que fosse aprovada), a lei de reforma fiscal inclui um maior crédito fiscal para crianças, que será muito benéfico para famílias trabalhadoras, promovendo assim ainda mais uma cultura da vida.

Infelizmente também houve retrocessos ao nível dos estados. Por exemplo, o governador republicano do Illinois, Bruce Rauner, assinou uma lei radical e anti-vida que financia os abortos e declara que o aborto continuará a ser legal naquele estado, mesmo que o Roe V. Wade seja revogado. Da mesma forma, tentativas por parte dos estados de Texas e da Virgínia para retirar o financiamento à Planned Parenthood foram frustrados por um juiz e um governador anti-vida, respectivamente.

Fraco consolo para a malta da Planned Parenthood, contudo, uma vez que foi anunciado para o final de 2017 que o FBI e o Departamento de Justiça lançaram uma investigação acerca da venda de tecidos fetais obtidos através de abortos.

Mas outras duas histórias – daquelas que desaparecem tão depressa que não temos tempo de avaliar a sua importância – que também apareceram no final de 2017 e que nos dão que pensar, recordam-nos de que embora as nossas batalhas se travem na arena política, jurídica e burocrática, esta continua a ser, na sua raiz, uma guerra espiritual.

Primeiro, duas figuras mediáticas conhecidas – Chip e Joanna Gaines do programa “Fixer Upper” – anunciaram que estão à espera do seu quinto filho. As redes sociais explodiram com reacções ferozes. Um crítico observou que “a sobrepopulação está a matar o planeta. Ter outra criança é um acto irresponsável”, o que levanta o véu bonitinho que pretende esconder o que o movimento pró-aborto tem em mente quando fala de “escolha”. Outros pareciam regozijar-se com os boatos sensacionalistas de que o casamento do casal estava em perigo, sugerindo que apenas estavam a ter mais um bebé para tentar salvar a relação. “Ter um bebé não vai melhorar a vossa vida”, disse um. Um casal anuncia que vai ter mais um bebé – um momento belo, um momento de celebração – e chovem mentiras e fealdade. Os demónios estão certamente satisfeitos.

Depois, surgiu um video no YouTube, postado pela Students for Life of America, no dia 4 de Janeiro, que serve para nos mostrar os progressos feitos pelo Pai da Mentira nas nossas instituições de ensino superior de elite. O vídeo mostra um aluno na Universidade de Tennessee a argumentar, de forma calma e serena, a favor da legitimidade do infanticídio, argumentando que uma vez que crianças de dois anos não são “sensíveis” – uma palavra cujo significado parece muito orgulhoso de conhecer – não têm direito à vida. Muitos de nós conhecemos académicos, como
Peter Singer e Steven Pinker que apresentaram argumentos igualmente “insensíveis”. Mas que estas opiniões tão assustadoras possam ser expressas de forma tão descomprometida por um jovem num campus em Knoxville, Tennessee, deve servir para nos alertar sobre o quão longe se espalhou este espírito nocivo que continua a afectar negativamente a nossa cultura.

Claro que devemos continuar as marchas, o exercício dos nossos direitos políticos e os processos. Mas não nos esqueçamos das nossas armas mais poderosas – esmola, jejum e oração, sobretudo o terço. O combate é espiritual e no final de contas vencer-se-á no plano espiritual. A conversão das leis virá depois da conversão dos corações. Seria fácil deixarmo-nos desencorajar nesta tarefa, mas devemo-nos lembrar sempre que “Para Deus tudo é possível” (Mt. 19,26).

Imaculado Coração de Maria, rogai por nós e pelos nascituros que tentamos proteger.


Alan L. Anderson trabalha há mais de vinte anos para a diocese católica de Peoria, ao nível paroquial e diocesano. É um convertido, ia de quatro filhos e escreve sobre cultura e fé a partir de Roanoke, Illinois.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 19 de Janeiro de 2018 em The Catholic Thing)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Friday, 12 January 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

Wednesday, 29 November 2017

Buda, São Francisco de Assis e Donald Trump

Católicos de diferentes regiões na missa com o Papa Francisco
O Papa Francisco continua a sua viagem pela Birmânia e esta manhã teve o primeiro verdadeiro encontro com o povo católico, vendo uma Igreja viva que nos últimos anos tem multiplicado o número de padres, freiras e até dioceses.

Depois o Papa encontrou-se com líderes budistas, traçando uma comparação entre Buda e São Francisco de Assis. No respectivo artigo pode encontrar ainda alguma contextualização sobre a politização do budismo naquele país.

Em Portugal, a diocese de Bragança-Miranda quer despertar a consciência das pessoas para a deficiência.

Nos EUA Donald Trump achou que seria boa ideia publicar vídeos partilhados por elementos da extrema direita inglesa que mostram actos de violência alegadamente praticados por muçulmanos.

E já que falamos de Trump, no artigo desta semana do The Catholic Thing em português David Warren pega no famoso slogan do Presidente americano, adapta-o e pergunta se não seria preferível “Make America Christian Again”?

Make America Christian Again

David Warren
O erro é um grande dissipador de tempo e de energia. Quem o disse foi Goethe, numa carta que escreveu a alguém, mas poderia ter sido outra pessoa qualquer, em qualquer outro lado. Sim, Goethe diz que num mundo em que o erro se repete de forma incessante, a verdade deve ser repetida frequentemente.

Recordei-me desta máxima devido ao meu péssimo hábito de ler as notícias – outra actividade que dissipa tempo e energia. As notícias confundem-nos. Certamente não é preciso dar exemplos.

Há tolos santos, embora actualmente sejam difíceis de encontrar; há tolos triviais; e depois há tolos maliciosos. Estes útimos são grandes dissipadores, não só deles mesmos. Faríamos bem em ignorá-los totalmente, mas o problema é que tendem a ser ambiciosos. É preciso tempo e energia para os travar.

Na América de hoje (enquanto Canadiano incluo-me neste continente), parece que o erro está consagrado na Constituiçao. Está expresso como separação entre Igreja e Estado. Isso significa uma coisa para os seus autores, que eram cristãos, e outra para os seus descendentes pagãos.

Ao excluir da vida pública os próprios princípios sobre os quais se fundou a sociedade americana, o erro fica com uma espécie de monopólio, para ser imposto por um sem número de departamentos de Estado.

Aqui neste “espaço seguro” somos maioritariamente católicos, e os pais fundadores (pré e pós-revolução) eram maioritariamente protestantes, mas as verdades fundamentais a que se referiam atravessavam fronteiras confessionais.

A Virgínia, o Massachusetts e o Québec eram regiões bem distintas, tanto em termos eclesiais como gerais, mas para um observador da China seriam bastante semelhantes. A noção do homem num mundo decaído, nascido escravo do pecado e a precisar de redenção, era comum a todas as facções. Daqui seguiam muitas particularidades.

Entre os poucos filmes que já vi inclui-se “Nashville”, realizado pelo falecido Robert Altman, para o bicentenário dos Estados Unidos. Entre os seus enredos inclui-se a odisseia de uma jornalista pretensiosa da BBC (desempenhada por Geraldine Chaplin), em busca da “verdadeira América”, mas constantemente a enganar-se.

Num certo domingo de manhã ela encontra-se num gigantesco parque de estacionamento, cheio de autocarros escolares amarelos. Encontra nestes monstros metálicos um grande simbolismo.

Mas depois a câmara mostra-nos várias igrejas – baptistas, metodistas, episcopalianas, etc. – em que se encontram os vários protagonistas cómicos do filme. Todos estão a cantar, a rezar e a ouvir homilias. Aí vemos a “verdadeira América” que a menina bem de Inglaterra não tinha conseguido ver.

Refiro o filme apenas porque é tão recente; afinal de contas, 1976 não foi assim há tanto tempo. Eu lembro-me da data e estou na casa dos 60. Lembro-me que quando estava a crescer em Ontário o que era normal era ir à Igreja. Eu não fui criado por cristãos praticantes, mas percebia que isso é que era fora do comum.

De certa forma os meus pais eram liberais à moda antiga, anticlericais por disposição e a minha mãe, na verdade, era conscientemente ateia, mas penso que nunca lhes passou pela cabeça sugerir que a cultura religiosa do continente inteiro tinha de ser destruída. Até dizia que “os crentes são mais bem-comportados”.

Isso porque dão por adquiridas coisas sobre as quais os outros precisam de reflectir – com todos os erros que se seguem naturalmente quando alguém precisa de reinventar a moralidade a partir do zero. Os crentes tinham noções básicas do bem e do mal, implantadas desde pouco depois do nascimento. Até as crianças de lares sem fé absorviam estes valores da sociedade em geral.

Sim, a maioria dos crentes era hipócrita; e também eram ateus, na prática, naqueles momentos em que se esqueciam que Deus nos observa. Esta não é uma particularidade dos cristãos, mas da condição humana: encontramo-nos frequentemente no erro.

E é por isso que Goethe – também ele um liberal à antiga – diz que devemos regressar à verdade, como quem desperta do sono, sentindo-se refrescado. Domingo, “todo o santo Domingo”, era o nosso toque de despertar.

Não sou um daqueles parvos ingénuos que pensa que a América simplesmente pensou duas vezes e concluiu, de forma democrática, que a religião era inconveniente e dispensável. Deu muito trabalho minar a religião, resultado de uma “longa marcha pelas instituições” dos progressistas. Foi preciso muita capitulação das nossas figuras de autoridade.

E como todos sabem – e como todos os progressistas gostam de proclamar – a história não anda para trás. Não há nada na antiga América que se vá reedificar espontaneamente. Não foi sozinha que se edificou, foi resultado do trabalho e da aspiração humana, com raízes muito anteriores à sua própria descoberta e povoação.

Muita coisa foi destruída no espaço de duas gerações. Não estamos perante uma transição geracional, mas civilizacional. Quando abandonamos o Cristianismo, o nosso passado cristão torna-se incompreensível para nós. Os nossos antepassados tornam-se impossivelmente estranhos. A sua prática religiosa torna-se um factor de alienação. Os cristãos sobreviventes tornam-se uma seita exótica minoritária que precisa de ser cuidadosamente regulada e vigiada pelo Governo.

O slogan “Make America Great Again” pode ter resultado durante a última eleição presidencial, mas são palavras vazias. Partem do princípio que houve uma América que em tempos foi grande. Talvez tenha havido, mas esta já não é a América. “Já não estamos no Kansas”

Mesmo o conceito de grandiosidade é vazio se não puder ser especificado. Estamos a falar de grandeza geográfica? Mas isso já somos. Económica? Mas já produzimos bens de gosto duvidoso em quantidades sem precedentes. Ou estaremos a falar de um conceito de virtude e de nobreza?

Claro que é isso, apesar da confusão. Mas sem um conceito claro do que é nobre e virtuoso continuamos desorientados. E estas coisas não virão do nada.

E é por isso que proponho um slogan alternativo, “Make America Christian Again”. E já que a história não anda para trás, concentremo-nos em fazê-la católica, desta vez. Caso contrário estaremos a dissipar tempo e energia. 


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

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Friday, 28 July 2017

Charlie em Paz, feministas zangadas e "transgéneros"

Charlie Gard, finalmente em paz
Ao fim de uma longa batalha legal, que cativou o mundo, Charlie Gard está finalmente em paz. Este caso motivou muitas opiniões, algumas apaixonadas, muitas desinformadas. Sugiro a leitura deste artigo.

Mais uma sexta-feira, mais um ataque terrorista. Desta vez foi na Alemanha.

Bispos, tenham cuidado! Elas andam aí. Quem são elas? São o Comando Feminista Informal para a Acção Antiautoritária que atacou a sede da Conferência Episcopal no México.

Está a sentir-se generoso? Ajude lá os Leigos para o desenvolvimento a ajudar os miúdos santomenses a ajudar a sua comunidade através do surf.

Donald Trump proibiu as pessoas “transgénero” de servirem nas forças armadas americanas. É uma decisão parva, motivada por uma série de outras decisões parvas, tudo assente no mito de que um homem se pode transforar numa mulher. Leia aqui porquê.

Há artigo novo do The Catholic Thing. O padre Paul Scalia pega no Evangelho do domingo passado para explicar porque é que as pessoas não devem levar longe demais o seu zelo em expulsar o joio – leia-se outras pessoas – de entre o trigo. Vale muito a pena ler numa altura em que as tensões e divisões na Igreja se acentuam.

Como é costume, o Actualidade Religiosa vai de férias durante as próximas semanas, salvo alguma notícia urgente. Vão acompanhando o blog para ver os artigos do The Catholic Thing ou artigos da minha autoria e já sabem que no grupo do Facebook há sempre discussões animadas…

Trump & Trans: O mundo de pernas para o ar

Trump e os transgéneros, tudo mal desde o princípio
Há poucos dias Donald Trump anunciou – através do Twitter, como é seu estilo – que vai proibir as pessoas transgénero de servirem nas Forças Armadas, uma vez que a missão destas é proteger o país e não podem mais suportar os custos médicos inerentes à presença daquelas.

Logo surgiram gritos de discriminação, homofobia, transfobia e alguém foi buscar dados que mostram que as Forças Armadas gastam cinco vezes mais em viagra para os seus soldados do que em operações de mudança de sexo.

Esta não devia ser uma questão complicada de analisar, mas infelizmente é. Porquê? Porque estamos a discuti-la com as bases inquinadas… Vamos por pontos.

1º O problema aqui centra-se numa comunidade específica que se identifica como “transgénero”. Mas – e lamento aqui ter de vos assustar com um pouco de ciência – não existem mulheres e homens transgénero. Existem mulheres, e existem homens. Algumas mulheres pensam que são homens. Alguns homens pensam que são mulheres. Alguns homens e mulheres pensam até que são outras coisas. Alguns homens mutilam-se e drogam-se para poderem parecer mulheres e algumas mulheres mutilam-se e drogam-se para parecer homens. Mas da mesma maneira que eu não fico mais novo se fizer um implante de cabelo, nem fico mais velho se pintar o pouco cabelo que ainda tenho de branco, um homem mutilado, drogado e com uma saia não se transforma numa mulher, e vice-versa.

2º Se um homem ou uma mulher estão aptos física e psicologicamente, então devem poder servir nas Forças Armadas e devem ser integrados nas Forças Armadas na qualidade de homem ou mulher que são, de facto, e não como se imaginam ou como gostariam de ser.

3º O facto de um homem se identificar com uma mulher ou de uma mulher se identificar com um homem revela uma instabilidade psicológica? Excepto na muito reduzida quantidade de casos em que existe uma disforia de género clinicamente comprovada, penso que isso é evidente. Deve isso excluir a sua participação nas Forças Armadas? Só isso, a meu ver – que não sou psicólogo nem especialista no assunto – não deve ser impedimento. Eu também acho que as pessoas que gostam de se vestir de verde e participar em rituais semanais de humilhação colectiva não devem bater bem da cabeça, mas não é por isso que são piores pais de família, bombeiros ou soldados. Se, porém, um homem diz que o facto de ter de ser tratado como um homem pelas Forças Armadas é para ele insuportável, então haverá uma clara incompatibilidade.

4º Se eu percebo porque é que as Forças Armadas americanas pagam os cuidados de saúde básicos dos seus membros, com destaque especial para mutilados e traumatizados de guerra, por exemplo, confesso que não faço a menor ideia porque é que devem pagar a homens e mulheres fisicamente saudáveis operações ou tratamentos que os mutilam ou alteram o regular funcionamento do seu corpo. A ideia de que essa mutilação física é necessária para que haja bem-estar psicológico não só não está comprovada pela ciência, como os estudos apontam precisamente no sentido contrário.

5º Já que estamos nesta, também não faço a menor ideia porque é que as Forças Armadas andam a comprar viagra para os seus soldados…

Resumindo. Trump tomou uma decisão parva, com uma justificação parva. Mas fê-lo dando continuidade a uma já longa e honrada tradição de parvoíces, que atingiu o seu cúmulo quando alguém nas Forças Armadas decidiu que seria adequado e boa ideia financiar operações medicamente desnecessárias aos seus soldados.

Se Trump, em vez de excluir das Forças Armadas homens e mulheres que, tanto quanto eu ou ele sabemos, podem ser excelentes soldados e têm vontade de servir o seu país, se limitasse a rescindir a prática absurda de financiar as operações de mudança de sexo tinha-se evitado este problema. Seria acusado de homofobia e de transfobia de qualquer maneira, como tem sido desde que apareceu na cena política, mas pelo menos teria razão.

Último ponto. Deve este texto ser lido como uma crítica ou desvalorização pessoal de homens ou de mulheres que, tragicamente, não estão em paz com a sua própria biologia? Não, não deve. Eles e elas não deixam de ser pessoas com uma dignidade indelével que devem ser amadas, respeitadas e apoiadas. Mas apoiar, amar e respeitar alguém não implica alinhar com uma fantasia irracional, sobretudo quando ela pretende impor-se à sociedade, querendo obrigado todo o resto do mundo a compactuar com aquilo que é, na verdade, uma mentira.

Tuesday, 4 July 2017

Deus te guarde Charlie Gard

Charlie Gard com os pais
Nos últimos dias tem-se falado bastante do caso de um bebé inglês, chamado Charlie Gard. É uma história triste, de contornos difíceis e polémicos que infelizmente colocou os pais contra o hospital onde tem sido tratado e acabou por merecer comentários do Papa e do Trump. A história explicada aqui.

O Papa vai visitar a sede da FAO em Outubro e diz que é preciso mais do que boas intenções para combater a fome.

Decorre por estes dias o torneio de futsal de padres, este ano em Santiago do Cacém.


E a Congregação para a Doutrina da Fé mudou de chefia. O novo responsável é o jesuíta Luis Ladaria.

Por fim, conheçam o caso deste Centro de Noite para idosos que pretende dar algum merecido descanso aos cuidadores.

Tuesday, 27 June 2017

Árabes consagram em Fátima, ameaçam no Curdistão e perdem nos EUA

Curdos próximos da independência no Iraque
Quem esteve em Fátima no fim-de-semana não pode ter deixado de se surpreender com a quantidade de pessoas que falavam árabe nas ruas. A explicação é fácil. Milhares de libaneses vieram ao santuário consagrar o seu país a Nossa Senhora. A sua protecção, dizem, tem evitado que a guerra da Síria passe a fronteira.

É lançado amanhã o novo livro de José Luís Nunes Martins, colunista da Renascença. Vale a pena ler esta entrevista para aguçar o apetite.

Domingo há ordenações um pouco por todo o país. Em Vila Real são dois os jovens que serão feitos sacerdotes. No dia seguinte estarão já a participar no torneio de futebol para padres…

Nos EUA o Supremo Tribunal deu a Donald Trump uma meia vitória na questão da proibição de entrada de muçulmanos no país.

Esta semana olhamos de perto para o que se passa no Iraque. A cidade de Mossul está prestes a ser libertada das garras do Estado Islâmico mas o futuro pode ainda trazer complicações. A agravar o problema temos o referendo pela independência anunciado pelo Curdistão Iraquiano para Setembro. Poderá estar prestes a nascer um novo Estado?

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing sobre a cristofobia e, indirectamente, a islamofobia do político americano Bernie Sanders.

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