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Wednesday, 1 November 2023

O Islão e o Realismo Cristão

Francis X. Maier

Na sua maioria, os ocidentais ficaram chocados com a selvajaria dos recentes ataques do Hamas contra Israel, e o assassinato sistemático de cidadãos israelitas por terroristas do Hamas. Essa maldade foi agravada pela culpabilização de Israel pelo catastrófico bombardeamento de um hospital em Gaza, quando as provas demonstram agora que na verdade as centenas de mortes foram causadas por um projéctil do Hamas. Mas talvez o mais surpreendente de tudo tenha sido ver milhões de pessoas no mundo árabe e em muitas capitais do ocidente a celebrar a violência do grupo terrorista palestiniano.

Desde o Concílio Vaticano II que os católicos, e muitos outros cristãos, têm valorizado o diálogo e a cooperação inter-religiosa, sobretudo com o judaísmo, mas também com o Islão. Os resultados – como eu vi em primeira mão nos anos em que trabalhei na área inter-religiosa de uma diocese – têm sido muitíssimo benéficos. Contudo, vale a pena recordar que enquanto o Cristianismo tem as suas raízes no Judaísmo, a nossa relação com o Islão é um assunto muito diferente. Daí que valha a pena meditar seriamente sobre alguns dos seguintes pensamentos:

Islão e a Palavra de Deus:

Quem conhece o Antigo e o Novo Testamentos e depois lê o Alcorão, pode ver claramente o processo através do qual ele reduz completamente a Revelação Divina [ênfase no original]. É impossível não reparar no afastamento daquilo que Deus disse sobre Si mesmo, primeiro no Antigo Testamento, através dos profetas, e por fim no Novo Testamento, através do seu Filho. No Islão toda a riqueza da autorrevelação de Deus, que constitui a herança do Antigo e do Novo Testamento, é definitivamente posta de lado.

Alguns dos nomes mais belos da linguagem humana são atribuídos a Deus no Alcorão, mas no final de contas Ele é um Deus fora do mundo, um Deus que é apenas majestade, nunca Emmanuel, Deus connosco. O Islão não é uma religião de redenção

Por esta razão, não só a teologia, mas também a antropologia islâmica é muito distante do Cristianismo.

– São João Paulo II, em Atravessar o Limiar da Esperança

Islão e Conflito:

O mundo, tal como o académico Bat Ye’or tão brilhantemente demonstra, divide-se em duas regiões: o dar al-Islam e o dar al-harb; por outras palavras, o “domínio do Islão” e “o domínio da guerra”. O mundo já não se encontra dividido em nações, povos e tribos. Antes, estes encontram-se localizados em bloco no mundo da guerra, onde a guerra é única relação possível com o mundo exterior. A Terra pertence a Allah, e os seus habitantes devem reconhecê-lo; para atingir este objectivo só existe um método: guerra. A guerra, por isso, é claramente uma instituição, não apenas uma instituição acidental ou fortuita, mas uma parte constituinte do pensamento, organização e estruturas deste mundo. A paz com este mundo da guerra não é possível. Como é evidente, por vezes pode ser necessário travá-la; existem circunstâncias em que é melhor não travar guerra. O Alcorão também prevê isto. Mas isso não muda nada: Para o Islão, a guerra permanece uma instituição, pelo que deve ser resumida logo que as circunstâncias o permitam. 

Enfatizei muito as características desta guerra porque hoje em dia se fala tanto da tolerância e do pacifismo fundamental do Islão, que se torna necessário recordar a sua natureza, que é fundamentalmente bélica.

 o já falecido Jacques Ellul, distinto teólogo e crítico social protestante francês, do prefácio que escreveu para The Decline of Eastern Christianity Under Islam: From Jihad to Dhimmitude, de Bat Ye’or

Islão, política e cultura:

As duas religiões que têm uma dimensão “política” não a adquiriram do mesmo modo. O Cristianismo ganhou terreno no mundo antigo contra o poder do Império Romano, que perseguiu os cristãos durante quase três séculos antes de adoptar a religião cristã. Já o Islão, depois de um período breve de provações, triunfou durante a vida do seu fundador. Depois conquistou, pela guerra, o direito a operar em paz, e até mesmo o direito de ditar as condições de sobrevivência para os seguidores das outras religiões “do livro”. Em termos modernos, podemos dizer que o Cristianismo conquistou o Estado através da Sociedade Civil; o Islão, pelo contrário, conquistou a sociedade civil através do Estado [ênfase no original].

Assim, desde o início, o Cristianismo colocou-se à parte do domínio político, e os seus textos fundadores dão testemunho de uma desconfiança dos assuntos políticos… Para o Islão, a separação entre o político e o religioso não tem direito a existir. Chega a ser chocante, pois parece um abandono dos assuntos humanos ao poder do mal, ou a despromoção de Deus para um lugar fora da sua esfera própria. A cidade ideal deve ser aqui na Terra. Em princípio, ela até já existe: é a cidade islâmica. 

– Remi Brague, vencedor do prémio Ratzinger e professor emérito de filosofia medieval e árabe na Sorbonne, em A Lei de Deus

Não obstante a sua relação de herança comum com o Judaísmo e o Cristianismo, remontando a Abraão, e apesar do seu respeito formal por Jesus e por Maria, o Islão tem muito pouco em comum com a fé cristã. O Islão rejeita a Trinidade, a Encarnação e a Redenção. Nega a veracidade dos Evangelhos, e nega as origens e o propósito da Igreja. Na verdade, o Islão reconhece o Judaísmo e o Cristianismo apenas como aberrações na sua própria história sincretista.

Hoje, em estados islâmicos como o Sudão, o Egipto, o Irão, o Paquistão, a Turquia, o Bangladesh e a Indonésia, os cristãos enfrentam desde a marginalização e o assédio até à violência explícita. A razão é simples. Independentemente de todas as forças do Islão, o preconceito antijudaico e anticristão tem um historial longo e frequentemente amargo no Islão, não obstante afirmações em contrário. 

Isto não constitui uma licença para agirmos de igual modo, mas exige, isso sim, que tragamos para os nossos encontros modernos com o Islão – tanto no Médio Oriente como aqui no ocidente – uma abordagem realista e firme, e uma memória histórica correcta. À luz do Evangelho, Maomé não é um verdadeiro profeta e o Alcorão não é a Palavra de Deus. Como Jesus Cristo afirmou, apenas ele é o caminho para o Pai. E no final de contas os muçulmanos não O conhecem. Sem o nosso testemunho activo junto do mundo Islâmico, nunca o conhecerão.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 25 de Outubro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 26 June 2023

Muçulmanos angariam dinheiro para libertar cristãos

Infelizmente, não é difícil encontrar notícias sobre violência e perseguição inter-religiosa e em muitos casos as comunidades cristãs sofrem às mãos de grupos fundamentalistas islâmicos. 
Mas é precisamente por isso que importa também dar eco de histórias como esta, que acabei de ler, passada na Nigéria. 
No dia 7 de Maio um grupo de dezenas de cristãos de uma igreja baptista foram raptados por bandidos. Os raptos na Nigéria são um fenómeno complexo, uma verdadeira indústria. Os culpados são frequentemente apenas bandidos à procura de resgates, mas noutros casos há um factor religioso em jogo, tratando-se de criminosos muçulmanos que raptam cristãos precisamente para hostilizar a comunidade e tentar levá-los a abandonar a área. Há também questões étnicas em jogo. 
Neste caso, contudo, o que há a assinalar é o facto de os muçulmanos da comunidade de onde foram raptados os cristãos baptistas terem ajudado a angariar dinheiro e até comprado uma motorizada para poder pagar o resgate necessário para libertar os seus vizinhos. 
Num país onde a tensão inter-religiosa há muito que atingiu níveis extremos, esta é uma notícia que nos deve encher de esperança e recordar-nos que pessoas de diferentes religiões têm sempre um património comum, nem que seja o pequeno-enorme aspecto da sua humanidade. 
Há muita tragédia no mundo, muito com que nos preocupar e muito para lamentar. Mas temos também a liberdade de escolher as histórias que decidimos contar e partilhar. Esta merece, sem dúvida!

Tuesday, 12 April 2022

Conferência "Para um Ecumenismo da Paz"

 No passado dia 30 de Março tive a honra de participar na conferência "Para um Ecumenismo da Paz", organizado pela Capela do Rato, em Lisboa. Foi online, e a gravação pode ser vista aqui.

Wednesday, 20 May 2020

A Religião Causa Divisão?

David G. Bonagura

Na nossa sociedade secular e selectivamente crítica, a religião tem má fama. Os Ditadores do Relativismo afirmam que a religião – e normalmente referem-se ao Cristianismo – devia ser descartada por ser “divisiva”, causando separação entre as pessoas por obrigá-las a tomar partido. Nos últimos tempos, aos trunfos antigos das Cruzadas, Inquisição, as antigas Guerras Religiosas e as motivações religiosas do imperialismo, têm-se juntado as afirmações de que os serviços religiosos são imorais durante a pandemia e que os apelos à oração distraem do trabalho real de conter o vírus. 

Com base nestas acusações, antigas e novas, os Ditadores do Relativismo concluem que a sociedade seria mais pacífica e mais unida sem a religião e sem opiniões religiosas que dividem os cidadãos uns dos outros.

Tendo em conta que os conflitos religiosos existiram de facto, e a actual ameaça do coronavírus, vale a pena considerar a questão: A religião causa divisão social?

Claro que não adianta nada, quando dialogamos com os Ditadores do Relativismo, sublinhar que o Cristianismo tem sido a maior força unificadora que o mundo alguma vez viu, juntando em harmonia todo o género de pessoas que não tinham mais nada em comum. Por cada guerra religiosa que existiu encontramos uma dúzia de exemplos do Cristianismo como factor unificador de sociedades inteiras e dos povos que nelas habitam. Mesmo nestes últimos tempos temos visto o altruísmo de tantos trabalhadores e voluntários que têm estado a trabalhar no sentido de travar o coronavírus e ajudar os doentes, motivados precisamente pela sua fé.

Também não adianta dizer que os princípios morais do Cristianismo – a obediência ao Decálogo, a adopção das virtudes cardeais, a caridade para com o próximo, o cultivo da vida familiar e da educação, o cuidado com o ambiente – são precisamente aquilo que qualquer sociedade são quereria – e precisa – para poder florescer.

Nem os conseguimos mover com a verdade evidente de que as sociedades seculares geraram mais do que a sua quota parte de conflito ao longo dos séculos. A Revolução Francesa, Comunismo e o Nacional Socialismo são ideias seculares que alegavam unir todos debaixo de uma causa comum, mas ao invés acabaram por gerar conflitos terríveis, divisão profunda e muito sangue derramado.

Não, temos mesmo de fazer o jogo no campo deles, por entre as minas antipessoais que colocaram.

Como disse o profeta Isaías, Jesus Cristo é o “Príncipe da Paz” que, como é conhecido, pregou – e depois mostrou durante a sua Paixão – que devemos “dar a outra face” e “amar o próximo como a nós mesmos”. Melhor fórmula para paz cívica é difícil de encontrar.

Mas antes de morrer Jesus avisou os apóstolos: “não sois do mundo, antes eu vos escolhi do mundo, por isso é que o mundo vos odeia”, (João 15:19). O que causa divisão é o ódio, uma atitude prescrita em muitas partes do mundo actual, e Cristo claramente se apercebeu da animosidade que os seus discípulos iriam enfrentar. Caso contrário não teria rezado ao Pai para que “eles sejam um, como nós somos um” (João 17,11).

Finalmente, o Senhor, que se descreveu como sendo “manso e humilde de coração”, também fez a seguinte afirmação, que nos dá que pensar:

“Não pensem que vim trazer paz à terra; não vim trazer paz, mas espada. Pois vim para fazer que ‘o homem fique contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra; os inimigos do homem serão os da sua própria família’. Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” (Mateus 10, 34-38).

Divisão? Sim, um bocadinho
Será que Jesus está a dizer, branco no preto, que veio para causar divisão e que aqueles que professam o seu nome também o são?

Bem vista, a resposta é que sim.

A paz de Jesus não é uma espécie de tolerância cívica fácil, em que toda a gente finge dar-se bem, com medo de ser castigada. A sua paz, como explicou São João Crisóstomo, é “quando a doença é removida, quando o cancro é retirado. Só com uma cirurgia radical é que é possível o céu ser reunificado com a terra”. A paz que Jesus traz é a verdade, e essa é a única base para uma unidade cívica justa. Só a verdade tem o poder autêntico para guiar a sociedade, porque permite pôr de parte ideias perigosas que podem conduzir à ruína.

Então devemos banir o Cristianismo da sociedade, uma vez que, como admite o seu próprio fundador, ele é divisivo?

O verdadeiro problema não é a religião, mas nós mesmos que, com as nossas mentes toldadas pelo pecado (a verdadeira causa de divisão no nosso mundo), nem sempre percebemos claramente – ou não queremos perceber – a verdade. A verdadeira unidade é a casa construída sobre a rocha, que é personificada em Jesus Cristo.


Conhecendo as nossas fraquezas, Cristo enviou o Espírito Santo para guiar a Sua Igreja, para podermos compreender bem os seus ensinamentos. Os indivíduos podem compreender mal a verdade, incluindo os que estão dentro da Igreja, mas a Igreja enquanto entidade não falhará. As guerras religiosas não são causadas pela verdadeira religião, mas por indivíduos a agir de forma errada, em nome da religião.

Respondemos, portanto, aos Ditadores do Relativismo: Não querem divisão porque não querem a verdade. E não querem a verdade porque querem o mundo a jeito dos vossos caprichos pessoais, que é precisamente a doença que a verdade procura remover. O lema popular, articulado em primeiro lugar pelo Papa Paulo VI, diz: “Se queres a paz, trabalha pela justiça”. Mas não pode haver justiça sem a verdade em que a justiça assenta. Jesus Cristo, conclui o Papa, é a nossa paz.

O Cristianismo é causa de divisão precisamente porque existe para curar o mundo de uma divisão maior ainda: o divórcio da sociedade e da verdade. A acusação feita pelos Ditadores do Relativismo está precisamente ao contrário: Uma sociedade que rejeita o Cristianismo é uma casa dividida contra si mesma que não pode permanecer de pé, e eventualmente cairá.


David G. Bonagura, Jr. leciona no Seminário de São José, em Nova Iorque. É autor de Steadfast in Faith: Catholicism and the Challengesof Secularism, que será lançado no próximo inverno pela Cluny Media.

(Publicado pela primeira vez no sábado, 16 de maio de 2020 no The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 11 March 2020

A Carta da Nova Aliança da Virtude

Kent R. Hill
Em Dezembro de 2019 foi apresentada a Carta da NovaAliança da Virtude em Abu Dhabi. O documento pretende ser uma nova versão da Carta de Medina do Profeta Maomé, do Sétimo Século, que teve por objetivo levar a paz às tribos em guerra.

O objetivo desta nova Carta é de juntar judeus, cristãos, muçulmanos, representantes de outras religiões e outras pessoas de boa-vontade numa declaração comum de que as virtudes são essenciais para viver em paz.

A Carta é o resultado dos esforços do Shaykh Abdallah Bin Bayyah, uma autoridade respeitadíssima de jurisprudência islâmica e fundador e presidente do Fórum para a Promoção da Paz em Sociedades Islâmicas.

A Religious Freedom Institute, uma organização sem fins lucrativos sedeada em Washington DC, com o qual colaboro, desenvolveu um papel na formação do texto final da Carta. Entre as nossas contribuições conta-se uma afirmação dos direitos naturais, definidos como “direitos que antecedem o Estado e que são inerentes a cada ser humano por virtude da sua existência”. Mais, os direitos criados pelos governos “têm mais valor quando aplicados a todos, reflectindo as normas da dignidade e da justiça humana”. A Carta reconhece ainda a importância do Dignitatis Humanae.

Entre outras afirmações louváveis da Carta: “Todas as pessoas, independentemente das suas diversas raças, religiões, línguas e etnias, por virtude da alma divina que lhes foi insuflada, são dotadas de dignidade pelo seu Criador Omnipotente”. Citando o Alcorão: “Não há compulsão na religião” (Sura 2: 256); e, “O Estado tem a responsabilidade de proteger a liberdade religiosa, incluindo a diversidade de religiões, que garante a justiça e a igualdade entre todos os membros da sociedade”.

Na RFI debatemos muito se uma declaração destas nos pode ajudar a alcançar o nosso objectivo para esta e outras regiões, isto é, promover a liberdade religiosa no terreno. Muitos documentos semelhantes, inspirados no Islão, têm aparecido nos últimos anos, incluindo a Mensagem de Amã (2004), Uma Palavra em Comum (2007), a Declaração de Marraquexe (2016) e a Declaração de Fraternidade Humana (2019). Esta última foi assinada pelo Papa Francisco e por Ahmad al-Tayyeb, grande imã de Al-Azhar. Existe algum indício de que estas declarações fizeram alguma diferença nas regiões do mundo de maioria islâmica?

Infelizmente, as provas até agora não são muito encorajadoras. De acordo com a “World Watch List” da Open Doors, de 2019, mais de 80% dos vinte países que mais oprimem as religiões no mundo são de maioria muçulmana, a maioria delas no Médio Oriente. Mais de 70% dos piores cinquenta países no mundo são de maioria muçulmana.

A realidade no terreno que estas estatísticas representam pode levar até o maior defensor da liberdade religiosa a temer que declarações destas são, na melhor das hipóteses, exercícios de retórica, meras boas intenções. Os cínicos dizem que têm mesmo por objectivo enganar os incautos.

Então porque é que investimos tempo e energia com a Carta da Virtude? Foi por duas razões. A primeira é histórica e sugere que declarações não-vinculativas de princípios, quando apresentadas com autoridade e no momento certo, podem contribuir para o bem a longo prazo, mesmo que os seus autores sejam marcados por fraquezas profundas, ou aparentemente ingénuos. Um exemplo é a Declaração de Independência dos Estados Unidos, cuja audaz declaração de verdade religiosa – “todos os homens são criados iguais” – se tornou o motor e o sustento da democracia americana, não obstante a aparente hipocrisia de alguns dos seus arquitectos esclavagistas.

Ou ainda a Declaração Universal dos Direitos do Homem (DUDH), que proclamou de forma não-vinculativa “a dignidade inerente… e os direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana”, incluindo o direito à liberdade religiosa para todos, e que foi assinada por nações que não tinham a menor intenção de os proteger, nem na altura, nem agora. Todavia, a DUDH mantém-se hoje como uma afirmação contra a tirania e os seus princípios são repetidos nos acordos não vinculativos de Helsínquia que contribuíram para a queda da União Soviética.  

Em segundo lugar, acreditamos que os esforços actuais para travar a violência religiosa e o terrorismo no Médio Oriente não têm funcionado. A ausência de liberdade religiosa nas nações de maioria muçulmana no Médio Oriente e no Sul da Ásia, está a alimentar uma catástrofe de proporções civilizacionais. O cristianismo está sob ataque nas terras em que nasceu e se desenvolveu. No Iraque poderá simplesmente desaparecer dentro de uma década. A pressão para as minorias não-muçulmanas abandonarem a região está a aumentar, e com ela desaparecerá a força estabilizadora do pluralismo religioso.

No fundo o que se passa é o seguinte: A solução para estes problemas não passa pela força militar americana, nem pelas noções ocidentais de constitucionalismo, assentes em premissas independentes da religião. Ambos estão condenados porque lhes falta credibilidade no contexto muçulmano. A única solução possível encontra-se nas próprias nações de maioria muçulmana e tem de ir beber às suas próprias premissas religiosas. É por isso que decidimos arriscar identificar e apoiar os líderes muçulmanos como Shaykh Bin Bayyah que acreditam que os princípios sagrados da sua fé suportam a liberdade religiosa e a cidadania plena para todos.

Claro que sabemos que os líderes muçulmanos que assinaram a Carta da Nova Aliança da Virtude estão longe de serem perfeitos. Tal como os fundadores dos Estados Unidos e de nós todos, nem sempre agem de acordo com o que professam. Mas acreditamos que compreenderão que é a credibilidade mundial do Islão que está em causa, bem como a possibilidade de convivência em paz, apesar das nossas profundas diferenças.

E claro que sabemos perfeitamente que as declarações não bastam. Se existe alguma esperança de sucesso, então as palavras devem ser destiladas nestas sociedades através de caminhos concretos para poderem chegar aos jovens muçulmanos em todo o mundo. E mais, os imãs e outros líderes religiosos muçulmanos devem abraçar a validade, e até mesmo a necessidade, de apoiar os princípios da Carta.

Para que as palavras da Carta da Nova Aliança da Virtude não acabem por ser apenas retórica estéril, é necessário, no final de contas, que os signatários e seus apoiantes estejam prontos para insistir que as palavras nobres se transformem em nobres actos.


Kent Hill é um dos co-fundadores da Religious Freedom Institute (RFI) e primeiro diretor executivo. Atualmente é o responsável da RFI pela Eurásia, Médio Oriente e Islão. Antes, serviu como vice-presidente sénior da World Vision e administrador assistente da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Intrenacional.


(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 5 de março de 2020)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing 

Monday, 4 November 2019

Brexit e o regresso dos "Troubles"

O Papa Francisco homenageou todos os cristãos que se vêem forçados a esconder-se para celebrar a Eucaristia, recordando o tempo das catacumbas.


A pastoral juvenil lançou em audiobook a exortação apostólica “Cristo Vive”.

Estaremos perante o regresso da violência entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte? Todos esperamos que não, mas o Brexit pode servir de agravante às tensões que ainda existem.

Não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing, sobre o aumento da intolerância religiosa na América Latina, que contém dados preocupantes. Eu volto amanhã, se Deus quiser!

Wednesday, 3 April 2019

Quem quer os seus jihadistas de volta?

O que fazer com jihadistas portugueses – caso ainda haja algum vivo – ou seus familiares que estiveram com o Estado Islâmico? Saiba aqui o que pensam os especialistas.


Da Nigéria continuam a chegar-nos notícias de violência interétnica e inter-religiosa, que opõe agricultores cristãos a pastores muçulmanos.

Já ouviu falar dos cursos Alpha? Vale a pena… Está aqui.

No artigo desta semana do The Catholic Thing, o padre Paul Scalia pergunta com qual dos filhos da parábola do Filho Pródigo é que nos identificamos, e como a Quaresma é precisamente a altura certa para restaurarmos uma verdadeira relação filial com Deus. Não deixem de ler.

Friday, 12 January 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

Wednesday, 13 December 2017

As Duas Religiões do Alcorão

Howard Kainz
É urgente que os cristãos leiam e compreendam o Alcorão, para poderem compreender melhor uma religião que está constantemente nas manchetes. Mas isso é pedir muito, porque o Alcorão é uma mistura de capítulos, escritos em tempos diferentes, organizados por ordem de comprimento, do maior ao mais curto, misturando assim os pensamentos primordiais de Maomé em Meca com ditos muito diferentes posteriores à fuga para Medina.

No livro A Simple Koran, Bill Warner ajuda-nos a ultrapassar essa confusão, reorganizando o Alcorão por ordem cronológica, ao longo dos 23 anos em que Maomé propagou a sua nova religião. Esta abordagem, composta quase inteiramente por textos do Alcorão, com ocasionais subtítulos ou explicações, demonstra bem como o Islão evoluiu durante a vida de Maomé e ilumina a divisão crucial entre aquilo que Aayan Hirsi Ali descreve como “Muçulmanos de Meca” e “Muçumanos de Medina”.

As primeiras passagens do Alcorão, de Meca, derivam da sua conversão das múltiplas religiões politeístas que existiam em torno do santuário da Kaaba, ao monoteísmo. Algumas fontes dizem que eram adoradas até 360 divindades em Meca. Mas Maomé pregava a sujeição ao único Deus, Allah.

Mas houve um percalço. Maomé parecia ter permitido que três deusas fossem veneradas juntamente com Allah. De acordo com a biografia Twenty-Three Years, escrita por ‘Ali Dashti, dois versículos na Sura 2:19-22 diziam originalmente: “Pensastes em Lāt e em ‘Ozzā? E em Manāt, a terceira, a outra? Essas são os grous em voo. Por isso pode-se esperar pela sua intercessão”

Esta passagem parecia reconhecer a divindade das três deusas, juntamente com Allah. Mas Allah acabaria por repreender Maomé por estes “versículos satânicos”, que foram corrigidos em versões posteriores do Alcorão. A partir de então pregou-se apenas o monoteísmo rigoroso. (Salman Rushdie esreveu um romance sobre esta passagem e continua em vigor uma fatwa do Ayatollah Khomeini a exigir a sua morte).

As primeiras partes do Alcorão reescrevem o Antigo Testamento, explicando que Abraão, Lot, Moisés, etc., eram na realidade todos muçulmanos e que todos aqueles que rejeitam o Islão acabam no inferno. Aparecem várias histórias imaginativas sobre Moisés, que normalmente têm pouco a ver com a versão bíblica.

Tais revisões das histórias do Antigo Testamento eram acompanhadas por constantes avisos sobre a tortura eterna no inferno reservada aos Kafirs (não-muçulmanos) que não se convertam. Isto torna-se um tema recorrente ao longo do Alcorão, que tem 290 versículos sobre o Inferno e mais de 300 referências ao temor de Allah, a quem é devida Islam (submissão) servil, como que a um senhor. Por exemplo: “Os Kafirs de entre os Povos do Livro e os idólatras arderão eternamente nos fogos do Inferno. De todos os seres criados, eles são os mais desprezíveis” (98:6)

Em contraste, aos que aceitam a mensagem de Maomé é prometida uma recompensa celestial, em que se encontrarão sobre “poltronas decoradas”, servidos por “jovens rapazes imortais” a trazer-lhes fruta, vinho e “a carne de aves”, bem como as atenções amorosas de houris virginais.

O povo de Meca, duvidando das suas credenciais, pediram-lhe sinais de que se tratava de um profeta verdadeiro. Maomé apontou para uma litania de coisas como sinais – “a sucessão da noite e do dia”, “a chuva enviada por Allah”, “relâmpagos”, “as mudanças dos ventos”, “folhas verdes e cereais”, “a vossa sonolência noite e dia”, “a vossa busca pela generosidade de Allah”, “os navios, como montanhas no mar”, etc.

Exasperado pelas exigências de sinais mais claros, Maomé responde. “Os sinais estão somente no poder de Allah. Eu sou apenas o que traz o aviso. Não chega para eles que te tenhamos revelado o Livro, para lhes ser recitado? (28:48). Por outras palavras, o Alcorão é em si mesmo um milagre que confirma Maomé como profeta.

Maomé não teve grande sucesso em Meca; acabou com apenas 150 convertidos. Mas tinha alguns seguidores em Medina e foi para lá que fugiu quando a situação em Meca se tornou perigosa.

A Hegira (emigração) de Maomé e dos seus discípulos para Medina aconteceu em 622. Medina era uma cidade meia judia e meia árabe. Os judeus, a classe abastada, eram em larga medida artesãos e agricultores. Tinham aliados entre os árabes, mas reinava uma atmosfera de animosidade e de ciúme. Alguns árabes acreditavam que viria um profeta para os guiar à vitória sobre os judeus. Rapidamente começaram a ver que Maomé poderia ser esse homem. Fizeram-lhe um juramente de fidelidade e ofereceram-se para o proteger com armas, caso fosse necessário. Em breve Maomé começou a agir como um líder militar e a enviar combatentes em raides armados contra as caravanas de comércio que chegavam a Meca. Ao longo de nove anos levaram a cabo sessenta e cinco ataques (Maomé esteve presente pessoalmente em 27), bem como vários assassinatos e execuções.

As ameaças de condenação eterna por rejeitar Maomé começam nesta fase a tornar-se mais gráficas – Allah “destruirá os vossos rostos e virará as vossas cabeças ao contrário” (4:47), dará aos descrentes “fogo por vestuário”, “despejará água a ferver nas suas cabeças”, “escaldará as entranhas e a pele” e batê-los-á com “varas de ferro” (22:19).

Já Maomé começou a gozar de privilégios especiais: Os despojos de guerra (limitado a uma quinta parte do total), e mulheres e escravas para além dos limites que se aplicavam a outros (a comitiva amorosa de Maomé acabaria por incluir nove mulheres e várias escravas).

Irrompeu uma nova onda de violência quando os judeus de Medina e até mesmo muitos árabes rejeitaram a reivindicação de Maomé de ser um profeta enviado por Allah. A jihad islâmica tornou-se essencial para espalhar o Islão na Arábia e noutras partes. Um quarto dos versículos de Medina são exortações à jihad e promessas sobre as recompensas não só para a comunidade muçulmana, mas para guerreiros individuais. 

Nos seus anos finais Maomé começou a comportar-se como um profeta-rei. Cada aspecto da vida estava sob o seu controlo – horas de oração, proibições alimentares, o uso de véus, heranças, testamentos, punição por crimes, distribuição de impostos, etc. – tudo obedecendo a sentenças de Allah.

Resumindo, uma leitura cronológica/biográfica do Alcorão revela tremendas diferenças entre as partes anteriores e as posteriores. Não há apelos à jihad no Alcorão de Meca, nem antissemitismo, apenas apelos pacíficos à conversão. Mas em Medina temos a formação gradual de um verdadeiro exército, inspirado a conquistar, literalmente, o mundo para o Islão.

O Islão enquanto “religião da paz” tem, por isso, alguns fundamentos corânicos, mas a história islâmica e os eventos contemporâneos deixam claro que a justificação corânica para a jihad violenta é talvez maior.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 9 de Dezembro de 2017)

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Tuesday, 7 November 2017

A cruz do padre Dall'Oglio

Padre Dall'Oglio
O Papa Francisco manifestou-se esta terça-feira “profundamente consternado” pelo massacre numa igreja no Texas.

Em França há um monumento a João Paulo II, ornado com uma cruz que pelos vistos ofende de tal forma a laicidade que o conselho de Estado a quer remover… 70 mil pessoas na Europa, por enquanto, discordam.

Terá sido assassinado o padre italiano que foi raptado na Síria há mais de quatro anos. O padre Dall’Oglio, que entrevistei em 2012, terá sido morto em Raqqa dias depois de ter sido levado, diz agora um militante do Estado Islâmico que foi capturado por forças curdas.


Wednesday, 15 March 2017

Deixemos de Brincar ao “Faz de Conta” com o Islão

Nota prévia: Nem sempre concordo a 100% com os artigos que aqui publico. Neste em particular, discordo de algumas das conclusões do autor. Contudo, o seu ponto principal, de que é preciso enfrentar o problema que existe no islão e deixar de fingir que este não existe, parece-me fundamental e é algo que também digo há muito tempo. Daí ter traduzido e publicado para esta semana.
Filipe d'Avillez

William Kilpatrick
É lamentável que o tenente-general William McMaster, o novo Conselheiro do Presidente Trump para assuntos de Segurança Nacional, tenha dito que o Estado Islâmico é “não islâmico”. Insistiu também que organizações como o Estado Islâmico “utilizam cinicamente interpretações perversas da religião para incitar ao ódio e justificar crueldade horrenda contra inocentes”. Em suma, ao que parece, o general considera que o terrorismo não tem nada a ver com o islão.

Este era o pensamento dominante durante a administração de Obama. E ao longo desses oito anos a ameaça islâmica aumentou exponencialmente. Seria uma pena se uma figura chave da nova equipa de Segurança Nacional perpetuasse tais visões simplistas do terrorismo islâmico.

Muitos dos líderes eclesiais têm visões semelhantes. Ao longo dos últimos quatro anos temos ouvido uma série de pronunciamentos que indicam que existe um sólido muro que separa o islão da violência.

Aparentemente há quem acredite nestas balelas. Outros talvez as vejam como uma boa estratégia, uma forma de fortalecer o “islão moderado”. Os estrategas gostam de afirmar que a crítica do islão acaba por conduzir os moderados para o campo dos radicais. Deste ponto de vista, a única forma de promover a mudança no islão é elogiando-o, na esperança de que isso leve a bom porto.  

Mas não é uma grande estratégia. Na realidade, dá vantagem aos radicais. É que se toda a gente, desde os conselheiros para a segurança nacional até ao Papa, diz que o islão está lindamente como está, então não há qualquer incentivo para mudar. Se não existe qualquer problema com o islão, mas apenas com grupos extremistas “não islâmicos”, estamos a cortar as pernas aos reformadores muçulmanos. Ser um muçulmano moderado já é difícil, porque é que os reformadores hão-de arriscar a pele, sabendo que não terão qualquer apoio de não muçulmanos proeminentes? E porque é que os restantes muçulmanos os hão-de escutar, se tudo está bem como está? Esta estratégia é que afasta os muçulmanos dos moderados e dos reformadores e os conduz para os braços dos imãs radicais.

Partimos do princípio que as mesquitas, as escolas islâmicas e os imãs terão um efeito moderador sobre os muçulmanos, mas a verdade é outra. Cinco estudos independentes (quatro nos Estados Unidos e um no Canadá) revelam que cerca de 80% das mesquitas promovem posições extremistas. A maioria mal pode ser considerada moderada. Por exemplo, quando o Movimento de Reforma Muçulmana enviou uma carta a mais de três mil mesquitas americanas em busca de apoio, receberam apenas quarenta respostas e dessas apenas nove eram positivas, segundo o seu líder Zuhdi Jasser. Talvez tenham visto Jasser na televisão, é a encarnação da moderação e da razoabilidade. Mas a maioria dos líderes muçulmanos não quer ter nada com ele. Aparentemente, eles não acham que exista qualquer razão para reforma.

Noutros países, como já sabemos, as mesquitas são frequentemente locais de recrutamento e radicalização. Às vezes até servem como depósitos de armas. Quando acontece um ataque terrorista em solo islâmico as autoridades respondem fazendo rusgas e fechando mesquitas. Até alguns países ocidentais “iluminados” adoptaram a política de “cherchez la mosquée”. Depois de ataques terroristas tanto França como a Alemanha têm levado a cabo numerosas rusgas a mesquitas.

Por isso quando os líderes católicos afirmam existir uma equivalência entre o cristianismo e o islão – como fazem frequentemente – estão a encorajar os muçulmanos a buscar sentido numa fé que encontra o seu sentido na jihad. O Papa Francisco chegou a dizer a um grupo de migrantes que poderiam encontrar orientações nos seus textos sagrados – a Bíblia para os cristãos e o Alcorão para os muçulmanos. Mas este tipo de conselhos apenas empurra os muçulmanos para os braços de um fundamentalismo que o Papa acredita que é defendido por poucos.

De acordo com a definição ocidental de “fundamentalismo”, o islão é uma religião fundamentalista. A maioria dos muçulmanos lê o Alcorão de forma literal e é assim mesmo que os seus imãs dizem que deve ser feito.

Mas se estamos verdadeiramente interessados em ver o islão virar-se para um caminho moderado, então temos de deixar de o mimar e começar a criticar. Como escreve a ex-muçulmana Nonie Darwish, “o Ocidente não está a fazer favor algum aos muçulmanos, tratando-os como crianças que devem ser escudadas da realidade.”

A realidade é que há mesmo algo de errado com as duríssimas leis islâmicas contra a blasfémia e a apostasia, o tratamento das mulheres, crianças e minorias, entre muitas outras coisas, incluindo o apelo à jihad.

Chegou a hora de deixar de brincar ao “faz de conta”. As nações islâmicas não vão resolver estes problemas enquanto as nações não-islâmicas e os líderes das igrejas não as pressionarem. A Arábia Saudita só aboliu formalmente a escravatura em 1962 por causa da intensa pressão ocidental.

Porquê? Porque, como muitos observadores já afirmaram, as sociedades islâmicas não são dadas à introspecção. Raphael Patai, autor do livro “A Mente Árabe”, sugere que a crença islâmica no destino ou na predestinação leva a uma “desinclinação para fazer esforços para mudar ou melhorar as coisas”.

Quando os líderes ocidentais dizem aos muçulmanos que a sua religião merece muito respeito isso pode ser bom para a auto-estima e fazer com que os ocidentais se sintam tolerantes, mas não os encoraja a ver que há algo de errado. Em vez disso devíamos estar a dizer aos muçulmanos, da forma mais diplomática possível, que muitos dos aspectos da sua fé são profundamente perturbadores e que enquanto não fizerem nada sobre o assunto teremos de considerar medidas severas, como interromper o diálogo (no que diz respeito à Igreja) ou retirar ajuda externa, aplicar sanções ou desinvestir (no que diz respeito a governos e empresas).

No mínimo, devíamos fechar as nossas portas à imigração dos estados islâmicos mais problemáticos. Algumas pessoas advertem que tal proibição apenas aumentará o ódio dos muçulmanos pelo Ocidente. Talvez isso aconteça com alguns muçulmanos. Mas uma posição firme e decisiva poderá também levar muitos a pensar duas vezes sobre o islão.

O menino mimado só começa a questionar-se quando os outros meninos deixam de brincar com ele. Depois do 11 de Setembro muitos americanos perguntaram “Porque é que nos odeiam?”. Por outras palavras, “O que é que fizemos de errado?”. Chegou a altura de o mundo muçulmano começar a fazer a mesma pergunta. Mas nunca o fará enquanto o Ocidente mantiver a sua posição de que está tudo bem com o islão.


William Kilpatrick é autor do livro “Christianity, Islam and Atheism: The Struggle for the Soul of the West” e de “The Politically Incorrect Guide to Jihad”. Para mais informação sobre a sua obra visitem o site The Turning Point Project.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quinta-feira, 9 de Março de 2017)

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Wednesday, 6 April 2016

Compreendendo o Massacre Pascal de Lahore

David Warren
“Vil e sem sentido”. Foi assim que o Santo Padre descreveu o terrível massacre de cristãos que celebravam a Páscoa junto a um parque público em Lahore.

Morreram dúzias de pessoas, na maioria mulheres e crianças, e centenas ficaram gravemente feridos neste atentado suicida – tantos que os hospitais da cidade ficaram repletos e apelaram desesperadamente por doações de sangue. Foi ao nível do massacre de Todos os Santos em Peshawar, em 2013; foi pior que os atentados em igrejas em vários pontos de Lahore o ano passado.

Os Taliban do Paquistão reivindicaram todos estes ataques. Trata-se de uma organização que engloba várias células, em grupos que estão constantemente a mudar. A estrutura está pensada para evitar a penetração por informadores policiais.

Depois de cada atentado no Paquistão prendem-se umas centenas dos “suspeitos do costume”. Nenhum juiz que tenha amor à vida, ou que se preocupa com a sorte da sua família, quereria presidir a um julgamento destes, daí que as pessoas são detidas e depois libertadas um pouco por todo o país, para frustração dos serviços de informação dos serviços de informação ocidentais que podem saber quem são os verdadeiros suspeitos mas questionam-se porque é que estes nunca são detidos.

Conheci Lahore na minha infância e voltei várias vezes ao longo da vida a esta cidade venerável e em tempos bela, que continua a contar com monumentos impressionantes do Raj, dos Mugais e de outros tempos. Em tempos muçulmanos, hindus, sikhs, cristãos e até zoroastrianos e budistas viviam em paz nesta cidade adorável.

Quando foi a partição essa mistura ficou reduzida de repente a muçulmanos e uma minoria nativa de cristãos, na maioria católicos. Já nos anos 60, enquanto criança na escola de St. Anthony, eu tinha noção de que os cristãos deveriam ser meigos e respeitosos, sobretudo durante o Ramadão.

Pode-se ir à história – o nexo de nacionalismo e islamismo incipiente que levaram à própria formação do Paquistão – para compreender aquilo que agora se está a passar. Ambos foram importados, como “ideias com consequências” e ambos eram expressão de modernidade. Ambos ascendem das raízes do país e a única maneira de se conseguir eliminar as “raízes” do problema através de políticas seria viajando no tempo.

Na minha mais recente visita a Lahore, há mais de uma década, muitas das pessoas com quem falei já estavam preocupadas. Sabiam que a grande maioria no Paquistão, pelo menos em locais sofisticados e urbanos como Lahore, não eram fanáticos; que as suas posições podiam ser descritas, basicamente, como “viver e deixar viver”. Mas estavam assustados com o aumento explosivo de alunos formados nas madrassas – estimavam em cerca de 5% – que estavam comprometidos com uma agenda islamita violenta.

A comparação mais típica era com o Irão nos últimos tempos da monarquia. Não foi propriamente uma maioria de xiitas fanáticos que levou o Ayatollah Khomeini ao poder.

Foi este aviso que, paradoxalmente, preparou o terreno para os movimentos terroristas no Paquistão. O Governo estava bem consciente do que aconteceu ao Xá e determinado a evitar que se passasse o mesmo no seu país. Daí que com uma mão tenham tentado apaziguar inserindo mais inovações da Sharia nas leis nacionais enquanto, com a outra, constroem um exército e serviços de informação gigantescos, para lidar tanto com ameaças internas como externas, como por exemplo a rivalidade com a Índia.

Mas no nordeste montanhoso, a fronteira com o Afeganistão continua permeável e qualquer burocracia de grandes dimensões está sujeita a infiltração política organizada. Como gerações de políticos paquistaneses têm explicado a diplomatas ocidentais, não estão, nem podem estar, em controlo da situação. Não têm qualquer vontade de se renderem aos talibans, mas não há maneira de os derrotar sem ser através de um conflito da mesma dimensão que levou à partição.

“Vil e sem sentido”

Uma das vítimas do massacre
Na minha opinião a análise do Papa está apenas 33% certa. Estou com ele no que diz respeito à “vileza”, como estão, imagino, a grande maioria dos paquistaneses. O massacre de inocentes é entendido como vil mesmo por não cristãos. Mas tudo isto é complicado pela “política de identidade” que, com a ajuda das comunicações de massas, trouxe o tribalismo primitivo de volta à vida política moderna, com repercussões internacionais.

Daí que, mesmo no Paquistão, e já há algumas décadas, eu já detectava uma insinuação do género “os cristãos estão a pedi-las” por serem considerados arrogantes, apesar dos seus maiores esforços por serem discretos. Da mesma maneira que no Ocidente há o sentido crescente, à luz do terrorismo, de que “os muçulmanos estão a pedi-las”.

Há uma ideia de “nós contra eles” que ajuda a explicar como as massas complacentes se vão identificando com os membros das suas respectivas tribos, mesmo quando estão claramente errados. É um cálculo personalizado que é próprio da modernidade, embora assente sobre factos de identidade que parecem antigos e irrevogáveis.

Mas os ataques são tudo menos “sem sentido”. Também eles fazem parte de um cálculo muito moderno e “democrático”, que surgiu inicialmente através da violência aparentemente irracional dos anarquistas, socialistas e nacionalistas no século XIX. O cálculo é de que a violência – que Rumsfeld gostava de chamar “guerra assimétrica” – pode mudar as perspectivas para uma causa aparentemente desesperada.

O “terrorismo” é adoptado como táctica, ou até como estratégia, por muitas vezes funciona. Não funciona enquanto apelo a uma maioria nem pode ser tornado apelativo para esta. Os terroristas são demasiado racionais para isso, mais até do que as pessoas que os acusam de irracionalidade. Os actos gratuitos de violência – seja à carne seja a alvos arqueológicos na Síria ou no Iraque – têm por objectivo atrair as atenções das massas, chocá-las e horrorizá-las.

Os lenines, os hitleres, os Maos e os Khomeinis que chegaram ao poder compreendiam a utilidade da “violência sem sentido”. Embora sem grande entusiasmo, todos foram recebidos pelas massas complacentes quando as suas revoluções triunfaram. A atitude, invariavelmente, era “ao menos agora teremos alguma paz”.

Eis, então, o sentido da coisa. Seja no oriente ou no ocidente, o radical emprega a violência e o caos, não para incitar as burguesias a acções imprevisíveis, mas para se aproveitar do seu desejo por segurança. No final de contas abdicarão de quase tudo por uma vida tranquila.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na Sexta-feira, 1 de Abril de 2016 em The Catholic Thing)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 2 March 2016

A Igreja e o Islão

Howard Kainz
O pastor evangélico Franklin Graham – filho do lendário Billy Graham – caracteriza o Islão como “uma religião cruel e muito má… uma religião de ódio, uma religião de guerra.” Ao longo dos últimos anos outros pastores conhecidos fizeram declarações semelhantes. Acontece que vários papas também.

No Século XIV Clemente V lamentou que em terras cristãs ainda se ouça a “invocação pública do nome sacrílego de Maomé”; no Século XV, Calisto III denunciou o Islão como sendo uma “seita diabólica”. Pio II criticou Maomé como “falso profeta” e o Papa Eugénio condenou a “seita abominável de Maomé”; no Século XVI o Papa Leão X disse que os muçulmanos tinham substituído a luz da salvação por uma “cegueira total e obstinada”; e no Século XVIII o Papa Bento XIV criticou os cristãos que promovem, indirectamente, “os erros de Maomé” quando adoptam nomes muçulmanos para evitar impostos ou outras penalizações por parte das autoridades islâmicas.

Também santos de séculos passados, como Tomás de Aquino ou João Damasceno, apelidaram o Islão de “diabólico”.

“Diabólico”? “Cruel”? Serão exageros? Muitos de nós conhecemos um bom número de muçulmanos individuais que são boas pessoas. Mas poderá ser que a sua religião seja má? Pode-se distinguir entre a bondade dos membros individuais e a sua religião?

O Papa Bento XVI toucou ao de leve na alegada “maldade” do Islão no seu famoso discurso de Ratisbona em 2006, sobre a necessidade de se unir a razão e a religião. Citou o exemplo de um imperador do Século XIV que descrevia o Islão como inerentemente violento e irracional, logo, mau. Isso provocou uma revolta mundial e vários episódios de violência, levando o então cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio, futuro Papa, a comentar: “Essas afirmações servirão para destruir em vinte segundos a relação cuidadosamente construída com o Islão, ao longo dos últimos vinte anos, pelo Papa João Paulo II”. Acrescentou que tais declarações “não reflectem as minhas opiniões”.

E o que dizer dos relatos de atrocidades islâmicas, tanto no passado como no presente? A “World Watch List” de 2015 deu conta de 4.344 cristãos mortos por razões ligadas à fé e 1.062 igrejas atacadas. A lista de 2016 documenta casos de 7.106 mortes e 2.425 igrejas atacadas. Há literalmente milhares de casos de violência contra cristãos e destruição de igrejas no Egipto, Paquistão, Síria, Iraque, Irão, Indonésia, partes de África e noutros locais do mundo islâmico.

O Papa Francisco deve estar bem informado sobre tais eventos, mas na sua exortação apostólica “A Alegria do Evangelho”, diz que “frente a episódios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Islão deve levar-nos a evitar odiosas generalizações, porque o verdadeiro Islão e uma interpretação adequada do Alcorão opõem-se a toda a violência.”

Ao assumir esta posição Francisco, um “filho fiel da Igreja” está a ecoar o Concílio Vaticano II. No Concílio o Papa João XXIII, como parte do seu objectivo de “abrir as janelas da Igreja” pediu aos participantes para reconsiderarem a relação da Igreja com o Judaísmo, evitando as posições teológicas e litúrgicas que tinham um historial de contribuir para o anti-semitismo. Inicialmente não havia qualquer ideia de fazer pronunciamentos sobre o Islão; mas como já referi noutro artigo, alguns padres conciliares e teólogos no concílio queriam incluir o Islão em documentos oficiais sobre “religiões não-cristãs”.

Louis Massignon
Nisto pesou muito o trabalho de Louis Massignon (1883-1962), um católico especializado no Islão e pioneiro de esforços de compreensão mútua entre católicos e muçulmanos. Massignon ensinava que era preciso fazer uma “revolução copernicana” na nossa abordagem e compreensão do Islão. Devíamos colocar-nos no centro da mentalidade islâmica, compreender a sua espiritualidade e conduzir um diálogo a partir dessa perspectiva.  

Durante o Concílio um dos discípulos de Massignon, o teólogo dominicano egípcio Georges Anawati (1905-1994) liderou os esforços, juntamente com outros, para se incluir afirmações positivas sobre o Islão nos documentos oficiais. O sucesso deste grupo vê-se na Nostra Aetate e na Lumen Gentium, que contêm comentários laudatórios sobre o Islão: “Mas o desígnio da salvação estende-se também àqueles que reconhecem o Criador, entre os quais vêm em primeiro lugar os muçulmanos”, uma religião abraâmica e monoteísta, que se submetem de todo o coração aos “decretos, mesmo ocultos,” de Deus, partilhando muito com o Cristianismo no que diz respeito a crenças básicas e ensinamentos morais.

Mas tendo em conta o ódio para com outras religiões que se revela nas escrituras islâmicas, bem como o enorme número de assassinatos, incêndios de igrejas e perseguições que temos visto nas últimas décadas, será tudo isto apenas uma mão cheia de boas intenções? Na Igreja de hoje as condenações de aspectos evidentes do Islão são praticamente inexistentes.

O Papa Pio XI publicou o Mit brennender Sorge, uma crítica aberta ao regime nazi e o Divini redemptoris contra o comunismo. Já Pio XII optou por trabalhar de forma discreta mas persistente, durante o seu pontificado, para derrotar o nazismo e salvar judeus. O que teria acontecido se tivesse publicado uma condenação firme ao nazismo?

Durante o Concílio Vaticano II a União Soviética era um flagelo global e Nossa Senhora de Fátima, nas aparições extraordinárias que coincidiram com o início da revolução comunista, avisou a Igreja sobre o perigo de a Rússia “espalhar os seus erros através do mundo”. Mas, incrivelmente, não houve um só cheirinho de crítica ao comunismo no Concílio. E se Paulo VI tivesse condenado a União Soviética, o leninismo e o marxismo? A cautela diplomática deve influir nos pronunciamentos papais? Ou devíamos seguir o lema do Imperador do Sacro Império Romano, Fernando I, “Fiat justitia, pereat mundus”, seja feita a justiça, nem que o mundo pereça?

No que diz respeito ao Islão actualmente, uma condenação clara da religião, tal como foi feita pelos papas nos séculos passados, resultaria, podemos estar certos, em graves perturbações por todo o mundo – talvez uma Terceira Guerra Mundial. E uma condenação dessas poderia ainda afectar injustamente os muçulmanos moderados a par dos extremistas. Mas mesmo sem se condenar, os elogios constantes parecem-me descabidos. Quanto ao termo “religião da paz” é altura de ter em conta a interpretação tradicional de “paz” no Islão: O mundo encontra-se dividido em duas “casas” – a Casa da Paz (Dar Al-Salaam) e a Casa da Guerra (Dar Al-Harb). Na primeira, cabem apenas os muçulmanos.


Howard Kainz é professor emérito de Filosofia na Universidade de Marquette University. Os seus livros mais recentes incluem Natural Law: an Introduction and Reexamination (2004), The Philosophy of Human Nature (2008), e The Existence of God and the Faith-Instinct (2010)

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Março de 2016)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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