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Wednesday, 29 November 2023

Fé, Certeza e Dúvida

Tens a certeza de que Deus existe? Tens a certeza que não? De que lado está o ónus da prova nesta questão? São os crentes que têm de provar que Deus existe? Ou devem ser os ateus a provar o contrário? Muitos optam por se pronunciar “agnósticos” – não sei mesmo.

Tudo bem, a não ser que a questão da existência de Deus seja tão importante e relevante como saber se o vulcão por cima da minha casa está prestes a explodir. Como não sou vulcanólogo, posso legitimamente dizer “eu não sei mesmo”. Mas não posso propriamente dizer que a resposta à questão não tem qualquer importância para a minha vida e realização. Dizer-me “agnóstico” e voltar para casa não é uma resposta “neutra”. Com os meus gestos estou a colocar-me do lado dos que dizem que esta não é uma preocupação relevante.

Tenho pensado muitas vezes que o verdadeiro objectivo da famosa “aposta” de Pascal era tentar levar os seus compatriotas, com a mania de que eram tão sofisticados, a enfrentar esta questão existencial da mensagem do Evangelho: E se, com a tua vida, já apostaste tudo nesta questão? E se todo o teu dinheiro (ou toda a tua vida) dependessem da resposta a uma certa questão, estarias mesmo disposto a permanecer “agnóstico” sobre ela?

Posso ter a Certeza de que Jesus é Deus feito homem, e que a sua morte sacrificial nos dá a salvação? Talvez não. E então?

E se não colocarmos a questão desta forma, em busca da certeza?

Esta busca pela certeza é uma tendência que foi introduzida na consciência moderna por René Descartes, que acreditava que dizer “eu sei” implicava ter a certeza – tão certo como estou de que 2+2=4. Um antigo professor meu dizia que este era o tipo de erro que, na escola de Aristóteles, teria levado a uma bela reguada. “Não, Descartes! Não! Não podes esperar o mesmo grau de certeza em todos os assuntos!”

Podes ter a certeza sobre Deus, Jesus e tudo o resto? Talvez não. Mas há outras questões sobre as quais não podes ter a certeza. A tua mãe ama-te? Podes ter a certeza disso? Talvez ela seja um génio malvado a enganar-te simplesmente para te poder manipular quando fores mais velho.

Bom, talvez seja possível, sim, mas o que é que ela poderia esperar ganhar que pudesse justificar todo o esforço e sacrifício que está a fazer agora? E como é que podia ter a certeza de que todos os esforços valeriam a pena? É possível, se bem que não seja inteiramente razoável, ou provável. Mas não posso ter a certeza, de facto.

E temos ainda outras questões com as quais as pessoas se debatem. Devo casar com esta pessoa? Posso ter a certeza de que vai “resultar”? É impossível ter a certeza. Talvez seja possível discernir melhor ou pior, mas quem exigir uma certeza absoluta nunca irá casar. Aqueles que pensam no amor e no casamento como escolhas que fazem, em vez de uma situação de que podem ter a certeza, tendem a ter mais sucesso a longo prazo.

Eu tive um professor que defendia que a “crença” era “agir como se fosse verdade”. Não me parece que seja a melhor das definições de fé, mas leva a algumas considerações interessantes. Se eu vejo uma ponte frágil e velha e decido atravessá-la, é porque creio que aguentará o meu peso. Como é que sabem que acredito? Porque estou a atravessá-la. Posso estar a fazê-lo de forma hesitante, com algumas dúvidas, mas estou a fazê-lo.

Um homem está a afogar-se e eu vejo um barco antigo. Se saltar para ele e remar em direcção ao homem, estou a demonstrar a minha crença de que o barco aguenta comigo. Estou a agir como se fosse verdade. Creio nisso – creio tão firmemente que estou disposto a arriscar a vida com base nessa crença.

Em “O Homem em Busca de um Sentido”, Viktor Frankl diz o seguinte sobre o tempo que passou em Auschwitz: “Tínhamos de parar de perguntar sobre o sentido da vida, e antes pensar-nos como aqueles que estavam a ser questionados pela vida – diariamente, a cada hora. A nossa conduta não devia consistir em conversa e meditação, mas em acção recta e conduta recta”.

E se, em vez de certezas sobre a ideia de Deus, nos pensássemos como estando a ser “questionados pela vida”, e a resposta a esta pergunta tivesse a ser dada com as nossas vidas. E se em vez de esperar pela sensação da certeza nos limitássemos a dizer: “Eu escolho viver como se uma vida de amor altruísta fizesse sentido”.

Quando agem com amor altruísta e ensinam os seus filhos a fazer o mesmo, os “agnósticos” e os ateus que dizem acreditar que vivemos num universo vazio e desprovido de sentido, revelam que não acreditam mesmo no que dizem acreditar. Eles acreditam no mesmo que os cristãos – sobre a vida e sobre o mundo. A diferença está em que os cristãos têm razões para a esperança que carregam. E podem dar nome a essa esperança.

Posso ter a certeza sobre o amor de Deus? Estás a gozar? Há dias em que o universo me esmaga e não sei se há valor no que quer que seja, sobretudo quando contemplo as trevas que andam pelo mundo e que habitam o meu próprio coração.

Embora não possa ter a certeza, posso escolher tentar viver como se o Deus de Amor existe e criou um universo em que a chave da realização humana é o Amor feito carne. Eu prefiro viver desta forma porque, na minha experiência, é o que faz mais sentido. Se quiseres chamar a isso “fé irracional”, força.

E sim, talvez seja como o tipo que está num barco velho e frágil, que nem sei se me vai manter à tona de água, a remar em direcção ao homem que se afoga. Mas eu prefiro ser esse tipo do que aquele que se encontra sentado na margem, a fazer perguntas infindáveis sobre a navegabilidade do barco. Esse tipo já fez a sua escolha. E eu fiz a minha. Mas nenhuma dessas escolhas é neutra.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 28 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 1 November 2023

O Islão e o Realismo Cristão

Francis X. Maier

Na sua maioria, os ocidentais ficaram chocados com a selvajaria dos recentes ataques do Hamas contra Israel, e o assassinato sistemático de cidadãos israelitas por terroristas do Hamas. Essa maldade foi agravada pela culpabilização de Israel pelo catastrófico bombardeamento de um hospital em Gaza, quando as provas demonstram agora que na verdade as centenas de mortes foram causadas por um projéctil do Hamas. Mas talvez o mais surpreendente de tudo tenha sido ver milhões de pessoas no mundo árabe e em muitas capitais do ocidente a celebrar a violência do grupo terrorista palestiniano.

Desde o Concílio Vaticano II que os católicos, e muitos outros cristãos, têm valorizado o diálogo e a cooperação inter-religiosa, sobretudo com o judaísmo, mas também com o Islão. Os resultados – como eu vi em primeira mão nos anos em que trabalhei na área inter-religiosa de uma diocese – têm sido muitíssimo benéficos. Contudo, vale a pena recordar que enquanto o Cristianismo tem as suas raízes no Judaísmo, a nossa relação com o Islão é um assunto muito diferente. Daí que valha a pena meditar seriamente sobre alguns dos seguintes pensamentos:

Islão e a Palavra de Deus:

Quem conhece o Antigo e o Novo Testamentos e depois lê o Alcorão, pode ver claramente o processo através do qual ele reduz completamente a Revelação Divina [ênfase no original]. É impossível não reparar no afastamento daquilo que Deus disse sobre Si mesmo, primeiro no Antigo Testamento, através dos profetas, e por fim no Novo Testamento, através do seu Filho. No Islão toda a riqueza da autorrevelação de Deus, que constitui a herança do Antigo e do Novo Testamento, é definitivamente posta de lado.

Alguns dos nomes mais belos da linguagem humana são atribuídos a Deus no Alcorão, mas no final de contas Ele é um Deus fora do mundo, um Deus que é apenas majestade, nunca Emmanuel, Deus connosco. O Islão não é uma religião de redenção

Por esta razão, não só a teologia, mas também a antropologia islâmica é muito distante do Cristianismo.

– São João Paulo II, em Atravessar o Limiar da Esperança

Islão e Conflito:

O mundo, tal como o académico Bat Ye’or tão brilhantemente demonstra, divide-se em duas regiões: o dar al-Islam e o dar al-harb; por outras palavras, o “domínio do Islão” e “o domínio da guerra”. O mundo já não se encontra dividido em nações, povos e tribos. Antes, estes encontram-se localizados em bloco no mundo da guerra, onde a guerra é única relação possível com o mundo exterior. A Terra pertence a Allah, e os seus habitantes devem reconhecê-lo; para atingir este objectivo só existe um método: guerra. A guerra, por isso, é claramente uma instituição, não apenas uma instituição acidental ou fortuita, mas uma parte constituinte do pensamento, organização e estruturas deste mundo. A paz com este mundo da guerra não é possível. Como é evidente, por vezes pode ser necessário travá-la; existem circunstâncias em que é melhor não travar guerra. O Alcorão também prevê isto. Mas isso não muda nada: Para o Islão, a guerra permanece uma instituição, pelo que deve ser resumida logo que as circunstâncias o permitam. 

Enfatizei muito as características desta guerra porque hoje em dia se fala tanto da tolerância e do pacifismo fundamental do Islão, que se torna necessário recordar a sua natureza, que é fundamentalmente bélica.

 o já falecido Jacques Ellul, distinto teólogo e crítico social protestante francês, do prefácio que escreveu para The Decline of Eastern Christianity Under Islam: From Jihad to Dhimmitude, de Bat Ye’or

Islão, política e cultura:

As duas religiões que têm uma dimensão “política” não a adquiriram do mesmo modo. O Cristianismo ganhou terreno no mundo antigo contra o poder do Império Romano, que perseguiu os cristãos durante quase três séculos antes de adoptar a religião cristã. Já o Islão, depois de um período breve de provações, triunfou durante a vida do seu fundador. Depois conquistou, pela guerra, o direito a operar em paz, e até mesmo o direito de ditar as condições de sobrevivência para os seguidores das outras religiões “do livro”. Em termos modernos, podemos dizer que o Cristianismo conquistou o Estado através da Sociedade Civil; o Islão, pelo contrário, conquistou a sociedade civil através do Estado [ênfase no original].

Assim, desde o início, o Cristianismo colocou-se à parte do domínio político, e os seus textos fundadores dão testemunho de uma desconfiança dos assuntos políticos… Para o Islão, a separação entre o político e o religioso não tem direito a existir. Chega a ser chocante, pois parece um abandono dos assuntos humanos ao poder do mal, ou a despromoção de Deus para um lugar fora da sua esfera própria. A cidade ideal deve ser aqui na Terra. Em princípio, ela até já existe: é a cidade islâmica. 

– Remi Brague, vencedor do prémio Ratzinger e professor emérito de filosofia medieval e árabe na Sorbonne, em A Lei de Deus

Não obstante a sua relação de herança comum com o Judaísmo e o Cristianismo, remontando a Abraão, e apesar do seu respeito formal por Jesus e por Maria, o Islão tem muito pouco em comum com a fé cristã. O Islão rejeita a Trinidade, a Encarnação e a Redenção. Nega a veracidade dos Evangelhos, e nega as origens e o propósito da Igreja. Na verdade, o Islão reconhece o Judaísmo e o Cristianismo apenas como aberrações na sua própria história sincretista.

Hoje, em estados islâmicos como o Sudão, o Egipto, o Irão, o Paquistão, a Turquia, o Bangladesh e a Indonésia, os cristãos enfrentam desde a marginalização e o assédio até à violência explícita. A razão é simples. Independentemente de todas as forças do Islão, o preconceito antijudaico e anticristão tem um historial longo e frequentemente amargo no Islão, não obstante afirmações em contrário. 

Isto não constitui uma licença para agirmos de igual modo, mas exige, isso sim, que tragamos para os nossos encontros modernos com o Islão – tanto no Médio Oriente como aqui no ocidente – uma abordagem realista e firme, e uma memória histórica correcta. À luz do Evangelho, Maomé não é um verdadeiro profeta e o Alcorão não é a Palavra de Deus. Como Jesus Cristo afirmou, apenas ele é o caminho para o Pai. E no final de contas os muçulmanos não O conhecem. Sem o nosso testemunho activo junto do mundo Islâmico, nunca o conhecerão.


Francis X. Maier é conselheiro e assistente especial do arcebispo Charles Chaput há 23 anos. Antes serviu como Chefe de Redação do National Catholic Register, entre 1978-93 e secretário para as comunidades da Arquidiocese de Denver entre 1993-96.

Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 25 de Outubro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 27 July 2023

A tortuosa caminhada religiosa da Madre Marie Bernadette (AKA Sinéad O’Connor)

A morte de Sinéad O’Connor, ontem, aos 56 anos, tem sido lamentada e muito se tem falado sobre o seu percurso musical. Menos atenção tem merecido a sua muito complexa caminhada religiosa.

O primeiro grande incidente de carácter religioso em que Sinéad O’Connor se envolveu foi em 1992 quando rasgou uma fotografia do Papa João Paulo II durante uma actuação em directo na televisão.

A cantora estava a cantar a música “War” de Bob Marley, no Saturday Night Live e o combinado era que durante a música seguraria numa fotografia de uma criança soldado. Contudo, quando chegou a esse momento mostrou uma fotografia de João Paulo II e rasgou-a em pedaços, enquanto dizia “luta contra o verdadeiro inimigo”.

O’Connor defendeu o seu gesto como uma crítica aos abusos sexuais de crianças no seio da Igreja Católica. Independentemente do que se possa pensar sobre o acto em si, a verdade é que estava alguns anos à frente do seu tempo, pois como se veio a ver o escândalo dos abusos e do seu encobrimento existiam de facto em vários países, incluindo na sua nativa Irlanda, mas ainda não se falava muito do assunto.

O incidente foi recebido com silêncio sepulcral em estúdio, mas levou a fortes críticas nas semanas seguintes, de tal forma que num concerto de tributo a Bob Marley nem conseguiu acabar de cantar, tais foram os apupos da multidão. Foi ainda criticada por Madonna por ter ofendido a Igreja Católica e pelo apresentador do SNL, Joe Pesci, que mostrou a mesma fotografia recomposta e colada por ele e disse que se não fosse o apresentador teria dado à cantora uma chapada.

Foi por isso com alguma estranheza que muitos assistiram à transformação de O’Connor de contestatária do Papa em sacerdotisa de uma Igreja cismática supostamente tradicionalista.

A Igreja em causa era a Igreja Latina Tridentina, conhecida oficialmente como Igreja Ortodoxa Católica e Apostólica da Irlanda (IOCAI), liderada pelo bispo Michael Cox. Cox tinha sido ordenado por Ciarán Broadbery, que por sua vez tinha sido ordenado por Clemente Dominguez, líder da Igreja Católica Palmariana, que por sua vez tinha sido ordenado pelo bispo vietnamita Ngô Đình Thục. De todos estes, Thục era o único que alguma vez tinha sido um bispo católico válido, mas acabou, sem surpresas, por ser excomungado, juntamente com todos os outros bispos que ordenou ilicitamente. A IOCAI apresentava-se como sendo ultraconservadora e celebrava o rito tridentino, mas isso não impediu o seu bispo de convidar Sinéad O’Connor para ser ordenada depois de ela lhe fazer um donativo de 50 mil libras irlandesas. Em abono da verdade, diga-se que o donativo foi retirado depois de ela ter sido acusada de simonia pela Igreja Católica da Irlanda, mas a “ordenação” avançou e Sinéad adoptou o nome “Madre Marie Bernardette”.

Numa entrevista em que falou longamente sobre o assunto explicou que se considerava uma sacerdotisa católica legítima e válida e que poderia levar anos, mas Roma acabaria por aceitá-la como tal. Disse também que nunca mais iria usar outra roupa para além das suas vestes sacerdotais e que iria leiloar toda a sua roupa e maquilhagem, para juntar dinheiro para fundar uma casa em Lourdes onde os “travellers” – uma comunidade ao estilo cigano que vive nas Ilhas Britânicas – poderem ir passar férias. Por fim, disse que estava a pensar seriamente em fazer um voto de celibato, mas que o seu namorado lhe tinha pedido para pensar no assunto durante uns 25 anos. Não faço ideia se o leilão da roupa chegou a acontecer, nem se a casa em Lourdes foi construída, muito menos se o voto de celibato se concretizou, mas tenho sérias dúvidas. O mais espantoso é que toda esta conversa decorreu – pelo menos da parte de Sinéad – com a maior seriedade e convicção.

Não sei ao certo quando é que Sinéad deixou de se considerar sacerdotisa e de exercer como tal, mas sabe-se que em 2018 a sua vida religiosa levou outra volta inesperada quando ela anunciou que se tinha convertido ao Islão, adoptando o nome Shuhada' Sadaqat. Shuhada significa “mártires”, ou mais literalmente “aqueles que dão testemunho” e Sadaqat significa dar esmola.

Na altura O’Connor, AKA Madre Marie Bernardette, AKA Sinéad Sadaqat (e estou a deixar de fora outro nome – Magda Davitt – que tinha adoptado entretanto) justificou a sua decisão de se converter ao Islão como “a conclusão natural da caminhada de qualquer teólogo inteligente”. Numa mensagem particularmente polémica, disse que as pessoas não muçulmanas são nojentas, e que nunca mais queria passar tempo com qualquer uma. Mais tarde pediu desculpa.

Não se goza com os mortos, nem é esse o objectivo deste texto. Antes, pretendo demonstrar não só a fascinante – se conturbada – vivência religiosa da cantora irlandesa, mas também como estas procuras por espiritualidades alternativas tão facilmente acabam por conduzir a uma espiral de loucura e irracionalidade.

Num dos seus muitos comentários sobre religião, Sinéad O’Connor disse: “Penso que Deus salva todos, quer queiram ser salvos ou não. Por isso, quando morremos, iremos todos para casa. Acho que Deus não julga ninguém. Ama a todos por igual”.

Esta frase não podia ser menos ortodoxa, mas pelo meio tem uma verdade. Sim, Deus ama todos por igual. E a verdade é que só Deus sabe o que se passava na mente e na alma claramente perturbadas de Sinéad O’Connor. Esperemos que o seu encontro com Ele tenha sido de facto um regresso a casa e o começo de uma nova vida de paz.

Monday, 26 June 2023

Muçulmanos angariam dinheiro para libertar cristãos

Infelizmente, não é difícil encontrar notícias sobre violência e perseguição inter-religiosa e em muitos casos as comunidades cristãs sofrem às mãos de grupos fundamentalistas islâmicos. 
Mas é precisamente por isso que importa também dar eco de histórias como esta, que acabei de ler, passada na Nigéria. 
No dia 7 de Maio um grupo de dezenas de cristãos de uma igreja baptista foram raptados por bandidos. Os raptos na Nigéria são um fenómeno complexo, uma verdadeira indústria. Os culpados são frequentemente apenas bandidos à procura de resgates, mas noutros casos há um factor religioso em jogo, tratando-se de criminosos muçulmanos que raptam cristãos precisamente para hostilizar a comunidade e tentar levá-los a abandonar a área. Há também questões étnicas em jogo. 
Neste caso, contudo, o que há a assinalar é o facto de os muçulmanos da comunidade de onde foram raptados os cristãos baptistas terem ajudado a angariar dinheiro e até comprado uma motorizada para poder pagar o resgate necessário para libertar os seus vizinhos. 
Num país onde a tensão inter-religiosa há muito que atingiu níveis extremos, esta é uma notícia que nos deve encher de esperança e recordar-nos que pessoas de diferentes religiões têm sempre um património comum, nem que seja o pequeno-enorme aspecto da sua humanidade. 
Há muita tragédia no mundo, muito com que nos preocupar e muito para lamentar. Mas temos também a liberdade de escolher as histórias que decidimos contar e partilhar. Esta merece, sem dúvida!

Wednesday, 2 November 2022

Daqui até à Eternidade

Randall Smith

Poucas coisas desafiam a nossa tranquilidade e provocam em nós um sentido de temor existencial mais profundo do que a recordação da morte. Se tudo aquilo que procurámos alcançar – tudo o que aprendemos e experienciámos, toda a gente a quem amámos – se resume a nada, haverá, pensamos nós, algum sentido para a vida?

O Vaticano II observa, e bem, que: “É em face da morte que o enigma da condição humana mais se adensa. Não é só a dor e a progressiva dissolução do corpo que atormentam o homem, mas também, e ainda mais, o temor de que tudo acabe para sempre” (Gaudium et Spes, 18).

Ao longo da história muitas pessoas se convenceram de que deve haver uma vida depois da morte para que a vida tenha algum sentido. E, porém, algumas das concepções da vida depois da morte também tornam esta vida sem sentido.

Se o Céu é assim tão maravilhoso, porquê perder o nosso tempo na terra? E o que é feito de tudo aquilo pelo qual nos esforçámos? Todas as nossas relações, os nossos amores, a nossa dedicação aos outros? As coisas que amamos são simplesmente abandonadas quando morremos? Para muitos, mesmo aqueles que crêem na vida depois da morte, o maior medo que existe é de perderem as ligações com aqueles que amam.

Assim, também, a ideia do tipo de boa vida que devemos ter nesta vida não deve contradizer a vida abençoada no Céu, e vice-versa. Se a “melhor vida para o homem” é uma vida de virtude, então não podemos, sob risco de sermos culpados de grave inconsistência, afirmar que a vida dos bem-aventurados no Céu envolve relações sexuais dissolutas com setenta virgens.

De igual modo, se um cristão crê que o Céu é um reino de amor abnegado de Deus e dos outros, mas vive a vida presente em busca de riqueza, poder e estatuto, então essa pessoa não compreendeu a relação essencial entre esta vida e a próxima.

Uma das coisas que a divina Revelação nos mostra, e que se confirma de forma mais plena nas aparições de Jesus Ressuscitado, é que a promessa de Cristo de vida eterna inclui a ressurreição do corpo. Infelizmente, muitos cristãos parecem não ter noção desta crença central da nossa fé. Apesar de repetirmos em cada recitação do credo que cremos “na ressurreição da carne”, é raro o cristão que verdadeiramente se apercebe deste ensinamento cristão.

Se um cristão afirma que a morte implica a libertação da alma do corpo, como Sócrates parece ter defendido, então estariam em contradição não apenas com o ensinamento de São Paulo sobre a ressurreição da carne, mas também com o entendimento cristão da unidade intrínseca entre corpo e alma. Mesmo os cristãos que sabem que a fé implica acreditar na ressurreição da carne perguntarão o que é que isso significa.

Esta é, obviamente, uma questão muito importante, demasiado complexa para encaixar num curto artigo como este, por isso o leitor perdoar-me-á se eu aproveitar para falar do meu novo livro, From Here to Eternity: Reflections on Death, Immortality, and the Resurrection of the Body que acaba de ser publicado pela Emmaus Press. Deixem-me dar-vos só umas luzes, para que decidam por vós se é o género de coisa que gostariam de ler (ou de oferecer a muitos amigos – não que eu esteja a insinuar nada…).

No livro argumento que a revelação mais plena da visão cristã da vida depois da morte se dá na pessoa do Cristo ressuscitado. Há outras imagens de “Céu” nas Escrituras, e não estão desprovidas de importância, mas não deixam de ser apenas imagens. A revelação mais central e importante da vida após a morte é dada pelo próprio Cristo, no seu corpo ressuscitado.

Essa revelação assegura-nos que, depois da morte, podemos, se respondermos às graças que Deus nos deu, partilhar de forma plena no amor trino de Pai, Filho e Espírito Santo. Mas mostra também que estaremos unidos a Deus de tal forma que não perdemos a nossa identidade ou a nossa relação com aqueles que amamos. O Cristo ressuscitado que se revela a si mesmo no Cenáculo continua a ser Jesus, aquele que eles conheciam, e não um “espírito” gnóstico que se libertou depois da morte do seu corpo.

Maria e os Santos não foram “absorvidos” por Deus como uma gota de água a regressar ao oceano. Permanecem pessoas distintas, ainda ligadas a nós no amor, mas cada vez mais intimamente, não só junto a nós, mas agora acima e dentro de nós, rezando por nós de uma forma ainda mais potente a cada momento, unidos a nós precisamente porque unidos ao Corpo Ressuscitado de Cristo.

A Ressurreição de Cristo e a ressurreição geral dos fiéis dão-nos esperança – não apenas a esperança de uma fuga desta vida, deixando para trás todos aqueles que amamos, mas sim uma esperança na transformação e na redenção desta vida – uma caminhada que, ainda que apenas encontre o seu destino na próxima vida, começa agora, hoje, nesta vida.

“Fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo”, escreve São Paulo aos Romanos, “a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.”

Tal como a Igreja há muito que ensina que a graça não viola a natureza, antes a aperfeiçoa, assim também a noção cristã da vida depois da morte não nega o valor desta vida, mas aperfeiçoa-a. A promessa cristã é de que, quando vivemos as nossas vidas em continuidade com Cristo crucificado e ressuscitado, estamos a viver agora uma antevisão da vida de que gozam os bem-aventurados – todos os santos que por estes dias celebramos – no Céu.

Assim, a mensagem crista é esta: Comecem a viver agora a vida do céu, que é a vida do Cristo crucificado e ressuscitado, uma vida purgada do nosso falso eu e do seu egoísmo, abrindo assim caminho para uma “vida eterna”, uma vida devotada ao amor abnegado por Deus e pelo próximo. A “Boa Nova” é o conhecimento de que nenhum poder no mundo, por maior que seja, nem mesmo a morte, pode separar-nos desse amor por Deus e pelo próximo.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 1 de Novembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 19 October 2022

“Reductio” Medieval vs. Reducionismo Moderno

Randall Smith
Quando, depois de uma série de disputas, o grande doutor medieval da Igreja, São Boaventura, foi finalmente admitido como Mestre Regente de Teologia na Universidade de Paris, deu uma das suas duas lições de admissão, um texto conhecido actualmente como “A Redução das Ciências à Teologia”. O título pode ser enganador, contudo, porque aquilo que Boaventura quer dizer quando usa a palavra reductio, em latim, é muito diferente do sentido da palavra actu
al “redução”.

Para nós, “redução” envolve tornar as coisas mais pequenas. Literalmente, porém, a palavra latina reductio significa “conduzir de volta”. Assim, a reductio das ciências à teologia proposta por São Boaventura não envolve diminuí-las para encaixarem na teologia. De todo. Pelo contrário, o seu objectivo era de mostrar como todas as disciplinas, operando de acordo com os seus métodos próprios, podem conduzir-nos a Deus.

Não é que estejamos à espera que os professores de química, biologia ou física façam teologia nas suas aulas. Muito pelo contrário. Partindo da compreensão da criação como uma expressão do divino Logos e a encarnação do amor de Deus, quando um professor de ciências naturais ensina aos seus alunos verdades sobre o mundo, ou sobre o ser humano, está com este acto a conduzir as pessoas ao Deus Criador. Está a ajudar os alunos a “ler” o que os académicos medievais chamavam “o Livro da Natureza”, escrito pela mesma mão que escreveu o “Livro das Escrituras”.

Se estes professores começarem as aulas com uma oração, ou se recordarem os seus alunos que “tudo o que estudamos ajuda-nos a compreender o que Deus escreve no Livro da Natureza”, isso é óptimo. Mas esse deve ser o pressuposto de toda a gente que participa na aula, e não a matéria em si. Não existe nenhum requisito de fazer acção social para provar que é católico. A caridade começa na sala de aula, lecionando com generosidade e excelência.

Professores de química, biologia e física cumprem o seu papel de fomentar uma educação católica precisamente a ensinar química, biologia e física. Não cabe aos professores de teologia dizer-lhes como devem leccionar nas suas aulas, tal como não lhe cabe dizer a um pedreiro como construir uma parede. Há muito que a tradição católica percebeu que cada disciplina tem a sua própria metodologia.

Porém, haverá sempre certas orientações que ajudam as instituições católicas a proteger-se de forças exteriores, umas das outras e até, por vezes, de si mesmas.

Uma universidade católica recordará a cada disciplina que deve evitar tornar-se subserviente às tentações do orgulho, da riqueza, ou do poder, e que não deve ajoelhar-se perante a coacção de governos ou outras agências estatais. A sua principal obrigação deve ser para com a verdade.

Assim, por exemplo, a Economia numa universidade católica nunca deve resumir-se ao lucro, as Ciências Políticas não podem focar-se apenas no poder e o estudo das outras disciplinas, incluindo filosofia e teologia, nunca devem servir apenas o prestígio profissional ou o orgulho. Não estamos na universidade para nos servirmos a nós mesmos ou aos nossos egos, mas aos nossos alunos. Nem devemos servir uma ideologia. Servimos a verdade, porque quando servimos a verdade é a Deus, que é a Verdade, que servimos.

Uma instituição católica também assegurará que cada disciplina respeita os seus próprios limites. Biólogos, químicos e físicos não devem estar a fazer afirmações filosóficas que não são sustentadas pelos métodos das suas disciplinas, tais como “a evolução prova que Deus não existe” (o que é um disparate). Da mesma forma, filósofos e teólogos não devem fazer afirmações sobre as ciências que ignoram os mais recentes desenvolvimentos científicos.

Em tudo o que faz, uma universidade católica deve praticar a reductio, mas deve resistir a todas as formas desnecessárias de reducionismo. Do que falamos aqui?

São Boaventura
Para os efeitos deste artigo, podemos identificar três formas de “reducionismo”.

Primeiro, o “reducionismo metodológico”, através do qual os cientistas procuram “reduzir” os fenómenos aos seus elementos constituintes. “Reduzimos” as coisas materiais às suas estruturas atómicas. “Reduzimos” os traços físicos às causas genéticas. Esta “redução metodológica” é comum às ciências naturais e próprio da sua metodologia.

O problema é que os cientistas, ou mais frequentemente o público, especialmente os media, também enveredam pelo “reducionismo epistemológico” – a afirmação de que depois de reduzirmos as coisas às suas partes constituintes já não há mais nada a saber sobre elas. Por vezes, de forma mais radical, envolvem-se em “reducionismo ontológico”, a afirmação de que as coisas não são mais do que as suas partes constituintes.

A tradição intelectual católica sempre resistiu a estas duas formas de reducionismo. Pedir aos cientistas para evitarem este tipo de erro não é mais do que pedir-lhes que sejam fiéis às suas próprias disciplinas e não enveredarem pela epistemologia ou metafísica.

Mais, uma instituição católica insistirá que todas as disciplinas se mantenham abertas à visão plena da pessoa e do florescimento humano que está no coração da tradição intelectual católica. Todos os que procuram sinceramente a verdade têm um lugar na universidade católica.

Já aqueles que odeiam a fé católica ou que acham que qualquer fé é ridícula, ou que acreditam que a visão católica da pessoa é odiosa e aberrante, ou que querem que a universidade católica procure o dinheiro e o prestígio de outras escolas, devem evitar tornar as suas vidas miseráveis numa universidade católica e arranjar emprego noutro lado qualquer.

Assim, a reductio de São Boaventura e o desejo da universidade católica de ver toda a verdade, seja de que disciplina for, como uma condução de volta a Deus, nada tem a ver com a afirmação do cientismo moderno de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento e de que toda a realidade, incluindo os humanos, não é mais do que uma coleção de átomos. A tradição intelectual católica afirma que toda a verdade que alcançamos sobre o mundo nos dá um vislumbre do amor criativo e da sabedoria de Deus.

Mas não há uma só disciplina que nos diga tudo o que precisamos de saber, porque as realidades que Deus criou, sobretudo os seres humanos, são muito mais do que aquilo que podemos compreender quando as reduzimos a algo mais pequeno, algo que possamos dominar e controlar.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 18 de Outubro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 21 September 2022

Idolatria Escondida (com o rabo de fora)

As palavras têm sempre imagens associadas. O que é que vos vem à cabeça quando pensam na palavra “idolatria?” Charlton Heston a despedaçar um bezerro de ouro com os Dez Mandamentos? Russell Crowe a carregar pequenas figuras de barro na prisão do gladiador? Indiana Jones a substituir uma cabeça em ouro por um saco de areia?

Talvez mais umas coisas, caso tenhamos andado na catequese. Ainda assim, o nosso “deus” é o nosso “objecto de suprema preocupação”, segundo o existencialista protestante Paul Tillich. E sabemos que o dinheiro, o prazer, o sucesso, ou o poder podem transformar-se em deuses quando se tornam uma preocupação maior do que qualquer outra coisa nas nossas vidas.

Duvido que muitos de nós admitiríamos ser idolatras. “Nem tanto ao mar, nem tanto à terra”, diríamos. “Não há qualquer mal em procurar estes bens, desde que não abandonemos a crença em Deus.” Justificamos as nossas buscas com a desculpa de que temos Deus à mistura.

Mas será que a crença em Deus nos livra da idolatria? Não será antes uma questão de justiça litúrgica? Afinal quem é que merece o nosso louvor?

A religião é uma virtude porque dá a Deus o que é de Deus. Quando nos perguntam a quem devemos “latria” (a adoração suprema), a resposta justa é de que apenas devemos adorar o não-criado, e nunca a criatura.

Mas há algo mais grave – e talvez mais comum – do que prestar culto a uma imagem (eidolon-latria). Trata-se de adorar-nos a nós mesmos: auto-latria. A autolatria é mais secreta e mais grave do que a idolatria porque o falso deus habita em nós. Somos nós.

Muitas são as personalidades da tradição que atestam isto.

A abadessa beneditina Cécile Bruvère escreveu que “A acreditar no apóstolo, a idolatria não está confinada à adoração de falsos deuses. Podemos erguer em nós mesmos muitos ídolos, e cegamente lhes oferecer sacrifícios” (Vida Espiritual e Oração).

Esta doi. Posso excluir-me presunçosamente da idolatria externa dos terríveis pecadores que me rodeiam, mas devo recordar-me que “em todos os momentos da vida existe uma idolatria interior”, como escreve François Fénelon. “Tudo o que amamos fora, amamos unicamente por nós” (Perfeição Cristã).

Tanto a crença em Deus como o amor por Deus devem manifestar-se como obediência a Deus. É por isso que os autores espirituais referem as palavras de Samuel a Saúl, quando disse: “A rebelião é tão culpável quanto a superstição; a desobediência é como o pecado de idolatria” (I Samuel, 15). Um dos mestres do asceticismo, Giovanni Battista Scaramelli S.J., explica o que Samuel queria dizer: “A razão é que pela desobediência colocamos a nossa opinião e a nossa vontade própria acima da vontade de Deus que nos é revelada pela sagrada obediência”.

A idolatria é semelhante à desobediência uma vez que no caso daquela adoramos um ídolo de madeira ou de pedra em vez do único verdadeiro Deus, o único a quem é devido o culto e nesta desviamo-nos da verdadeira regra para seguir uma enganadora, que é a dos nossos próprios juízos e dos ditames do mundo. A falsa adoração e o falso juízo estão relacionados. A adoração correcta e a rectidão também estão ligadas.

A vontade de Deus deve ser atendida liturgicamente, isto é, com adoração.

Esta idolatria escondida (isto é, a autolatria) pode andar alegremente de mão dada com a religiosidade, porque a vontade própria e o amor-próprio disfarçam-se até dentro de actos religiosos e de virtude. O autólatro até pratica a religião para se satisfazer a si mesmo! Finge amar a Deus, mas nunca ao ponto da abnegação própria.

Fénelon descreve desta forma essa situação: “Fingem amá-lo sob, mas desde que isso não diminua o amor-próprio cego que depois se transforma em idolatria e que, em vez de se referir a Deus como o Fim para o qual fomos criados, procura arrastá-lo ao seu próprio nível, usando-o como algo que ajuda e conforta quando a criatura falha.”

O meu professor Aidan Kavanagh costumava definir a liturgia como “fazer o mundo como o mundo deve ser feito”. O oposto disto é a mundanidade, que trata o mundo e as acções no mundo sem referência a Deus.

A mundanidade é um estado antilitúrgico: é latria mal-direccionada. É auto-adoração, a idolatria mais secreta de todas. Por isso é que Frederick William Faber descreve o homem mundano como aquele que vive como se nunca tivesse de “prestar contas de si mesmo a um poder maior” (Criador e Criatura).

Onde é que pretendo chegar?

A descoberta desta idolatria secreta não traz Deus para a praça pública? Não introduz no espaço secular uma preocupação com o sagrado? O crime da idolatria não é cometido apenas quando escolhemos o templo em que vamos prestar culto, é cometido sempre que a vontade própria se sobrepõe à vontade divina.

A autolatria acontece quando elevamos a nossa própria opinião e vontade acima da vontade de Deus. Em relação a quê? Não apenas nas questões religiosas (embora exista aí muita autolatria também), mas nas coisas do mundo.

Como é que podemos ajuizar de forma recta assuntos como política, normas sociais, sexo, género, família, a vida intrauterina, o estranho, o criminoso e a vítima se colocámos a nossa vontade acima da de Deus? São João Eudes diz que “o orgulho leva o pecador a fazer de si mesmo um ídolo, e a colocar-se no lugar de Deus, uma vez que quando estão em causa a sua satisfação, vontade e desejos, prefere-se a si do que a Deus” (Meditações).

Os nossos interesses, satisfação, vontade e desejos estão sempre em causa. O problema espiritual do orgulho mete-se em tudo, não apenas no contexto religioso. A quem vamos prestar culto? Vamos escolher-nos a nós em vez de a Deus?

Esta é uma questão espiritual, mas é colocada a partir do coração do mundo. Por isso, os assuntos externos e sociais não estão totalmente separados do conflito interno, espiritual. A Igreja tem uma ou duas coisas a dizer sobre este último.

E tem toda a alegria em partilhar a sua experiência e sabedoria com todas as sociedades em que se encontra.


David W. Fagerberg é professor emérito de teologia litúrgica na Universidade de Notre Dame. O seu mais recente livro é Liturgical Dogmatics.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 14 de Setembro de 2022)

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Wednesday, 7 July 2021

Desde o seio materno sois meu protector

Randall Smith

A recente solenidade de São João Baptista apresentou-nos com várias leituras especialmente interessantes. Uma das opções começava com este texto de Jeremias 1,5:

“Antes que no seio fosses formado, eu já te conhecia;

antes de teu nascimento, eu já te havia consagrado,

e te havia designado profeta das nações.”

O salmo responsorial era uma seleção de versos do Salmo 70, que contém as seguintes linhas:

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sede para mim um refúgio seguro,

a fortaleza da minha salvação.

Vós sois a minha defesa e o meu refúgio

meu Deus, salvai-me do pecador.

R. Desde o seio materno sois meu protector

Sois Vós, Senhor, a minha esperança,

a minha confiança desde a juventude.

Desde o nascimento Vós me sustentais,

desde o seio materno sois o meu protector.

A outra opção para o dia continha uma leitura de Isaías 49, que inclui estas duas passagens:

"O Senhor chamou-me desde meu nascimento; ainda no seio de minha mãe, ele pronunciou meu nome." (Isaías 49,1)

“Meu direito estava nas mãos do Senhor, e no meu Deus estava depositada a minha recompensa. 5.E agora o Senhor fala, ele, que me formou desde meu nascimento para ser seu servo” (Is 49, 4-5)

O salmo responsorial que acompanha essa leitura vem do salmo 138 e contém estas palavras populares: “Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso”. O sermão que ouvi naquele dia partiu dessas mesmas palavras. Estou sempre grato por qualquer homilia em que as leituras do dia são referidas, mas ainda estou por ouvir alguém comentar as seguintes palavras nesse mesmo salmo:

R.  Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo,

vós me tecestes no seio de minha mãe.

Sede bendito por me haverdes feito de modo tão maravilhoso

Ambas estas escolhas de leituras fazem sentido enquanto percursoras do Evangelho do dia, que recorda a história da atribuição do nome a João. Quando Isabel anunciou que a criança no seu seio se chamaria João os membros da família reclamaram, dizendo que mais ninguém na família tinha esse nome. Quando recorreram a Zacarias, que tinha ficado mudo durante o seu serviço no Templo, ele escreveu: “O seu nome é João” e soltou-se-lhe a língua.

Que dizer de tudo isto? Bom, uma das conclusões mais óbvias a retirar é que os seres humanos são “conhecidos por Deus” desde o seio materno. Ou, para usar termos mais modernos, que os fetos são pessoas desejadas por Deus.

Estou ciente de que um argumento bíblico deste género não seria credível para os não-cristãos da nossa sociedade. Tudo bem. Mas e o resto de nós? E os católicos? E os nossos irmãos protestantes? O propósito da Reforma Protestante não era de defender as Escrituras como Palavra inspirada e autoritária de Deus?

O feto humano, Leonardo da Vinci
Vários estudiosos ao longo da história, tanto protestantes como católicos, analisaram as Escrituras com atenção, exaustivamente, procurando descobrir os seus segredos mais profundos na convicção de que as Escrituras contém palavras de verdade e de vida. Haverá algo escondido ou obscuro nas palavras que acabo de citar? Não será antes que a verdade é aqui proclamada como o soar de uma trompeta? Cristo é inteiramente homem e inteiramente Deus desde o momento da sua concepção, ou não é? Se é, então decorre que toda a humanidade também é inteiramente humana desde o momento da sua concepção. E se assim é, então essas vidas não podem ser “interrompidas” sem violar o mandamento “Não matarás”.

Espero que fique claro que não estou a fazer um apelo político. Coloco diante de qualquer leitor cristão esta opção existencial: As Escrituras contém a palavra inspirada de Deus e a verdade, ou não? E se a resposta for sim, estamos verdadeiramente a escutar a palavra de Deus para compreender os seus ensinamentos e cumprir as suas diretivas? Ou estamos a escolher as passagens que encaixam nos nossos preconceitos, evitando aquelas que nos chamam a algo que possamos não gostar? Estaremos nós, como tantos fizeram nos tempos de Cristo, a fechar os nossos ouvidos, as nossas mentes e os nossos corações a uma mensagem que precisamos de escutar?

Porque se o ensinamento constante da Igreja, que há séculos que condena inequivocamente o aborto, pode ser ignorado e se mesmo as palavras das Escrituras se tornaram letra morta para nós, então já não sei mesmo o que é que estamos a fazer em todas estas igrejas “cristãs”. Estamos simplesmente a consolar-nos uns aos outros? A tentar ganhar pontos para merecer o céu? – Ou talvez apenas o clube de golfe local?

Se não nos deixamos mover pela palavra de Deus, e endurecemos os corações contra estes pequenos, podemos realmente apelidar-nos de “Cristãos” em qualquer sentido da palavra? Não somos culpados da “graça barata” de que nos avisou o grande Dietrich Bonhoeffer? Poderia algum dos nossos bem-aventurados antepassados que deu a vida em defesa da fé não ficar enojado pela hipocrisia desta geração, tal como nós sentimos vergonha da hipocrisia dos cristãos alemães que não levantaram a voz contra o assassinato de milhões de judeus?

O massacre de 66 milhões de crianças no ventre desde 1973, cada uma das quais (a fiar-nos nas Escrituras) é “conhecido por Deus” e “feito de modo maravilhoso” é tanto “apenas mais um assunto” como foi o massacre de 6 milhões de judeus. Ninguém quer saber das políticas laborais do Governo alemão em 1937. Tudo o que nos interessa é que os cristãos não fizeram o suficiente para proteger 6 milhões de judeus do genocídio.

Se fechamos os olhos a este massacre que se passa no meio de nós, se não vemos em cada uma destas crianças por nascer uma obra do Criador, podemos realmente enfrentar o Deus que nos fez a nós e a eles? Há mais em causa aqui do que uma guerra política entre republicanos e democratas.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no Domingo, 4 de Julho de 2021)

© 2021 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Friday, 17 July 2020

O problema não é a mesquita, é mesmo Erdogan

Num mundo perfeito a Hagia Sophia seria ainda uma das maiores igrejas da Cristandade, localizada numa cidade chamada Constantinopla, ainda de maioria cristã.

Mas nós não vivemos num mundo ideal e, obviamente, há muitos muçulmanos e turcos que discordam radicalmente da minha visão de como seria esse mundo.

Ao contrário do que se poderia pensar lendo algumas das críticas que têm surgido, a Hagia Sophia não foi repentinamente transformada de igreja em mesquita pelo atual Presidente da Turquia, agora em julho de 2020, mas sim pelo Sultão Mehmet, em 1453, quando as suas forças conseguiram ocupar a cidade.

Durante quase 500 anos a antiga catedral funcionou como mesquita.

Só em 1933 é que o pai da ocidentalização da Turquia, Ataturk, transformou a mesquita em museu. Foi esse decreto que foi agora considerado inválido pelo mais alto tribunal turco, que assim consumou a transformação do museu novamente em mesquita. Mais do que um atentado ao Cristianismo, foi um atentado ao secularismo da Turquia. Mais um.

Tendo em conta que a hipótese ideal de a Hagia Sophia voltar a ser uma igreja não é viável, o que é que é melhor? Ser uma mesquita ou ser um museu? A Igreja Católica reconhece que os muçulmanos adoram o verdadeiro Deus. Isto é muito diferente de dizer que o Islão possui a verdade da revelação, mas não deixa de ser significativo. Tendo isso em conta, é melhor que continuem a ressoar louvores ao verdadeiro Deus – ainda que entendido de forma incompleta, sem a sua dimensão trinitária – ou que seja um espaço secularizado?

Honestamente, não sei para que lado virar. Mas isso também não é o mais importante. O que eu quero explicar com este texto é que o problema de Erdogan ter transformado a Hagia Sophia numa mesquita não é a mesquita, é mesmo Erdogan. Ou melhor, é o projeto de islamização da sociedade que Erdogan tem em marcha na Turquia.

Depois de anos a baterem à porta da União Europeia os turcos finalmente perceberam que Bruxelas nunca os ia deixar entrar. Então Erdogan virou-se para o Oriente e vai, aos poucos, tentando ressuscitar o cadáver do Império Otomano.

E se a transformação de um museu numa mesquita pode ferir o nosso orgulho, e fragilizar o Patriarca de Constantinopla – razão pela qual a Rússia, sempre tão ciosa dos direitos dos cristãos perseguidos, agora considera que isto é um assunto interno de Ancara – são as outras medidas de Erdogan que verdadeiramente ameaçam os cristãos.

A atuação da Turquia na Síria é inqualificável. Apoiando os mesmos grupos jihadistas que andaram a decapitar cristãos e tantos outros e atacando frontalmente os grupos curdos no nordeste da Síria, aliados dos cristãos, que construíram o que há de mais próximo de uma democracia naquela região. No interior da Turquia o clima continua a tornar-se cada vez mais hostil para os cristãos que permanecem no país, tanto para os membros das comunidades históricas – arménios, siríacos, gregos – como para os poucos turcos que se convertem a confissões evangélicas, com grande sacrifício pessoal.

Tudo isto acompanhado de um aperto cada vez maior da democracia interna, de que a eleição para a câmara de Istanbul foi apenas um exemplo, com o Governo a mandar repetir o escrutínio depois do seu candidato ter perdido.

Mas é interessante ver o que aconteceu nesse caso. O tiro saiu pela culatra e o candidato da oposição acabou por ver a sua maioria crescer na segunda votação, ao ponto de ter sido impossível a Erdogan interferir mais.

E este contexto é importante. Há dias eu escrevi no Twitter que não tinha acreditado que Erdogan fosse ao ponto de tomar mesmo esta decisão com a Hagia Sophia. Recebi uma resposta de um português que vive e estuda na Turquia a dizer que este é um acto de desespero de quem está a começar a perder o controlo do país e tem de recorrer a malabarismos cada vez mais impressionantes para cativar a sua base.

Será esse o caso? Veremos. Talvez o canto do Muezzin que vai voltar a ouvir-se dos minaretes que os otomanos colocaram à volta da catedral dedicada à Santa Sabedoria sejam mesmo o canto do cisne do aspirante a sultão.   

Tuesday, 21 January 2020

Escondam as criancinhas, vem aí um carro funerário!

Querem saber como se lida com a morte numa cultura pós-cristã?

Segundo Eduardo Sá, no seu podcast do Observador: escondendo-a.

A pergunta que esteve na base deste episódio foi sobre levar os filhos a funerais. É um assunto que já abordei neste blogue aqui e aqui.

Estive a ouvir a opinião do Eduardo Sá e dei graças a Deus por não ver o mundo como ele a vê e de não educar os meus filhos segundo as suas orientações.

Diz o Eduardo Sá que mesmo os adultos só vão a funerais porque são obrigadas. Diz que os funerais deviam ser sítios vedados. E conclui esse pensamento com isto: “É um sítio muito privado, muito íntimo e seguramente muito feio, porque no limite os pais, que são invariavelmente os rochedos das crianças, ficam numa fragilidade estonteante.”

Um funeral é um sítio privado e feio? Íntimo sim, mas feio? Só é feio se as pessoas quiserem. Pense nisso quando organizar o funeral de alguém. Está a fazer do funeral da sua mãe, pai, amigo ou parente uma coisa feia e triste, ou uma coisa triste e bela? Triste é sempre, mas a tristeza não tem de ser antónimo da esperança e da beleza. Das coisas mais belas que vi nos últimos dias foi uma fotografia de tragédia, do cunhado de Paulo Gonçalves a chorar a sua morte no deserto. Sabem o que fiz com essa foto? Mostrei-a aos meus filhos. E eles sobreviveram.

Mas há mais. Os pais, que são o rochedo dos seus filhos, ficam frágeis… E depois? Os pais não podem ser frágeis? As crianças ganham alguma coisa em pensar que os seus pais são imunes à tragédia e à tristeza?

Mas há aqui um fundo de verdade. O psicanalista canadiano Jordan Peterson diz que todos devemos ambicionar ser a pessoa mais forte no enterro do nosso pai. Isso não significa a pessoa mais feliz, ou a pessoa que não sente tristeza, significa ser uma pessoa suficientemente bem resolvida para poder viver essa tristeza com esperança.

Agora, claro que para uma pessoa que não acredita que houve no mundo alguém que triunfou sobre a morte, e que por isso a morte não tem a última palavra, isso é tudo mais difícil. Para essas pessoas a morte é estúpida, é feia, é inútil e é triste, sim. Mas o problema aí não é a morte, é mesmo a falta de fé.

Agora olhem para os meus filhos, que sabem que as pessoas morrem, que até as crianças podem morrer, e que não se tornam nem anjinhos, nem estrelas, mas que vivem num amor eterno que não é limitado nem pela doença, nem pela morte, e digam-me que estão pior que os miúdos que são eternamente protegidos de qualquer notícia má.

São dois caminhos possíveis. Mas um conduz à liberdade, o outro não. E a liberdade não treme na cara da morte. Aleluia!

Wednesday, 15 January 2020

Não Existe Cultura Secular

James Matthew Wilson
O Simon During formulou um argumento deprimente, mas convincente, sobre a relação entre religião e cultura na revista “The Chronicle of Higher Education”, uma referência no meio académico actual. Diz ele que a secularização do Ocidente moderno não implicou o abandono da religião, mas a sua redução a uma dimensão opcional da vida humana (uma ideia retirada do importante livro “A Secular Age”, de Charles Taylor). A despromoção da religião levou à promoção da cultura. A cultura, nos tempos modernos, tornou-se um novo termo-divino que dá coerência à civilização e à sociedade – uma espécie de substituto imanente para a transcendência da fé cristã. Como defendia Matthew Arnold, a cultura salvar-nos-á da anarquia.

Mas essa substituição está agora a ser desfeita, argumenta During, por uma segunda secularização. Tal como a autoridade da Igreja sofreu uma erosão por causa de vários eventos que convergiram numa ordem política secular, agora uma série de eventos, desde o neoliberalismo até ao feminismo e à política identitária, levou à rejeição dos cânones da cultura.

Já não é necessário ter uma certa apreciação pela Paixão de São Mateus, de Bach, ou da Eneida, de Virgílio, para se ser considerado um ser humano minimamente civilizado. Pelo contrário, esse tipo de conhecimento pode ser prejudicial. Mais vale passar o tempo a estudar análise de risco ou cibersegurança, dizem-nos os tecnocratas neoliberais. Ou então crítica pós-colonial de Virgílio ou, melhor ainda, deixar esse cadáver para trás em troca pelo estilo lírico de uma representante de povos não-ocidentais, ou um defensor da “pedagogia dos oprimidos”.  

Esta versão da história proposta por During pode não seguir as leis férreas da história, mas tem a sua própria dinâmica que é difícil de contrapor, ainda que não sejamos fãs. Mas eu gostaria de olhar apenas para a ligação que ele faz entre as secularizações religiosa e cultural e levantar algumas questões sobre a própria ideia de a cultura ser um “substituto” da religião. Na minha opinião as grandes obras culturais são antes expressões fortes da verdade do Cristianismo.

Não é por acaso que autores do início do Século XX, como Henri Massis, Charles Péguy, T.S. Elliot e Christopher Dawson tendiam a alternar entre a defesa do Cristianismo e da cultura, usando o termo nebuloso “Ocidente”. Eles compreendiam, e bem, que o Cristianismo transcende todas as realidades históricas, incluindo a cultura ocidental, e sabiam também que seria difícil, se não impossível, ter uma sem o outro.

Viam-no porque é, de uma forma muito particular, verdade. Devemos aos melhores filósofos pagãos as descrições mais convincentes e bem articuladas sobre o que significa ser humano. Os seres humanos são criaturas cuja alma aspira, por natureza, ao conhecimento da verdade por si só; criaturas que não desejam apenas a verdade, mas precisam de a contemplar. Assim nos sentimos preenchidos, felizes, e as nossas vidas transformam-se da vã perseguição da glória mundana para o descanso na eterna glória de tudo o que é, do próprio Ser.

Esta foi uma conquista cultural difícil, mas mais importantemente, foi uma conquista religiosa. A revelação de Deus a Israel e o envio do seu Filho ao mundo para proclamar a Boa Nova conduziu o mundo à plenitude predestinada da sua compreensão. A contemplação da verdade preenche-nos porque a Verdade é uma pessoa que nos criou para o conhecermos e amarmos. Encontrá-lo e viver nele não é apenas uma boa nova, é a única nova que permanece sempre boa.

A era moderna descrita por During e Taylor como sendo secular nunca abandonou verdadeiramente estas visões, embora as tenha truncado e despido dos seus verdadeiros sentidos. Reconhecia que existia algo distintivo e misterioso sobre as pessoas: Somos feitos para a transcendência. A era moderna simplesmente parou de especificar de que tipo de transcendência estava a falar e, pelo caminho, ofuscou a sua própria visão.

Sim, temos almas, dizem os modernos: elevamo-nos acima das nossas existências materiais, pelo menos de tempos a tempos, num ato de autoconsciência. As obras da alta cultura são tudo o que parecem ser – desde a filosofia de Kant às pinturas de Friedrich, à opera de Wagner ou à poesia de Rilke. Recordam à alma esquecida que é capaz de subir acima das leis mecânicas da natureza, ainda que apenas por instantes.

Enfim, a cultura moderna também pôde afirmar esta elevação, este êxtase, mas só como um tipo de patologia. Temos momentos de iluminação e depois afundamo-nos novamente na carne. “Tangendo-me de ti [espírito eterno] de volta à solidão”, como escreveu Keats. Eventualmente as pessoas compreenderam o esquema. Para quê preocupar-se com uma transcendência sem sentido? Parece demasiado etérea quando comparada com a transcendência mais funcional do dinheiro, através do qual asseguramos para nós mesmos uma imortalidade em miniatura. Já a elevação cultural parece uma indulgência narcisista quando comparada com a transcendência de perseguir bens políticos que poderão permanecer para além de nós.

Uma secularização sucede necessariamente à outra. A fundação da cultura, como disse frequentemente Joseph Pieper, é o cultus – o culto. Sem um claro sentido da nossa orientação para a contemplação de Deus, todas as obras do homem que parecem verdadeiras, boas, e belas começam a parecer primeiro meras distrações e finalmente ilusões.

Em “A Pessoa e o Bem Comum” Jacques Maritain argumenta que o ser humano é uma criatura ordenada para a comunhão imediata com Deus, mas que a personalidade revela ainda uma tendência para a comunhão com outros seres. O tesouro da cultura, como ele lhe chama, é simplesmente a irradiação da verdade e da beleza produzidos pela nossa tendência natural para nos unirmos a Deus e aos outros enquanto pessoas.

Se a Verdade não fosse uma pessoa com quem nos encontramos, não haveria uma experiência primordial da qual a cultura é uma espécie de fruto, nenhuma orientação para o sagrado, nenhuma expressão de nós mesmos na ordem “secular”. Mas pelo contrário, todos os nossos encontros com a obras culturais são pistas, reflexões, ecos sobre a natureza e o destino do homem. Escutem-nos.


James Matthew Wilson, é autor de oito livros, incluindo, entre os mais recentes, “The Hanging God (Angelico) and The Vision of the Soul: Truth, Goodness, and Beauty in the Western Tradition” (CUA). É professor associado de religião e literatura no departamento de Humanidades e Tradições Agostinianas na Universidade de Villanova e já foi editor de poesia para a revista Modern Age, e de series para a Colosseum Books, da Steubenville Press, na Franciscan University. Veja aqui a sua página na Amazon.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 15 de janeiro de 2020)

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