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Thursday, 6 July 2023

O novo prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé: Entre o medo, o mito e a realidade

No início deste mês o Papa Francisco nomeou um novo prefeito para o Dicastério para a Doutrina da Fé (DDF). E assim nasceu uma nova polémica.

Dependendo de quem lemos, o novo prefeito, o arcebispo Victor Manuel Fernández, ou é o delfim do Papa Francisco, e principal inspirador das reformas que este está a tentar implementar na Igreja, ou é o malévolo génio por detrás de Francisco e da sua campanha de destruição da tradição e da moral.

Precisamente porque vivemos num tempo em que as pessoas acabam por receber informação essencialmente de fontes que estão já alinhadas com as suas ideias e os seus preconceitos, achei que seria boa ideia resumir alguns dos pontos principais sobre esta nomeação, e o que ela pode significar. Não entendam este artigo como o resumo definitivo da situação, mas sim como uma ajuda para entender quem é Fernández e qual o seu peso neste pontificado.

Fernández era até agora Bispo de La Plata, na Argentina. Há anos que é muito próximo do Papa Francisco, tendo sido o seu perito em teologia no encontro de bispos da América Latina, em Aparecida, no Brasil, que em larga medida tem sido um modelo para este pontificado.

Enquanto amigo e confidente do Papa, Fernández tem sido também influente na elaboração de algumas das posições teológicas de Francisco. Nomeadamente, terá sido o arquitecto teológico por detrás do Amoris Laetitia, que abriu caminho ao regresso aos sacramentos de pessoas em situação matrimonial irregular. Isso faz dele um santo para progressistas e o demo para os mais tradicionalistas.

Contudo, para melhor entender esta situação é preciso lembrar que Fernández vem de um contexto paroquial, do contacto directo com as vidas dos fiéis no terreno. As suas posições – e isto tem sido fundamental para o Papa – partem deste princípio, de que a teologia só serve para alguma coisa se for ao encontro das vidas concretas e reais das pessoas. Uma teologia aérea, de ideais que não são vividos no terreno, é um exercício vão.

Como disse o próprio Fernández, num texto publicado na sua página do Facebook, “tenho orgulho de ter sido aquele pároco jovem que tentava chegar a todos, usando as mais diversas linguagens. Por isso é que quando o Papa fala do meu currículo refere que fui reitor da Faculdade de Teologia, mas ao mesmo tempo diz que fui pároco de ‘Santa Teresita’. É porque para ele é importante que um teólogo se meta na lama e trate de usar uma linguagem simples e que chegue a todos”.

Até agora o cargo de prefeito do Dicastério para a Doutrina da Fé era entendido como uma espécie de “polícia teológico”, responsável por avaliar e censurar os trabalhos de teólogos em todo o mundo. Na carta que escreveu a acompanhar esta nomeação, o Papa diz a Fernández que outrora o departamento que ele agora chefia usava de “métodos imorais”. Alguns leram isso como uma crítica a Ratzinger, que se tornou conhecido precisamente por ser prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), ganhando o epíteto de “Rottweiler” de João Paulo II, mas é mais provável que seja uma referência directa aos métodos do Santo Ofício, ou Inquisição, que perseguia heresias e hereges, em muitos casos entregando-os às autoridades civis para serem executados.

Francisco, pelo contrário, quer que Fernández se preocupe em contribuir para a reflexão teológica, em vez de a atrofiar. O tempo dirá o que isto significa na prática.

Cultura de cancelamento e puritanismo

Uma das expressões que mais está na moda actualmente é “cultura de cancelamento”. Resumidamente, trata-se da manifestação de um tique puritanista, que de católico nada tem, de vasculhar o passado de alguém e depois expor os eventuais podres, ou erros, dessa pessoa, por mais antigos ou irrelevantes que sejam, para manchar a sua reputação para sempre, evitando que seja escutada. Digo que isto nada tem de católico precisamente porque o catolicismo defende a conversão e acredita num Deus que “faz novas todas as coisas”. Quantos santos que veneramos nos nossos altares sobreviveriam a esta metodologia?

Contudo, a cultura do cancelamento está bem viva dentro da Igreja e é usada por guerreiros de teclado de ambos os lados da barricada.

Recordemos para este efeito o que se passou com o cardeal Gerhard Müller. Müller, se bem se recordam, era o prefeito da CDF quando Francisco assumiu o Pontificado, tendo sido nomeado para esse cargo por Bento XVI, em 2012. Hoje, Müller é recordado com saudade pelos mais conservadores e tradicionalistas como um guardião da ortodoxia teológica. Mas o que é que os mesmos tradicionalistas diziam dele em 2012? Leiam este post do influente blog Rorate Caeli, que aquando da sua nomeação elencou todas as suas supostas heresias, que considerava mais graves até do que o facto de ele ser amigo de um influente defensor da Teologia da Libertação. Pois é, a vida dá muitas voltas!

No caso de Fernández, uma das armas de arremesso que tem sido usada é a sua autoria de um livro sobre o beijo, chamado “Cura-me com a tua boca”. Nos meios de língua inglesa até se chegou ao ponto de traduzir um dos seus poemas de forma enganosa, vertendo a palavra “bruja” para “bitch”. No mesmo post do Facebook que referi acima, Fernández explica que esse livro não era mais do que uma tentativa de fazer uma catequese para tentar alcançar um público jovem da sua paróquia. Não vou citar tudo, podem ir lá ler, mas admito que a sua explicação me pareceu mais plausível e sensata do que as críticas veementes que tenho visto.

Resumindo, basta olhar para as últimas décadas para perceber que as caricaturas que nos tentaram vender dos prefeitos para a Doutrina da Fé estavam invariavelmente erradas. Ratzinger não era um neo-nazi disfarçado de padre que perseguia furiosamente os teólogos liberais; Müller não era um hippie herege e Fernández muito provavelmente não é aquilo que muitos temem, nem aquilo que muitos esperam. Aliás, este artigo, escrito em 2018, sublinha o facto de a faculdade de Teologia de que foi reitor e o seminário a que presidiu serem consideradas das mais ortodoxas da Argentina, e ainda o facto de ele ter sido sempre defensor firme, mesmo indo contra a corrente, dos valores da vida e do casamento, defendendo os seus colegas e subordinados quando estes eram criticados por abraçarem as posições da Igreja neste campo.

Há que confiar que o novo guardião da ortodoxia seja isso mesmo, tendo noção também que o seu papel agora não é o de investigação ou proposição teológica, mas sim de avaliação do trabalho que vai sendo feito, nomeadamente dos textos que saem da Santa Sé, embora num espírito mais colaborativo do que talvez tenha sido usado pelos seus antecessores.

Por fim, e de forma mais sintética, dois apontamentos:

Abusos: Um dos papéis do DDF é lidar com casos de abusos na Igreja em todo o mundo. Fernández já admitiu que não se sente preparado para isso, e precisamente por isso Francisco pediu-lhe que se concentrasse mais na questão teológica, uma vez que o departamento que lida com as questões dos abusos já está montado e oleado, precisando apenas de supervisão.

Sucessor?: Uma das teorias que tenho lido é de que com esta nomeação o Papa lança Fernández como seu sucessor e herdeiro, tornando-o assim um dos principais candidatos a próximo Papa. Embora esta teoria seja proposta pelo único jornalista que eu conheço que sugeriu que Bergoglio tinha hipótese de ser eleito Papa em 2013, eu tenho sérias dúvidas de que tal acontecerá. Acho muito pouco provável os cardeais escolherem outro argentino, sobretudo um que – como será expectável – será bastante novo quando for o próximo conclave, uma vez que neste momento tem apenas 60 anos, prestes a fazer 61.

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

Tuesday, 8 November 2022

Abusos na Igreja - O caso do cardeal Jean-Pierre Ricard

A revelação, feita ontem, de que um cardeal francês abusou sexualmente de uma jovem de 14 anos numa altura em que ainda era pároco, é muito mais grave do que pode parecer à primeira vista – e à primeira vista é já extraordinariamente grave.

O cardeal em causa é Jean-Pierre Ricard, bispo emérito de Bordéus.

Com este escândalo são pelo menos três os cardeais que na última década foram acusados de impropérios sexuais. O cardeal Keith O’Brien, da Escócia, que foi revelado pela imprensa mesmo antes do último conclave, no qual não chegou a participar, embora nunca tivesse deixado de ser cardeal; o cardeal Theodore McCarrick, de quem se soube em 2018 e acabou mesmo por ser laicizado, e agora Jean-Pierre Ricard. Pelo meio tivemos outro bispo afastado do Colégio dos Cardeais, Giovanni Angelo Becciu, mas por suspeitas de más-práticas financeiras, e não sexuais e mais recentemente tivemos o caso de D. Ximenes Belo, que não sendo cardeal é Nobel da Paz, o que o coloca também num patamar especial.

Em Portugal os bispos têm estado sob pressão por causa dos casos de abuso sexual na Igreja, mas nada que se compare com França. É verdade que o estudo apresentado em França, que aponta para centenas de milhares de vítimas de abuso infantil na Igreja local, é muito questionável, mas independentemente disso, a verdade é que Ricard não é o primeiro, mas sim o décimo-primeiro bispo a ser acusado no âmbito desta questão dos abusos sexuais.

Mas olhando agora mais de perto para a sua acusação em particular – ou melhor, a sua admissão, pois o próprio já admitiu os factos e pediu perdão à vítima, pondo-se ao dispor da justiça civil e canónica – um dos factos mais graves, e que ainda não vi merecer a devida atenção na imprensa portuguesa, é que Ricard fez parte, durante 14 anos, da Congregação para a Doutrina da Fé (agora Dicastério), que ainda é o órgão que trata da maioria dos casos de abuso sexual praticados na Igreja, decretando as sentenças para os padres que são condenados.

Isto significa que durante mais de uma década um homem que sabia ser ele próprio um abusador fez parte do painel responsável por lidar com casos de abusos. E isto é grave porque mesmo que ele tenha feito tudo bem – e não temos qualquer indício de que não tenha sido o caso – isto afecta gravemente a confiança dos órgãos da Igreja que mais precisam de ser insuspeitos para que ela limpe finalmente a sua imagem e vire uma nova página.

É evidente que nenhum sistema é perfeito, e haverá sempre padres e bispos corruptos, como existem polícias, juízes e políticos corruptos. Não há reforma que nos livre disso. Mas se há uma grande lição a retirar deste caso é mesmo para os clérigos.

Pode levar cinco, dez, vinte ou, como neste caso, trinta-e-cinco anos a saber-se. Mas o mais provável é que venha mesmo a saber-se. E quando se souber, quanto mais altos estiverem na hierarquia, quanto maiores as responsabilidades que assumiram, mais isso vai afectar a confiança dos fiéis que vos foram encomendados, mais as almas vão duvidar, mais pessoas virarão costas à mensagem salvadora de Cristo.

Depois de anos a cuidar da sua imagem e reputação, a Igreja está agora a perceber que é preciso colocar as vítimas em primeiro lugar. Mas lembrem-se que também o Povo de Deus merece respeito, merece integridade e verdade dos seus pastores e haverá um momento na vida de cada um dos que cometeu estes abomináveis crimes em que terá de decidir se aceita o cargo, a promoção ou a responsabilidade que lhe está a ser oferecida, apesar de carregar esta bomba relógio consigo, ou se recusa, para pelo menos poupar os fiéis de mais escândalos no futuro quando a verdade vier ao de cima.

Já que fizeram a coisa errada no passado – se for esse o caso – façam a certa agora. E de preferência submetam-se à justiça da Igreja e do Estado, já que a de Deus é certa. 

Wednesday, 24 March 2021

O que Cobre uma Multidão de Pecados?

O conceito de pecado privado não existe. As nossas falhas morais – sejam quais forem – têm consequências que vão bem para além da nossa culpa ou inocência pessoal. As minhas falhas morais têm consequências para a minha mulher e filhos, para os meus amigos e por aí fora. Os meus falhanços causam sofrimento nos outros, muitas vezes de forma invisível. O meu pecado fomenta o pecado e limita a virtude, em mim e nos outros. Como o mundo seria melhor se eu fosse santo!

Às vezes conseguimos apenas vislumbrar os filamentos morais que ligam as nossas ações às vidas de quem nos rodeia. Noutras alturas as consequências dos nossos pecados são muito evidentes. Qualquer pai que ouve o seu filho a repetir as suas próprias palavras menos que caridosas conhece o poder do seu próprio mau exemplo. Às vezes pecados que, insensatamente, esperávamos que se mantivessem secretos são expostos à luz para que todos os possam ver, para nosso horror e humilhação.

Estes momentos de reconhecimento podem ser ocasiões para a graça mexer com a consciência – como o canto do galo que levou Pedro a chorar lágrimas de amargura. Mas tais ocasiões, em que somos postos em situações embaraçosas pelas nossas próprias consciências, nem sempre levam a arrependimento e conversão. Pelo menos não no imediato.

No Evangelho de Marcos um homem rico vai ter com Jesus, ansioso por fazer o que for preciso para herdar a vida eterna. De início fica satisfeito por ouvir que já fez tudo o que é necessário, mas a sua alegria transforma-se em desapontamento quando Nosso Senhor lhe pede mais. Todos conhecemos a história:

“Só te falta uma coisa. Vai, vende tudo o que possuis e dá aos pobres, e terás um tesouro no céu; depois vem, e segue-me.”

Perante essas palavras caiu-lhe o semblante e afastou-se, triste, pois tinha muitos bens.

O homem rico estava tão perto, só lhe faltava uma coisa. Mas não era capaz de abdicar dessa amarra. E Cristo, que “olhando para ele o amou”, deixou-o ir.

Lembrei-me novamente desta passagem esta semana por causa da resposta da Congregação para a Doutrina da Fé (aqui) a uma questão sobre “bênçãos de uniões entre pessoas do mesmo sexo”. A decisão da Congregação para a Doutrina da Fé, apoiada pelo Papa Francisco, é de que as uniões homossexuais não podem ser abençoadas. “[Deus] não abençoa, nem pode abençoar, o pecado”. A resposta causou angústia entre aqueles que esperavam há muito tempo que a Igreja encontrasse uma forma de contornar a Escritura e a Tradição para abraçar as uniões homossexuais.

Que isto tenha vindo do Papa Francisco – o Papa do “Quem sou eu para julgar”, o Papa que deu apoio cauteloso a uniões de facto entre pessoas do mesmo sexo, o Papa em quem tantos tinham colocado as suas esperanças por mudanças radicais de doutrina – tornou esta questão ainda mais difícil de aceitar.

O que me leva de volta à história do homem rico.

Para aqueles que, como eu, vêem a clarificação da CDF como necessária e bem-vinda, a tentação é a de responder à revolta e à dissidência com um “Ainda bem! Se preferem agarrar-se ao que lhes é caro em vez de seguir a verdade, então deixem-nos ir!”

Poderá chegar a isso. Alguns poderão mesmo abandonar, mas isso não seria uma coisa boa. A Igreja é para os pecadores.

Não. Fazer pouco da derrota dos outros, perante verdades difíceis, é sobranceria. Todos precisamos de misericórdia e sabê-lo deve servir para nos tornar humildes.

Não foi por ver alguns a abandonar Cristo e a Sua Igreja que me lembrei da história do homem rico, foi porque é muito fácil ver-me a mim próprio no seu lugar: orgulhoso, satisfeito e indisposto a despojar-me daquilo que me impede de crescer em união com Deus.

O que a Igreja pede aos católicos com atração pelo mesmo sexo pode ser simplesmente e claramente a castidade – mas isso não o torna fácil. Deus oferece a sua misericórdia a todos, mas a sua oferta de misericórdia não nos poupa às escolhas difíceis. De certa forma, a sua maior misericórdia é mesmo essa escolha, ele oferece-nos uma saída, por mais estreita que possa ser, em vez de nos deixar como somos. E embora Ele nos olhe e nos ame, como com o homem rico, deixa ao nosso critério aceitar essa oferta. Ou não.

Só de pensar nisso devemos tremer.

Nas semanas e nos meses que se seguem vai haver muita discussão sobre esta declaração da CDF. Haverá muitas verdades difíceis para defender e argumentos a expor. A questão entrará sem dúvida nos nossos debates políticos: basta pensar no “Equality Act” que está atualmente a ser discutido pelo Congresso. E é natural que continue a gerar mal-estar entre católicos.

Mas se o pecado fomenta o pecado e limita a virtude, então o amor alcança o oposto. Por mais bem-vinda que seja a clareza da resposta da CDF, essa clareza não nos absolve do trabalho de amar aos nossos inimigos, quanto mais os nossos irmãos e irmãs em Cristo.

Deixamos passar essa oportunidade à nossa conta e risco.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 18 de Março de 2021)

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Friday, 4 January 2019

Natal sem Jingle Bells? Sim, se faz favor!

Mais um bispo em maus lençóis... 
Mais um caso de abusos no Vaticano? Agora as suspeitas envolvem um bispo argentino que resignou da sua diocese – alegadamente por outras razões – e foi para um cargo na Santa Sé.

O Papa escreveu entretanto uma carta aos bispos americanos, reunidos em retiro, em que teceu duras críticas à forma como lidaram com a crise dos abusos naquele país e a desunião que os caracteriza.

E ontem o Vaticano emitiu uma decisão da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre a licitude moral das histerectomias, em certas situações. Veja aqui os detalhes.

Há Natal sem Jingle Bells? Pois claro que pode haver. Pelo menos eu acredito que sim, e o coro da Sé de Lisboa também. O concerto é dia 6. Aproveitem para ir ver!


Tuesday, 24 April 2018

Pray for Alfie, pray for Toronto

Nove mortos e 16 feridos em Toronto
Quando ler este email é muito possível que Alfie Evans esteja morto. Isto apesar de o Governo italiano lhe ter concedido cidadania e de o Papa ter feito mais um apelo para que o Reino Unido permitisse que ele fosse transferido para Roma. Um caso muito difícil. Continuo a achar que falta informação, mas com base na que tenho, sou da opinião de que neste caso, ao contrário do que se passou com Charlie Gard, os pais da criança têm razão e o hospital não. O Henrique Raposo pensa o contrário. Posso estar enganado.

Entretanto a tragédia abateu-se sobre Toronto, com um homem a atropelar várias pessoas, matando pelo menos nove delas. Não se sabe a motivação do ataque, ainda. O arcebispo local pede orações pelas vítimas.

Decorreu esta segunda-feira na Universidade Católica uma interessante conferência sobre a eutanásia. Um médico holandês alertou para o perigo de seguir o exemplo do seu país, o Patriarca espera que estas e outras ações sirvam para alertar e informar as consciências de políticos e sociedade e o ex-bastonário dos médicos, Germano de Sousa, diz que mesmo que a lei mude, a Ordem deve punir os médicos que praticarem a eutanásia.

O Papa nomeou três mulheres para a Congregação para a Doutrina da Fé e pediu o fim da violência na Nicarágua, no domingo.


Friday, 26 January 2018

Se não vale a dignidade, então vale tudo

O Papa falou hoje à Congregação para a Doutrina da Fé, aproveitando para criticar a aceitação da eutanásia e o que isso implica. Vale a pena ler.

O Algarve vai ter um pouco da espiritualidade de Taizé, graças a um programa da comunidade. Saiba mais aqui.

Ontem decorreu um debate na Ecclesia sobre a mensagem do Papa para o dia das Comunicações. Participaram jornalistas da Renacença, numa prova de boa-vizinhança. Saiba o que se passou.

Convido-vos ainda a acompanharem esta interessante conversa entre Henrique Raposo, pela Renascença, e Francisco Mendes da Silva. Diz respeito a todos os que têm filhos, meninos ou meninas, e todos os que se preocupam com uma sociedade em que campanhas como o #MeToo são sequer necessárias. Deixo o link para o último episódio, que contém ligações para as anteriores.

Tuesday, 4 July 2017

Deus te guarde Charlie Gard

Charlie Gard com os pais
Nos últimos dias tem-se falado bastante do caso de um bebé inglês, chamado Charlie Gard. É uma história triste, de contornos difíceis e polémicos que infelizmente colocou os pais contra o hospital onde tem sido tratado e acabou por merecer comentários do Papa e do Trump. A história explicada aqui.

O Papa vai visitar a sede da FAO em Outubro e diz que é preciso mais do que boas intenções para combater a fome.

Decorre por estes dias o torneio de futsal de padres, este ano em Santiago do Cacém.


E a Congregação para a Doutrina da Fé mudou de chefia. O novo responsável é o jesuíta Luis Ladaria.

Por fim, conheçam o caso deste Centro de Noite para idosos que pretende dar algum merecido descanso aos cuidadores.

Wednesday, 3 September 2014

Cardeal Müller: Um Grande Líder Católico

(Por Filip Mazurczak)
Dos dezanove cardeais que o Papa Francisco criou no seu primeiro consistório, nenhum tem sido tão falado como Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Amigo tanto de Bento XVI como de Gustavo Gutierrez, é um prodígio e tem uma mundivisão teológica consistente, na qual cabem tanto o amor pela verdade como uma firme solidariedade com os pobres.

Tendo em conta a forma como a imprensa caricaturizava o Cardeal Joseph Ratzinger, como um Panzerkardinal alemão, combatendo a heresia com uma disciplina prussiana, a chegada de Müller parece um caso de déjà vu. Tem atraído críticas não só da imprensa secular, mas também daqueles católicos que querem uma Igreja morna, que evite os temas fracturantes. Criticando a forma como Müller defendeu o ensinamento da Igreja sobre comunhão para divorciados e recasados, o Cardeal hondureño Oscar Rodriguez Maradiaga disse que o prefeito da CDF “vê o mundo a preto e branco” como um “professor de teologia alemão”.

Apesar das palavras de Maradiaga, a Igreja alemã não tem sido particularmente ortodoxa nos últimos anos. Foi o cardeal alemão Walter Kasper que começou a discussão para redefinir a prática da Igreja em relação ao acesso dos recasados à comunhão. Müller compreende que os ensinamentos da Igreja sobre assuntos morais não podem ser mudados e desfez tais propostas de forma brilhante no L’Osservatore Romano e noutros lados.

Numa livro-entrevista com o jornalista espanhol Carlos Granados (a ser publicado em inglês no Outono), disse que: “A Igreja não pode responder aos desafios do mundo moderno com uma adaptação pragmática... Somos chamados a escolher a audácia profética do martírio”. Da mesma forma, opõe-se à comunhão para políticos pro-aborto e defende o direito dos médicos recusarem fazer abortos legais.

Müller é amigo próximo de Bento XVI e editou as suas obras completas. Tal como o Papa alemão, já sublinhou repetidamente a necessidade do Ocidente regressar às suas raízes. O ano passado, durante uma homilia interrompida diversas vezes por aplausos, no Templo Nacional da Divina Providência, em Varsóvia, fez esse mesmo pedido: “A Polónia ainda não morreu! A Europa ainda não morreu, desde que continuemos a acreditar, a confiar e a amar!”

Entretanto, Müller continua apostado em limpar a Igreja de elementos que distorcem os seus ensinamentos. Por exemplo, enquanto as freiras americanas do LCWR continuam a rejeitar os ensinamentos da Igreja sobre praticamente tudo, o cardeal deu seguimento à investigação ordenada pelo seu antecessor, o Cardeal Levada, e convidou-as repetidamente à obediência, acusando-as de “provocação aberta” a Roma.

Müller censurou o LCWR por homenagear a freira dissidente feminist Elizabeth Johnson, que defende a ordenação de mulheres. Ao contrário das freiras errantes, Müller explica na sua obra prima “Priesthood and Diaconate” que ser-se homem é intrínsico ao sacramento das ordens sacras, resultando da teologia bíblica dos sexos, enaltecida por Aquino, segundo a qual os sacerdotes representam Cristo, o noivo da Igreja.

Nesse livro, e em várias entrevistas e artigos, o Cardeal defendeu o celibate enquanto imitação de Cristo e entrega completa ao serviço da Igreja e criticou os pedidos de relaxar o voto de castidade como uma “protestantização” do sacerdócio.

Müller escreveu e ensinou profusamente sobre Dietrich Bonhoeffer, o clérigo luterano alemão que foi martirizado pelo seu envolvimento no plano para assassinar Hitler. Como Bonhoeffer, a sua teologia não se limita ao mundo académico, mas está intrínsicamente ligado à luta por um mundo melhor.

Müller e Gutierrez
Mais especificamente, Müller tornou-se um dos mais ferozes defensores dos pobres na Igreja. Para ele um mero estudo da nossa responsabilidade de ajudar os pobres não chega. Visitou quinze vezes a América do Sul durante períodos extensos e, durante estas visitas, não viveu nos palácios episcopais confortáveis, mas entre os pobres, nas favelas e barracas e aldeias dos Andes. Às vezes celebra missa com um poncho Quechua por cima dos paramentos.  

É amigo do teólogo peruano Gustavo Gutierrez desde 1988. Será que o facto de Gutierrez ser um dos mais notórios defensores da teologia da libertação põe em causa a ortodoxia apaixonada de Müller?

Em 1984 Ratzinger publicou uma “Instrução sobre alguns aspectos da teologia da libertação”, onde não condena totalmente esta teologia, apenas certas correntes. Gutierrez é ortodoxo, ele nunca abraçou o marxismo, as revoltas violentas ou a imagem de Cristo como um revolucionário político, como fazem alguns defensores extremistas da teologia da libertação, como Leonardo Boff ou Jon Sobrino. O Vaticano nunca condenou Gutierrez, Ratzinger apenas lhe pediu que modificasse alguns aspectos dos seus escritos, o que ele fez obedientemente.

Numa conversa com Peter Seewald, o future Papa Bento XVI afirmou que o dominicano peruano o tinha obedecido e “desenvolvido o seu trabalho no sentido de uma forma aceitável de teologia da libertação que realmente tem futuro”.

No seu livro “Teologia da Libertação: Do Lado dos Pobres”, Müller e Gutierrez condenam o marxismo, descrevendo-o como “totalitário” e baseado numa “antropologia deficiente”. Também desmontam o materialismo de Marx, rejeitando a noção de que a Igreja deve excluír os ricos. O livro cita extensivamente o ensinamento social de João Paulo II, cuja oposição à teologia da libertação marxista é sobejamente conhecida. Quando falam da exploração dos países pobres não se referem apenas a assuntos económicos, os autores são muito críticos da posição americana de promover os contraceptivos no Perú.

É tentador especular sobre se Müller poderá vir a ser eleito Papa algum dia, como aconteceu com o seu compatriota e antecessor Joseph Ratzinger. Tem mais qualificações que a maioria dos cardeais e conhece os problemas da Igreja tanto nos países ricos e secularizados como nas sociedades marcadas por desigualdades sociais. Combateu a descristianização da Alemanha e viveu entre os pobres do Perú. Apesar de ser um teólogo erudito e um curialista qualificado, longe de ser um burocrata Müller também tem umaa rica experiência pastoral na Alemanha e no Perú, é um orador carismático com um toque popular. Para além disso fala impecavelmente alemão, inglês, espanhol e italiano, para além de ser dos cardeais com mais capacidades para lidar com a imprensa.

Claro que apenas o tempo dirá se Gerhard Ludwig Müller chegará a uma posição mais alta na hierarquia da Igreja. Mas a sua excelência académica, a sua solidariedade com os desfavorecidos e o seu dinamismo fazem dele um dos grandes líderes católicos dos nossos dias.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First Things, The European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez no domingo, 31 de Agosto de 2014 em 
The Catholic Thing
)

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Monday, 2 July 2012

Mudanças em Roma, destruição em Timbuctu


A grande notícia de hoje é a nomeação de um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. Sendo um dos postos mais importantes na Igreja, há análise a fazer. A minha está aqui.

A nomeação de Gerhard Ludwig Müller está associada à do arcebispo Di Noia, a semana passada, para a Ecclesia Dei. Neste artigo podem ler as palavras de Di Noia sobre a reconciliação com a SSPX, um processo que imagino que ele passará a liderar (remeto novamente para a minha análise).


De África chegam notícias tristes. 17 cristãos mortos no Quénia e, em Timbuctu (na foto), destruição de património mundial por parte de terroristas ligados à Al-Qaeda… lamentável.

Depois dos tradicionalistas, um gesto para os liberais?


Arcebispo Gerhard Ludwig Müller
Bento XVI nomeou hoje um novo prefeito para a Congregação para a Doutrina da Fé. O agora arcebispo Gerhard Ludwig Müller era bispo de Ratisbona e sucede ao cardeal William Levada num dos mais importantes postos da Igreja, ocupado pelo próprio Papa até à sua eleição em 2005.

Confesso que fiquei surpreendido com a esta troca. Levada já tinha idade para resignar, mas o Papa também o podia ter mantido no lugar. A mudança vem numa altura em que o americano tinha acabado de ver frustrada, pelo menos temporariamente, a reconciliação com os tradicionalistas da SSPX. Surge também depois da “condenação” às freiras americanas, um acto que no meu entender era perfeitamente justo, mas que poderá não ter sido tratado da forma mais delicada. Pode mesmo ter sido esse episódio que levou a que finalmente o Vaticano contratasse um especialistas para regular as relações com a imprensa.

A saída de Levada será um castigo? Foi o que pensei inicialmente, mas vozes mais entendidas que eu garantem que não, foi mesmo só por limite de idade… talvez. Talvez eu esteja a cair na tentação de procurar conspirações em todo o lado.

O que dizer de Müller? Ao que parece, ele é um daqueles casos peculiares, considerado liberal pelos tradicionalistas e conservador pelos liberais. Os sites e blogues de pendor mais tradicionalista (católicos ou não), estão a alertar para o facto de Müller ser defensor da teologia da libertação, a corrente que fez tanto furor na América Latina nas últimas décadas e que ainda tem muitos proponentes, mas que até agora o Vaticano tinha condenado de forma bastante clara. Não deixa de ser estranho ter na CDF um pessoa que vê o movimento com bons olhos e que o tem defendido publicamente diversas vezes.

Bento XVI tem sido criticado por só ter gestos de aproximação para uma certa ala da Igreja. Desde as conversações com os herdeiros de Lefebvre, passando pela criação de ordinariatos pessoais para ex-anglicanos, na vasta maioria conservadores, até à “censura” às freiras americanas. Esta nomeação pode então ser entendida como um gesto de boa vontade para com a ala liberal, dando um pequeno encorajamento a uma das suas causas preferidas, a teologia da libertação.

Aparentemente, contudo, seria um gesto destinado a rebentar completamente com qualquer possibilidade de reunificação com a SSPX. Ainda por cima, Müller e a SSPX já tiveram trocas de palavras bastante azedas no passado.

Arcebispo Di Noia
Será aí que entra outra nomeação feita a semana passada, a do Arcebispo Di Noia para vice-presidente da Ecclesia Dei, uma comissão criada precisamente para lidar com grupos tradicionalistas. Di Noia veio preencher um lugar que estava vago há anos, sendo que o presidente da Ecclesia Dei é sempre o prefeito da CDF.

Penso, portanto, que o esquema será este:
Müller na CDF para se dedicar às milhentas coisas que a CDF faz e tentar equilibrar a imagem de uma agência que muitos pensam que existe para perseguir apenas liberais, mas essencialmente fora das conversações com a SSPX, e Di Noia na Ecclesia Dei, como vice-presidente mas a agir com autonomia, para procurar selar o regresso da SSPX.

O tempo dirá se é esta a realidade ou não.

Monday, 18 June 2012

Roma e SSPX, em que pé estamos?


Persistência... e paciência!
Ao que parece enganaram-se todos os que esperavam uma solução para breve, e incluo-me a mim mesmo nesse lote. Só espero é que não se tenham enganado todos os que davam o acordo como certo... pelas últimas indicações as coisas ainda podem correr mal... esperemos que não, nem que seja por Bento XVI, que tanto investiu neste “reencontro” com os tradicionalistas da Sociedade de São Pio X.

Recapitulando, Roma e a Sociedade têm estado em diálogo há alguns anos. Finda a fase de discussão, Roma propôs um “preâmbulo doutrinal” aos tradicionalistas, que estes deviam subscrever para serem reintegrados. Depois de uma primeira finta, acabaram por enviar o documento assinado, mas com algumas alterações.

As alterações foram vistas pela Congregação para a Doutrina da Fé, que submeteu a opinião ao Papa. Corre o rumor que o Papa já estaria a par do documento antes e que teria dado o seu beneplácito, indicando que a CDF não deveria levantar problemas. Tudo parecia muito bem encaminhado, mesmo nas entrevistas concedidas pelo bispo Bernard Fellay, superior-geral da SSPX, era isso que se entendia. Até já se falava da estrutura que iria ser proposta, uma prelatura pessoal do género que tem o Opus Dei.

Esta semana que passou, Bernard Fellay foi a Roma encontrar-se com a CDF; estaria iminente a assinatura final do acordo? Especulou-se que sim, mas algo se passou. Fellay saiu de Roma sem acordo assinado e com um documento alterado que deve agora ser novamente estudado pelos tradicionalistas antes de poderem assinar de vez. É verdade, todavia, que também saiu de Roma com uma proposta já detalhada de estrutura de prelatura pessoal, o que começa a dar consistência ao cenário pós-reentrada. Mas só há pós-reentrada se houver reentrada... haverá?

O que se passou na reunião? Que alterações foram feitas e a mando de quem? Claro que já correm muitos boatos e teorias, desde pressões da ala liberal da curia romana à omnipresente e conspirativa maçonaria, fala-se de tudo. Uma das teorias que parece credível é que Bento XVI terá rejeitado o termo “erros do concílio” que estava no documento assinado por Fellay, o que se compreende. Liberdade de interpretação é uma coisa, falar de erros é outra.

Entretanto a oposição a Fellay dentro da SSPX, por parte daqueles que estão decididamente contra uma reunificação, aumenta de tom. Um dos outros três bispos já estava colocado de parte à partida. Richard Williamson, o mesmo que duvida da existência das câmaras de gás no holocausto, é ferozmente contra uma reunificação. Mas Bernard Tissier de Mallerais também se colocou definitivamente de fora, chegando a acusar Bento XVI de ser herege. Um abaixo-assinado posto a circular entre os fiéis também ia nesse sentido, embora, na última vez que tenha visto, só tivesse umas 200 assinaturas.

Tissier de Mallerais "não gosta" disto
Por outro lado, não tem havido falta de golpes de teatro e de bluff em todo este processo. Será este prolongamento uma forma de dar a entender, tanto de um lado como do outro, que se espremeram as negociações ao máximo, para que no fim ambos possam dizer que conseguiram o melhor acordo possível? Talvez, é possível, era bom.

Agora, segundo algumas fontes, Fellay apenas tomará uma decisão depois do capítulo geral da SSPX, que tem lugar em meados de Julho. A decisão cabe-lhe sempre a ele, mas é verdade que essa reunião, que evidentemente será dominada por esta questão, poderá servir para colocar pressão sobre ele, tanto num sentido como no outro. Não sou de maneira nenhuma especialista quanto às dinâmicas internas da SSPX, mas pelo que vou depreendendo, apesar dos outros três bispos serem contra (dois de certeza, um parece tender para aí), uma grande parte dos superiores distritais, que são sacerdotes, estão com Fellay. Ou seja, o capítulo tanto pode dar força a Fellay como pode esvaziar a sua autoridade moral. Claro que seria melhor chegar lá com o facto consumado, mas não deve ser possível.

O que resta? Rezar! Convém a ambos os lados compreender que esta reunificação beneficia da boa-vontade de Bento XVI e de Fellay, mas só terá hipóteses se Deus assim quiser. Rezar, rezar, rezar, para que seja feita a Sua vontade, seja ela qual for...

Nós por cá iremos acompanhando.

Filipe d’Avillez

Friday, 20 April 2012

Freiras mal comportadas e "aquele país não é para Islão"

A Congregação para a Doutrina da Fé criticou duramente uma organização que representa as religiosas americanas. São acusadas de erros doutrinais, silêncio em relação a questões fundamentais e até “feminismo radical”.

Na Alemanha, logo no arranque de um congresso sobre o Islão, um deputado conservador decidiu dizer que essa religião “não tem lugar”, no país.

Já subiu para 35 o número de tibetanos que se imolaram pelo fogo em protesto contra a China. Para além das últimas duas vítimas, de ontem, circulam imagens de um homem que é espancado pela polícia enquanto ainda está a arder. São imagens chocantes, que pode ver aqui.

O mundo tem-se revoltado ultimamente contra o Paquistão e a sua lei da blasfémia. O mundo, como que diz… no Kuwait acham boa ideia e querem copiá-la.

E pelos vistos há pessoas que têm uma imagem do Festival da Eurovisão ainda pior que a minha. São os islamistas do Azerbaijão, que ameaçam os participantes com ataques.

Ontem não pude enviar mail, mas a principal notícia é sem dúvida a aprovação de normas para lidar com casos de abusos sexuais na Igreja portuguesa.

Para este fim-de-semana fica uma recomendação cultural. Uma visita por Lisboa passando pelos locais mais importantes ligados ao Judaísmo, guiada por Susana Bastos Mateus. Começa às 15h nas Portas do Sol e custa 15 Euros.

Deve ser muito interessante, eu não posso ir porque trabalho no fim-de-semana. Por essa razão folgo na segunda e terça. Como quarta é feriado, voltarei no dia 25. Não se esqueça que pode ir acompanhando as principais novidades no nosso grupo do Facebook.

Friday, 16 March 2012

Anglicanos, Lefebvrianos e jornais diocesanos

Mais velho que Rowan Williams e sem vontade de resignar
Hoje, nem sei bem por onde começar!

O Arcebispo de Cantuária anunciou que vai renunciar ao cargo em Dezembro deste ano. Falámos com o bispo anglicano de Portugal e com o padre Peter Stilwell sobre o assunto.

Os interessados podem ler no blogue a transcrição completa das entrevistas a D. Fernando e ao Pe. Peter.

Novidades nas negociações entre a Igreja Católica e os “lefebvrianos”. A bola volta para o campo da Sociedade de São Pio X.

Confirmou-se hoje que Bento XVI vai mesmo ao Líbano, como já se suspeitava. A viagem decorrerá em Setembro.

A Congregação para a Doutrina da Fé criou um site para facilitar a consulta dos seus documentos. Já os assistentes espirituais e religiosos dos hospitais portugueses, de diversas confissões, ficaram-se por um livro de bolso.

Este fim-de-semana é lançado um CD sobre Fátima e a Eucaristia, que contém orações nunca antes musicadas.

E terminamos em Évora, onde o jornal diocesano está prestes a completar 89 anos, apesar dos tempos difíceis, querem continuar!

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