Showing posts with label Papa. Show all posts
Showing posts with label Papa. Show all posts

Thursday, 22 December 2022

Abusos de menores e de adultos: Diferenças e semelhanças

Um caso de abusos sexuais de mulheres adultas por parte de um sacerdote está a dar muito que falar no mundo católico. Em causa está o padre Marko Rupnik, um jesuíta esloveno. Rupnik é muito conhecido no mundo católico pela sua arte, tendo desenhado mosaicos e outras obras em algumas das mais importantes igrejas do mundo, incluindo a nova Basílica da Santíssima Trindade, em Fátima.

Há várias acusações graves contra Rupnik, nomeadamente de ter criado um ambiente de abuso de poder e manipulação numa ordem de freiras da qual era assistente religioso. Mais, a dada altura o padre jesuíta terá mantido uma relação sexual com uma das religiosas desse mosteiro, tendo posteriormente absolvido a mesma em confissão. Trata-se de um crime canónico de tal gravidade que o responsável incorre na pena de excomunhão, a qual só é levantada quando o culpado revela arrependimento, o que terá acontecido.

Mais do que uma simples coleção de falhas pessoais de um padre isolado, este caso tem levantado grandes críticas em relação à forma como foi tratado pelos jesuítas, em primeiro lugar, mas também pelo Vaticano. Apesar das várias acusações que foram feitas contra ele, e de estas serem do conhecimento dos seus superiores e do Dicastério para a Doutrina da Fé, Rupnik continuou a aparecer em público, a aceitar encomendas e a executar obras de arte sacra, a apresentar um vídeo semanal de análise das leituras de cada Domingo e até a pregar uma reflexão quaresmal para a Cúria romana.

Quando as alegações se começaram a tornar públicas, a informação foi sendo libertada a conta-gotas, tanto pelos jesuítas como pelo Vaticano, o que só levantava mais questões e criava maior confusão. Eventualmente a ordem religiosa do padre Rupnik acabou por admitir os factos todos – ou pelo menos assim parece – mas não sem antes sofrer grandes danos ao nível da sua própria credibilidade e transparência.

Numa altura em que tanto se exige transparência em relação à questão dos abusos de menores, logicamente muitos questionam porque é que o mesmo não se aplica a este caso, e porque é que a própria Santa Sé, que deve dar o exemplo e que tanto tem progredido nos últimos anos neste campo, não o fez.

A resposta mais evidente é de que não estamos perante um caso de abuso de menores, mas de relações entre adultos, ainda que, por ser assistente espiritual das religiosas, não se possa falar de uma relação desprovida de abuso de poder. É uma distinção importante? É, e já vamos ver porquê. Justifica a falta de transparência? A meu ver não, não justifica, e penso que com tudo o que já aprendemos sobre a crise de abusos é importante a Igreja, quer as locais, quer a Santa Sé, compreendam que muitas das lições que aprendemos com a crise dos abusos de menores podem e devem aplicar-se a outras áreas, incluindo esta.

Uma questão de corrupção

Vamos então tentar perceber quais são as grandes diferenças entre o abuso de menores e as relações consensuais, embora pecaminosas, entre adultos.

A primeira e mais evidente diferença é o mal causado às vítimas. Choca sempre mais, e bem, o abuso de uma criança, seja ele de natureza física, sexual ou psicológica. Os abusos abrem sempre feridas terríveis nas suas vítimas, feridas duradouras, mas o seu potencial destrutivo é ainda mais grave nas crianças. Isto não significa que não se deva ter também compaixão das vítimas adultas, e ajudá-las ao máximo, como é evidente.

Mas há outra grande diferença, que está na disposição e no estado de alma do próprio abusador. E penso que essa merece mais atenção do que costumamos dar.

Um dos temas a que o Papa Francisco volta sempre é à corrupção. Para os nossos ouvidos, quando se fala em corrupção pensamos em troca de favores por dinheiro, enriquecimento ilícito, cunhas e favorecimento. Mas não é nesse sentido que o Papa usa o termo. Ele explica que existem pecados, que todos cometemos, mas a corrupção é mais do que um pecado, é uma doença, uma doença da alma, no sentido em que contamina toda a forma como agimos e pensamos.

Para usar um exemplo prático. Um homem que está a passar na rua e repara que alguém deixou cair a carteira e aproveita para a roubar, está a cometer um pecado, claro, mas é um grau diferente daquele que acorda decidido a ir roubar; justifica a si mesmo que pode e deve roubar, porque a satisfação da sua necessidade ou do seu desejo é a prioridade máxima; que desenvolve planos e esquemas para poder roubar e depois as executa. Esse, ainda que não consiga obter o proveito de um roubo, já pecou no coração e tem a alma corrompida porque está já consumido da vontade de pecar.

A ler, sobre o conceito de
corrupção segundo o Papa
Aplicando isto à realidade dos abusos sexuais, podemos ver que há diferenças entre o abuso sexual de um menor, ou uma pessoa vulnerável, e uma relação com um adulto. No segundo caso, para já, existe a possibilidade do consentimento da outra parte. Tomemos o caso de um padre que se sente muito atraído por uma mulher a quem está a dar direcção espiritual. Se do outro lado também existe atracção torna-se muito mais provável que o pecado seja consumado. Isto até pode acontecer espontaneamente. O padre pode nem estar a pensar no assunto, mas a outra pessoa vem procurar o contacto e o padre, perante essa possibilidade, sucumbe à tentação; ou duas pessoas encontram-se numa situação em que de repente reparam que têm possibilidade de ter uma relação e ambas cedem. Enfim, não adianta explorar todas as possibilidades.

Mas também pode acontecer o contrário. Pode acontecer que o padre sente atracção por alguém e procura manipular as circunstâncias para poder estar sozinho com ela, procura seduzir e despertar na outra pessoa a mesma vontade, etc., para poder satisfazer o seu desejo. Esta segunda situação seria já um caso de corrupção da alma, porque o padre já cometeu esse pecado no seu coração e agora está a tentar a toda a força cometê-lo de facto. Isto é tanto mais grave se o padre se aproveita do seu ministério, como director espiritual, por exemplo, e de algum ascendente que tenha sobre a outra pessoa, para fazer valer a sua vontade, podendo até manipulá-la ao ponto de a tentar convencer que o mal que ele procura praticar é na verdade um bem, ou que constitui a vontade de Deus.

A diferença quando lidamos com o abuso de crianças é de que não existe a possibilidade do primeiro cenário. Não pode haver consentimento, nem verdadeira compreensão do que está em causa por parte da criança ou do menor. E, por conseguinte, a situação de abuso nunca é a mera queda numa tentação espontânea.

A lógica dita, e a prática mostra, que os abusadores de menores são pessoas especialmente manipuladoras. A relação com as vítimas é cultivada, o abusador procura ganhar a confiança da vítima, mas também da sua família. As condições para estarem a sós e para se praticar os abusos são pensadas e depois executadas. Há uma predisposição necessária que agrava tudo o que se passa de seguida, e contamina muito, se não tudo, do resto da sua acção pastoral. Por isso é que para estes pecados em particular existe tolerância zero. Nenhum homem será apenas o somatório das suas falhas, e isso aplica-se também aos abusadores, mas isso não implica que se possa continuar no ministério sacerdotal.

Tudo isto configura um caso particularmente grave de corrupção da alma, o que tem ramificações importantes quando se trata de um padre ou outro agente pastoral. Os católicos compreendem e aceitam que os seus padres sejam sujeitos a tentações, que por vezes até nelas caiam. Não aceitam, nem devem aceitar, é que os seus padres sejam pessoas corruptas que no seu coração já cederam ao pecado e procuram de todas as formas manipular quem está em seu redor para o levar a cabo. Isto aplica-se a qualquer tipo de pecado, a questão é que com o abuso de menores aplica-se sempre.

Voltando ao caso do Pe. Rupnik, uma leitura benevolente do seu caso será de que os seus superiores, e os responsáveis do Vaticano, entenderam que com ele estavam perante situações de quedas pontuais, das quais estava devidamente arrependido e recomposto, e não de corrupção da alma, e por isso, depois de o corrigirem e de o castigarem de forma discreta, não tiveram problemas em permitir que ele prosseguisse com outras actividades pastorais, como o tal vídeo semanal e as muitas obras de arte que foi fazendo.

Foi um erro? Provavelmente, sim. A decidir que os seus crimes não justificavam a expulsão do estado sacerdotal, teria pelo menos feito sentido mantê-lo em funções mais discretas até se ter a certeza de que estava recuperado, que estava verdadeiramente arrependido. E se já estavam reunidas essas condições, deviam comunicá-las devidamente, logo que começaram a surgir as notícias, para evitar dar a entender que estavam a encobrir.

Por não o terem feito, e por terem respondido às revelações que entretanto foram surgindo de forma confusa e atabalhoada, tanto a Santa Sé como os Jesuítas sofreram graves danos reputacionais. Esperemos que aprendam com este caso, para evitar males parecidos ou mais graves no futuro. E esperemos que compreendam que as lições que temos aprendido com a crise dos abusos podem e devem ser adaptados a outras realidades também. Todos ficamos a ganhar com isso.

Wednesday, 7 December 2022

O Problema das Conferências Episcopais

Stephen P. White
Em Novembro passado, como acontece todos os anos, decorreu o encontro plenário da Conferência Episcopal dos Estados Unidos (USCCB), em Baltimore. Tal como fazem de três em três anos, os bispos elegeram um novo presidente, desta vez foi o Arcebispo Timothy Broglio, das Forças Armadas, que substitui o Arcebispo José Gómez, de Los Angeles.

A eleição levou a uma onda de histerismo de alguns dos suspeitos do costume nos media católicos, que acusaram os bispos de estarem a “repudiar” o Papa Francisco, ou de estarem a optar por um “Catolicismo pós-episcopal”. Os argumentos em si não merecem ser rebatidos neste espaço.

O que vale a pena fazer é discutir a importância desproporcional que se tem atribuído nos últimos anos a estas eleições, bem como à própria conferência episcopal.

A principal função da conferência episcopal é ajudar os bispos no seu ministério. Muito, se não mesmo a maior parte do trabalho da USCCB é feito por funcionários, que são na maioria leigos. O que significa que o papel principal do presidente é sobretudo administrativo, e não pastoral, embora seja verdade que o presidente pode moldar (mas não ditar) o trabalho e as prioridades da conferência, e que representa a Igreja americana em Roma.

Mas a USCCB não é, certamente, a sede da Igreja Católica nos Estados Unidos. Nem sequer é o órgão que governa o Catolicismo americano (embora os bispos, no seu conjunto, tenham alguma capacidade para criar leis particulares). O presidente da conferência episcopal não é um patriarca dos Estados Unidos, nem o pastor-mor da Igreja americana.

Nada disto significa que a conferência, ou a sua liderança, não são importantes. São. Mas a sua importância é sobretudo a de assistência aos bispos. Eles existem para ajudar os bispos no seu ministério, e não para os substituir.

Desde o início do seu pontificado o Papa Francisco tem enfatizado e elevado, de várias formas, o papel das conferências episcopais nacionais e regionais. E não sem razão.

Em primeiro lugar, e mais importante, o Concílio Vaticano II, em particular no Lumen Gentium e no Christus Dominus, dá especial atenção ao ministério dos bispos e ao princípio da colegialidade. Os bispos não são gerentes de sucursais na estrutura empresarial do catolicismo, nem são apenas delegados da autoridade papal. Os bispos possuem autoridade legítima própria.

Esta autoridade tem a sua expressão máxima quando agem de forma colegial, sempre cum Petro et sub Petro (com e sob Pedro). Daí a imensa importância dada aos concílios ecuménicos. Este entendimento da autoridade episcopal tem raízes que remontam a muito antes do Vaticano II, recuando até aos primeiros séculos da Igreja.

No Evangelii Gaudium o Papa Francisco escreveu que a visão do Concílio Vaticano II para as conferências episcopais ainda não foi plenamente cumprida, uma vez que “este desejo não se realizou plenamente, porque ainda não foi suficientemente explicitado um estatuto das conferências episcopais que as considere como sujeitos de atribuições concretas, incluindo alguma autêntica autoridade doutrinal”. O resultado, segundo Francisco tem sido uma excessiva centralização e uma dependência indevida de Roma. “Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua dinâmica missionária.”

Arcebispo Timothy Broglio
Uma boa parte do seu entusiasmo por fortalecer a autoridade das conferências episcopais deriva, certamente, da longa experiência do Papa Francisco enquanto presidente da Conferência Episcopal da Argentina e, mais especificamente, a sua experiência no encontro da Conferência Episcopal da América Latina (CELAM), em Aparecida, em 2007.

Esta afinidade por uma “descentralização saudável”, como o Papa Francisco por vezes lhe chama, molda a sua compreensão da sinodalidade, incluindo, aparentemente, a sua disposição para dar grande margem de manobra a experiências erráticas de eclesiologia, prática pastoral e disciplina sacramental como a que está a ocorrer agora na Alemanha.

Mas apesar de toda esta ênfase na descentralização, este pontificado também foi marcado por alguns gestos invulgarmente duros de centralização. A implementação da Traditiones Custodes, por exemplo, limitou substancialmente a capacidade dos bispos individuais de regulamentar questões litúrgicas nas suas próprias dioceses (em especial no que diz respeito à Missa Tradicional), chegando ao ponto de ditar que missas podem ou não ser publicadas nos boletins paroquiais.

O Papa Francisco também promulgou muito mais legislação do que qualquer um dos seus antecessores. Essa legislação, por sua vez, tem sido implementada e aplicada de forma algo irregular e inconsistente (um exemplo são as regras do Vos estis lux mundi sobre como lidar com casos de abusos sexuais). Frequentemente o estilo de governação do Papa tem tido o efeito contrário ao pretendido, centralizando a autoridade em Roma, diminuindo a autoridade individual dos bispos e tornando a pessoa do Papa (e não a lei, nem o ensinamento magisterial) o ponto de referência principal da vida católica.

O que nos traz a uma recente entrevista que o Papa concedeu à América, a revista dos jesuítas dos Estados Unidos, em que Francisco fez umas declarações refrescantemente simples e clarificadoras sobre a importância da autoridade pastoral dos bispos em relação às conferências episcopais:

Acho que é enganador falar da relação entre os católicos e a conferência episcopal. A conferência episcopal não é o pastor, o pastor é o bispo. Por isso corremos o risco de diminuir a autoridade do bispo quando olhamos apenas para a conferência episcopal. A conferência episcopal existe para juntar os bispos, para estes poderem trabalhar juntos, discutir assuntos, fazer planos pastorais. Mas cada bispo é um pastor. Não dissolvamos o poder do bispo, reduzindo-o ao poder da conferência episcopal. Porque a esse nível as tendências concorrem, umas mais à direita, outras mais à esquerda, mais aqui, mais ali, e seja como for a conferência episcopal não tem uma responsabilidade de pele e osso, como o bispo tem com o seu povo, um pastor com o seu povo.

As palavras do Papa podem ser lidas como uma correcção de todos os que consideram as conferências episcopais, e não os próprios bispos, como a principal fonte de autoridade episcopal na Igreja. Se a “descentralização saudável” que o Papa deseja vai produzir unidade em vez de divisão crónica, terá de depender menos da liderança desta ou daquela conferência episcopal do que daquele bispo – o bispo de Roma – que é verdadeiramente o primeiro de entre os seus irmãos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2022)

© 2022 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 16 September 2022

Papa no Cazaquistão, entre sincretismos, guerras regionais e amuos

O Papa está no Cazaquistão. Esta é uma viagem importante por uma série de razões. Neste texto de análise falo do equilíbrio difícil que é para um Papa participar num encontro inter-religioso, sem cair em sincretismos e relativismos; da importância de o Papa falar de paz naquela região em específico, e por fim de como esta viagem afecta as relações entre a Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa Russa.

Ainda sobre este assunto, recomendo a entrevista do principal bispo do Cazaquistão, que considera que o encontro em que o Papa participa tem as suas raízes nos encontros de Assis, iniciados pelo Papa João Paulo II.

Quando mandei o mail da semana passada ainda não tinha sido confirmada a morte de Isabel II, de Inglaterra. Hoje partilho convosco os artigos que escrevi para a Rádio Renascença sobre ela, a sua vida e o seu reinado. Estes foram dos últimos trabalhos que fiz para a Renascença antes de sair.

Morreu Isabel II, a Rainha da força tranquila que marcou uma era

Isabel II em números

Isabel II – O “annus horribilis” de 1992

Isabel II – Dez frases que marcaram 70 anos de reinado

Morreu Isabel II. 42 voltas ao mundo e duas visitas a Portugal

Esta quinta-feira termina na Síria uma importante peregrinação que visa recordar os cristãos que morreram durante a infindável guerra civil. Saiba mais sobre o ícone de Nossa Senhora das Dores, Consoladora dos Sírios.

“Quando deres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos”.

Há mandamento mais universalmente ignorado pelos cristãos? No artigo desta semana do The Catholic Thing, Michael Pakaluk ajuda a aplicar esta passagem aos nossos dias, com um piscar de olho às Famílias Numerosas!

E recupero ainda um dos artigos do The Catholic Thing publicado durante as férias, que muito gosto me deu traduzir. Elizabeth A. Mitchell escreve sobre uma das mulheres mais impressionantes do Século XX, a Santa Edite Stein. Leiam que vale bem a pena.

Por fim, continuo a coligir as declarações dos líderes religiosos relevantes sobre a guerra na Ucrânia. Com as coisas a piorar para os russos, as declarações do Patriarca de Moscovo parecem cada vez mais desligadas da realidade. Vejam por vocês mesmos. A análise mais detalhada das suas últimas declarações está aqui e aqui. Sugiro darem também uma vista de olhos à leitura feita pelo líder da Igreja Ortodoxa da Ucrânia à história do martírio de São João Baptista, e aqui podem ler a análise às mais recentes declarações de Sviatoslav Shevchuk, líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Wednesday, 2 October 2019

Quem Restaurará a Igreja?

Stephen P. White
A frequência dominical está em queda. As contribuições financeiras ao nível tanto da paróquia como da diocese também. Há anos que assistimos a um decréscimo dos casamentos e baptismos de crianças. A maioria destas quedas não começou com a crise dos abusos, mas os dados do ano passado indicam que a crise as acelerou.

Quem é que reedificará a Igreja? De onde virá a renovação que todos sabemos ser necessária, e que tanto desejamos ver? Dos bispos? De Roma? Já disse várias vezes: Se algum dia chegar, uma autêntica reforma da Igreja virá através de, e com, o bispo de Roma e os bispos em comunhão com ele. Mas para quem tem fé isso não passa de uma tautologia, não nos leva muito longe.

Confiar que o Senhor preservará a sua Igreja não requer que acreditemos ou esperemos que a reforma surja de Roma ou que comece por iniciativa de um dos sucessores dos apóstolos. A história revela que a maioria das reformas eclesiais não começaram com o Papa. A maioria das reformas não começaram sequer com os bispos. O padrão é sempre o mesmo, a renovação começa com a santidade, esteja ela onde estiver.

A santidade não é património do clero. Aliás, a santidade não é só para quem é ordenado. O chamamento à santidade é universal e estende-se a todos os baptizados, ou melhor, a toda a humanidade. Estive uma vez numa conferência em que alguém estava a comentar uma frase do Papa Francisco sobre a santidade. Ao meu lado estava uma conhecida activista de justiça social, que exclamou: “Eu nunca pensei em santidade, nem um dia na minha vida”. Não duvido minimamente.

E porque não? Porque há muito trabalho a fazer neste Vale de Lágrimas que não requer sequer uma gota de santidade. Ser uma pessoa decente não nos obriga a sermos perfeitos como o Pai no Céu é perfeito. Mas somos chamados a mais, muito mais do que isso.

Na sua primeira homilia como Papa, Francisco alertava todos os que o acabavam de eleger para a futilidade das boas obras que não proclamam Cristo:

“Podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor. Quando não se caminha, ficamos parados. Quando não se edifica sobre as pedras, que acontece? Acontece o mesmo que às crianças na praia quando fazem castelos de areia: tudo se desmorona, não tem consistência.”

Se nos esquecermos disto – se os nossos esforços, por mais bem-intencionados que sejam, se separarem da proclamação da Boa Nova – então os nossos esforços não só falharão, mas tornarão as coisas piores. “Quando não confessamos Jesus Cristo”, diz o Papa, “confessamos o mundanismo do diabo, o mundanismo do demónio”.

A questão é esta: o trabalho de restaurar a Igreja – de abordar as necessidades urgentes do momento, de procurar a justiça de forma sincera, de restaurar o Corpo maltratado de Cristo – não se pode substituir à proclamação do Evangelho. São uma e a mesma coisa. Agora, neste momento de crise, não é tempo de colocar a evangelização de lado para lidar com problemas aparentemente mais urgentes: “Deixem os mortos enterrar os seus mortos. Vai e proclama o Reino de Deus”.

O arcebispo Charles Chaput, da Filadélfia, disse-o de uma forma belíssima. As suas palavras são de 2012, mas adaptam-se perfeitamente aos nossos dias:

O pecado faz parte do território humano e é uma ameaça diária ao nosso discipulado. E se os nossos corações enregelarem, se as nossas mentes se fecharem, se os nossos espíritos se tornarem gordos e gananciosos, aninhados na nossa pilha de bens, então a Igreja neste país murchará. Aconteceu antes, noutros tempos e noutros lugares, e pode acontecer aqui. Não podemos mudar o mundo sozinhos. E não podemos reinventar a Igreja. Mas podemos ajudar Deus a mudar-nos a nós. Podemos viver a nossa fé com zelo e com convicção – e Deus tratará do resto.

O Senhor está a purificar a sua Igreja. Ainda bem, dizemos nós. Não era sem tempo, dizemos. Mas estamos dispostos a deixá-lo purificar-nos a nós? Podemos mesmo esperar que a Igreja seja purificada e, ao mesmo tempo, esperar que nós, que somos membros da Igreja, sejamos poupados à dor e à angústia dessa purificação?

Quem restaurará a Igreja? Ele. E se estivermos dispostos, Ele realizará grandes coisas através de nós. Só nos custará tudo – o que afinal de contas não é nada.

Tomai, Senhor, e recebei, toda a minha liberdade, a minha memória, o meu entendimento e toda a minha vontade, tudo o que tenho e possuo; Vós mo destes, a Vós, Senhor, o restituo. Tudo é vosso, disponde de tudo, à vossa inteira vontade. Dai-me o vosso amor e graça, que esta me basta. (Uma oração de Santo Inácio de Loyola)

Wednesday, 2 January 2019

Fake news, no Porto e em Roma

Espero que tenham todos tido um excelente Natal, melhor pelo menos do que a do Bispo do Porto, que se viu envolvido numa polémica por causa da virgindade de Nossa Senhora. Já foi tudo clarificado, graças a Deus.

Mal li a reportagem original, no dia 24 de Dezembro, publiquei isto no meu blog, em que aconselhava calma antes de se crucificar o bispo, porque conhecendo o meio jornalístico percebi que algo não estava bem naquela notícia – aprender a ler notícias e a interpretá-las é também importante – e da forma como as coisas se desenrolaram ficou claro que tinha razão, mesmo sem estar por dentro.

Já que estamos numa de saber ler e interpretar notícias, o Papa NÃO DISSE hoje, ao contrário do que informam muitos órgãos, que é melhor ser ateu do que ir à igreja e depois falar dos outros. É a segunda vez no espaço de dois anos que acontece isto. A Renascença tem aqui vídeo com a citação original e com a tradução certa.


O Papa começou o ano com uma mensagem a apelar à valorização da maternidade e, no mesmo dia, o diretor e vice-diretora de comunicação da Santa Sé demitiram-se. (Não estou a sugerir causa efeito…)

Foram também publicados dois artigos do The Catholic Thing neste espaço de tempo. No primeiro o padre Paul Scalia escreve muito bem sobre a importância teológica da linguagem e como até a nossa capacidade de falar é afetada pelo pecado e hoje o grande Anthony Esolen recorda como até meados do século XIX se castravam meninos para lhes preservar a voz, mas adverte que o que permitimos que se faça às crianças hoje é muito pior.

Wednesday, 17 January 2018

Discurso do Papa aos religiosos no Chile

Este discurso foi pronunciado pelo Papa na noite de segunda-feira, 16 de Janeiro, em Santiago, no Chile. Para mim, foi o discurso do dia, um dos melhores do Papa Francisco até hoje. Deixo-o aqui, na íntegra e sem qualquer edição, para que todos possam ler. É longo, mas compensa.

Queridos irmãos e irmãs, boa-tarde!

Estou feliz por participar neste encontro convosco. Gostei do modo como o Card. Ezzati vos apresentou: «Aqui estão... aqui estão as consagradas, os consagrados, os presbíteros, os diáconos permanentes, os seminaristas…» Aqui estão. Fez-me recordar o dia da nossa Ordenação ou Consagração em que, depois da apresentação, dissemos: «Aqui estou, Senhor, para fazer a vossa vontade». Neste encontro, queremos dizer ao Senhor: «Aqui estamos» para renovar o nosso «sim». 

Queremos renovar, juntos, a resposta à vocação que um dia alvoroçou o nosso coração.

E, para isso, creio que nos pode ajudar a passagem do Evangelho que escutamos, compartilhando três momentos de Pedro e da primeira comunidade: Pedro e a comunidade abatidos, Pedro e a comunidade tratados com misericórdia e Pedro e a comunidade transfigurados. Jogo com o binómio Pedro-comunidade, porque a experiência dos apóstolos tem sempre estes dois aspetos: pessoal e comunitário. Andam de mãos dadas, e não os podemos separar. É verdade que somos chamados individualmente, mas sempre para ser parte dum grupo maior. Não existe a «selfie vocacional», não existe. A vocação exige que a foto te seja tirada por outrem; que lhe havemos de fazer? As coisas estão assim.

1. Pedro abatido e a comunidade abatida
Sempre gostei do estilo dos Evangelhos que não adornam, não mitigam os acontecimentos, nem os pintam fazendo-os mais belos. Apresentam-nos a vida como é e não como deveria ser. O Evangelho não tem medo de nos mostrar os momentos difíceis, e até conflituosos, por que passaram os discípulos.

Reconstituamos a situação. Tinham morto Jesus; algumas mulheres diziam que estava vivo (cf. Lc 24, 22-24). Os discípulos, mesmo tendo visto Jesus ressuscitado, tão grande é o acontecimento que precisarão de tempo para compreender o sucedido. Diz Lucas: «Era tão grande a alegria que nem queriam acreditar». Precisavam de tempo para compreender aquilo que tinha acontecido. A compreensão chegar-lhes-á no Pentecostes, com o envio do Espírito Santo. A irrupção do Ressuscitado levará tempo a penetrar no coração dos seus.

Os discípulos voltam para a sua terra. Vão fazer o que sabiam: pescar. Não estavam todos, apenas alguns. Divididos, fragmentados? Não sabemos. O que nos diz a Escritura é que, aqueles que estavam, não pescaram nada. Têm as redes vazias.

Entretanto havia outro vazio que pesava inconscientemente sobre eles: a perplexidade e o turvamento pela morte do seu Mestre. Já não está, foi crucificado. Mas não acabou só Ele crucificado, os próprios discípulos foram joeirados, tendo a morte de Jesus posto em evidência um torvelinho de conflitos no coração dos seus amigos. Pedro renegara-O, Judas traíra-O, os restantes fugiram e esconderam-se. Ficou apenas um punhado de mulheres e o discípulo amado. O resto, foi-se. Questão de dias, e tudo ruiu. São as horas da perplexidade e do turvamento na vida do discípulo. Nos momentos «em que está levantada a poeira das perseguições, tribulações, dúvidas, etc. por causa de factos culturais e históricos, não é fácil atinar com o caminho a seguir. Há várias tentações que caraterizam estes momentos: discutir ideias, não prestar a devida atenção ao caso, fixar-se demasiado nos perseguidores... e – creio que a pior de todas as tentações – ficar a ruminar a desolação».[1] Sim, ficar a ruminar a desolação. Isto é o que sucedeu aos discípulos.

Como nos dizia o cardeal Ezzati, «a vida sacerdotal e consagrada, no Chile, atravessou e atravessa horas difíceis de turbulência e desafios sérios. Juntamente com a fidelidade da imensa maioria, cresceu também a cizânia do mal com as suas consequências de escândalo e deserção».

Momento de turbulência. Sei da dor causada pelos casos de abuso contra menores e sigo com atenção aquilo que estais a fazer para superar este grave e doloroso malefício. Dor pelo dano e sofrimento das vítimas e suas famílias, que viram traída a confiança que depunham nos ministros da Igreja. Dor pelo sofrimento das comunidades eclesiais, e dor também por vós, irmãos, que, além do desgaste pela entrega, experimentastes o dano que provoca a suspeita e a contestação, que pode ter insinuado – em alguns ou muitos – a dúvida, o medo e a difidência. Sei que, às vezes, sofrestes insultos no metropolitano ou caminhando pela rua; que, em muitos lugares, se está a «pagar caro» andar vestido de padre. Por isso, convido-vos a pedir a Deus que nos dê a lucidez de chamar a realidade pelo seu nome, a coragem de pedir perdão e a capacidade de aprender a escutar o que Ele nos está a dizer, e não ruminar a desolação.

Gostaria de acrescentar ainda outro aspeto importante. As nossas sociedades estão a mudar. O Chile de hoje é muito diferente do que conheci no tempo da minha juventude, quando me estava a formar. Estão a nascer novas e variadas formas culturais, que não se enquadram nos contornos habituais. E temos de reconhecer que, muitas vezes, não sabemos como nos inserir nestas novas situações. Frequentemente sonhamos com as «cebolas do Egito» e esquecemo-nos de que a terra prometida está à frente, e não atrás. Que a promessa é de ontem, mas diz respeito ao amanhã. E então podemos cair na tentação de nos fecharmos e isolarmos para defender as nossas posições que acabam por ser apenas bons monólogos. Podemos ser tentados a pensar que tudo está mal e, em vez de professar uma «boa nova», tudo o que professamos é apatia e deceção. Assim, fechamos os olhos perante os desafios pastorais, pensando que o Espírito não tenha nada a dizer. Deste modo esquecemo-nos de que o Evangelho é um caminho de conversão, mas não só «dos outros», também nossa.

Gostemos ou não, estamos convidados a enfrentar a realidade como ela se nos apresenta: a realidade pessoal, comunitária e social. As redes – dizem os discípulos – estão vazias, e podemos compreender os sentimentos que isso gera. Regressam a casa sem grandes aventuras para contar; regressam a casa de mãos vazias; regressam a casa, abatidos.

Que resta daqueles discípulos fortes, corajosos, vivazes, que se sentiam escolhidos tendo deixado tudo para seguir Jesus (cf. Mc 1, 16-20)? Que resta daqueles discípulos seguros de si, prontos a ir para a prisão e até dariam a vida pelo seu Mestre (cf. Lc 22, 33), que, para O defender, queriam mandar vir fogo sobre a terra (cf. Lc 9, 54); que, por Ele, desembainhariam a espada e combateriam (cf. Lc 22, 49-51)? Que resta do Pedro que repreendia o seu Mestre dizendo-Lhe como é que deveria orientar a sua vida (cf. Mc 8, 31-33), o seu programa de redenção? A desolação.

2. Pedro tratado com misericórdia e a comunidade tratada com misericórdia
É a hora da verdade, na vida da primeira comunidade. É a hora em que Pedro se confrontou com parte de si mesmo: a parte da sua verdade que muitas vezes não queria ver. Experimentou a sua limitação, a sua fragilidade, o seu ser pecador. Pedro, o instintivo, o chefe impulsivo e salvador, com uma boa dose de autossuficiência e um excesso de confiança em si mesmo e nas suas possibilidades, teve que se curvar à sua fraqueza e pecado. Era tão pecador como os outros, era tão carente como os outros, era tão frágil como os outros. Pedro dececionou Aquele a quem jurara proteção. Hora crucial na vida de Pedro.

Como discípulos, como Igreja, pode acontecer-nos o mesmo: há momentos em que somos confrontados, não com as nossas glórias, mas com a nossa fraqueza. Horas cruciais na vida dos discípulos, mas é também nessas horas que nasce o apóstolo. Deixemos o texto levar-nos pela mão.
«Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: “Simão, filho de João, tu amas-Me mais do que estes?”» (Jo 21, 15).

Depois de comer, Jesus convida Pedro a passear um pouco e a única palavra é uma pergunta, uma pergunta de amor: Amas-Me? Jesus não censura nem condena. Tudo o que Ele quer fazer é salvar Pedro. Quer salvá-lo do perigo de ficar fechado no seu pecado, de ficar «a mastigar» a desolação, fruto da sua limitação; salvá-lo do perigo de desistir, por causa das suas limitações, de todas as coisas boas que vivera com Jesus. Quer salvá-lo do fechamento e do isolamento. Quer salvá-lo daquela atitude destrutiva que é o vitimizar-se ou, ao contrário, cair num «vale tudo o mesmo», acabando por fazer malograr qualquer compromisso no mais danoso relativismo. Quer libertá-lo de considerar quem se opõe a Ele como se fosse um inimigo, ou de não aceitar com serenidade as contradições e as críticas. Quer libertá-lo da tristeza e sobretudo do mau humor. Com esta pergunta, Jesus convida Pedro a auscultar o seu coração e aprender a discernir. Uma vez que «não era de Deus defender a verdade à custa da caridade, nem a caridade à custa da verdade, nem o equilíbrio à custa de ambas. É preciso discernir. Jesus quer evitar que Pedro se torne um veraz destruidor ou um caritativo mentiroso ou um perplexo paralisado»,[2] como pode acontecer connosco em tais situações.

Jesus interpelou Pedro sobre o seu amor e insistiu nisso até ele Lhe poder dar uma resposta realista: «Senhor, Tu sabes tudo; Tu bem sabes que eu sou deveras teu amigo» (Jo 21, 17). E, deste modo, Jesus confirma-o na missão. Assim o faz tornar-se definitivamente seu apóstolo.
O que é que fortalece Pedro como apóstolo? O que é que nos mantém a nós como apóstolos? Uma coisa só: fomos tratados com misericórdia (cf. 1 Tim 1, 12-16). Fomos tratados com misericórdia. «Não obstante os nossos pecados, os nossos limites, as nossas faltas; não obstante as nossas numerosas quedas, Jesus Cristo viu-nos, aproximou-Se, deu-nos a mão e teve misericórdia de nós. (…) Cada um de nós poderá recordar, pensando em todas as vezes que o Senhor o viu, que olhou para ele, que se aproximou dele e o tratou com misericórdia».[3] E convido-vos a fazer o mesmo. Não estamos aqui por ser melhores do que os outros. Não somos super-heróis que, do alto, descem para se encontrar com os «mortais». Antes, somos enviados com a consciência de ser homens e mulheres perdoados. E esta é a fonte da nossa alegria. Somos consagrados, pastores segundo o estilo de Jesus ferido, morto e ressuscitado. A pessoa consagrada – e, quando digo «consagrados», penso em quantos aqui estão – é alguém que encontra, nas suas feridas, os sinais da Ressurreição. É alguém que consegue ver, nas feridas do mundo, a força da Ressurreição. É alguém que, segundo o estilo de Jesus, não vai ao encontro dos seus irmãos com a censura e a condenação.

Jesus Cristo não Se apresenta, aos seus, sem chagas; foi precisamente a partir das suas chagas que Tomé pôde confessar a fé. Estamos convidados a não dissimular nem esconder as nossas chagas. Uma Igreja com as chagas é capaz de compreender as chagas do mundo atual e de assumi-las, sofrê-las, acompanhá-las e procurar saná-las. Uma Igreja com as chagas não se coloca no centro, não se considera perfeita, mas coloca no centro o único que pode sanar as feridas e que tem um nome: Jesus Cristo.

A consciência de ter chagas, liberta-nos. É verdade; liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, de nos considerarmos superiores. Liberta-nos da tendência «prometeica de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado».[4]

Em Jesus, as nossas chagas ficam ressuscitadas. Tornam-nos solidários; ajudam-nos a derrubar os muros que nos encerram numa atitude elitista, incitando-nos a construir pontes e ir ao encontro de tantos sedentos do mesmo amor misericordioso que só Cristo nos pode dar. «Quantas vezes sonhamos planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa história de Igreja, que é gloriosa por ser história de sacrifícios, de esperança, de luta diária, de vida gasta no serviço, de constância no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho é “suor do nosso rosto”».[5] Vejo, com certa preocupação, que há comunidades que vivem acometidas pela ânsia de constar no cartaz, ocupar espaços, aparecer e se mostrar, mais do que pela vontade de arregaçar as mangas e sair para tocar a dolorosa realidade do nosso povo fiel.
Como nos interpela a reflexão deste Santo chileno, que advertia: «Por isso, serão métodos falsos todos os que são impostos pela uniformidade; todos os que pretendem encaminhar-nos para Deus, fazendo-nos esquecer os nossos irmãos; todos os que nos levam a fechar os olhos ao universo, em vez de nos ensinar a abri-los para elevar tudo ao Criador de todas as coisas; todos os que nos fazem egoístas e nos dobram sobre nós mesmos».[6]

O povo de Deus não espera nem precisa de nós como super-heróis, espera pastores, homens e mulheres consagrados, que conheçam a compaixão, que saibam estender uma mão, que saibam parar junto de quem está caído e, como Jesus, ajudem a sair desse círculo vicioso de «mastigar» a desolação que envenena a alma.

3. Pedro transfigurado e a comunidade transfigurada
Jesus convida Pedro a discernir e, assim, começam a ganhar força muitos acontecimentos da vida de Pedro, como o gesto profético do lava-pés. Pedro, que resistira a deixar-se lavar os pés, começava a compreender que a verdadeira grandeza passa por se fazer pequenino e servidor.[7]
Como é grande a pedagogia de nosso Senhor! Do gesto profético de Jesus à Igreja profética que, lavada do seu pecado, não tem medo de sair para servir uma humanidade ferida.

Pedro experimentou, na sua carne, a ferida não só do pecado, mas também das suas próprias limitações e fraquezas. Mas descobriu em Jesus que as suas feridas podem ser caminho de Ressurreição. Conhecer Pedro abatido para conhecer Pedro transfigurado é o convite a deixar de ser uma Igreja de abatidos desolados para passar a uma Igreja servidora de tantos abatidos que convivem ao nosso lado. Uma Igreja capaz de se colocar ao serviço do seu Senhor no faminto, no preso, no sedento, no desalojado, no nu, no doente... (cf. Mt 25, 35). Um serviço que não se identifica com o assistencialismo nem o paternalismo, mas com a conversão do coração. O problema não está em dar de comer ao pobre, vestir o nu, assistir o doente, mas em considerar que o pobre, o nu, o doente, o preso, o desalojado têm a dignidade de se sentar às nossas mesas, sentir-se «em casa» entre nós, sentir-se família. Este é o sinal de que o Reino de Deus está no meio de nós. É o sinal duma Igreja que foi ferida pelo seu pecado, foi cumulada de misericórdia pelo seu Senhor, e foi tornada profética por vocação.

Renovar a profecia é renovar o nosso compromisso de não esperar por um mundo ideal, uma comunidade ideal, um discípulo ideal para viver ou para evangelizar, mas criar as condições para que cada pessoa abatida possa encontrar-se com Jesus. Não se amam as situações nem as comunidades ideais, amam-se as pessoas.

O reconhecimento sincero, contrito e orante das nossas limitações, longe de nos separar de nosso Senhor, permite-nos retornar a Jesus, sabendo que, «com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta cristã, ainda que atravesse períodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. (…) Sempre que procuramos voltar à fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, métodos criativos, outras formas de expressão, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo atual».[8] Como nos faz bem a todos deixar que Jesus nos renove o coração!

Ao início deste encontro, disse-vos que vínhamos renovar o nosso «sim», com garra, com paixão. Queremos renovar o nosso «sim», mas um sim realista, porque apoiado no olhar de Jesus. Convido-vos, quando voltardes para casa, a preparar no vosso coração uma espécie de testamento espiritual, no estilo do cardeal Raúl Silva Henríquez expresso nesta linda oração que começa dizendo: «A Igreja que eu amo é a Santa Igreja de todos os dias... a tua, a minha, a Santa Igreja de todos os dias...

Jesus, o Evangelho, o pão, a Eucaristia, o Corpo de Cristo humilde em cada dia. Com os rostos dos pobres e os rostos de homens e mulheres que cantavam, que lutavam, que sofriam. A Santa Igreja de todos os dias».

Pergunto-te: Como é a Igreja que tu amas? Amas esta Igreja ferida, que encontra vida nas chagas de Jesus?

Obrigado por este encontro. Obrigado pela oportunidade de renovar o «sim» convosco. A Virgem do Carmo vos cubra com o seu manto.

Por favor, não vos esqueçais de rezar por mim. Obrigado!

Friday, 12 January 2018

Bombas para todos os gostos e desgostos

Calma meninas...
A visita do Papa ao Chile promete… Hoje quatro igrejas foram atacadas na capital e foram deixadas ameaças directas a Francisco.

Se no caso de Francisco são só – por enquanto – ameaças, na Síria o caso é mais sério. Hoje temos a história do arcebispo que se levantou da sesta para ir à casa de banho e segundos depois caiu-lhe um morteiro na cama. Sobreviveu por milagre.

Outra arquidiocese, outra bomba… Braga vai apresentar uma proposta de acompanhamento de pessoas em situação matrimonial irregular, incluindo a possibilidade de acederem aos sacramentos, à luz do Amoris Laetitia.

Com Donald Trump as bombas são outras. Ontem terá dito – embora ele nega – coisas pouco agradáveis sobre países em desenvolvimento. O jornal do Vaticano lamenta a linguagem “dura e agressiva”.

Nos últimos dias recebeu uma mensagem no telefone ou no mail a pedir orações por 22 missionários cristãos prestes a serem executados no Afeganistão? Então leia isto, e partilhe com quem lhe enviou. O mundo agradece.

Wednesday, 17 February 2016

Erros papais

Randall Smith
Em 1986 o Papa João Paulo II organizou o Dia Mundial da Paz, em Assis, para o qual convidou 160 líderes religiosos, incluindo judeus, budistas, sikhs, hindus, jains, zoroastrianos e membros religiões tradicionais africanas. Alguns católicos ficaram escandalizados. Mais tarde, João Paulo viria a publicar as encíclicas Centesimus Annus (1991), Veritatis Splendor (1993); Evangelium Vitae (1995); e Fides et Ratio (1998). Pergunto: Se um católico tivesse ficado enfurecido pelo encontro de oração de Assis, ele ou ela continua a ser obrigado a oferecer aos ensinamentos destas encíclicas a “submissão religiosa de intelecto e vontade”?

Em 1929 Pio XI assinou o Tratado de Latrão com o Governo fascista de Benito Mussolini, que reconheceu o Vaticano como Estado independente e garantiu à Igreja o apoio financeiro do seu Governo. Muitas pessoas – na altura e desde então – criticaram esta decisão, não só por ter sido um pacto celebrado com fascistas, mas também porque Pio tinha cedido a sua autoridade tradicional sobre os Estados Pontifícios. Esses católicos que acreditam que a decisão de Pio foi um erro são obrigados pelos ensinamentos do Quadragesimo anno, Quas primas, ou Divini Redemptoris?

Em 1633 o Papa Urbano VIII recusou determinantemente a decisão de membros do seu próprio tribunal da inquisição, de que Galileu devia ser perdoado pelo “erro” de publicar o seu “Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo”. Urbano, que tinha sido um patrono e defensor de Galileu, estaria ofendido pelo facto de este ter colocado um dos seus argumentos na boca da sua personagem “Simplício” (o simplório). A decisão do Papa de colocar Galileu em prisão domiciliária teve repercussões negativas para a Igreja até hoje. Esta decisão torna tudo o resto que ele ensinou, sobre fé e moral, inútil?

Há que fazer algumas distinções. A Igreja defende que os papas podem, em determinadas circunstâncias e quando o pretendem explicitamente, pronunciar-se de forma infalível sobre questões de fé e de moral. Em toda a história da Igreja há talvez oito proclamações que encaixam nesses requisitos. A maioria dos ensinamentos dos papas acarretam autoridade, mas não infalíveis, pedindo não o “assentimento da fé”, como fazem os infalíveis, mas “a submissão religiosa de intelecto e de vontade”.

Pode, então, ser lícito a um católico fiel discordar de um ensinamento com autoridade mas não infalível de um Papa? Sim, pode. Se a pessoa tiver investigado diligentemente o ensinamento em questão e se, depois de séria reflexão e oração, sentir que é necessário proceder a uma correcção fraterna, então poderá expressar publicamente o seu desacordo desde que: A) As suas razões forem sérias e bem fundamentadas; B) a discordância não impugnar ou questionar a autoridade da Igreja para ensinar e C) se a natureza da dissensão não for tal que dá origem a escândalo.

Já várias vezes pensei que estas regras servem igualmente para qualquer outra situação em que estamos em desacordo com alguém. Devemos ter boas razões por detrás da nossa posição; devemos fazer todos os esforços para não impugnar a integridade ou as boas intenções do nosso interlocutor; e devemos argumentar de forma a não criar escândalo. Raramente conquistamos os outros (incluindo os meros observadores) adoptando uma atitude agressiva. Normalmente só se consegue dar má imagem do nosso lado.

Estamos conversados, portanto, quanto a ensinamentos do Papa.

João Paulo II no encontro de Assis
E sobre as acções do Papa? Será que em conjunto com o dom da infalibilidade, os Papas têm também o dom da impecabilidade? Um carisma especial que os impede de cometer qualquer erro?

A Igreja nunca defendeu tal coisa. Muito pelo contrário, aqueles que mais acerrimamente defenderam a infalibilidade sempre fizeram questão de a distinguir de impecabilidade precisamente porque A) é claro que vários Papas cometeram pecados graves e, B) é uma questão de fé acreditar que todos os papas são pecadores, tal como qualquer um de nós, necessitados da Graça salvífica de Deus, conquistada através da morte e ressurreição de Cristo. Não adoramos o homem; respeitamos o seu cargo e temos fé nas promessas de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito Santo para a guiar e proteger.

Há anos alguém me disse que o Papa João Paulo II não dava comunhão na mão, o que provava que estava a condenar essa prática. Eu sugeri que se o Papa quisesse comunicar tal mensagem, então tinha diversos canais oficiais pelos quais o podia fazer. Existe uma espécie de idolatria papal que, a longo prazo, não é útil. Que diria hoje esse meu amigo? Se continua a confundir as acções pessoais do Papa com ensinamentos oficiais, então deve estar confuso – e zangado.

Observar cada acto do Papa para discernir o seu significado político é o tipo de tolice que levou certas pessoas a condenar Cristo por comer com prostitutas e cobradores de impostos. Dizia-se que tais actos “causavam escândalo”, “semeavam discórdia” e “revelavam apoio aos inimigos da Igreja”. Talvez, talvez não. “O tempo dirá onde se encontra a sabedoria”.

Alguns papas cometeram grandes erros. Mas todos os papas cometem alguns erros, afinal de contas, são humanos. Se anda à procura de perfeição e impecabilidade, está à procura de uma Igreja que não existe, uma promessa vazia do Pai das Mentiras, e não aquela que foi fundada por Cristo.

Ficar confuso ou desapontado com um papa é coisa que não falta na história da Igreja. Mas os católicos que imaginam que eles é que têm a autoridade para estabelecer a fasquia canónica pela qual o ensinamento deste ou de qualquer outro papado pode ser julgado estão simplesmente a demonstrar que afinal de contas sempre foram protestantes e que a sua visão da autoridade é a mesma que caracteriza em demasia a política americana, a ideia de que a função da autoridade é fazer o que eu mando e esmagar os meus opositores.

A Igreja nem sempre foi bem servida pelos seus papas. Mas por outro lado, sempre esteve bem pior nas alturas em que cedeu às vozes moralistas da multidão – especialmente quando clamam “crucifica-o”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 12 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 3 February 2016

Não é Preciso Gostar do Papa

Randall Smith
Deixem-me esclarecer uma coisa: Não é preciso gostar do Papa. Não é preciso gostar da maneira como ele fala com os jornalistas, da maneira como fala com em público ou do tipo de sapatos que usa. Nem é necessário gostar da forma como aborda diferentes assuntos. Mas é preciso respeitar a autoridade do seu cargo quando ele a exerce de forma oficial.

Ao fazer esta afirmação estou simplesmente a repetir o que o Papa João Paulo II escreveu em Ad Tuendam Fidem, um documento composto com o propósito de “proteger a fé da Igreja Católica contra os erros que se levantam da parte de alguns fiéis”, considerando ser “absolutamente necessário que, nos textos vigentes do Código de Direito Canónico (…) sejam acrescentadas normas, pelas quais expressamente se imponha o dever de observar as verdades propostas de modo definitivo pelo Magistério da Igreja”.

Daí que na Profissão de Fé da Igreja podemos encontrar esta afirmação: “Adiro com submissão da vontade e do intelecto aos ensinamentos aos ensinamentos que o Pontífice Romano ou o Colégio Episcopal enunciam no exercício do seu Magistério autêntico, mesmo que não tencionem proclamar esses ensinamentos por um acto definitivo”. Aliás, de acordo com a Lumen Gentium, “esta religiosa submissão da vontade e do entendimento é por especial razão devida ao magistério autêntico do Romano Pontífice, mesmo quando não fala ex cathedra; de maneira que o seu supremo magistério seja reverentemente reconhecido, se preste sincera adesão aos ensinamentos que dele emanam, segundo o seu sentir e vontade; estes manifestam-se sobretudo quer pela índole dos documentos, quer pelas frequentes repetições da mesma doutrina, quer pelo modo de falar.”

Um católico desapontado com o Papa é um católico desapontado. É uma coisa relativamente frequente na história da Igreja. Mas um católico que imagina que participa mais inteiramente do que o Papa no carisma da autoridade magisterial dada pelo Espírito Santo ao próprio Papa, e que decide que ele ou ela é que tem autoridade para estabelecer a fasquia pela qual os ensinamentos oficiais de um pontificado podem ser julgados (e rejeitados), está a cometer o mesmo erro que Lutero. É o mesmo erro cometido por muitos teólogos liberais, que se estabeleceram como a pedra de toque, a fasquia, a autoridade, e o Papa, seja quem for, deve, insistem, pôr-se de acordo com o que eles pensam, ou então ser cuspido como se fosse uma peça de fruta estragada. Este é o caminho da loucura e da divisão.

Devemos aprender tudo o que podemos dos ensinamentos da Igreja, cada bocado de sabedoria. Devemos deixar-nos envolver e desafiar, especialmente quando estes repetem algo que foi ensinado insistentemente por Papas cuja santidade e sabedoria estão acima de qualquer suspeita.

E, francamente, se alguém estiver em desacordo com algum desses ensinamentos deve estar pronto a fornecer contra-argumentos sérios em vez de simplesmente dar aso a expressões infantis de desacordo e desapontamento. Escusado será dizer que a citação descontextualizada de documentos de papas que estavam a lidar com problemas séculos atrás para convencer os católicos contemporâneos de que fazem parte de uma Igreja corrupta é tão convincente como ver protestantes evangélicos a citar textos bíblicos fora de contexto para convencer os católicos em geral de que pertencem a uma igreja corrupta.

De facto, as semelhanças entre o protestantismo e muitas das formas contemporâneas de tradicionalismo antipapal são maiores do que se poderia esperar. É importante recordar que Lutero não tinha qualquer intenção de fundar uma igreja “protestante”, antes pensava em si mesmo como um conservador a reformar a verdadeira Igreja que se tinha perdido no caminho ao fazer acrescentos corruptos à tradição autêntica.

Da mesma maneira, muitos dos ditos “tradicionalistas” vêem-se a si mesmos como estando a preservar a tradição católica autêntica que a dada altura se perdeu – apesar de muitos destes “tradicionalistas” olharem apenas para um período da história da Igreja (normalmente até bastante recente) ou para um documento em particular como a única fasquia que define “a tradição”, tal como Lutero clamava por uma igreja cristã “pura” que imaginava que tinha existido nos primórdios da Igreja, logo a seguir à morte de Cristo (mas que de facto nunca houve) e para as epístolas de Paulo (como ele, Lutero, as entendia).

Se é um “conservador” que acha mais importante o “conservadorismo” ao estilo americano do que ser católico, isso é consigo. Mas aí não tem margem para responsabilizar o liberal que acha mais importante o “liberalismo” à americana do que ser católico. Se é católico, seja católico, e os católicos têm a tradição magisterial e apostólica. A Igreja não é um clube, uma seita ou um partido político.

Por estas razões e por outras, não pode permitir que a sua irritação com o estilo pessoal de qualquer Papa em particular, mesmo que faça coisas que eu e você possamos achar tolices, o distraia dos ensinamentos oficiais deste ou qualquer outro pontificado. Nem sempre temos o Papa que queremos. Às vezes levamos com um pescador tonto que negou três vezes que conhecia Cristo precisamente quando Jesus mais precisava dele. Não acreditamos no homem, independentemente do quão sábio ou santo ele possa ser. A nossa fé encontra-se na promessa de Cristo de estar com a Sua Igreja até ao fim dos tempos e de enviar o seu Espírito para a guiar.

Se acha que há problemas na Igreja (e há sempre, porque somos um povo peregrino), então jejue e reze. Redobre os seus esforços para viver a sua vocação em santidade. Mas se acha que vai ajudar a Igreja com especulação infindável sobre a política interna do Vaticano ou lamentos intermináveis sobre várias pessoas na cúria, então está a deixar que o espírito de divisão penetre onde deve estar apenas o espírito da união e da caridade.

Deixe o Espírito Santo guiar a Arca da Igreja através da actual tempestade. Já temos preocupações suficientes para cultivar as vinhas no nosso próprio quintal.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez na quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 20 October 2014

O Sínodo, Eu, a Nena e o Peu

Eu sou do tempo em que os sínodos eram chatos...

Lembro-me de vários sínodos da Igreja ao longo da última década e a única coisa que todos tiveram em comum é que eram aparentemente inúteis e profundamente maçadores.

Claro que para os bispos que neles participavam havia de haver alguma utilidade, nem que fosse pelo facto de estarem juntos e conhecerem-se melhor, aprofundando este ou aquele tema, mas quem é que se lembra, sinceramente, de algo de novo ou de marcante que tenha saído do sínodo sobre a Eucaristia?

Mas depois veio o Papa Francisco e o sínodo para a família e algo me diz que nada vai ser igual.

De positivo, por isso, temos esta animação toda, para começar. Temos verdadeiras trocas de ideias, temos bispos “à pancada”, como acontecia antigamente nos concílios ecuménicos decisivos. Temos um modelo em que, a confiar no que o Papa tem dito, aquilo que sai do sínodo vai mesmo ser tido em linha de conta para qualquer decisão final.

Em relação à temática tivemos vários meses com a Igreja a aprofundar temas que nos tocam a todos, porque a família é verdadeiramente a célula base da sociedade e quando está mal é esta que sofre.

Mas nem tudo foi bom. É natural haver diferenças de opinião e até discussões, mas é um bocado triste ver que mesmo entre os sucessores dos apóstolos há politiquices e manhas. Eu até acredito que seja inevitável, que seja sempre assim, até certo ponto, mas quando fica exposto custa mais. A leitura do relatório intercalar, com o cardeal Peter Erdo a ter de assumir a autoria de um texto com o qual claramente estava em profundo desacordo; o facto de se ter produzido um documento que, a julgar não só pelas palavras de vários bispos mas também pela votação final, não traduzia minimamente a opinião dos padres conciliares... tudo isso custa a ver.

Porque não se podem esquecer, os nossos bispos, que muita gente ficou com esperanças de que este sínodo se traduzisse numa alteração das regras em relação a questões que são para elas feridas em aberto. Não estou agora a ajuizar se essas mudanças seriam benéficas ou não, apenas que havia muita gente a quem foi dada esperança que afinal era infundada. Isso conduz a desilusão e a revolta.

Mas talvez uma das coisas mais lamentáveis a que assistimos foi o extremar total de posições, entre liberais e conservadores. Se me parece, sinceramente, que muitas das “manobras” a que me referi acima foram levadas a cabo pelos liberais, também não foi bonito ver a reacção dos defensores do status quo. Um caso extremo foi em relação ao Cardeal Kasper, figura de proa da “mudança”, que fez umas declarações muito parvas sobre os africanos, mas que não eram muito mais do que isso, parvas, e acabou por ser acusado de tudo, incluindo “racismo e xenofobia”. O triunfalismo nesses dias dos que durante tanto tempo tinham vivido com o medo de que a sua linha vencesse no sínodo era palpável, e desagradável.

O discurso final do Papa foi, neste sentido, absolutamente brilhante e é talvez o texto com que mais me identifico em todo este processo.

A proposta do Kasper, de haver casos em que as pessoas em uniões irregulares pudessem comungar, nunca me convenceu inteiramente. Não que eu seja frontalmente contra a ideia, (como foi evidente quando escrevi este texto, que deu uma longa discussão e desembocou neste), mas porque o seu raciocínio nunca me pareceu suficientemente sólido. Havia coisas vagas que simplesmente deixava no ar e não conseguia tranquilizar quem dizia que na prática o sistema iria fragilizar a ideia da indissolubilidade do casamento.

Pior foi a campanha em que depois se lançou, dando entrevistas atrás de entrevistas, mas reagindo como que ofendido quando o “outro lado” ripostava; alegando que falava em nome do Papa (mesmo que ele saiba que o Papa concorda com ele, o Papa tem boca para falar e não precisa da sua ajuda)... foi-me desencantando cada vez mais e penso que ele acaba por ser o maior derrotado de toda esta situação, o que é pena, porque a história de um sínodo não devia ter de ser contada através de vencedores e derrotados.

Foram duas semanas muito intensas, para quem viveu este sínodo de perto. No meu caso a acompanhar conferências de imprensa na net, a seguir ao máximo o que se escrevia nas redes sociais, nos órgãos de comunicação especializados, etc. E a verdade é que ao fim destes dias todos, em que todos falavam só de rupturas, uniões irregulares, casos dramáticos e complexos, comecei, talvez tenhamos começado todos, a perder a perspectiva daquilo que estava verdadeiramente em causa.

Por isso é que tenho a agradecer à minha cunhada e ao meu cunhado terem marcado o casamento para o dia 18 de Outubro. Certamente não faziam ideia quando agendaram, mas o facto de eu ter passado o sábado a festejar o seu casamento e não a acompanhar a recta final do sínodo fez-me mais bem do que se possa imaginar.

Sentado naquela igreja, a ver uma assembleia repleta de pessoas com perfeita noção do que se estava a passar; a responder em uníssono na celebração; com música sacra variada mas sempre belíssima (apesar de me terem colocado no coro); com cinco sacerdotes à volta do altar, sinal de que estávamos a assistir ao final de uma caminhada que foi feita sempre em Igreja; com uma festa a seguir que foi divertidíssima, sem excessos, com uma diversão sempre saudável e um entrosamento perfeito entre gerações.

Olhar para aqueles dois noivos, um homem e uma mulher, como Deus quis, a jurar fidelidade e amor para toda a vida, como Deus quis, unidos não só por um amor multifacetado mas também por uma profunda fé; Sabendo que estávamos diante de duas pessoas que têm a mais perfeita noção daquilo que estão a fazer; Sabendo que embora nada esteja garantido nesta vida, ninguém hesitaria em dizer que acreditamos que sim, este casamento é até que a morte os separe; Sabendo que há desejo de ter filhos, amor à vida e generosidade para a acolher.

Enquanto dançava na pista com a minha filha de seis anos, encantada com tudo aquilo, eu pensava nas duas semanas que se passaram e dizia para mim: “Deus queira que os bispos que lá estão possam viver experiências destas. Deus queira que aqueles que estão a falar do casamento não saibam só o que são os casos perdidos, complexos, nulos ou irremediáveis. Deus queira que eles tenham sempre presente que quando se fala de casamento é disto que se fala. Porque se assim for, estamos bem. Mas se não for, então algo está mal.”

Sim, eu lembro-me de quando os sínodos eram maçadores e chatos. E ainda bem que já não são! Mas mais do que isso, obrigado, Nena e Peu, por terem salvo o sínodo para mim e por terem mostrado a todos os vossos convidados o que Deus quer para os seus filhos tão amados.

Partilhar