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Tuesday, 2 August 2022

Patriarcado de Lisboa sem direito a Silly Season

Costuma-se dizer que os meses de Verão são “silly season”, em que há escassez de notícias “sérias”. No que diz respeito à Igreja, isso não tem correspondido à verdade.

Em Portugal tem reinado o tema dos abusos sexuais. A acrescentar aos dois casos de que falei no último mail, ressurgiu um caso que radica dos anos 90 e que colocou o Patriarca sob alguma pressão, por não ter comunicado o caso às autoridades.

Estes três casos levantam algumas questões, que abordei neste artigo, deixando também algumas pistas com o objectivo de contribuir para o esclarecimento e melhor abordagem da questão em Portugal.

Hoje publiquei outro artigo no blog, em que analiso um pouco não o artigo que deu origem à mais recente polémica, mas sim a campanha que tem sido feita em torno do Patriarca que parece ter como objectivo pressioná-lo a demitir-se. A meu ver é uma campanha injusta e em nada beneficiaria as vítimas ou a melhoria da situação.

Entretanto tivemos hoje nova polémica, com o Patriarcado a informar que um padre foi suspenso depois de ter sido acusado de violação de uma mulher, maior de idade. A existência e o conteúdo do comunicado parecem indicar que o Patriarcado está a aprender com erros do passado e a apostar numa maior transparência.

E enquanto tudo isto se passava em Portugal, o Papa Francisco esteve no Canadá numa visita que marca uma nova etapa na relação da Igreja com abusos de toda a natureza que foram cometidos contra pessoas vulneráveis. Uma viagem que constitui um “passo fundamental rumo à reconciliação”, diz um bispo canadiano.

Tendo estado num campo de férias a semana toda, não pude acompanhar a viagem como gostaria, mas recomendo este resumo feito pela sempre brilhante Aura Miguel, na Renascença.

Deixo-vos com os dois artigos do The Catholic Thing que foram publicados desde o meu último mail. O do Pe. Jay Scott Newman é uma resposta a um artigo anterior, que também publiquei no blog. Esse artigo argumentava que sendo bom, claro, o conhecimento das escrituras não é essencial para a vida de um cristão. Newman contrapõe que “quem ignora as Escrituras ignora a Cristo”.

O artigo da semana passada é de David Bonagura, que argumenta que neste momento da vida americana, em que o aborto deixou de ser um direito constitucional, é fundamental o movimento pro-vida demonstrar que não defende que as mulheres – que são sempre vítimas também – sejam julgadas e eventualmente encarceradas por abortar. Vale bem a pena ler.

O Hospital de Campanha está de férias, e volta em Setembro, se Deus quiser, mas podem ouvir episódios antigos aqui.

Wednesday, 27 October 2021

Papa no Canadá para acelerar reconciliação

O Papa vai ao Canadá para se encontrar com representantes das tribos que exigem um pedido de desculpas pelo envolvimento da Igreja Católica no sistema de colégios internos que existiam para impor a cultura ocidental às suas crianças, e onde se praticaram abusos e violência em larga escala.

Estamos na Semana dos Seminários. Dizem os responsáveis que os candidatos ao sacerdócio são menos que antigamente, sim, mas de novos meios sociais e culturais.

Começou o processo sinodal em Lisboa. D. Manuel Clemente quer que este e as JMJ avancem em conjunto, sendo que para as JMJ isso pode ser em passo de corrida.

Os bispos do Reino Unido manifestaram-se contra o projeto de legalização do suicídio assistido.

Vivemos num tempo em que acreditamos que o conhecimento é que nos ilumina. Mas haverá conhecimento que nos cega? O padre Paul Scalia acredita que sim e explica porquê neste artigo do The Catholic Thing em português, partindo do episódio do cego Bartimeu.

Friday, 2 July 2021

Gritos pelo Líbano e Hotel genocídio

Os líderes cristãos do Líbano estiveram juntos ontem em Roma para dar um grito por aquele país em crise. Um momento ecuménico inédito que vale a pena recordar.

Hoje Francisco recebeu o primeiro-ministro do Iraque, meses depois da sua própria histórica visita ao país.

Os símbolos das JMJ vão estar em tour pelo país. Saiba quando é que vão estar na sua diocese.

A cadeia de hotéis Hilton está a ser acusada de cumplicidade no genocídio dos uigures na China.

Continua a dar que falar a questão das crianças indígenas retiradas às famílias no Canadá. Os líderes das comunidades vão a Roma em Dezembro para tentar convencer o Papa Francisco a pedir desculpa pelo papel desempenhado pela Igreja na gestão das escolas.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing. Elizabeth Mitchel encoraja-nosa “lançar as redes” de novo, mesmo quando tudo nos parece perdido.

Wednesday, 30 June 2021

Igrejas incendiadas no Canadá, FNO no Porto

Sete igrejas foram incendiadas no Canadá nos últimos dias. Calcula-se que seja uma reação à descoberta de mais de mil cadáveres de crianças enterradas em valas comuns junto a antigas escolas residenciais. Tudo explicado aqui.

Depois do enorme sucesso que foi a edição em Lisboa, o Faith’s Night Out regressa ao Porto este fim-de-semana.

O Papa Francisco pede investimento na amizade social, para se evitar jogos de poder e, na audiência geral desta quarta-feira, elogiou publicamente o seu motorista.

Hoje marca o fim do mês em que as grandes corporações se aproveitam da bandeira arco-íris para tentar vender mais cerveja e carros à custa da comunidade homossexual. Vale a pena refletir um pouco sobre o que significa esta aproveitamento e a pressão social para o aceitar. Foi o que tentei fazer aqui, com a ajuda de Vaclav Havel.

No artigo da semana passada do The Catholic Thing pudemos ler a receita para fazer frente ao desespero social. Esta semana é a vez de Elizabeth Mitchel nos explicar porque é que é precisamente quando tudo parece perdido que se torna importante confiar e obedecer à ordem de Jesus para lançar as redes.

Monday, 7 June 2021

Adeus Shekau, não temos saudades

O Papa Francisco referiu, no domingo, a terrível descoberta de centenas de corpos de crianças numa escola católica no Canadá, que servia para “civilizar” jovens indígenas.

Francisco recordou ainda as vítimas de um atentado no Burkina Faso.

Mantém-se a situação difícil em Cabo Delgado. Um sacerdote diz que centenas de crianças estão a ser raptadas para serem soldados, ou noivas de soldados. No campo do terrorismo islâmico, temos uma notícia “interessante” da Nigéria… Depois de anos a ser perseguido pelas autoridades, o líder do Boko Haram acabou por ser morto por ordem do… Estado Islâmico!

A Human Rights Watch está preocupada com a situação dos refugiados muçulmanos de etnia rohingya, no Bangladesh.

Hoje aproveito também para vos sugerir duas edições do programa da minha colega e amiga Aura Miguel. Um, com o responsável da comunicação do Opus Dei, Pedro Gil, e outro, com a deputada municipal de Lisboa, Aline Galasch-Hall de Beuvink, que fala sobre a tragédia da “grande fome” que matou milhões de ucranianos durante o regime soviético, e da qual os seus avós foram sobreviventes.

E não deixem de ler o artigo da semana passada do The Catholic Thing em português, sobre o caso que está perante o Supremo Tribunal americano, que pode ter grandes efeitos na lei do aborto naquele país.

Wednesday, 30 October 2019

Secularismo Militante e Repressão Religiosa na América Latina

Eric Patterson
Quando pensamos em locais do mundo onde a expressão de fé é restringida, não se costuma pensar no Hemisfério Ocidental. Os Estados Unidos têm uma população religiosamente ativa. A América Latina está adornada com a arte e a arquitectura do Catolicismo. Mas olhando mais de perto vemos tendências antirreligiosas – ou mesmo casos de perseguição aberta – em várias cidades da América Latina.

Existem pelo menos dois tipos de perseguição religiosa. A primeira é levada a cabo por pessoas que reclamam uma justificação religiosa para fazer mal a outros, como no Irão. A segunda acontece em países como na China, onde indivíduos ou comunidades são perseguidos por causa da sua religião. O Estado Islâmico exemplifica o pior do pior: um cabal que assenta a sua autoridade em justificações explicitamente religiosas para poder praticar a violência, ao mesmo tempo que persegue comunidades com base na sua identidade religiosa.

Felizmente a maior parte da América Latina não tem de lidar com conflitos ou perseguição religiosa como vemos noutras partes do mundo. Porém, olhando para a paisagem atual da América Latina, existem exemplos de perseguição explícita. Esta repressão é normalmente da responsabilidade dos velhos secularistas: autoritários movidos pelo dogma materialista, secular, anti-fé da esquerda dura do Século XX.

Nalguns sítios, sobretudo em Cuba, existem restrições legais pesadas que foram desenhadas para colocar os crentes sempre em risco de violar a lei. Depois vemos esses cidadãos a serem perseguidos pela polícia, multados e detidos. Por exemplo, de acordo com o Departamento de Estado dos Estados Unidos o gabinete de Assuntos Religiosos do Partido Comunista Cubano e o Ministro da Justiça recorrem a “ameaças, restrições às viagens internacionais e internas, detenções e violência contra alguns líderes religiosos e seus seguidores, restringindo ainda os direitos dos reclusos de praticar livremente a sua religião. Os líderes religiosos e dos media dizem que o governo continua a assediar ou deter membros de grupos religiosos que lutam por mais liberdade política e religiosa.”

É extremamente difícil registar uma igreja, arrendar propriedades, abrir uma nova igreja, renovar edifícios que já existem ou construir uma igreja nova em Cuba, seja protestante ou católica.

Hugo Chavez e os seus sucessores têm sido muito críticos da Igreja Católica quando isso lhes convém. A Venezuela também tem assistido a um aumento grande de anti-semitismo, em larga medida devido a propaganda antijudaica e anti-Israel por parte do Governo. Tanto na Venezuela como na Nicarágua figuras religiosas, tanto clericais como leigas, têm sido investigadas, assediadas e nalguns casos acusadas e condenadas por tomarem posições públicas contra a corrupção.

Hoje o México é um local religiosamente diverso e vibrante, mas também existem casos de perseguição. Alguma desta é um legado da revolução (1910-1920) e das políticas secularistas de partidos do Século XX, tal como o PRI, que governou o país anos e anos, e o PRD socialista. De acordo com pelo menos um relatório contemporâneo o México é o local mais perigoso do mundo para padres católicos e para leigos, sobretudo por se oporem aos cartéis de droga e à sua violência e corrupção.

Melhor filme estrangeiro nos óscares de 2018
À parte disso, ainda existem no México sítios onde as autoridades locais punem – com espancamentos e prisão, entre outros – quem se converte do Catolicismo a outra fé. Infelizmente isto é um problema global: o uso de violência governamental para inibir ou punir o direito fundamental de tomar decisões religiosas, incluindo de mudar de religião, que sejam consistentes com as suas consciências.

Mais a norte vemos perseguição menos violenta, mas há uma tendência para o secularismo violento que procura empurrar as pessoas, instituições e ideias religiosas para fora da praça pública. Normalmente isto é feito com expedientes jurídicos, usando como armas novas regulações de forma a retirar aos crentes o seu ganha pão e os seus direitos religiosos.

No Canadá, por exemplo, o Quebec passou recentemente uma lei que impede os funcionários públicos de usar símbolos religiosos em serviço. Trata-se de uma clara violação da Constituição do Canadá, uma vez que impede um cristão de usar um pequeno crucifixo ao pescoço, um judeu de usar um quipá e uma muçulmana de cobrir o cabelo no local de trabalho.

Nos Estados Unidos temos visto leis e processos semelhantes, forçando empresas privadas, organizações religiosas e instituições privadas de solidariedade social a violar as suas convicções mais profundas ao obrigá-las a pagar por contracetivos ou sobre se os empregados têm ou não a obrigação de cumprir com os valores religiosos dos seus empregadores.

Veremos a mesma coisa na América Latina num futuro próximo? Infelizmente, parece que sim. O primeiro sinal é o aumento do secularismo das populações urbanas e das elites. Segundo organizações como a Pew, e outras, há dados que apontam para níveis muito baixos de prática religiosa entre católicos, sobretudo em cidades influentes como Buenos Aires, Rio de Janeiro e La Paz. As sondagens mostram números cada vez maiores de pessoas que nem sequer fingem identificar-se culturalmente como católicas, preferindo o termo “secular”: Uruguai (42%), Cuba (25%), Chile (25%), Argentina (21%), e quase 10% no Haiti, Brasil, Venezuela, Equador e Suriname.

Em segundo lugar, estamos a assistir uma campanha jurídica agressiva em muitas capitais, sobretudo no que diz respeito a questões de vida, casamento e orientação sexual/identidade de género. Só em 2018 o Uruguai e o Chile aprovaram leis que tornam mais fácil aos transgéneros mudar as suas identidades nos documentos oficiais; tribunais em Costa Rica e no Equador declaram inconstitucionais proibições de casamentos entre pessoas do mesmo sexo e um tribunal nas Bermudas declarou a inconstitucionalidade de uma lei que restringia o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Os media estão a desempenhar o seu papel: o melhor filme estrangeiros dos óscares o ano passado foi para um filme chileno sobre rejeição e triunfo de transgéneros que se tornou uma sensação na região.

Num artigo em que documenta orgulhosamente todos estes avanços progressistas, o autor avisa que “estão a surgir sinais de uma contramaré conservadora. Liderada por evangélicos e católicos conservadores, os cidadãos estão a organizar-se para exigir o fim de políticas progressistas sobre diversidade de género, sexualidade e direitos reprodutivos”. O próximo passo será, logicamente, catalogar os ensinamentos religiosos sobre sexualidade como “discurso de ódio”. As primeiras tentativas já chegaram aos tribunais.

Os defensores da liberdade religiosa apoiam o direito fundamental de todos os cidadãos, incluindo aqueles com quem alguns discordam, apresentarem argumentos inspirados na sua fé na praça pública. Isto devia estar acima de posições religiosas ou partidárias, sejam elas conservadoras ou progressistas. Contudo, os novos secularistas da América Latina, tal como os antigos, estão a tentar usar o poder coercivo do Governo para impor uma nova ideologia à população, uma que ameaça claramente uma visão de fé da vida, da família e das instituições fundamentais da sociedade.


(Publicado pela primeira vez na segunda-feira, 16 de Setembro de 2019 em The Catholic Thing)

Eric Patterson, é vice-presidente executivo da Religious Freedom Institute, em Washington, D.C. Entre os 14 livros que já escreveu incluem-se “Latin America’s Neo-Reformation: Religion’s Influence onContemporary Politics” e “Politics in a Religious World: Building a ReligiouslyInformed U.S. Foreign Policy”.


© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Thursday, 9 May 2019

Asias há muitas, infelizmente

O Papa emitiu hoje um documento com novas orientações e normas – com força de lei canónica – para se lidar com casos de abusos. Os especialistas – até alguns críticos do Papa – parecem concordar que é um documento muito bom. Ainda bem!

Ontem tivemos a fabulosa notícia de que Asia Bibi já se encontra em segurança no Canadá. Foi quase uma década de sofrimento que para ela já acabou. Mas infelizmente o dela é apenas um de muitos casos que existem. Falei com dois paquistaneses cristãos que se encontram na Europa a tentar encontrar soluções para os jovens da sua comunidade poderem sair do país para estudar, porque mesmo nas universidades são vítimas de discriminação.

A Conferência Episcopal quer mais católicos a intervir para ajudar casais a superar as suas crises conjugais e a Cáritas quer tudo a votar nas europeias de dia 26!

Ontem publiquei mais um artigo do The Catholic Thing em português. Matthew Hanley sublinha algumas das contradições inerentes ao movimento que nos quer impor a fantasia de que se possa mudar de sexo e mostra como estamos já numa era em que dizer a verdade pode ser considerado crime.

Tuesday, 24 April 2018

Pray for Alfie, pray for Toronto

Nove mortos e 16 feridos em Toronto
Quando ler este email é muito possível que Alfie Evans esteja morto. Isto apesar de o Governo italiano lhe ter concedido cidadania e de o Papa ter feito mais um apelo para que o Reino Unido permitisse que ele fosse transferido para Roma. Um caso muito difícil. Continuo a achar que falta informação, mas com base na que tenho, sou da opinião de que neste caso, ao contrário do que se passou com Charlie Gard, os pais da criança têm razão e o hospital não. O Henrique Raposo pensa o contrário. Posso estar enganado.

Entretanto a tragédia abateu-se sobre Toronto, com um homem a atropelar várias pessoas, matando pelo menos nove delas. Não se sabe a motivação do ataque, ainda. O arcebispo local pede orações pelas vítimas.

Decorreu esta segunda-feira na Universidade Católica uma interessante conferência sobre a eutanásia. Um médico holandês alertou para o perigo de seguir o exemplo do seu país, o Patriarca espera que estas e outras ações sirvam para alertar e informar as consciências de políticos e sociedade e o ex-bastonário dos médicos, Germano de Sousa, diz que mesmo que a lei mude, a Ordem deve punir os médicos que praticarem a eutanásia.

O Papa nomeou três mulheres para a Congregação para a Doutrina da Fé e pediu o fim da violência na Nicarágua, no domingo.


Wednesday, 29 November 2017

Make America Christian Again

David Warren
O erro é um grande dissipador de tempo e de energia. Quem o disse foi Goethe, numa carta que escreveu a alguém, mas poderia ter sido outra pessoa qualquer, em qualquer outro lado. Sim, Goethe diz que num mundo em que o erro se repete de forma incessante, a verdade deve ser repetida frequentemente.

Recordei-me desta máxima devido ao meu péssimo hábito de ler as notícias – outra actividade que dissipa tempo e energia. As notícias confundem-nos. Certamente não é preciso dar exemplos.

Há tolos santos, embora actualmente sejam difíceis de encontrar; há tolos triviais; e depois há tolos maliciosos. Estes útimos são grandes dissipadores, não só deles mesmos. Faríamos bem em ignorá-los totalmente, mas o problema é que tendem a ser ambiciosos. É preciso tempo e energia para os travar.

Na América de hoje (enquanto Canadiano incluo-me neste continente), parece que o erro está consagrado na Constituiçao. Está expresso como separação entre Igreja e Estado. Isso significa uma coisa para os seus autores, que eram cristãos, e outra para os seus descendentes pagãos.

Ao excluir da vida pública os próprios princípios sobre os quais se fundou a sociedade americana, o erro fica com uma espécie de monopólio, para ser imposto por um sem número de departamentos de Estado.

Aqui neste “espaço seguro” somos maioritariamente católicos, e os pais fundadores (pré e pós-revolução) eram maioritariamente protestantes, mas as verdades fundamentais a que se referiam atravessavam fronteiras confessionais.

A Virgínia, o Massachusetts e o Québec eram regiões bem distintas, tanto em termos eclesiais como gerais, mas para um observador da China seriam bastante semelhantes. A noção do homem num mundo decaído, nascido escravo do pecado e a precisar de redenção, era comum a todas as facções. Daqui seguiam muitas particularidades.

Entre os poucos filmes que já vi inclui-se “Nashville”, realizado pelo falecido Robert Altman, para o bicentenário dos Estados Unidos. Entre os seus enredos inclui-se a odisseia de uma jornalista pretensiosa da BBC (desempenhada por Geraldine Chaplin), em busca da “verdadeira América”, mas constantemente a enganar-se.

Num certo domingo de manhã ela encontra-se num gigantesco parque de estacionamento, cheio de autocarros escolares amarelos. Encontra nestes monstros metálicos um grande simbolismo.

Mas depois a câmara mostra-nos várias igrejas – baptistas, metodistas, episcopalianas, etc. – em que se encontram os vários protagonistas cómicos do filme. Todos estão a cantar, a rezar e a ouvir homilias. Aí vemos a “verdadeira América” que a menina bem de Inglaterra não tinha conseguido ver.

Refiro o filme apenas porque é tão recente; afinal de contas, 1976 não foi assim há tanto tempo. Eu lembro-me da data e estou na casa dos 60. Lembro-me que quando estava a crescer em Ontário o que era normal era ir à Igreja. Eu não fui criado por cristãos praticantes, mas percebia que isso é que era fora do comum.

De certa forma os meus pais eram liberais à moda antiga, anticlericais por disposição e a minha mãe, na verdade, era conscientemente ateia, mas penso que nunca lhes passou pela cabeça sugerir que a cultura religiosa do continente inteiro tinha de ser destruída. Até dizia que “os crentes são mais bem-comportados”.

Isso porque dão por adquiridas coisas sobre as quais os outros precisam de reflectir – com todos os erros que se seguem naturalmente quando alguém precisa de reinventar a moralidade a partir do zero. Os crentes tinham noções básicas do bem e do mal, implantadas desde pouco depois do nascimento. Até as crianças de lares sem fé absorviam estes valores da sociedade em geral.

Sim, a maioria dos crentes era hipócrita; e também eram ateus, na prática, naqueles momentos em que se esqueciam que Deus nos observa. Esta não é uma particularidade dos cristãos, mas da condição humana: encontramo-nos frequentemente no erro.

E é por isso que Goethe – também ele um liberal à antiga – diz que devemos regressar à verdade, como quem desperta do sono, sentindo-se refrescado. Domingo, “todo o santo Domingo”, era o nosso toque de despertar.

Não sou um daqueles parvos ingénuos que pensa que a América simplesmente pensou duas vezes e concluiu, de forma democrática, que a religião era inconveniente e dispensável. Deu muito trabalho minar a religião, resultado de uma “longa marcha pelas instituições” dos progressistas. Foi preciso muita capitulação das nossas figuras de autoridade.

E como todos sabem – e como todos os progressistas gostam de proclamar – a história não anda para trás. Não há nada na antiga América que se vá reedificar espontaneamente. Não foi sozinha que se edificou, foi resultado do trabalho e da aspiração humana, com raízes muito anteriores à sua própria descoberta e povoação.

Muita coisa foi destruída no espaço de duas gerações. Não estamos perante uma transição geracional, mas civilizacional. Quando abandonamos o Cristianismo, o nosso passado cristão torna-se incompreensível para nós. Os nossos antepassados tornam-se impossivelmente estranhos. A sua prática religiosa torna-se um factor de alienação. Os cristãos sobreviventes tornam-se uma seita exótica minoritária que precisa de ser cuidadosamente regulada e vigiada pelo Governo.

O slogan “Make America Great Again” pode ter resultado durante a última eleição presidencial, mas são palavras vazias. Partem do princípio que houve uma América que em tempos foi grande. Talvez tenha havido, mas esta já não é a América. “Já não estamos no Kansas”

Mesmo o conceito de grandiosidade é vazio se não puder ser especificado. Estamos a falar de grandeza geográfica? Mas isso já somos. Económica? Mas já produzimos bens de gosto duvidoso em quantidades sem precedentes. Ou estaremos a falar de um conceito de virtude e de nobreza?

Claro que é isso, apesar da confusão. Mas sem um conceito claro do que é nobre e virtuoso continuamos desorientados. E estas coisas não virão do nada.

E é por isso que proponho um slogan alternativo, “Make America Christian Again”. E já que a história não anda para trás, concentremo-nos em fazê-la católica, desta vez. Caso contrário estaremos a dissipar tempo e energia. 


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 24 de Novembro de 2017 em The Catholic Thing)

© 2017 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 13 March 2017

Quatro anos de Francisco, de Roma a Cintra

Faz hoje quatro anos que foi eleito o Papa Francisco.

Para assinalar a data a minha colega Matilde fez uma lista de 10 pessoas ou povos que foram afectados pelo seu pontificado, desde o jovem evangélico do Brasil ao Jeb Bush.

É já esta quarta-feira que é lançado o livro de Aura Miguel sobre as suas conversas com o Papa Francisco durante as viagens papais.


Os bispos do Canadá estão revoltados com o primeiro-ministro Trudeau por este ter prometido 450 milhões de euros para ajudar a abortar pessoas no mundo em desenvolvimento.

Durante os últimos dias falou-se muito da Cáritas de Lisboa. Ora D. Manuel Clemente saiu em defesa da instituição, o que é importante numa altura em que está prestes a começar o peditório anual.

Tuesday, 31 January 2017

Manif contra a eutanásia, amanhã

Clicar para aumentar
Vai haver amanhã uma manifestação contra a eutanásia, no dia em que o assunto começa a ser discutido no Parlamento. É em cima da hora, é a meio de um dia de trabalho… é tudo isso, mas é o que há. Se puder ir, vá; se não puder, divulgue. É o meu caso.

A paróquia de São Brás, em Évora, faz 50 anos. Há todo um programa de festejos.

Quem também faz 50 anos em breve é a Universidade Católica, que também organizou uma conferência para assinalar o facto. Tudo aqui.

O homem de 27 anos que ontem matou seis pessoas numa mesquita, no Canadá, é admirador de Trump e de Marine Le Pen, aparentemente.

Wednesday, 22 October 2014

Reflexões sobre o regresso dos radicais

Orgulhosamente canadiano!
O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, diz que alguns dos portugueses que estão nas fileiras do Estado Islâmico querem voltar a Portugal.

Se isso acontecer é possível que incorram em acusações legais, mas certamente terão de ser alvos de vigilância e acompanhamento psicológico, alerta Cristina Sá Carvalho.

O imã David Munir, por sua vez, diz que a comunidade não lhes virará as costas e dará apoio espiritual se for solicitado, tentando explicar que o que fizeram não é islâmico, mas confessa que não existe formação na comunidade para lidar com situações de radicalização.


Entretanto está neste momento em curso uma gigantesca operação policial para capturar atiradores na capital do Canadá que esta tarde mataram um soldado. Não há certezas quanto à motivação, mas anteontem dois soldados foram atropelados por um muçulmano radicalizado, por isso tudo indica que se trata de mais um acto de terrorismo.

Mudando de assunto, o Patriarca de Lisboa falou ontem sobre o sínodo, elogiando o ineditismo daquele encontro dos bispos.

E numa altura em que o mundo parece estar de pernas para o ar (atentados terroristas no Canadá?!?!?!), temos Anthony Esolen, do The Catholic Thing, para nos dar alguns traços de sanidade. O que é a sanidade?  Adaequatio mentis ad rem: A adequação do intelecto à realidade.

Tuesday, 21 October 2014

De corruptos e mau hálito

Ah! Corrupto...
O Vaticano publicou hoje o programa oficial da visita do Papa Francisco à Turquia. Francisco viaja no fim do mês de Novembro. O ponto alto é o encontro com o Patriarca Bartolomeu e não está prevista uma ida aos campos de refugiados na fronteira com o Iraque. Prevista é a palavra-chave.

Ser corrupto é como ter mau hálito. Quem o diz é o Papa, na altura em que era Arcebispo de Buenos Aires. A frase faz parte de um ensaio, publicado agora em forma de livro pela Gradiva.

O terrorismo islâmico chegou ao Canadá. Um soldado morreu depois de ter sido atropelado por um fundamentalista.

Friday, 9 May 2014

Distribuam a riqueza e deixem os bebés em paz

Pe. Angelo Favero
Morreu o padre Angelo Favero, conhecido por muitos lisboetas como o padre das confissões, na Igreja do Loreto, no Chiado. O sacerdote italiano estava em Portugal há mais de 60 anos, e morreu aos 98.

O Papa esteve hoje com Ban Ki Moon, em Roma, a quem pediu um maior esforço da ONU na redistribuição da riqueza e respeito pela vida desde a concepção até à morte natural. Isto na semana em que a ONU criticou a Igreja mais uma vez por ser contra o aborto.


Por falar em aborto, o líder do Partido Liberal no Canadá disse que não aceitará quaisquer candidatos às eleições de 2015 que sejam pró-vida. Ele considera o aborto, um “direito fundamental”.

O rapto das mais de 200 raparigas na Nigéria pelos islamitas do Boko Haram está a obter cada vez mais repercussões internacionais. O Parlamento português condenou o rapto e em Lisboa e no Porto, no sábado, realizam-se marchas pela libertação das jovens.

Wednesday, 2 April 2014

Um Tempo Para Destruir, Um Tempo Para Edificar

Anthony Esolen
Literalmente no centro das atenções, marchando pelas principais avenidas de Toronto, homens e mulheres homossexuais voltam a exibir os seus corpos e a simular os seus comportamentos favoritos, isto apesar de uma lei municipal que proíbe a nudez pública. Estas exibições de pseudo felicidade num mundo decaído são cansativas. Algumas pessoas estão preocupadas com o assunto. Temem a violação das augustas leis canadianas, e isso é algo a que as crianças não devem ser expostas. Pessoas envergonhadas que se preocupam com a etiqueta da legalidade quando as leis de Deus, o bem comum, o bem-estar da família e a decência humana foram postas de lado!

De acordo com um artigo publicado na Life Site News, os defensores da nudez admitem perfeitamente que o propósito da parada é mesmo de poderem expressar a sua “sexualidade lasciva e hedonismo”. “A sexualidade ‘na sua cara’ é o propósito da parada”, diz um dos promotores. Outro acrescenta: “Quem não gosta pode ficar em casa com os filhos e ver ‘padres a violar crianças’ na televisão”.

Entretanto os dirigentes da Associação de Professores Católicos de Ontário (OECTA) decidiram juntar-se às festividades. Dizem que querem mostrar-se solidários com o grupo mais – lá vem a palavra inevitável – “marginalizado” de pessoas na Igreja Católica. Para quem está nas margens, fartam-se de aparecer. Não se consegue abrir um jornal canadiano sem se ouvir falar deles, dia após dia. Não se pode ver televisão durante um dia no Canadá sem uma chamada de atenção para os homossexuais. Pelos vistos, não se pode frequentar uma escola católica em Ontário sem levar uma ensaboadela sobre o assunto.

Mas há muitos católicos que não são marginalizados. Não são, porque nem sequer chegam às margens da página. Não chegam sequer a uma nota de rodapé. São perfeitamente invisíveis. É como se não existissem.

São rapazes que – bom, são apenas rapazes. Ninguém no Canadá se preocupa com o seu bem-estar desde os dias em que a polícia montada andava a cavalo e os canadianos tinham uma cultura. São jovens que procuram seguir a lei moral, que são ostracizados daquilo que passa por vida social nas suas escolas e colégios. São filhos de pais divorciados. São esposos abandonados, os seus casamentos dissolvidos contra a sua vontade.

São católicos que anseiam por missas solenes. São lutadores pelos direitos dos nascituros, que ficam satisfeitos se pelo menos não forem tratados com nada pior do que indiferença pelos burocratas de carreira no cartório. São pais que querem que os seus filhos vivam num mundo são e saudável.

Ninguém lhes liga nenhuma. Ninguém faz paradas para esta gente. Nunca verão Ontário a homenagear os jovens homens e mulheres que mantiveram os seus corpos puros, que escolhem casar virgens. Nunca verão a OECTA a marchar ao lado de idosos que criaram os seus filhos e se mantêm fiéis aos seus votos. Não, estes católicos, lutando para ser fiéis num mundo sub-pagão, adorariam chegar sequer às margens.
Pensem bem no poder que os membros da OECTA detêm. São eles, não os bispos, os párocos ou os pais, que controlam as escolas “católicas” no Ontário. Mas como disse o Papa Leão XIII em Sapientiae Christianae (1890), cabe aos pais católicos “a autoridade exclusiva para dirigir a educação dos seus filhos, como for conveniente, de um modo cristão; e acima de tudo mantê-los afastados de escolas onde haja um risco” note-se, um “risco” e não uma certeza – “de que lhes seja dado a beber o veneno da impiedade”.

Participantes da marcha de
orgulho gay em Toronto

Mas as nossas escolas estão organizadas para a impiedade. Dão a beber veneno não por acidente, mas por princípio. Não lidam com liberdade, que apenas pode ser conquistada pela virtude e o ordenamento das paixões, mas desordem. “O prazer”, diz Leão XIII em Libertas praestantissimum (1888), torna-se “a medida do que é certo; e, dado um código de moralidade que tem pouco ou nenhum poder para controlar ou apaziguar as inclinações desregradas do homem, abre-se naturalmente caminho à corrupção universal”.

Por outras palavras, podemos confiar nos membros do OECTA, mas para corromper. Quem estiver interessado em rebolar no lodo da estupidez tem apenas que visitar o site de algumas das empresas que impingem manuais aos professores das nossas escolas, tanto públicas como privadas. Isso não deve surpreender ninguém. Quem está disposto a marchar orgulhosamente pelas ruas de Sodoma não hesitará em continuar a parada, sob a capa dos livros que indica aos seus alunos.

Não há maneira de reformar um grupo como a OECTA. É evidente que temos o dever de tentar livrar indivíduos da estrada que leva ao fogo que não se apaga. Mas quando uma organização como esta começa a endossar cheques a belzebu – com os olhos bem abertos e orgulhoso do facto – não há outra solução que não destruir o edifício e queimar o entulho.

Dito de outra forma, chegou a hora de edificar de novo. Precisamos urgentemente de escolas católicas. Mas apenas se podem assemelhar superficialmente às actuais escolas públicas e pseudo-católicas. Isto é, haverá aulas de inglês e matemática e tudo isso, mas o melhor que temos a fazer é largar o resto. Não podemos contratar professores dos mesmos lotes. Não podemos usar os mesmos manuais. Não podemos imitar os mesmos hábitos loucos de instrução.

Não podemos aceitar a mesma visão de uma vida “boa”. Não podemos tentar disfarçar um tumor maligno com maquilhagem religiosa. Temos de regressar a uma educação católica: uma educação verdadeiramente humana.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 26 de Março de 2014 em The Catholic Thing)

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Tuesday, 13 December 2011

Canadianas de Burqa e a idolatria do lucro

Os bispos portugueses pedem o fim da “idolatria do lucro” e apresentam os pilares para ultrapassar a crise. Da nota pastoral que foi hoje divulgada, destaco a seguinte frase: “O que alguns detêm em vez dos outros é o que precisamente têm para os outros, pois toda a propriedade tem dimensão social. Nada obtemos inteiramente sós, de nada fruímos legitimamente sós.”


O Canadá tomou a decisão polémica de proibir o uso de véus islâmicos que tapem a cara durante as cerimónias de naturalização. Há quem fale em atropelo à liberdade religiosa.

A julgar pela cobertura mediática, pode-se pensar que só na Igreja Católica é que há escândalos de abusos sexuais. Infelizmente esta triste realidade não conhece fronteiras religiosas, como se veio a provar numa comunidade de judeus ultra-ortodoxos em Nova Iorque.

Numa notícia mais festiva, vem aí novo concerto de Natal do coro composto por jovens de vários movimentos católicos. Informação aqui!

Entretanto, nos últimos dias, surgiram algumas notícias interessantes, a começar com a nomeação do Padre Tolentino Mendonça para consultor do Conselho Pontifício para a Cultura passando pela confirmação de que o Papa vai mesmo ao México e a Cuba na Primavera e finalmente a notícia da morte do Cardeal Foley, que durante os seus tempos na Curia Romana era conhecido como “o homem mais simpático do Vaticano” e tratado amigavelmente por “His Foleyness”.

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