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Thursday, 21 September 2023

Adeus Artsakh

Em 2016 viajei com um grupo de jornalistas para o enclave de Nagorno Karabakh. Fomos primeiro para Yerevan, na Arménia, e de lá era suposto seremos levados de helicóptero para Stepanakert. Por causa do mau tempo, porém, tivemos de partir de autocarro por volta da 1h00, para fazer quase cinco horas de estrada, sempre com curvas e a subir montanhas.

Chegámos de madrugada à autoproclamada República de Artsakh, um território historicamente povoado por arménios, dentro do Azerbaijão. Quando a União Soviética se desintegrou, os Arménios de Karabakh, que era administrada pelo Azerbaijão, declararam independência, o que conduziu a uma guerra. Foram cometidas atrocidades de parte a parte, morreram famílias inteiras, mas os arménios venceram e consolidaram o seu controlo sobre a região. Declararam uma independência que nunca foi reconhecida por ninguém, nem sequer pela Arménia, e assim viveram durante 30 anos, rodeados de inimigos, ligados ao mundo exterior apenas pelo corredor de Lachin, que lhes permitia ter acesso à Arménia.

Em Karabakh assistimos às comemorações dos 25 anos da "independência", junto ao cemitério militar. Uma das coisas mais impressionantes da viagem foi mesmo ver as inúmeras campas de soldados mortos ao longo dos anos a defender aquela terra. Num caso em particular estavam três irmãos que morreram na mesma batalha, outros tinham imagens gravadas no mármore dos mortos fardados e de arma na mão; visitámos ainda a linha da frente, onde recebi de um oficial um Novo Testamento arménio, camuflado, e fomos ao famoso monumento "Nós somos as nossas montanhas" que é o símbolo de Artsakh. Os arménios de Karabakh queriam mostrar-nos que estavam a defender mais que um país, estavam a lutar por uma herança, pela terra onde tinham vivido e morrido os seus antepassados, ao longo de séculos, e que contra todas as expectativas estavam a conseguir fazê-lo.

Tudo isso acabou ontem.

Depois de anos a rearmar-se e a incentivar um ódio étnico e cultural aos arménios, e com o apoio imprescindível da Turquia, o Azerbaijão voltou a atacar Karabakh, como tem feito sempre por esta altura do ano, ao longo dos últimos dois anos. Desta vez, com o corredor de Lachin bloqueado por alegados activistas ambientais, sabendo que a Arménia não se iria comprometer com uma guerra total contra os azeris, e sem o apoio da Rússia, as autoridades de Nagorno Karabakh anunciaram a sua rendição. Artsakh morreu.

Estão neste momento a ser negociadas as condições da rendição, mas o que se avizinha é previsível. A perseguição dos arménios que não fugirem – do aeroporto de Stepanakert já chegam as imagens de caos que acompanha sempre estes momentos – e o apagamento sistemático da milenar herança cultural e religiosa arménia da região.

Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, perguntei neste texto o que aconteceria se Moscovo perdesse a guerra, acrescentando que perder a guerra, neste contexto, era tudo o que ficasse aquém da ocupação de Kiev em três dias. Uma das minhas previsões era exactamente a tragédia que agora se está a desenrolar à nossa frente.

Mas esta é também, de certa forma, uma derrota diplomática para o Vaticano. Em 2016 Francisco visitou tanto a Arménia como o Azerbaijão. O objectivo era tentar promover a pacificação. Mais recentemente o cardeal Parolin também esteve em missão entre os dois estados para tentar impedir o recrudescimento do conflito. Ao menos tentaram, mas sem sucesso.

Karabakh não é apenas mais um território. É para os arménios o que Guimarães é para Portugal, o que o Kosovo é para os Sérvios (outros cuja dependência do amigo Putin de pouco lhes tem valido). Independentemente do direito internacional, que de facto reconhece a região como parte do Azerbaijão, o que se está a passar ali é uma dor de alma. É o coração de um povo que está a ser arrancado e esmagado diante dos seus olhos.

É também o recordar de tragédias colectivas do passado. Os azeris são turcomanos, e existe uma expressão na Turquia e no Azerbaijão: Um povo, dois estados. Por isso mesmo, e pela importância da mão de Erdogan nisto tudo, os arménios sentem que este é apenas mais um capítulo do terrível genocídio de 1915.

Como me disse um arménio quando estive lá em 2016: “Em 1915 mataram os arménios ocidentais, agora querem acabar o trabalho”.

"They protect the land" - Música dedicada a Nagorno Karabakh pela banda System of a Down, constituída por arménios americanos

Thursday, 30 September 2021

Fim das restrições nas igrejas e genocídio lento na Nigéria

D. Alexandre José Maria dos Santos
Terminam amanhã as restrições à lotação das igrejas. Fica ao critério de cada comunidade, agora, avaliar “de forma ponderada os distanciamentos e os limites impostos à lotação das nossas igrejas”. A comunhão continua a ser na mão.

A Igreja na Nigéria considera que os cristãos estão a ser vítimas de um “lento genocídio” às mãos da etnia fulani, de maioria muçulmana. São acusações graves sobre uma realidade aflitiva que poderá já ter feito até 36 mil mortos nos últimos anos.

A perseguição religiosa no mundo decresceu em 2019, pelo quinto ano consecutivo. Já as restrições governamentais continuam mais altas que nunca.

Morreu o cardeal D. Alexandre Maria dos Santos, que foi um dos pais do processo de paz em Moçambique, nos anos 90.

O artigo desta semana do The Catholic Thing é escrito pelo ex-protestante Casey Chalk, que fala da visão que os protestantes têm do culto mariano na Igreja Católica. É muito interessante, e útil até para o diálogo ecuménico, no sentido de melhor nos compreendermos.

Wednesday, 29 May 2019

Ruanda: Memória, Arrependimento, Reconciliação

Filip Mazurczak
Este ano assinalam-se 25 anos sobre o genocídio do Ruanda, um dos eventos mais horríveis de um dos séculos mais sangrentos da história. Ao longo de uma mera centena de dias os hútus naquela nação mataram até um milhão de tutsis enquanto o mundo se limitava a observar. Tristemente, alguns dos responsáveis eram católicos. Para que a reconciliação continue a avançar no Ruanda, convém reconhecer este facto desconfortável. Não nos devemos esquecer que a fé não foi causa do genocídio, mas serviu de inspiração para muitos actos de humanidade naquele inferno do Ruanda.

Há aqui várias lições a reter.

Em primeiro lugar, proporcionalmente, a aniquilação dos tutsis é comparável com os genocídios mais conhecidos do Século XX: a Shoah e o genocídio arménio. Durante a Segunda Guerra Mundial os nazis alemães assassinaram dois terços dos judeus na Europa; e entre 1915 e 1923 os nacionalistas Jovens Turcos exterminaram três em cada quatro Arménios no Império Otomano. Entre Abril e Julho de 1994 os hútus mataram 70% dos tutsis no Ruanda.

Apesar de terem usado sobretudo armas primitivas, como batões e catanas, os hútus foram mais eficientes que o Terceiro Reich ou o regime Otomano. Estes levaram vários anos a eliminar a maioria dos judeus europeus ou arménios otomanos, mas aos hútus bastaram três meses para matar uma proporção semelhante de tutsis.

Talvez a lição mais preocupante sobre a natureza humana a retirar do inferno do Ruanda seja o facto de não serem necessários meios sofisticados como Zyklon B ou fuzilamentos em massa em locais como Babi Yar para cometer homicídio em larga escala. Para isso bastam corações inflamados de ódio.

Para os católicos o genocídio do Ruanda é especialmente preocupante. De acordo com o censos de 2002, quase três em cada cinco ruandeses identificava-se como católico. E mais, para além de leigos também houve padres envolvidos no caos provocado pelos hútus.

Este facto já foi aproveitado por polémicas anticatólicas. No livro “Deus não é Grande”, do já falecido Christopher Hitchens, o genocídio do Ruanda é apresentado como mais um dos muitos exemplos dos males provocados pela Religião. Mas essa não é a verdade completa.

Tal como noutros casos de vergonhas praticadas por católicos, devemos reconhecer estes factos trágicos e não os minimizar. Em 2017 o Papa Francisco pediu perdão pelo papel dos padres neste genocídio. O Presidente do Ruanda, Paul Kagame, que é um tutsi e católico, chamou a esta declaração um “novo capítulo” no processo de cura.

No Catolicismo o reconhecimento dos nossos próprios pecados, o pedido de perdão e a penitência não só conduzem o pecador de volta a Deus, mas também pode ter consequências públicas. Em 1965, por exemplo, os bispos católicos da Polónia enviaram uma carta aos seus homólogos alemães, perdoando a nação alemã pela brutal ocupação nazi do seu país e pedindo eles próprios perdão. Apenas duas décadas depois de os alemães terem morto seis milhões dos seus concidadãos, muitos polacos acharam absurdo, e até obsceno, que os seus bispos achassem que tinham de pedir perdão por o que quer que seja.

Contudo, os bispos argumentaram que bastava que um polaco tivesse feito mal a um alemão, que isso já mereceria um pedido de perdão. A carta dos bispos lançou as bases para a reconciliação entre polacos e alemães e pouco depois o chanceler da Alemanha ocidental Willy Brandt reconheceu formalmente a fronteira do pós-guerra.

O bispo Célestine
Entre os promotores da carta estava o arcebispo Karol Wojtyła, de Cracóvia, que mais tarde, já na qualidade de Papa São João Paulo II, compreendeu o valor de arrependimento público – não humilhação, mas uma expressão genuína de arrependimento – por males passados.

A honestidade histórica, porém, requer que nos recordemos também de outras coisas. Por exemplo, o genocídio do Ruanda não foi motivado principalmente por paixão religiosa; não foi como os massacres da Guerra dos Trinta Anos. Foi, antes, motivado pelo terrível tribalismo que habita a nossa natureza humana decaída e que desperta em tempos de conflito.

Durante a Segunda Grande Guerra, o regime Ustashe da Croácia assassinou 400 mil pessoas, na maioria sérvios, mas também judeus e ciganos. Os ustashe apelavam ao catolicismo popular para incitar ao ódio aos sérvios ortodoxos; porém, as suas tácticas genocidas contradiziam claramente a mensagem universalista do Evangelho. Tal como a Ustashe, os hútus também apelaram por vezes a sentimentos religiosos por razões de conveniência política. Contudo, os padres que foram cúmplices destes crimes agiram contra a fé católica.

À medida que o Ruanda entrou numa espiral de guerra civil, muitos tutsis católicos também morreram; aos hútus não interessava a denominação, mas a animosidade étnica. E embora alguns padres tenham sido cúmplices do genocídio, outros foram fiéis ao Evangelho, tal como o padre hútu Célestin Hakizimana, agora bispo, que escondeu cerca de 2.000 tutsis em Kigali e subornou as autoridades para não assassinarem os que estavam à sua guarda.

O genocídio do Ruanda também foi oficialmente condenado pela Igreja Católica, ao mais alto nível. O Papa São João Paulo II, que sempre se interessou muito por África, foi o primeiro líder mundial a descrever as matanças como genocídio e condenou-as repetidamente, começando apenas dois dias depois de terem começado. Isto contrasta fortemente com as Nações Unidas e com os estados ocidentais, que tinham a capacidade militar para salvar centenas de milhares de pessoas, mas nada fizeram.

Já Shakespeare dizia que o diabo pode citar as escrituras em seu favor. Alguns dos assassinos em massa hútus de 1994 não citaram propriamente as escrituras, mas apelaram ao tribalismo feroz, mascarado de catolicismo cultural. Mas o facto de que houve pessoas da Igreja entre os autores do genocídio permanece um grande escândalo. O testemunho dos Papas recentes, bem como do bispo Célestin Hakizimana mostram, contudo, que mesmo depois destes escândalos históricos, a substância não adulterada da fé também pode desempenhar um papel fundamental em curar as feridas de sociedades problemáticas e em restaurar a solidariedade humana.


Filip Mazurczak contribui regularmente para o  Katolicki Miesięcznik “LIST”. Os seus textos já apareceram também no First ThingsThe European Conservative e Tygodnik Powszechny.

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 22 de Maio de 2019 em The Catholic Thing)

© 2019 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.



Wednesday, 12 December 2018

A fé que moveu o autor na Rússia move agora o médico no Sudão

Apresento-vos o Dr. Tom Catena. Um herói dos nossos tempos, que atende cerca de 400 doentes por dia e faz mil cirurgias por ano. No Sudão. Como? Com muita fé.  


Donald Trump aprovou uma lei destinada a ajudar as vítimas do genocídio do Médio Oriente.

Na passada segunda-feira assinalaram-se os 70 anos da declaração universal dos Direitos do Homem. Podem esses direitos ser mudados? Se sim, valerá a pena sequer existir uma carta dos Direitos do Homem? O Papa Francisco pede aos líderes mundiais que ponham esses direitos no centro de todas as políticas.

E ontem assinalou-se outra efeméride importante, mas que passou despercebida à maioria. Aleksandr Solzhenitsyn foi dos maiores heróis do Século XX na luta contra o comunismo, juntamente com João Paulo II. No artigo desta semana do The Catholic Thing em português, Douglas Skries escreve sobre o autor e o homem que sofreu na pele os horrores do comunismo e o ajudou a desmascarar.

Wednesday, 14 September 2016

“O Papa vs. Hitler”: Uma Recensão e um Pedido

Brad Miner
O que é que Pio XII sabia sobre o regime nazi na Alemanha, e será que fez o suficiente para o combater? Terá feito o suficiente para salvar os judeus de serem massacrados pelos nazis, tanto em Roma e no resto da Europa? Estas e outras questões continuam em aberto, mas podem ser esclarecidas se o Papa Francisco quiser.

O Canal National Geographic (NatGeoTV, para os amigos) está a transmitir um novo “ecodrama” chamado “O Papa vs. Hitler”, sobre o braço de ferro entre Pio XII e Adolfo Hitler. O filme recorre a uma dúzia de bons historiadores, o principal dos quais é Mark Riebling, autor de “Church of Spies”. Outros peritos consultados incluem o padre George W. Rutler, Eric Metaxas e Nigel Jones. Poderia nomeá-los a todos, mas mais vale avançar com a recensão.

Respondendo à primeira questão apresentada em cima: O Papa sabia muito. “O Papa vs. Hitler” demonstra que Pio XII se esforçou por boicotar o regime nazi logo desde o início. E mesmo antes disso, uma vez que, enquanto Secretário de Estado do Vaticano, foi ele o principal autor de “Mit brennender Sorge” (Com Ardente Preocupação 1937), a única das encíclicas de Pio XI que não foi originalmente publicada em Latim. Trata-se de uma forte condenação dos ataques dos nazis à Igreja e aos judeus alemães convertidos ao Catolicismo. Mas não diz nada sobre a desapropriação, deportação e detenção de judeus por parte do regime. (O primeiro dos campos de morte começou a operar em 1939).

Houve uma primeira tentativa de assassinato de Hitler, levada a cabo por membros da Abwehr, a divisão de informação do exército alemão. O Papa Pio XII deu-lhe o seu apoio. Mas o plano acabou por não ser bem-sucedido e depois disso as acções do Papa a este respeito tornaram-se mais circunspectas. Na verdade, todas as nobres conspirações contra Hitler falharam.

Nas palavras de Nigel Jones: “É quase como se o Diabo estivesse do seu lado”.

Pois… Sim.

Antes, durante e depois da guerra, o Papa Pacelli foi avisado de que quaisquer intervenções mais fortes da sua parte levariam a um aumento das já pesadas restrições contra a Igreja e os católicos nos países ocupados pelos alemães.

Este estilo de programa, claro, mistura imagens de arquivo, especialistas e encenações de eventos históricos. E nesse sentido é um exemplo bem conseguido. A meu ver, é também uma avaliação globalmente positiva de Pio XII. Mas não totalmente. O rabino Shmuley Boteach diz que entre os historiadores existe um “consenso” de que a Shoah (o holocausto) “não poderia ter tido a magnitude” que teve se o Papa tivesse condenado mais firmemente a solução final nazi. O historiador britânico Geoffrey Robertson concorda: “A condenação do Papa teria tido repercussões em todo o mundo”.

Não duvido que isso seja verdade, mas uma visita ao Museu Americano do Holocausto em Washington D.C., mostra que os relatos sobre os crimes dos nazis eram frequentemente ignorados ou desvalorizados, tanto pelo New York Times como pela Administração Roosevelt. 

Uma boa parte de “O Papa vs. Hitler” lida com as conspirações falhadas contra o Führer, o que é interessante do ponto de vista histórico, embora bastante conhecido, sobretudo no que diz respeito à tentativa mais famosa, com nome de código Valquíria, levada a cabo pelo coronel Claus von Stauffenberg no dia 20 de Julho de 1944. Quase que foi bem-sucedida. Stauffenberg devia ser um católico devoto (os historiadores divergem neste ponto), mas neste caso não recebeu qualquer apoio ou encorajamento do Vaticano. Então porque é que aparece no filme?

Talvez porque na véspera de colocar a mala-bomba perto de Hitler, Stauffenberg foi-se confessar e, segundo Riebling, pediu e recebeu a “Absolvição de São Leão”. É a primeira vez que ouço falar de tal coisa: perdão dos pecados antes de uma batalha, dada por vezes a soldados.

Resumindo, parece claro que Pio XII não era “o Papa de Hitler”, como tem sido apelidado por alguns.

Mas isso leva-nos à segunda questão: Será que o Papa fez o suficiente para livrar os judeus do genocídio? O rabino Boteach reconhece que o Papa escondeu judeus sempre que possível – em mosteiros e em catacumbas – mas quando centenas de judeus de Roma foram detidos e colocados em comboios para seguir para os campos de morte (de entre os quais apenas uma mão cheia sobreviveu), o Papa não reagiu. Se o Papa tivesse ido à estação e dito aos soldados alemães – entre os quais certamente havia alguns católicos – que estavam a colaborar com um pecado mortal, quais teriam sido as consequências?

Bom, esse é o problema, não é? Na história as coisas ou se fizeram ou não se fizeram e apenas podemos julgar o que aconteceu, não o que poderá ter acontecido.

E isso leva-me ao pedido: Papa Francisco, revele por favor o material de arquivo do pontificado do seu venerável antecessor Eugenio Pacelli relativo aos anos da guerra.

Passei vários anos a fazer investigação para um livro (sobre o qual escreverei mais tarde) nos arquivos da Diocese de Nova Iorque e compreendo porque é que o material de arquivo deve ser selado durante um certo período. O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, não concorda, porque tem uma visão absolutista de que a verdade nunca deve ser escondida. Isso é um disparate, e não apenas no que diz respeito a dados secretos.

Tanto eu como o meu co-autor (o Sr. Marlin) não pudemos ver vários ficheiros sobre o Cardeal John O’Connor, que morreu no ano 2000. Isso pode dever-se ao facto de haver, nesses documentos, afirmações sobre pessoas que ainda estão vivas e que são difamatórias, ou que não são verdade, ou ambos. A regra é esperar 25 anos. Tanto quanto sei, o Vaticano espera 75.

Isso implica reter os arquivos de Pio XII, que morreu em 1958, até 2033. Mas porque não libertar alguns documentos agora? Pelo menos até 1940, com os restantes anos da guerra a serem tornados públicos até 2020? Ajudaria certamente a responder a várias questões e isso é algo que a Igreja deveria querer fazer o mais rapidamente possível.


(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 9 de Setembro de 2016 em The Catholic Thing)

Brad Miner é editor chefe de The Catholic Thing, investigador sénior da Faith & Reason Institute e faz parte da administração da Ajuda à Igreja que Sofre, nos Estados Unidos. É autor de seis livros e antigo editor literário do National Review.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte:info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Monday, 27 June 2016

Perdões polémicos e derrota suprema


(Clicar para aumentar)
No avião de regresso a Roma, Francisco disse que os Católicos devem pedir perdão aos homossexuais por ofensas cometidas contra eles. Esta frase motivou alguma perplexidade entre alguns cristãos, mas na verdade parece-me que o Papa apenas repetiu uma verdade evidente. Quando ofendemos alguém devemos pedir perdão, seja homossexual ou não, e todos sabemos que há muitas pessoas que não se limitam a opor-se à chamada “agenda LGBT” mas insistem em ir mais longe e atacar pessoalmente os seus adversários.


Uma aldeia cristã foi atacada no Líbano. Morreram cinco habitantes locais, o que tendo em conta a magnitude do ataque é um número mais baixo do que se poderia esperar.

Dos EUA vem a notícia de uma importante vitória para os movimentos pró-aborto. O supremo tribunal declarou inconstitucional uma lei do Texas que visava melhorar as condições de saúde e segurança nas clínicas locais e já tinha levado ao encerramento de dezenas de clínicas de aborto.


Termino com um aviso. Haverá uma interessantíssima sessão de esclarecimento sobre a Eutanásia no Hotel Palácio, no Estoril, na quinta-feira, com especialistas da Bélgica e França. O convite é a imagem que ilustra este post, não percam que vai certamente valer a pena!

Friday, 24 June 2016

Papa fala do Brexit e reconhece genocídio

Papa na Arménia, Turcos aos arames
Como o resto do mundo, o Papa Francisco também comentou a saída do Reino Unido da União Europeia. Francisco, ecoando as palavras do Cardeal Nichols, de Londres, falou na responsabilidade que cabe agora ao Reino Unido e à União Europeia de construir novos caminhos.


Francisco falou no avião a caminho da Arménia, o primeiro país a adoptar o Cristianismo como religião de Estado. Francisco referiu-se em tempos ao massacre dos arménios como um genocídio e a dúvida era saber como ia dizer agora.

No texto oficial do seu discurso evitava-se diplomaticamente o uso da palavra que tanto ofende os turcos, mas o Papa, sendo Francisco, fez questão de improvisar e largou a bomba. Agora é esperar que os turcos recuperem do choque e reajam. Não vai ser bonito. Já os arménios estão felizes da vida.

Wednesday, 10 February 2016

Cristãos Perseguidos no Médio Oriente em 2015

George J. Marlin
Em 2015 houve mais cristãos perseguidos do que membros de qualquer outra religião no mundo. A perseguição religiosa tem sido também a principal causa do grande aumento de migração forçada a nível global. De acordo com as Nações Unidas, o número de deslocados internos e refugiados atingiu um pico, no ano passado, de 60 milhões de pessoas.

Este ciclo persecutório cada vez maior criou também o mais significativo êxodo de cristãos na história do Médio Oriente.

Com populações inteiras a fugir das suas casas, os cristãos estão rapidamente a desaparecer de regiões inteiras – e não é só no Médio Oriente, mas também em África, onde várias dioceses se esvaziaram.

Em grande parte, esta migração é causada pela limpeza étnica motivada por ódio religioso. Os responsáveis por esta violência e intimidação sistemática são principalmente grupos terroristas islâmicos, em particular o Estado Islâmico.  

A perseguição levada a cabo pelo Estado Islâmico encaixa perfeitamente na definição de genocídio das Nações Unidas:

quaisquer dos seguintes actos cometidos com a intenção de destruir, em todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, como por exemplo: matar membros do grupo e causar danos sérios corporais ou mentais aos membros do grupo…

Os actos de genocídio do Estado Islâmico são dirigidos em primeiro lugar contra os cristãos. Na sua revista online “Dabiq”, os militantes afirmam que vão “conquistar a vossa Roma, quebrar as vossas cruzes e escravizar as vossas mulheres, se Allah o permitir.”

O Estado Islâmico é liderado por fanáticos ideológicos que aderem a uma forma extremista de Islão salafita, que afirma que apenas eles são verdadeiros muçulmanos. Esta seita requer a criação de um califado para purificar o Islão do xiismo e da presença de infiéis. De acordo com Abu Bake Naji, um conhecido intelectual do Estado Islâmico, isto significa que os terroristas devem recorrer à jihad, definida como “nada se não violência, brutalidade, terrorismo, o aterrorizar de pessoas e massacres”.

Na Síria, esta política do Estado Islâmico e a guerra civil são responsáveis pela morte de mais de 250 mil pessoas e a deslocação de 11,6 milhões – metade da população do país. Pelo menos 3,9 milhões destas pessoas estão retidas no Líbano, na Jordânia, no Iraque e na Turquia. Incrivelmente, 25% da população do Líbano é agora composta por refugiados sírios. Porém, a maioria dos cristãos exilados recusam-se a ir para campos de refugiados ou a registarem-se com as agências de ajuda humanitária, com medo de serem raptados ou hostilizados por muçulmanos. Em vez disso dependem da ajuda de agências de auxílio internacional católicas, como a Ajuda à Igreja que Sofre, ou outros cristãos que os alimentem, vistam e ajudem a educar os seus filhos.

O Estado Islâmico espera apagar o passado, presente e futuro do Cristianismo. Em 2015 foram destruídas igrejas, locais de interesse histórico e manuscritos antigos. Um rico património está em perigo – uma herança que é séculos mais antiga que o próprio Islão.

Mais de 150 igrejas, centros pastorais e mosteiros foram danificados ou destruídos na Síria, incluindo a histórica igreja de São Jorge, em Qaber Shamiya, que foi pilhada antes de ser incendiada. A Igreja Apostólica Arménia dos Quarenta Mártires, em Alepo, foi destruída em resposta a eventos dos cristãos para comemorar o 100º aniversário do genocídio arménio.

As 45 igrejas cristãs em Mosul, no Iraque, ou foram destruídas ou transformadas em instalações militares ou então convertidas em mesquitas. Em Janeiro de 2016, imagens de satélite confirmaram que o mais antigo mosteiro do Iraque, Santo Eliseu, localizado no topo de um monte nos arredores de Mossul desde o ano 590 tinha sido reduzido a um monte de entulho pelo Estado Islâmico.

Estado Islâmico e cristãos coptas
Outros países do Médio Oriente também têm assistido a uma intensa perseguição, como podemos ver:

Irão: Os cristãos têm sido atingidos por rusgas e detenções em cada vez maior número. O número de cristãos atrás das grades duplicou em 2015, apesar de promessas do Governo para promover a tolerância religiosa.

Arábia Saudita: Esta nação, que não permite a construção de qualquer igreja cristã e continua a ter o pior registo de abusos em relação à liberdade religiosa. O novo rei já augurou uma abordagem ainda mais severa.

Sudão: O Presidente Omar al-Bashir elevou a intensidade da sua promoção do Islão de ala dura. O número de cristãos no país continua a diminuir a um ritmo acelerado.

Turquia: Apesar de promessas de reformas por parte do Governo, os cristãos ainda são tratados como cidadãos de segunda. Os cristãos temem ainda o aumento do Islão radical na Turquia.

Egipto: Os ataques a igrejas diminuíram desde que o Presidente Morsi abandonou o cargo, mas os cristãos continuam a ser alvo de ataques ao nível individual. A 7 de Janeiro de 2015 o Presidente el-Sisi deu um forte sinal de apoio quando participou numa celebração de Natal ao lado do Papa copta Tawadros II, na Igreja de São Marcos. Também condenou a violência do Estado Islâmico e de outros grupos radicais numa celebração do nascimento de Maomé. “É inconcebível que a ideologia que nos é mais cara transforme todo o mundo islâmico numa fonte de ansiedade, perigo, morte e destruição para o resto do mundo”. Foram palavras e gestos de importância monumental. Infelizmente, têm tido pouco eco no resto do Governo egípcio, em termos de garantir direitos básicos aos cristãos. 

Em relação aos governos ocidentais, enquanto muitos condenaram os crimes contra a humanidade dos radicais islâmicos, não implementaram quaisquer planos efectivos para pôr termo à violência ou para assegurar que os cristãos e outras minorias recebam protecção ou um espaço seguro onde viver. Contudo, ainda o outro dia o Parlamento Europeu declarou que o Estado Islâmico está a levar a cabo um genocídio e pediu aos estados-membro que façam chegar a todos os grupos que são alvo desta crime “protecção e ajuda, incluindo ajuda militar e humanitária” em conformidade com o direito internacional.

Mas enquanto grande parte do Ocidente continua a olhar, muitos cristãos do Médio Oriente continuam a manter-se firmes, independentemente das dificuldades. A posição dos cristãos em dificuldade foi bem descrita pelo Arcebispo Melquita de Alepo, Jean-Clement Jeanbart:

Estamos a confrontar um dos desafios mais importantes da nossa história bi-milenar. Lutaremos com todas as nossas forças e agiremos com todos os meios possíveis para dar ao nosso povo razões para ficar e não abandonar; sabemos que o caminho que temos pela frente será muito difícil; não obstante, estamos convencidos que o nosso amado Senhor Jesus está presente na Sua Igreja e que jamais nos abandonará. Sabemos que nada pode intrometer-se entre nós e o amor de Jesus Cristo – e que através de todos estes desafios triunfaremos através do poder daquele que nos ama.


(Publicado pela primeira vez no Sábado, 6 de Fevereiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

© 2016 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Friday, 24 April 2015

Um milhão e quinhentos mil novos santos

Fiéis arménios beijam um ícone que
representa 1,5 milhões de novos santos
É já na segunda-feira o lançamento do meu livro “O que fazes aí fechada”, que inclui oito entrevistas com diversas freiras. Desde uma cujo pai deixou de praticar quando ela entrou no convento a uma que diz que o celibato a liberta para melhor poder trabalhar com as prostitutas que procura ajudar. São histórias de vida e de vocação, mas acima de tudo são histórias de amor.

Para quem puder ir ao lançamento, no Convento dos Cardaes, Rua do Século 123, em Lisboa, às 18h30, terei o maior gosto em ver-vos lá.

Decorreu ontem a maior canonização em massa da história do Cristianismo. São 1,5 milhões de novos santos da Igreja Apostólica da Arménia, vítimas do genocídio levado a cabo em território turco. Os Assírios também sofreram e chamam a esse triste episódio o “Seyfo”, ou “Espada”, pois foi através desse instrumento que a maioria dos mais de 150 mil foram assassinados.

E porque passados 100 anos estamos novamente a ver cristãos a serem perseguidos em massa no mundo muçulmano, a fundação Ajuda à Igreja que Sofre convocou uma jornada de oração para sábado.

A Associação de Rádios de Inspiração Cristã contesta a ideia de que os meios de comunicação precisem de dar a conhecer o seu plano de cobertura das eleições legislativas.

E se participou no sorteio do Natal para ganhar um dos presentes que o Papa tem recebido ao longo dos meses, não desespere! Vem aí nova oportunidade e o primeiro prémio é um carro Kia Soul.

Monday, 13 April 2015

Patriarca nomeado, Papa contestado

O bispo Juan Barros, do Chile. Nomeação polémica
O Papa nomeou esta manhã D. Manuel Clemente para a Congregação do Clero, em Roma. O Patriarca passa a ter também assento no Conselho Pontifício para as Comunicações Sociais.

Isto no dia em que D. Manuel Clemente discursou, no fim de uma reunião da CEP, manifestando esperanças de que a lei do aborto seja alterada e falando da perseguição aos cristãos.

A nomeação de um bispo chileno, acusado de ter protegido um sacerdote abusador, está a causar alguma polémica. Agora foi a comissão de protecção de menores, nomeado pelo Papa, que esteve em Roma para manifestar reservas quando à decisão.

Esta não é a única polémica envolvendo o Papa. Ontem Francisco presidiu a uma celebração evocativa do massacre de arménios pelos turcos, há 100 anos. O problema é que Francisco usou a palavra genocídio, e os turcos foram aos arames

Foi divulgada a bula que traça os objectivos para o jubileu da misericórdia.

Thursday, 9 April 2015

Papa volta a falar em genocídio dos arménios

Como é que se diz "não sabemos de nada" em turco?
O Papa Francisco falou hoje do genocídio dos arménios pelos turcos, que aconteceu há 100 anos. Pediu gestos concretos de reconciliação entre a Arménia e a Turquia, mas veremos como as palavras caem em Ankara, onde é crime sequer sugerir que se tratou de um genocídio.

O Padre Duarte da Cunha escreveu o livro “Só o Amor Gera Vida”, uma obra teológica sobre o amor humano, que vem mesmo a calhar em ano de Sínodo da Família.

As atrocidades cometidas pelos grupos terroristas modernos estão a levar a uma queda no número de voluntários para organizações humanitárias, como a AMI, diz Fernando Nobre.

José Mourinho deu uma entrevista ao Telegraph em que fala, entre outras coisas, da sua fé. Aquifica o link para o original, para quem estiver interessado.

Wednesday, 23 April 2014

Tristeza de Francisco, condolências de Erdogan

Gilberto Rodrigues Leal
Ontem, ao fim do dia, um grupo islamita do Mali anunciou que um refém que estava na sua posse há mais de um ano e meio tinha morrido. Não se sabe como nem porque é que Gilberto Rodrigues Leal (que como o nome indica é luso-descendente) morreu, mas França já prometeu que isto não passará impune, enquanto a família aponta o dedo ao Governo e aos media franceses.

Também ontem D. Manuel Clemente foi orador convidado no Grémio Literário, tendo recordado a análise feita pelos bispos de então ao estado do país, antes do 25 de Abril.

Esta manhã o Papa Francisco falou da sua tristeza pelos desempregados, depois de ter recebido um vídeo enviado por trabalhadores de uma fábrica que que vai fechar.

Esta tarde o primeiro-ministro da Turquia surpreendeu ao falar da forma como os arménios foram tratados pelo Império Otomano, em 1915. Erdogan enviou condolências aos descendentes e falou em actos com consequências desumanas.

Estamos cada vez mais próximos da canonização de João XXIII e João Paulo II. É precisamente disso que fala Robert Royal, no artigo desta semana do The Catholic Thing, em português.

Wednesday, 5 June 2013

Lords give me patience!

"Oh dear lord..."

Com tudo o que se está a passar na Turquia, não me admirava que isto fosse aproveitado por Erdogan para dar polémica… O Papa disse na passada segunda-feira que a tragédia que se abateu sobre os arménios no início do século XX foi “o primeiro genocídio do século XX”. Os turcos não vão gostar…

Pelo Reino Unido esperava-se um voto renhido, mas o “casamento” entre homossexuais foi aprovado na Câmara dos Lordes por larguíssima maioria. Ainda por cima os bispos anglicanos mostraram-se divididos com nove a votar contra e cinco a absterem-se.


Lembram-se da história de Audrey Stevenson, narrada por Austin Ruse em The Catholic Thing? Hoje publicamos mais uma história das “pequenas almas sofredoras”, não deixe de ler!

Entretanto não se esqueça que hoje é dia de debate sobre religião na Renascença. Quem quiser deve sintonizar a partir das 23h30, mais ou menos.

Tuesday, 27 December 2011

Genocídio, Israel e votos de Páscoa feliz!

A situação social em Israel está em polvorosa. Há muito que existe um conflito latente entre a comunidade religiosa ultra-ortodoxa e a maioria secularista. Nos últimos dias tem havido agressões e detenções. Hoje uma manif deverá juntar mais de 10 mil pessoas…

Genocídio, sim ou não? Em França vai passar a ser crime negar o genocídio dos arménios na Turquia em 1915. Na Turquia é crime o contrário. Em Israel discute-se a criação de um “dia de memória” para as vítimas do tal genocídio.

No blogue publiquei hoje um texto do prof. Luis Filipe Thomaz sobre este assunto. Deixa bem claro que sim, houve genocídio, mas discorda da lei francesa.


Para terminar, um agradecimento da minha parte ao Primeiro-ministro do Kosovo (na imagem), que no dia 25 de Dezembro desejou uma “Páscoa feliz” a todos os católicos.

Genocídio, crime e liberdade de opinião

Nos últimos dias falou-se bastante do genocídio praticado pela Turquia contra os arménios, no início do século XX.

Recentemente o Governo francês tomou medidas no sentido de criminalizar a negação desse genocídio. Tal negação já é crime na Eslovénia e na Suíça. Na Turquia é crime o contrário... Em Israel discute-se a criação de um dia em memória do genocídio e no congresso americano o debate é recorrente.

Sobre estes últimos desenvolvimentos transcrevo agora, na íntegra, um texto da autoria do historiador Luis Filipe Thomaz que, concordando com o facto de se ter verificado um genocídio, opõe-se à lei francesa.

Agradeço a sua autorização para publicar o texto.


Tereis por certo ouvido na rádio ou na televisão a notícia de que o parlamento francês decretou que o que se passou em 1915 com os arménios no Império Otomano foi um genocídio. Sou inteiramente da mesma opinião.

Se a alguém restarem a tal respeito algumas dúvidas, que veja o que escrevi num artigo intitulado "Catolicismo e Multiculturalismo"*. Transcrevo em seguida o parágrafo em que abordo a questão:

«O Império Otomano, que se considerava detentor do califado sunita, era manifestamente um estado confessional. No entanto, segundo o princípio islâmico da dhimma ou “protecção” às outras “gentes do livro” (ahl al-kitâb), as comunidades cristãs e as judaicas viam aí reconhecida não só a sua personalidade jurídica como o uso do seu direito privado. Cada uma era considerada um milet ou “nação” e dispunha de magistrados próprios para lhe administrarem a justiça segundo os seus próprios costumes. É verdade que cristãos e judeus eram no seio do império como que cidadãos de segunda classe: por exemplo, o cristão podia em qualquer momento converter-se ao islão, mas a apostasia do muçulmano era punida com a morte; a cristã ou a judia desposada por um maometano podia conservar a sua religião, mas para desposar uma muçulmana o cristão ou o judeu eram forçados a converter-se; e assim por diante. O nacionalismo dos Jovens Turcos — movimento liberal e laicista de influência ocidental, de que emergiria Mustafa Kemal, mais tarde cognominado Atatürk, “Pai dos Turcos” — baseando-se no princípio da territorialidade das leis, que se lhe afigurava indiscutível, procurou abolir os estatutos pessoais, que lhe pareciam ofender o dogma da igualdade dos cidadãos (igualdade não apenas de direitos e deveres, mas de tudo). Substituiu, por conseguinte, a noção de religião oficial pela de “nação dominante”, assim renunciando, talvez sem dar por isso, aos ideais de igualdade em que teoricamente se inspirava. Para o estado nacional que, à imagem do Ocidente, os Jovens Turcos queriam construir as minorias constituíam como que uma aberração da natureza, que era mister eliminar. Foi assim que a partir da sua chegada ao poder em 1908 desencadearam cruéis perseguições às minorias, em que avulta o massacre dos arménios a 24 de Abril de 1915. Talvez por estes não possuírem a sofisticada máquina de propaganda de que dispõem quer o estado judaico quer os seus protectores americanos, esse genocídio é geralmente muito menos propalado que o dos judeus na Alemanha nazi; mas não foi menos trágico: de mais de 2.100.000 de arménios que havia então na Turquia não restava em 1918 mais de um milhão, enquanto o patriarcado de Sis na Cilícia, com duas arquidioceses e treze dioceses, era apagado do mapa. E, desde então até aos dias de hoje, jamais cessou o êxodo de cristãos de Constantinopla para a Grécia e da Anatólia oriental para a vizinha Síria ou para a Europa. Assim, enquanto no Império Otomano, oficialmente islâmico, havia ainda em 1906 25% de não muçulmanos, na Turquia laica e republicana de nossos dias não há mais que 0,2 %. Algo de semelhante se passou na Palestina em 1948, com a instauração do estado sionista, oficialmente laico mas de facto judaico: a maior parte dos cristãos emigrou para a Síria, para o Líbano e para a Jordânia, e das dioceses existentes antes de 1948 apenas resta a de Jerusalém.»

Manchete contemporânea
do New York Times
Não é, pois, o carácter dos massacres de 1915 o que ponho em causa, mas tão somente a legitimidade de o parlamento francês, ou de qualquer outro parlamento, definir como um dogma qual é a única verdade histórica oficialmente aceite, cominando, para mais, penas de multa e prisão a quem a não acate. É um inadmissível atentado contra a liberdade de consciência, de ensino e de investigação histórica, que julgaria possível em estados totalitários, mas jamais num estado livre como a França, para mais sempre tão ciosa dos seus pergaminhos de paladina da liberdade. A verdade histórica é, a qualquer momento, passível de ser revista, com base em novos documentos que se encontrem, ou mesmo no estudo mais aprofundado de documentos já conhecidos mas mal interpretados. Não será esse certamente o caso do genocídio dos arménios, suficientemente recente e suficientemente bem documentado para que se possam alimentar dúvidas. Não é o facto que está em causa, é o princípio.

Que o parlamento francês, com base no que em jurisprudência muçulmana se designa por ijma‘ ou consenso dos doutores, declare que considera como um genocídio o massacre de 1915, parece-me um acto desprovido de utilidade prática, mas, omnibus computatis, aceitável. Em vez de remoer factos passados, creio que seria talvez mais eficaz para a causa arménia reconhecer senão as fronteiras, exageradamente grandes, atribuídas em 1920 ao país pela arbitragem de Wilson, pelo menos apoiar a sua reivindicação do Nagorn Karabagh, povoado maioritariamente de arménios, mas anexado ao Azerbaijão pelo regime soviético, e quiçá também a do território de Kars, cedido em 1921 pelos soviéticos à Turquia. Não me estendo em considerações sobre esse aspecto, pois não é a faceta política o que ponho em causa.

Que o parlamento francês aprove uma lei punindo, genericamente, quem de má-fé, por interesses políticos, ideológicos ou outros negue uma verdade histórica comprovada por documentos, parece-me situar-se igualmente dentro dos limites do aceitável. Que o parlamento francês, num rasgo de solidariedade com as vítimas do genocídio de 1915 decida erguer-lhes um monumento, é atitude que inteiramente apoio. Que o parlamento francês decida, por exemplo, não patrocinar a candidatura da Turquia à Comunidade Europeia sem que esta reconheça o genocídio que perpetuou, é coisa que não aprovo nem desaprovo, pois não é da minha competência; mas reconheço que é da sua. O que não posso aceitar é que seja um órgão de soberania política a definir qual é, num caso concreto, a verdade histórica aceitável, com exclusão de qualquer outra interpretação.

Das duas, uma: ou se considera que os deputados, em virtude da sua eleição por métodos democráticos, gozam de um carisma especial que lhes confere infalibilidade em matéria histórica, e então fica aberto o caminho para que amanhã neguem o assassínio de Júlio César, cominem penas de multa e prisão a quem afirme que não foram os venezianos quem desviou para Constantinopla a IV Cruzada ou mesmo que considerem que a extinção do homem de Neanderthal foi um genocídio cometido pelo homem de Cro-Magnon de que todos nos devemos envergonhar. E porque em tal caso se não vê por que razão a infalibilidade dos deputados se deva restringir ao campo da História, ficará aberto igualmente o caminho para que se condene no futuro a prisão quem por exemplo defenda que o cancro da próstata é de origem microbiana. Ou então, terá de se aceitar que há uma verdade oficial, definida pelos políticos, sobre cada facto histórico e que, por conseguinte, a investigação histórica está sujeita nas suas conclusões à aprovação oficial, e teremos então, quiçá sem dar por isso, caído no totalitarismo.

Creio que é nosso direito e até nosso dever como historiadores lutarmos pela nossa liberdade de investigação, de ensino e até de opinião, que esta lei põe em causa. Pouco importa que seja uma lei francesa e que se não aplique por conseguinte em Portugal: aceitá-la é consentir em que numa Europa que se afirma democrática se abra um precedente de consequências imprevisíveis, que a breve trecho nos pode conduzir a um totalitarismo mais ou menos declarado.

Convido-vos, por isso a todos a, em nome da nossa classe profissional, levarmos o nosso protesto até á Embaixada da França.
  
Luis Filipe F. R. Thomaz

* Publicado por duas vezes: numa primeira versão num dos quatro volumes de Portugal - Percursos da Interculturalidade: Matrizes e configurações, coordenação de Mário Ferrreira Lages e Artur Teodoro de Matos, Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural / CEPCEP, UCP, Lisbon, 2008, vol. III, pp. 380-429; e em versão levemente retocada in Povos e Culturas, nº 13, Centro de Estudos de Povos e Culturas de Expressão Portuguesa, Universidade Católica Portuguesa, Lisboa, 2009.

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