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Wednesday, 17 January 2024

Três previsões esperançosas para o Ano Novo

Stephen P. White
O começo de um novo ano é sempre tempo de olhar para trás sobre a mais recente volta dada ao sol, fazendo contas ao que se passou, tanto de bom como de mau, e de fazer resoluções sobre aquilo que pode ser feito melhor, ou pelo menos diferente, durante a volta seguinte.

Na minha experiência, a frescura do novo ano tende a encher-nos de optimismo. Mas também na minha experiência, esse optimismo raramente perdura para além de Quarta-feira de Cinzas. O optimismo do início de Janeiro raramente chega sequer intacto a Fevereiro. Pelo início da Quaresma eu já estou pronto para penitência.

Dito isto, Janeiro também é um bom mês para prognósticos. Agora é tão boa altura como qualquer outra para antecipar o que nos trará 2024 – tanto de bom como de mau – para que possamos estar o mais preparados possível para o que vier. E para que em Janeiro do ano que vem possamos olhar para trás para as nossas previsões e rirmo-nos por termos sido exageradamente esperançosos ou desnecessariamente preocupados com todas as coisas erradas.

É por isso num espírito de autocrítica preventiva que submeto as seguintes três previsões para este ano de Nosso Senhor de 2024.

Primeiro, como devem saber, aqui nos Estados Unidos estamos novamente em ano de eleições. As eleições nacionais nos Estados Unidos, sobretudo as presidenciais, tornaram-se exercícios de medo e ódio em massa. Medo, na medida em que este mais recente episódio de “a eleição mais importante de sempre”, levou ambos os lados a convencerem-se de que a fasquia nunca esteve tão alta, e que a situação nunca foi tão desesperada. Ódio, no sentido em que toda a gente, em ambos os partidos, parece desgostar do seu próprio lado só um bocadinho menos do que odeiam os bárbaros do outro lado da coxia. 

Pelo menos às vezes parece tratar-se de “todos”. Eu não gosto de desdramatizar a importância da política, até quando, ou talvez especialmente quando, a nossa cena política parece estar tão fracturada. Nem faz o meu género menosprezar a gravidade dos desafios que enfrentamos, que há muito deixaram de ter a ver com como atingir os nossos objectivos comuns, transformando-se em profundos desentendimentos sobre a própria natureza e propósito do ser humano, e por isso da própria sociedade.

A história, como nos recordou João Paulo II, tem-nos demonstrado que até as democracias se podem transformar em totalitarismos mais ou menos disfarçados, se não tiverem as fundações morais e filosóficas adequadas. É possível insistir tanto que a ameaça é real, e até que o processo já está avançado, e ao mesmo tempo que estamos muito longe de chegar ao ponto crítico de não regresso. As “teorias do declínio” não são muito úteis enquanto “teorias de bater no fundo”, salvo em restrospectiva.

Bom, passando à minha previsão: 2024 vai ser um ano duro em termos políticos, mas os piores medos tanto da direita como da esquerda não serão realizados no dia da tomada de posse, em 2024, e a pessoa que fizer o juramento enquanto Presidente dos Estados Unidos será a mais velha de sempre a fazê-lo.

Falando de eleições, esta será a primeira presidencial desde a decisão de anular Roe v. Wade. Por esta altura já todos devem ter percebido que as discussões políticas sobre o aborto não vão desaparecer tão depressa. Mas o lugar do aborto na política americana transformou-se desde a decisão de Dobbs. Há, e continuará a haver, menos enfoque no processo político de conseguir a combinação certa de juízes no Supremo Tribunal, e muito mais nas leis estaduais.

Aquilo que quero sublinhar aqui é a forma como os bispos católicos, tanto individual como colectivamente, se relacionam com a política de um mundo pós-Roe. O aborto continua a ser uma das grandes preocupações dos bispos. Aliás, os bispos reafirmaram recentemente a sua posição, sem as polémicas de anos recentes, de que a ameaça do aborto continua a ser a sua “prioridade preeminente”. Durante quase meio século isso significava, em primeiro lugar, reverter Roe.

A verdade é que, embora nenhum dos bispos deseje o seu regresso, Roe v. Wade desempenhava um papel galvanizante, tanto eclesiástica como politicamente. A sua anulação era um objectivo claro, alcançável e justo. Sem ele, a ameaça do aborto não deixou de ser grave ou urgente, mas enquanto questão política para católicos, assumiu um carácter mais difuso.

Neste próximo ano teremos um primeiro vislumbre do novo “status quo” do envolvimento episcopal na política presidencial. Os católicos estarão de olho nos seus bispos, e os bispos estarão de olho uns nos outros. A isto vem somar-se a antipatia geral que a maioria dos bispos sentem tanto para com o actual Presidente, como para com o mais que provável candidato republicano, Donald Trump. Prevejo, por isso, um ano de envolvimento político bastante reservado para os nossos bispos.

A minha terceira previsão: O Congresso Eucarístico Nacional poderá ser a última, e melhor, esperança para a sinodalidade ganhar alguma aderência nos Estados Unidos. O Sínodo sobre a Sinodalidade, de Outubro, não incendiou propriamente muitos corações. Uma recente missiva da Conferência Episcopal a pedir mais uma ronda de sessões de escuta sinodais não foi recebida propriamente com grande entusiasmo. As polémicas sobre a Fiducia Supplicans também não fizeram grandes favores ao sínodo, parecendo até contradizer a visão de sinodalidade que o Papa Francisco tanto tem proposto.

Então como é que um encontro de 70 mil católicos em Indianápolis pode revigorar a sinodalidade? Juntando dezenas e dezenas de milhares de católicos de toda a nação para escutar a palavra de Deus e adorar o Senhor. Na medida em que o Congresso conseguir criar um sentido de fraternidade e comunhão, criando um sentido vital de participação na vida da Igreja, e plantar nos seus participantes a semente do zelo missionário, o Congresso Eucarístico terá feito avançar a missão da Igreja na América de uma forma que nenhum encontro sinodal em Roma alguma vez poderia fazer. Isso seria uma enorme vitória para a Igreja nos Estados Unidos e para a sinodalidade. Acredito que Roma concordaria.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 11 de Janeiro de 2024)

© 2024 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 20 December 2023

Lembrar de esquecer

Stephen P. White

No início do Século XVI o Papa Júlio II decidiu demolir a Basílica de São Pedro. A antiga basílica, construída por Constantino por cima do túmulo do apóstolo, no Século IV, tinha servido bem, mesmo segundo os padrões romanos. Mas depois de doze séculos de terramotos, pilhagens e descuido generalizado, a antiga Basílica de São Pedro estava em risco de desabar. Por isso, o Papa Júlio desistiu dos seus planos de renovar o edifício e mandou-o demolir e substituir.

A basílica que conhecemos hoje, com a sua majestosa cúpula – a basílica de Bramante e de Miguel Ângelo e Bernini – começou a ser edificada em 1506 e foi consagrada em 1626. Ou seja, a Basílica de São Pedro que conhecemos hoje só existe há um terço do tempo que a sua antecessora.

Como se não bastasse a demolição de um dos mais sagrados santuários da cristandade, o mármore usado para a fachada da nova basílica veio de um local próximo e barato, a pedreira preferida dos romanos: o Coliseu. Os romanos da idade média, e até bem mais tarde, nunca tiveram problemas em reutilizar pedras de antigos edifícios e monumentos.

Retirar mármore do Coliseu pode-nos parecer hoje um acto de vandalismo histórico e cultural, mas fazê-lo para construir algo tão grandioso como a Basílica de São Pedro é certamente louvável quando comparado com os outros usos que os romanos contemporâneos davam às toneladas de mármore do Coliseu, que costumavam esmagar e queimar para fazer cal viva.

Que cultura é esta que tem a audácia de usar o Coliseu (e não apenas o Coliseu, mas a maioria dos antigos edifícios romanos) como pedreira? Que cultura tem a temeridade de demolir um dos edifícios mais veneráveis do mundo, a antiga Basílica de São Pedro, mas tem também a confiança, capacidade e visão para construir algo tão magnífico como a basílica actual?

Lembro-me de ficar a pensar nesta incongruência há uns anos, quando estava em Roma. Por um lado, não podemos se não lamentar a aparente indiferença para com a preservação de monumentos que agora consideramos de significado histórico e cultural insubstituível. Porém, esta mesma disposição para pilhar o passado produziu alguns dos maiores feitos de arte e arquitectura em toda a civilização ocidental.

Hoje jamais nos passaria pela cabeça arrancar nacos do Coliseu para construir uma nova igreja. Mas também não parecemos capazes de construir nada que tenha o significado e a beleza duradouras da Basílica de São Pedro. Podemos tentar manter e restaurar um edifício antigo, mas é difícil imaginar simplesmente demoli-lo, quanto mais de imaginar a nossa cultura a construir um substituto que possa rivalizar com o original, ou exceder a sua beleza intemporal e a sua magnificência original.

Naquele dia em Roma dei por mim a pensar se não existirá alguma ligação causal entre a disposição de uma cultura para largar o passado – deixar que esse passado esvaneça na memória, ou ser mesmo esquecido – e a capacidade para o tipo de criatividade e confiança necessárias para construir algo tão novo e tão magnífico como a actual Basílica de São Pedro.

O nosso mundo tem uma grande dificuldade em desligar-se do passado. Os museus que construímos para albergar coisas belas, mas também curiosas ou apenas antigas, são uma invenção relativamente recente. Os mundos antigos e medievais não tinham nada como museus, pelo menos no sentido que lhes atribuímos hoje. Sim, havia colecções de arte e de escultura, e por aí fora, mas a preservação em larga escala até dos mais pequenos artefactos do passado é um fenómeno distintivamente moderno.

Estudamos atenciosamente os detritos de eras passadas, mas, no entanto, construímos pouco que mereça ser preservado daqui a mil anos, se é que dure tanto tempo. O que criamos hoje em dia raramente é pensado para durar para sempre, ou sequer mais do que uma ou duas gerações. E não é só na arquitectura. Pensem em quanta da nossa arte e literatura contemporânea se resume ao comércio da nostalgia, sequelas e prequelas infinitas, reedições de filmes antigos, mas com efeitos especiais modernos.

Não pensem que estou a subvalorizar o passado. A memória é uma parte fundamental da existência humana, de certa forma, é a melhor parte. Agarramo-nos àquilo que amamos e estimamos, e conhecemos muito bem a dor da perda. O desejo de explorar o passado e aprender dele é perfeitamente saudável. E o anseio por preservar e sustentar o que é bom surge naturalmente, tal como o esquecimento – pelo menos daquilo que é verdadeiramente importante – é a morte de qualquer sociedade ou civilização.

Ainda assim, não consigo se não pensar que uma preocupação pouco natural com a preservação – a exagerada fixação pelas coisas boas deste mundo – anda de mão dada com uma imaginação diminuta daquilo que ainda está por vir. O horizonte da nossa experiência abre-se diante de nós e fecha atrás.

“O que foi, o que será; o que foi feito, o que será feito. Nada há de novo debaixo do sol!”. Assim fala Qohélet.

Entretanto, estamos todos presos algures no meio. A transitoriedade deste mundo, de nós mesmos e de tudo o que podemos construir e estimar, permanece como um facto teimoso da existência humana. Isso, pelo menos, não se pode atribuir aos males próprios da modernidade.

O esquecimento é, também, parte da providência divina. O esquecimento pode também ser libertador, tal como quando a misericórdia apaga o arrependimento. Talvez a nossa cultura, na qual tudo é catalogado e armazenado para sempre “na nuvem”, e que parece nunca se esquecer de nada excepto aquilo que é importante, tivesse a ganhar com o esquecimento de algumas coisas, ou com a contemplação de algumas novas.

O Advento é um bom tempo para reflectir sobre tudo isto. Durante o Advento a Igreja recorda-nos do fim de todas as coisas enquanto se prepara para a celebração da única coisa genuína e radicalmente nova que aconteceu em toda a história da criação. Que alegria em poder contemplar aquela criança na manjedoura! É o suficiente para nos abandonarmos nas mãos de Deus e esquecer tudo o resto.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 17 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 6 December 2023

Esperança numa nova geração de padres

No passado mês de Outubro o The Catholic Project, que eu dirijo na Universidade Católica da América, publicou os primeiros resultados da maior sondagem sobre padres católicos americanos em mais de 50 anos, o Estudo Nacional de Padres Católicos (ENPC). O primeiro relatório olhava para várias questões, incluindo se os padres estão ou não a ser bem-sucedidos (estão) e como é que a crise dos abusos, e a resposta da Igreja a essa crise, têm afectado os níveis de confiança entre padres e bispos (tem, sim, de forma negativa).

Em Novembro a nossa equipa publicou um segundo relatório, demonstrando algumas perspectivas adicionais da ENPC, olhando mais de perto para a polarização intergeracional entre o presbiterado.

Os padres mais velhos tendem a descrever-se mais como teologicamente “progressistas” e politicamente “liberais” enquanto os mais novos tendem a descrever-se como sendo teologicamente “ortodoxos” e politicamente “conservadores”.

O resultado em si não é especialmente surpreendente. Temos visto sinais a apontar nesta direcção há décadas, e estudos recentes sobre padres americanos têm demonstrado uma tendência conservadora semelhante entre jovens padres. É de notar que recentemente tanto o Papa Francisco como o Cardeal Christophe Pierre indicaram que Roma está inquieta com aquilo que considera ser uma tendência conservadora entre o clero americano mais novo.

Resumindo, o nosso estudo demonstra com provas concretas aquilo que já todos sabiam: os padres jovens americanos tendem a ser mais conservadores que os seus pares mais velhos. Mas há mais. Parece que a narrativa de que o presbiterado americano está a ser tomado de assalto por jovens conservadores não é tão simples como possa parecer à primeira vista.

Em primeiro lugar, mais do que um dilúvio triunfante de vocações conservadoras, o que os nossos dados demonstram é um colapso quase total de vocações sacerdotais entre homens que se consideram teologicamente progressistas ou politicamente liberais. Mais, esse colapso não é repentino ou recente, mas parece ser constante e contínuo, radicando nas coortes que foram ordenadas logo a seguir ao Concílio Vaticano II. Se eu fosse bispo, ou director vocacional, quereria muito poder compreender melhor este colapso.

Uma possível explicação pode ser encontrada numa homilia feita pelo já falecido Cardeal Francis George. Um quarto de século mais tarde, as suas palavras mantêm uma relevância surpreendente:

O Catolicismo Liberal é um projecto cansado. Essencialmente uma crítica, uma crítica até necessária em dada altura da nossa história, tornou-se agora parasítica de uma substância que já não existe. Revelou-se incapaz de passar a fé na sua integridade, e por isso desadequada para fomentar a entrega alegre que é pedida no casamento cristão, na vida consagrada e no sacerdócio ordenado. Já não vivifica.

Note-se que o Cardeal George disse “cansado” e não “morto”. Justamente, pode-se dizer que os anos recentes demonstraram que as notícias da morte do catolicismo liberal têm sido muito exageradas. Não obstante, se o cansaço do catolicismo liberal explica, pelo menos em parte, a quebra de vocações de certas alas na Igreja, o aviso que o Cardeal George faz sobre certo tipo de “Catolicismo conservador” é igualmente pertinente. “A resposta, porém, não se encontra num tupo de catolicismo conservador obcecado com práticas particulares e tão sectária na sua mundivisão que não pode servir de sinal de unidade para todos os povos em Cristo”.

Jesuítas americanos ordenados em 2023

Aqui, o nosso estudo revela um desvio significativo (e, penso eu, encorajador) da narrativa comum do colapso liberal e avanço conservador entre o clero. Enquanto que os padres mais novos têm muito mais tendência para se verem como politicamente conservadores do que os seus pares mais velhos, a coorte mais nova de padres americanos é também a que tem mais probabilidade de se descrever como politicamente moderada. Se a política fosse uma força motriz significativa por detrás das vocações sacerdotais “conservadoras”, então esperar-se-ia que os dados fossem bastante diferentes.

Junte-se a isto o facto de a coorte mais nova de padres ser também a mais diversa, étnica e racialmente, de todas as que sondámos e aquilo que emerge é um retrato de jovens padres americanos que contradiz muitos estereótipos persistentes. Os jovens padres americanos são mais teologicamente ortodoxos, politicamente moderados e etnicamente diversos do que qualquer coorte de padres desde antes do Concílio Vaticano II.

Se estivéssemos à procura de padres que pudessem evitar o “cansaço do catolicismo liberal” e ao mesmo tempo evitar formas de conservadorismo “obsessivo” e “sectário” – se estivéssemos com esperança de encontrar padres que fossem “sinal de unidade de todos os povos em Cristo” – então provavelmente procuraríamos uma geração de padres que, pelo menos no papel, fosse muito semelhante à geração de padres mais novos que temos hoje nos Estados Unidos.

Mas o sacerdócio, como todas as vocações, não se desenrola no papel. Tem de ser vivido por entre todas as armadilhas do mundo. Contudo, o Cardeal George também tinha algo a dizer sobre isso na sua homilia:

A resposta é, simplesmente, o Catolicismo, em toda a sua plenitude e profundidade, uma fé capaz de se distinguir de qualquer cultura e de se envolver com todas, transformando-as, uma fé alegre em todos os dons que Cristo nos quer dar e aberta a todo o mundo que ele morreu para salvar. A fé católica molda uma Igreja com muito espaço para diferentes abordagens pastorais, para discussão e debate, para iniciativas tão variadas como os povos que Deus ama. Mas, mais profundamente, uma Igreja capaz de distinguir entre aquilo que encaixa na tradição que a une a Cristo e o que é uma falsa partida ou uma tese distorcida, uma Igreja unida aqui e agora, porque é sempre una com a Igreja pelos séculos e com os santos no Céu.

O Cardeal Francis George viu claramente o que significa ser fiel, mas também unido em tempos de conflito e divisão. Os nossos jovens padres – bem como o resto de nós todos – devem ter em conta a sabedoria das suas palavras.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 30 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Friday, 10 November 2023

Madrinhos, padrinhas e outros enganos

A Santa Sé publicou um esclarecimento esta quinta-feira sobre se as pessoas transexuais podem ser baptizadas, ou ser madrinhas ou padrinhos. Ia escrever sobre isto, mas a explicação tem tantas condicionantes, que me parece que a questão vai sempre parar ao bom-senso do pároco ou do bispo. Nalguns casos existirá, noutros não. Em todo o caso, embora me pareça fantástico que se demonstre preocupação pastoral por todos, lamento que seja a Igreja a usar termos como “transexual”, legitimando aquilo que não passa de um artifício linguístico. Talvez não seja o mais importante, mas acho que poderia ter sido evitado.

Surgiram, no fim-de-semana e durante a semana, notícias que indicam que a Igreja, nomeadamente o Patriarcado de Lisboa, castigou um padre por denunciar casos de abuso sexual de menores. Houve de facto uma sentença de um tribunal canónico contra um padre. Esse padre, de facto, denunciou casos de abuso sexual de menores. Ainda assim, o título da notícia é falso, ou pelo menos enganador, e essa é apenas a última de uma longa lista de tragédias no caso que envolve o padre Nuno Aurélio e o padre Joaquim Nazaré. Está tudo explicado no meu artigo.

Um dos pontos do artigo sobre o caso do Pe Nuno Aurélio é que já basta os tiros que a Igreja dá no pé, para não andarmos a inventar outros. Um bom exemplo de um caso que foi tratado da pior forma, pelo menos até agora, é o do Pe Marko Rupnik, que vai finalmente enfrentar um tribunal canónico. Stephen White conta os pormenores do caso no artigo desta semana do The Catholic Thing e verbaliza o que todos estamos a pensar: “Como é possível?!”

Persiste a guerra na Terra Santa. Um bispo iraquiano suplica que o conflito não se espalhe para o resto da região, outro do Líbano exige que a Comunidade Internacional intervenha para assegurar um cessar-fogo, e a irmã Nabila, que se encontra em Gaza, revela estar de coração partido com a destruição da escola que era um farol de esperança para a comunidade católica local.

Mas há mais guerras pelo mundo, e no Sudão a casa das irmãs salesianas, que cuidam de mais de 40 crianças e suas mães, foi atingido por uma bomba. Por milagre, não morreu ninguém.

Numa altura em que o panorama político do nosso país parece tresandar mais do que é costume, que tal uns perfumes de inspiração bíblica? É só dar um salto a Viseu.

Realiza-se este fim-de-semana o Meeting de Lisboa, organizado pela Comunhão e Libertação. O programa desta edição parece muito interessante, nomeadamente a exposição sobre uma organização criada para documentar os crimes dos soviéticos, que foi encerrada na Rússia por ordem de Vladimir Putin. Eu espero lá passar, vocês também o devem fazer, se puderem.

Wednesday, 8 November 2023

O Caso Rupnik: Como é que isto ainda está a acontecer?

Stephen P. White

A semana passada a Santa Sé anunciou que o Papa Francisco tinha decidido levantar o prazo de prescrição nas alegações contra o antigo jesuíta e famoso artista Pe Marko Rupnik. O padre esloveno tem sido acusado por mais de duas dúzias de mulheres de abusos sexuais, espirituais e psicológicos, praticados ao longo de várias décadas. A decisão do Papa de levantar o prazo de prescrição neste caso é, por isso, bem-vindo.

Contudo, a decisão de levantar o prazo de prescrição sobre estas alegações teria sido muito mais bem-vindo caso tivesse sido tomada bem mais cedo, e se o caso, até agora, tivesse sido tratado com um pingo de transparência, e se a concessão à justiça não tivesse tido de ser arrancado a ferros, por assim dizer, ao Papa, por um grito colectivo de indignação e justa revolta por parte dos fiéis e, especialmente, por muitas vítimas de abuso sexual na Igreja.

Não temos espaço aqui para elencar todos os detalhes da saga do caso de Rupnik, nem sequer os detalhes que são públicos, mas é necessário fazer um pequeno resumo para compreender o quão inexplicável e desadequado tem sido o tratamento dado a este caso.

As primeiras alegações conhecidas sobre as más-práticas e os abusos sexuais cometidos por Rupnik chegaram à atenção dos jesuítas em 2018. Tendo sido consideradas credíveis, estas alegações foram encaminhadas para a Congregação para a Doutrina da Fé (CDF). Elas incluíam a alegação de que Rupnik tinha dado absolvição a uma cúmplice no pecado contra o Sexto Mandamento – um crime grave que incorre em excomunhão automática.

Em Março de 2020, depois de os jesuítas terem determinado que Rupnik tinha provavelmente incorrido excomunhão, e depois de terem enviado o caso para a CDF para maior investigação, mas antes de a congregação ter confirmado (e subsequentemente levantado) a dita excomunhão, o Pe Rupnik foi convidado a pregar um sermão quaresmal ao Papa na Cúria Romana.

Um ano mais tarde, em 2021, os jesuítas levaram a cabo outra investigação de alegações contra Rupnik feitas por membros femininos da sua antiga comunidade na Eslovénia. Esta investigação determinou que existiam indícios suficientes para desencadear um processo penal contra Rupnik. Pela segunda vez em dois anos, as alegações credíveis contra ele foram submetidas à CDF, desta vez com a recomendação de que fosse iniciado um processo penal.

Estas alegações foram submetidas à Congregação para a Doutrina da Fé em Janeiro de 2022. Nesse mesmo mês, o Papa Francisco encontrou-se pessoalmente com Rupnik. Um mês mais tarde o padre foi sujeitado a novas restrições pelos seus superiores jesuítas. Em Outubro de 2022 a CDF – agora conhecida como Dicastério para a Doutrina da Fé – determinou que tinha sido ultrapassado o prazo de prescrição, e por isso não seria aberto um processo canónico.

No início deste ano, em 2023, os jesuítas abriram outra investigação interna contra Rupnik – pelas minhas contas, a terceira investigação no espaço de cinco anos. Entretanto, Rupnik violou as restrições que lhe tinham sido impostas pelos jesuítas. Esta persistente desobediência levou-o eventualmente a ser expulso da Sociedade de Jesus em Junho deste ano.

O que nos traz à decisão, tornada pública há duas semanas, de que o Pe Marko Rupnik tinha sido incardinado na diocese Eslovena de Koper onde, segundo uma declaração daquela diocese, “goza de todos os direitos e deveres dos padres diocesanos”.

Como é que é possível que alguém, no ano 2023, pudesse pensar que a resolução justa para o caso de um padre que enfrenta tantas alegações, confirmadas como sendo credíveis em tantas investigações diferentes, de tantos acusadores, ao longo de tantos anos, passasse por devolvê-lo discretamente ao ministério, num local diferente e sob as ordens de um novo superior?

Nada disto faz sentido. Não faz sentido se ele for culpado, e não faz sentido se ele for inocente. Talvez por isso ninguém pareça estar interessado em defender a forma como tudo isto tem sido tratado. Chegámos ao ponto exasperante em que a interpretação mais caridosa possível de tudo o que se passou é a incompetência burocrática.

Se existe uma explicação boa, razoável ou sequer plausível para a forma como se tem lidado com o caso, o Vaticano, como de costume, não tem mostrado qualquer vontade de se explicar a ninguém.

Com Roma a querer dizer o menos possível, a mensagem que se passa não é de preocupação pelas vítimas, nem de dedicação à transparência, nem um esforço para restaurar a confiança, nem a determinação de que a justiça seja não só feita, como se veja que foi feita. Antes, a mensagem que passa (certamente sem intenção) é de um gritante desprezo pela inteligência dos fiéis e de total desrespeito pelas vítimas dos abusos sexuais na Igreja.

O problema de tudo isto vai muito para além da culpa ou da inocência do próprio Rupnik, ou sequer da necessidade de justiça e de cura para os que possam ter sofrido os seus abusos. É a paciência das vítimas de abusos que está a se repetidamente posta à prova, a confiança dos fiéis que está cada vez mais saturada e os obstáculos à proclamação do Evangelho que se tornam cada vez maiores à medida que a credibilidade da Igreja diminui.

A revolta que se fez sentir com a notícia do regresso de Rupnik ao ministério foi de tal ordem que a Comissão Pontifícia para a Protecção de Menores interveio, convencendo o Santo Padre a mudar de rumo. Ainda bem para a Comissão, e ainda bem para o Papa por voltar atrás no que diz respeito ao prazo de prescrição.

Tudo dito, é difícil imaginar uma resolução para o caso de Rupnik que possa desfazer a percepção já criada por este caso, nomeadamente de que não obstante todos os esforços de reforma, muito elogiados, do Papa Francisco, na verdade pouca coisa mudou. Como é que a Igreja pode afirmar credivelmente ter aprendido com as suas falhas do passado no que diz respeito a criminosos influentes como Maciel e McCarrick, quando ainda hoje se continuam a passar-se casos inexplicáveis como o de Rupnik?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 2 de Novembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Wednesday, 27 September 2023

Eis o Homem

Costuma-se dizer, embora não tanto como se deve, que um dos males dos nossos dias é a perda do sentido de pecado. O Papa Pio XII disse isto mesmo num famoso discurso radiofónico aos catequistas, em 1946, e o Papa Francisco já repetiu a mesma ideia mais que uma vez, comparando a hipocrisia de alguns cristãos à do Rei David, incapaz de ver o seu próprio pecado até que o profeta Natã o colocou diante dos olhos: “Esse homem és tu!”

De tempos a tempos todos nós precisamos de ser abanados e acordados da nossa própria cegueira e complacência. Nas palavras do Papa Francisco: “Que o Senhor nos dê a graça de enviar sempre um profeta – pode ser um vizinho, um filho ou filha, uma mãe ou um pai – para nos dar umas palmadinhas quando cairmos para um mundo em que tudo parece ser legítimo.”

É isto mesmo.

Talvez possamos ir mais longe e aplicar isto não só ao reconhecimento da nossa cegueira para com as nossas próprias falhas, mas também à sabedoria para rezar por correcção. Ser cego por causa dos nossos pecados, incapaz de os ver, como David, é uma coisa. Mas perder a noção de que as nossas acções podem ser julgadas por alguém, de acordo com um qualquer padrão que nos ultrapassa, é outra.

A correcção fraterna pressupõe a existência de fraternidade. Este tipo de correcção requer um sentido de responsabilidade e confiança mútua entre as partes (como se esperaria encontrar entre irmãos). Mas a um nível mais básico (quase pedante), a correcção fraternal pressupõe um sentido partilhado da própria natureza e fonte da fraternidade: os irmãos são-no porque partilham um mesmo pai.

Por isso, um cristão poderá ser convencido da necessidade de se arrepender quando lhe forem reveladas as formas como se desviou da lei de Deus ou da lei da Igreja. Mas isso depende do reconhecimento prévio por parte do pecador da existência dessas mesmas leis, e um desejo, por mais imperfeito que seja, de viver de acordo com elas.

E a pessoa que não reconhece tais leis, ou a autoridade que as sustenta? E a pessoa que acredita que o mal é na verdade o bem? E a pessoa que não conhece o Pai e nega os ensinamentos da nossa Mãe, a Igreja? Tal pessoa não está para além da esperança da misericórdia e do arrependimento, como é evidente, mas o apelo à lei (a lei de Deus, a lei da natureza, a lei da Igreja ou até a lei do homem), cuja autoridade ele não reconhece, dificilmente a levará ao arrependimento.

Em tais casos a perda do sentido do pecado não é apenas a incapacidade de ver o meu próprio pecado, mas a perda da possibilidade de reconhecer que o pecado é pecado sequer. Se perdemos Deus de vista, se perdemos de vista o bem do qual o pecado é um afastamento ou uma negação, então a própria categoria de pecado (para não falar de fraternidade) deixa de ter qualquer sentido.

É interessante notar como chegámos à beira daquilo que Nietzsche entendeu quando observou que “se nada é verdade, tudo é permitido”, razão pela qual descrevia o seu projecto filosófico – aliás, a si mesmo – como “Dionísio versus o Crucificado”.

E isto parece-me ser muito mais próximo daquilo que o Papa Pio XII tinha em mente quando falou da perda do sentido de pecado nos meses imediatamente a seguir aos horrores da Segunda Guerra Mundial. O remédio que o Papa Pio propôs não era, pelo menos numa primeira instância, recordar o mundo da lei moral de que se tinha esquecido, ou que tinha negado. Antes, o remédio encontrar-se-ia no Cristo Crucificado. Nele, a realidade do pecado é colocada em bruto contraste com aquele amor que todo o pecado ofende.

Vale a pena voltar a olhar para o discurso de Pio XII de 1946, onde regista o seu lamento pela perda do sentido de pecado exactamente neste contexto:

Conhecer Jesus crucificado é conhecer o horror de Deus ao pecado; a sua culpa apenas pôde ser purificada no precioso sangue do Filho unigénito de Deus, feito homem.


Talvez o maior pecado no mundo hoje seja o facto de os homens terem começado a perder o sentido do pecado. Se isso for abafado, entorpecido – porque não pode ser totalmente extirpado do coração do homem – se for impedido de ser despertado por qualquer vislumbre do Deus-homem a morrer na cruz do Calvário para pagar a pena do pecado, que restará para impedir as hordas dos inimigos de Deus de dominarem o egoísmo, orgulho, sensualidade e ambições desmedidas do homem pecaminoso? Bastará a mera legislação humana? Os acordos ou os tratados?

Não vivemos num mundo em que os corações e as consciências do homem podem ser facilmente tocados pelos apelos à autoridade, nem mesmo à autoridade de Deus. Mesmo dentro da Igreja, entre os baptizados, nem sempre é eficiente apelar à autoridade da doutrina ou à Divina Revelação. Poderíamos desejar que não fosse assim, mas é.

O que nos resta, portanto, é proclamar a Boa Nova de uma forma que o mundo ainda consiga entender. Se os apelos à autoridade não tiverem adesão, então resta um caminho que é tão convincente hoje como sempre foi. Ouçamos novamente Pio XII.

No Sermão da Montanha, o divino Redentor iluminou o caminho que conduz à vontade do Pai e à vida eterna; mas do cadafalso do Calvário flui a torrente sempre plena e constante de graças, de força e de coragem, a única que permite ao homem trilhar esse caminho com um andar firme e certo. 

Esse percurso é nos revelado por aquele que o trilhou antes de nós – embora ele não tenha precisado de um Natã para o corrigir – aquele sobre quem Pilatos falava quando clamou: “Eis o Homem”. Nada condena mais o pecador que o amor incomensurável de Deus. Nada penetra até ao cerne da consciência do homem mais do que a própria misericórdia de Deus. E a força e a coragem para percorrer esse caminho jorram até nós desde cima.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 21 de Setembro de 2023)

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Wednesday, 16 August 2023

Como despertar um reavivamento

Stephen P. White
Há algum tempo que estão a ser feitas preparações para o Congresso Eucarístico Nacional que terá lugar no próximo verão em Indianapolis. O Congresso Eucarístico será o culminar de três anos de reavivamento eucarístico nos EUA, levado a cabo para despertar uma relação mais profunda com Nosso Senhor na Santa Eucaristia.

Para os fiéis, a razão da esperança num reavivar da devoção àquilo que é a fonte e o ápice da vida cristã, deve ser clara. Sondagens recentes indicam que a crença na Verdadeira Presença é preocupantemente baixa entre católicos (mesmo um em cada três dos praticantes acreditam que a Eucaristia não é mais do que um símbolo). Há muito tempo que a prática dominical está em baixo, e a tendência acelerou com as políticas de controlo da pandemia.

Se a devoção à fonte da fé católica está a enfraquecer, não surpreende que o resto da vida sacramental siga pelo mesmo caminho. Os índices de casamento pela Igreja estão em queda e, previsivelmente, os nascimentos e baptismos também. As primeiras comunhões e crismas estão a decrescer e as ordenações também desceram, embora não tão dramaticamente.

Os números, puros e duros, não são a única ou até a melhor forma de julgar a saúde da Igreja, mas a estes números desencorajadores podemos também acrescentar as profundas divisões políticas, culturais e sociais entre católicos americanos; os efeitos da crise dos abusos; profundo desacordo sobre questões de fé (incluindo, como já foi referido, sobre a liturgia e a natureza da própria Eucaristia). No meio de tudo isto a vontade urgente de se fazer algo – algo em grande, e rapidamente – torna-se fácil de compreender.

Mas se uma renovação da fé é desejável, vale a pena perguntar se um Reavivamento Eucarístico (e a Peregrinação Eucarística e o Congresso Eucarístico do ano que vem) são o género de coisa que pode despertar uma renovação genuína.

Simplesmente chamar à iniciativa um “Reavivamento Eucarístico” não faz com que o seja, tal como a “nova evangelização” e a “sinodalidade” também não o são só porque os termos são repetidos constantemente.

Poderá o Reavivamento Eucarístico ser um grande exercício de fogo de vista? Um grande espetáculo pensado para dar a ideia de que se está a “fazer alguma coisa” sem abordar os problemas de fundo que afectam a Igreja nos Estados Unidos?

Há críticos desta iniciativa que parecem convencidos de que será isso mesmo: uma distracção cara e vistosa do verdadeiro trabalho e missão da Igreja. Claro que se pode colocar a mesma questão (como se tem feito, há décadas) sobre as Jornadas Mundiais da Juventude.

Para serem bem-sucedidos, os grandes eventos como o Congresso Eucarístico ou a Jornada Mundial da Juventude, não podem ser autocentradas. Na melhor das hipóteses, tais eventos fornecem a ocasião para os seus participantes saírem dos seus ritmos de vida diária, para tomarem parte num espetáculo edificante, e não uso o termo “espetáculo” de forma pejorativa.

Lembro-me bem de quão emocionante foi ajoelhar-me no campo quente e poeirento de Tor Vergata, com mais dois milhões de pessoas, e de rezar na vigília antes da missa com o Papa João Paulo II na Jornada Mundial da Juventude, em Roma. Esse foi um espetáculo no melhor sentido da palavra. Não foi o género de coisa que se vê todos os dias, ou sequer mais do que uma vez.

Para mim, como para tantos outros, foi um momento edificante e de graça. Via-se o mesmo nas faces dos jovens nas fotografias da Jornada Mundial da Juventude em Portugal, a semana passada. Esses momentos têm efeitos profundos e duradouros. Há todo um lote de iniciativas e de ministérios, ainda pujantes, que remontam directa ou indirectamente à Jornada Mundial da Juventude de 1993, em Denver.

O grande desafio, claro está, é o que vem depois.

A medida segundo a qual os grandes eventos eclesiais como o Congresso Eucarístico ou a Jornada Mundial da Juventude devem ser julgadas é complicada de discernir. Nem tudo é quantificável, sobretudo em matéria de fé, como se fosse possível medir a eficiência da Providência. Ele conduz todos os corações de acordo com os seus próprios desígnios e a seu tempo. Se o nosso trabalho, por mais bem-intencionado que seja, não for o Seu, nenhum dos nossos esforços vingarão. Se escutarmos o Seu chamamento, e perseverarmos, nem a nossa fraqueza, nem o nosso pecado o deterão.

Um reavivamento duradouro e transformador raramente começa com um grande plano, pelo menos não com um plano nosso. E quase nunca acontece de cima para baixo (o que não significa que os líderes eclesiais não possam fazer muito para encorajar ou frustrar esse esforço). Em todas as eras da Igreja o reavivamento começa da mesma forma: homens e mulheres respondem ao chamamento de Deus de uma forma radical. Deus age, nós respondemos.

Se respondermos generosamente, podemos ter confiança de que o Senhor estará ao volante. Mas mesmo aí devemos esperar o reavivamento não de acordo com os nossos planos e ambições, mas de acordo com os estranhos caminhos da Providência. Aquilo que não podemos esperar é permanecermos iguais.

E, se vamos ser honestos, esse é o grande risco. Se forem como eu, a coisas mais assustadora que há é precisamente a ideia de estar constantemente em mudança. Mas esse é o risco inerente ao encontro com Cristo. Como Paulo encoraja os Efésios: “Renunciai à vida passada, despojai-vos do homem velho, corrompido pelas concupiscências enganadoras. Renovai sem cessar o sentimento da vossa alma, e revesti-vos do homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade.” (Efésios 4, 22-24)

E é assim, afinal, que se desperta um reavivamento. Começa com a corajosa resposta de um coração aberto, transformado por um encontro com o Senhor.

O Congresso Eucarístico – o evento em si – não é o objectivo do Reavivamento Eucarístico. Antes, é a convocatória. Os nossos pastores convidam-nos a renovar e aprofundar a nossa devoção a Cristo na Eucaristia. Eles sabem que não será uma convenção, por mais meritória e espetacular que possa ser, a renovar a Igreja, mas uma Pessoa: Jesus Cristo. Ele chama-nos a cada um pelo nome. Vamos responder com corações generosos? Teremos a coragem de responder ao convocatória?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 10 de Agosto de 2023)

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Wednesday, 19 July 2023

Se Deus está Connosco

Stephen P. White
Cracóvia, Polónia – Escrevo estas linhas enquanto os participantes do Seminário Tertio Millennio sobre a Sociedade Livre acabam de assistir a uma palestra sobre bioética. Os alunos vêm de nove países diferentes, para estudar a doutrina social da Igreja durante três semanas, aqui na Polónia. Ainda hoje visitarão o lugar a que João Paulo II chamou “Gólgota do mundo moderno”.

Mais de um milhão de homens, mulheres e crianças, na sua maioria judeus, foram assassinados no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau. Foi lá que São Maximiliano Kolbe se ofereceu para tomar o lugar de um homem condenado, dando a sua própria vida pela de um outro prisioneiro. Foi lá também que a filósofa e freira carmelita, Irmã Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), foi gaseada e cremada em Agosto de 1942.

O inconcebível massacre de Auschwitz terminou finalmente quando o Exército Vermelho chegou, no início de 1945. A ideologia do terror Nazi foi vencida, só para ser substituída pela outra ideologia totalitária do Século XX.

Por aqui, a Segunda Guerra Mundial é recordada por vezes como a guerra que a Polónia perdeu duas vezes: primeiro em Setembro de 1939, quando o país foi invadido a partir do ocidente pelas forças do Terceiro Reich, e do oriente, pelo exército soviético; e depois da Guerra quando a Polónia, como grande parte da Europa central e de leste, foi abandonada pelos aliados ocidentais, para ficar debaixo do domínio comunista durante mais de quatro décadas.

Tem sido para mim um privilégio passar várias semanas a leccionar na Polónia todos os verões. Ao longo dos últimos 18 anos os alunos foram mudando, tal como mudaram as grandes preocupações e os assuntos mais urgentes da actualidade. Quando o seminário foi fundado, em 1992, (muito antes do meu tempo) o objectivo principal era formar os futuros líderes das “novas democracias” que estavam a emergir depois de meio século de domínio comunista, para que a doutrina social da Igreja e a sua visão e entendimento da pessoa humana, da solidariedade, subsidiariedade e bem comum pudessem contribuir para a construção do futuro pós-comunista.

A liberdade, quando desligada das verdades sobre o homem, torna-se invariavelmente autodestrutiva. Nem as mais elegantemente escritas constituições democráticas, nem a mais eficiente das economias produtivas pode alterar este facto humano.

Como disse João Paulo II em Centesimus annus: “Na sociedade onde a sua organização reduz arbitrariamente ou até suprime a esfera em que a liberdade legitimamente se exerce, o resultado é que a vida social progressivamente se desorganiza e definha.”

O Papa polaco ofereceu um aviso semelhante aos que viriam a ver na licença o remédio para a opressão comunista. “Uma liberdade que por si própria recusasse vincular-se à verdade, degeneraria em arbítrio e acabaria por submeter-se às paixões mais vis, e por se autodestruir.” Quando uma nação, seja por força ou por escolha, vive segundo a mentira por tempo suficiente, as consequências vão para além da doença económica e da disfunção política. Os hábitos mudam. As culturas também.

Edith Stein
Depois de quase meio século de comunismo, o tipo de hábitos – as virtudes – sobre as quais assentam o autogoverno tinham atrofiado. Os cidadãos precisaram de aprender (ou reaprender) aquilo que outrora tinham sido simples verdades: que a confiança e a verdade não são fragilidades políticas, mas virtudes sociais necessárias. Isto leva tempo. Pode levar gerações.

O mesmo se aplica ao Ocidente, onde os hábitos de licença e excesso se tornaram comuns, ou quase a norma. Consumismo, individualismo, relativismo: estes vícios dissolvem as estruturas da solidariedade que devem dotar a sociedade de vitalidade e força. O resultado vê-se nas formas de profunda alienação social, preocupantemente parecidas com a alienação produzida pelo comunismo. A nossa relativa riqueza e poder tecnológico só pioram as coisas, tornando-nos complacentes.

Grande parte do Ocidente está inoculada contra o Evangelho. É como se as nossas sociedades não fossem apenas indiferentes, mas imunes à Boa Nova. Os “anticorpos” culturais do Ocidente pós-cristão tornam a missão de evangelizar ainda mais difícil. Tudo isto levanta diversas questões: os nossos esforços para humanizar e construir uma sociedade mais justa podem superar a tendência da nossa política, economia e tecnologia para desumanizar e corromper? Podemos construir de dentro uma cultura saudável, mais rapidamente do que é erodida de fora?

Estas questões tornam-se ainda mais perturbadoras quando se considera que as instituições que sempre serviram de obstáculo às piores formas de corrupção cultural – a família e a Igreja – estão, em muitos lugares, em crise. Hoje enfrentamos estes desafios, por assim dizer, de mãos atadas atrás das costas. A esperança pode ser difícil de conseguir.

O meu colega George Weigel alertou para aquilo que apelida de “tirania do possível”, a ideia de que por piores que sejam os tempos em que nos encontramos, por mais escuro que o futuro possa parecer, as coisas não poderiam ser diferentes daquilo que são. A história da Polónia também tem umas lições para nos dar a este respeito.

Foi há apenas uma geração que a força sufocante e aparentemente inquebrável do comunismo nesta parte do mundo terminou de forma abrupta e inesperada, com os eventos de 1989 e depois. E hoje os mártires de Auschwitz são venerados como símbolos de esperança e bondade, mesmo no meio do mal mais inexplicável. A história deste lugar está cheia de recordações de que a salvação não está nas promessas vãs das ideologias, nem nos poderosos deste mundo, mas naquele que se sujeitou à morte e que chama cada um de nós para O seguir até ao Calvário.

Na próxima semana o grupo vai visitar um local muito diferente de Auschwitz: o Santuário da Divina Misericórdia, onde os restos mortais de Santa Faustina Kowalska descansam debaixo da imagem que emergiu da obscuridade para ser venerada por todo o mundo. A misericórdia de Deus limita o mal do mundo. A sua luz brilha na escuridão – uma luz que as trevas não compreendem. Ele conquistou até a morte.

Si deus nobiscum quis contranos?


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 13 de Julho de 2023)

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Wednesday, 5 July 2023

Que sínodo, e que sinodalidade?

Stephen P. White
No seu livro “Justiça de Quem, qual Racionalidade?”, o filósofo Alasdair MacIntyre argumenta que as diferentes teorias de justiça não podem ser compreendidas, quanto mais avaliadas, sem ser no seio de uma tradição de inquirição racional. Sem se ter em conta a tradição a partir da qual se abordam questões importantes sobre justiça – ou, pior ainda, imaginando-se totalmente livre de tal tradição – o mais provável é que o próprio não compreenda e, pior, conduza os outros ao erro, agravando a confusão, o relativismo e o conflito.

A Igreja não é meramente uma escola de pensamento teológico ou filosófico. Nem a sua identidade se resume à sua tradição intelectual, por mais magnífica que seja. Contudo, quando a Igreja pensa sobre como se deve organizar para poder proclamar a Boa Nova de forma mais eficiente, fá-lo a partir de um contexto distinto, de uma tradição específica. Quando se esquece, ou ignora essa tradição, as coisas correm mal.

O que nos traz ao encontro do Sínodo da Sinodalidade, em Outubro, sobre o qual muito já foi escrito, incluindo muitas críticas. Embora eu partilhe de muitas dessas críticas, permitam-me tecer alguns comentários cautelosos em sua defesa.

Uma das maiores críticas do Sínodo – uma crítica à qual a sua liderança, incluindo o Papa Francisco, tem sido particularmente sensível – é de que já existe uma conclusão predeterminada para os trabalhos.

O processo sinodal, dizem os críticos, está pensado para dotar de credibilidade uma agenda predeterminada vinda do topo, pelas mãos dos seus próprios organizadores. Embora tal agenda possa não beneficiar de credibilidade ou de apoio, o processo sinodal fará com que pareça o resultado da voz do Povo de Deus, o infalível sensus fidei!

O perigo dessa visão está no facto de ser simultaneamente plausível (vide o “caminho sinodal” alemão) e de gerar níveis venenosos de cinismo e desconfiança, e não apenas entre os teoristas da conspiração e os malucos da internet. Durante o Sínodo para a Família, de 2015, um grupo de cardeais expressou preocupações semelhantes directamente ao Papa Francisco. A sua carta foi divulgada na imprensa, que tentou pintá-los como inimigos do sínodo e, por extensão, do Santo Padre.

Num esforço para antecipar tais críticas, o Instrumentum Laboris do actual sínodo enfatiza o facto de não estar a apresentar conclusões antecipadas, mas apenas tópicos e perguntas para consideração e discernimento. É por isso que o I.L. insiste, correctamente, que, “não é um documento do Magistério da Igreja, nem um relato de uma sondagem sociológica; não propõe a formulação de indicações operacionais, nem objectivos, nem a elaboração plena de uma visão teológica”.

Estas afirmações de neutralidade convencem na mesma medida em que se confia nos organizadores do sínodo.

Quanto ao Papa Francisco, tem insistido que “o sínodo não é um parlamento, ou uma sondagem de opinião; o sínodo é um evento eclesial, e o seu protagonista é o Espírito Santo. Sem a presença do Espírito, não haverá sínodo”.

Isto pode ser lido como uma admissão, que entendo como bem-vinda, de que o sucesso do Sínodo não é um dado adquirido. Se for um esforço meramente humano, falhará.

A Igreja não pode suspender a crença em, ou fingir neutralidade para com aquilo que lhe foi revelado – a Escritura e a Tradição – na esperança de melhor poder compreender como proclamar a Boa Nova. A Igreja não pode conduzir o sínodo como se não fosse portadora, e mesmo encarnação de uma particular Tradição. Seria um erro grave tratar o Magistério como apenas uma “agenda” entre outras.

É importante reconhecer que o Sínodo, se for conduzido com fidelidade e disposição apropriadas, pode vir a ser uma grande benesse para a Igreja. Na verdade, em todo o lugar onde a Igreja está viva e missionária já se encontra a “sinodalidade”, ainda que poucos a chamem assim.

Onde é que podemos ver a sinodalidade já em acção? Em qualquer lugar onde a Igreja escuta cuidadosamente e avalia aquilo que ouve à luz do que foi revelado pela Escritura e pela Tradição. Em qualquer lugar onde os baptizados compreendem genuinamente que o pensamento aprofundado não é a mesma coisa que o discernimento espiritual, mas que ambos são necessários.

Em qualquer lugar onde os baptizados, leigos e clero levam a sério a responsabilidade de fortalecer a comunhão e participar plenamente na missão da Igreja de acordo com a vocação, lugar e circunstância de cada um.

Isto é que é sinodalidade autêntica: uma expressão genuína da eclesiologia da Lumen Gentium, e um poderoso testemunho da verdade do Evangelho. Alguém duvida seriamente que a Igreja e a sua missão estariam bem servidas com mais disto?

Contudo, existem muitas regiões dentro da Igreja, sobretudo aqui no Ocidente, onde esta vitalidade já não existe. Frequentemente são estas partes moribundas da Igreja que, reconhecendo a sua obsolescência, tentam desesperadamente “fazer acontecer” a “sinodalidade”.

Onde a prevalência de uma eclesiologia atrofiada e mundana impedem a sinodalidade de florescer de forma orgânica, tornar-se-ão mais aparentes os esforços para a forçar. O resultado será uma sinodalidade contrafeita, que lança os leigos e o clero uns contra os outros numa luta de poder, que vê a fidelidade à Escritura e à Tradição como obstáculos à missão e que medem o Evangelho segundo o Espírito do Tempo.

Os católicos devem evitar um optimismo ingénuo sobre o sínodo, e resistir ao tipo de inovação mal pensada que fez tantos danos à Igreja na sequência do Concílio Vaticano II. Mas também devemos ter cautela com o tipo de cinismo implacável que, ao tentar evitar o desastre, também impede uma genuína abertura às iniciativas do Espírito Santo.

O Sínodo é um processo arriscado, sem dúvida. Mas é também uma oportunidade para um momento de verdadeira graça e rejuvenescimento, uma oportunidade para a Igreja se tornar mais perfeitamente aquilo que já é. Isto apenas acontecerá se a sua disponibilidade para escutar for igualada por uma determinação de permanecer fiel à Escritura e à Tradição. A Igreja não pode discernir bem se fingir não conhecer aquilo que, na verdade, já conhece.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing no Domingo, 2 de Julho de 2023)

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Wednesday, 21 June 2023

Amor Real e Irreal

Stephen P. White

Há muitos anos, quando eu e a minha mulher estávamos noivos, fizemos um teste chamado “FOCCUS Inventory”, que é uma espécie de prova de compatibilidade que a diocese exige a todos os jovens casais que se estão a preparar para o matrimónio. O objectivo do exercício, se bem me lembro, era identificar áreas de potencial conflito ou desacordo entre os futuros marido e mulher, para que a fonte de fricção, ou de potencial fricção, pudesse ser abordado antes, e não depois, de se casarem.

O casamento é muito mais (e por vezes muito menos) do que aquilo que dois jovens possam imaginar. Não é mal pensado identificar de antemão alguns dos elementos mais mundanos, mas não menos importantes, da beleza do casamento. Nem que seja para dar ao sacerdote alguma ideia das rochas submersas que se encontram no caminho, ainda que o casal se mantenha obstinadamente ingénuo.

Fizemos o teste separadamente e depois encontrámo-nos com o pároco para rever os resultados. Ele recordou-nos que o teste é essencialmente um diagnóstico. Não existem respostas “correctas” ou “erradas”, assegurou-nos, apenas respostas que podem apresentar ocasião para uma reflexão, consideração e conversa mais aprofundadas. Só que, estávamos prestes a descobrir, afinal havia respostas erradas.

Muitas das perguntas na prova eram sobre o tipo de consideração prática que poderia facilmente passar despercebida a um par de jovens apaixonados: Quem vai tratar das finanças? Já conversaram sobre como os filhos podem afectar os planos de carreira para um ou ambos? Espera que o seu futuro esposo mude depois de se casar?

Acontece que eu e a minha mulher respondemos de forma diferente a essa última questão. Ela, tão querida, respondeu “não”, o que obviamente é a resposta correcta. As pessoas que se casam com alguém que desesperadamente esperam que se transforme noutra, estão a preparar-se para uma grande desilusão. Raramente é isso que acontece.

Como já devem desconfiar, eu respondi “sim”. Sirenes. Não só tinha dado uma resposta diferente, mas neste teste sem respostas erradas eu tinha claramente dado a resposta errada. O Sr. Prior ficou com um ar muito sério, um olhar de preocupação.

“Precisamos de conversar sobre isto. Stephen, porque é que esperas que ela mude?”. Via-se na cara da minha noiva que ela queria fazer uma pergunta semelhante, embora me pareça que ela a teria posto noutros termos.

Respondi com outra pergunta: “Se o objectivo do casamento é ajudar-nos a crescer em santidade, para que cada um ajude o outro a chegar ao Céu, então de que serve o sacramento se nos deixa iguais ao que somos agora?”

O prior suspirou, teceu um sorriso irónico, e comentou: “Não é isso que eles querem dizer com a pergunta”.

Não pude deixar de ripostar: “Pois devia ser. E seja como for, é isso que eu quero dizer com a minha resposta”.

Agora foi a vez de ela, a minha bela noiva, suspirar. Ela não estava sob qualquer ilusão, sabia muito bem que se ia casar com um espertalhão. Graças a Deus para mim, e como já vimos, ela tinha todas as expectativas de que eu seria assim para sempre. E ainda assim avançou.

O objectivo desta história não é mostrar-vos que a minha mulher é paciente e compreensiva, ou pelo menos não é esse o único objectivo. O drama de cada vida humana passa-se entre a pessoa que somos e a pessoa em que nos estamos a transformar. Estamos todos algures no meio. Arriscamos o desastre se não aspirarmos a ser mais do que somos – se não esperamos, rezamos e trabalhamos para mudar, para nos convertermos, para nos tornarmos cada vez mais a pessoa que somos chamados a ser.

Ao mesmo tempo, esta ideia de “a pessoa que eu devo ser” pode tornar-se também uma ilusão. É tão fácil como é perigoso apaixonar-se por uma ideia, seja uma versão idealizada de nós mesmos ou de outros. É um hábito peculiarmente humano ver nos outros aquilo que desejamos ver, e de acreditar naquilo que queremos que seja verdade. É curioso como o coração humano pode estar tão ansioso de acreditar que os seus desejos sejam verdade.

As amizades e os amores mais verdadeiros não são forjados a partir de ideais puros ou de meras ligações mundanas. Somos corpo e alma, e a exaltação de um acima do outro ao ponto de os separar invariavelmente conduz à destruição de ambos. O homem que ama a “humanidade” pode facilmente não amar o seu vizinho. O que ama aquilo que é seu – ele próprio, ou a sua tribo – acima de, e contra todos os outros, acaba por diminuir ambos.

A amizade humana não existe como abstracção. A ideia da amizade não é um amigo. E a ideia da família ou da nação não substitui essas realidades. Mas o homem também não se pode tornar ele mesmo se o seu coração nunca for para além da sua própria carne e vida.

Uma das passagens mais citadas do Concílio, da Gaudium et Spes tantas vezes citada por João Paulo II, chega ao cerne da questão:

Na realidade, o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente. Adão, o primeiro homem, era efectivamente figura do futuro, isto é, de Cristo Senhor. Cristo, novo Adão, na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime. Não é por isso de admirar que as verdades acima ditas tenham n'Ele a sua fonte e n'Ele atinjam a plenitude.

Compreender isto é compreender o mundo como ele realmente é. É aprender a diferença entre o amor real e irreal. Tanta da nossa história tem sido uma derrapagem contínua entre o materialismo e o idealismo. No centro, pode-se dizer, encontra-se o Deus Homem, Cristo Encarnado, mantendo toda a criação em conjunto. Nele, começamos a fazer sentido para nós mesmos. 


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 15 de Junho de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing

Wednesday, 7 June 2023

Junho é mês do Sagrado Coração

Stephen P. White
O mês de Junho é dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. O amor de Deus manifestado em Cristo crucificado tem sido alvo de devoção e piedade desde o início do Cristianismo, mas a devoção específica ao coração de Cristo só surgiu na Idade Média.

A devoção ao Sagrado Coração, como é conhecida hoje, levantou voo mais a sério em França, no Século 17, através das revelações feitas a Santa Margarida Maria Alacoque, e com a ajuda do seu director espiritual, o jesuíta São Claude de la Colombière.

No Século 18 a devoção ao Sagrado Coração – e a consagração formal ao Sagrado Coração – já tinha espalhado por França e mais além. Durante a Revolução Francesa o Sagrado Coração tornou-se um símbolo das forças lealistas católicas que se opunham as forças ateias e anticlericais da Revolução. Os contrarrevolucionários da Vendeia usavam insígnias com a imagem do Sagrado Coração.

Em 1856 o Papa Pio IX estabeleceu a Solenidade do Sagrado Coração para a Igreja Universal. Em 1899 o Papa Leão XIII emitiu a encíclica Annum Sacrum, onde declara que “na principal Igreja de toda a cidade e aldeia” os féis de todo o mundo deviam ser solenemente consagrados ao Sagrado Coração de Jesus.

O Papa queria que a devoção da Igreja unida ao Sagrado Coração de Jesus servisse como recordação importante, para os próprios fiéis, e também para o mundo em geral, do facto de Cristo ser rei de toda a criação – uma realeza exercida tanto por direito, como Filho de Deus, como em virtude do terrível preço que teve de pagar para a redimir.

Entre as outras razões dadas pelo Papa Leão para exortar a Igreja a fazer esta consagração estava a sua grande preocupação com o aumento do ateísmo, sobretudo nas nações cristãs. Via a religião a ser excluída cada vez mais da vida pública, como se “um muro estivesse a ser erguido entre a Igreja e a sociedade civil”.

Este desrespeito pela autoridade do sagrado e da lei divina na vida pública, escreveu Leão XIII, tende para um “arrancar [d]a fé em Cristo, e se fosse possível, banir o próprio Deus da terra”. Continuou, descrevendo um estado que revela uma semelhança desconcertante com os nossos tempos turbulentos e ansiosos:

Com tamanha temeridade de ânimos, não há de que se admirar que grande parte da humanidade esteja envolvida em tal desordem e presa por estorvo tão grave que não deixe mais ninguém viver sem temores e perigos? Não há dúvida que com o desprezo da religião, são atingidas as bases mais sólidas da incolumidade pública. Justo e merecido castigo de Deus aos rebeldes que, abandonados às próprias paixões e escravos de sua própria cobiça, acabam vítimas de sua libertinagem.

Bandeira de guerra da Vendeia
Este é um dos grandes temas, talvez o grande tema, do pontificado do Papa Leão XIII. Quando o homem, no seu orgulho, tenta “libertar-se” de Deus, acaba por se tornar escravo das suas paixões. Quando o homem se esquece de Deus, perde-se a si mesmo.

O Papa João Paulo II resumiu a posição de Leão XIII, quase um século mais tarde: “uma liberdade que por si própria recusasse vincular-se à verdade, degeneraria em arbítrio e acabaria por submeter-se às paixões mais vis, e por se autodestruir”.

Não é difícil ouvir nessas palavras proféticas do Papa Leão XIII os ecos da carta de São Paulo aos Romanos. “Por isso Deus abandonou-os às paixões dos seus corações e caíram em ações vergonhosas desonrando os seus próprios corpos. Trocaram o verdadeiro conhecimento de Deus pela mentira. Adoraram e serviram coisas criadas em vez de adorarem e servirem o próprio Criador, Ele que deve ser adorado eternamente”

Trata-se da mesma história de rebelião orgulhosa que se repete ao longo da salvação – desde os israelitas teimosos que se revoltaram no deserto, à Torre de Babel e à própria Queda, quando foi prometido a Adão e Eva que a sua desobediência os tornaria semelhantes a deuses.

Esta é a história da humanidade, na sua simplicidade exasperante e teimosa estupidez: Tentados no nosso orgulho a sermos como deuses, revoltamo-nos contra Deus, que nos criou para sermos como Ele.

E, apesar de tudo, “o Filho de Deus se tornou homem para que o homem se torne Deus”, para usar a famosa frase de Santo Atanásio.

Por esta razão, a devoção ao Sagrado Coração de Jesus não é menos importante, nem tem menos valor agora do que em França no Século 17, ou na Idade Média, ou aos pés da Cruz, no Calvário. O Sagrado Coração de Jesus é o antídoto perfeito para o orgulho dos nossos corações. Deus ama-nos com um coração humano, para que possamos aprender a tomar parte no seu amor divino.

No Sagrado Coração “são postas todas as nossas esperanças”, escreveu o Papa Leão, e “dele devemos implorar e esperar a salvação”.

No Sagrado Coração de Jesus descobrimos a humildade de Deus que esmaga e destrói o orgulho. No seu Coração Sagrado e Sofredor os nossos próprios corações são levados à contrição. No seu Sagrado Coração todo o nosso egoísmo se consome no fogo do seu amor e da sua misericórdia. No seu Sagrado Coração encontramos o amor que criou, ordena e sustém todas as coisas. No seu Sagrado Coração encontramos a força e a graça para amar como Ele ama.

No seu Santíssimo Coração encontramos refúgio e paz, mesmo por entre – ou especialmente por entre – todas as dificuldades e tribulações dos nossos tempos.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado em The Catholic Thing na Quinta-feira, 1 de Junho de 2023)

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