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Friday, 22 December 2023

Assassinatos na Terra Santa e bênçãos polémicas na Santa Sé

O Papa Francisco fez esta semana 87 anos, e que semana foi!

Começou no passado sábado com a notícia da condenação de dez pessoas e quatro empresas no megaprocesso de corrupção no Vaticano. O Cardeal Becciu recebeu a sentença mais pesada, com cinco anos e seis meses de prisão. Agora haverá recursos, como é evidente, e a coisa pode ser demorada, mas a primeira fase está concluída.

Este processo é de uma complexidade enorme, e é muito difícil acompanhar tudo em detalhe. Uma das pessoas que tem feito o melhor trabalho nesse campo é o Ed Condon, do The Pillar. Por isso, se lêem bem inglês, sugiro que acompanhem a reportagem dele, que será certamente a melhor fonte de informação.

Dois dias depois de ter saído a sentença, o Dicastério para a Doutrina da Fé lançou um documento sobre bênçãos, que explica que pessoas em uniões irregulares, incluindo em uniões homossexuais, podem pedir bênçãos aos ministros da Igreja. O documento foi apresentado na imprensa como uma revolução e como se a Igreja estivesse a aceitar as uniões homossexuais. Não é mesmo assim tão simples. Fui chamado várias vezes a falar do assunto, para diferentes órgãos de imprensa, sugiro que cliquem aqui e sigam os diferentes links para ver a minha opinião.

Estamos em vésperas do Natal e a Terra Santa, onde tudo começou, continua a ferro e fogo. Recentemente tivemos a terrível notícia do assassinato – é mesmo esse o termo – de duas mulheres cristãs que se encontravam dentro do complexo da paróquia Católica em Gaza. Foram mortas com tiros de sniper, e outras sete pessoas ficaram feridas. Quem carregou no gatilho? Israel dirá Hamas, Hamas dirá Israel. A própria da comunidade cristã palestiniana acredita que foi Israel, mas o que interessa é que isto é mais um prego no caixão da já pequena comunidade de Gaza.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, no qual Stephen White comenta o facto de a nossa civilização guardar cada detalhe minúsculo do passado, mas não parecer capaz de produzir nada que dure mais do que uma ou duas gerações. Para saber o que isto tem a ver com a Basílica de São Pedro, leia.

Convido ainda a quem possa ou queira que leia o meu artigo na edição em papel da revista Brotéria, que está agora à venda, e que oiçam o programa “E Deus Criou o Mundo” da RDP de dia 26 de Dezembro, para o qual fui convidado.

Só me resta desejar a todos um Santo Natal! Voltarei para a semana, se Deus quiser.

Wednesday, 15 November 2023

A transformação prometida pelo baptismo

Pe Brian Graebe

O Vaticano esteve nas notícias novamente, a semana passada, por causa da resposta a perguntas sobre a elegibilidade de pessoas transgénero para serem baptizadas ou servirem como padrinhos ou testemunhas dos sacramentos. A maior parte do documento, em si, não tem nada de controverso. A fasquia para negar os sacramentos a alguém, especialmente no caso do baptismo, é muito alta. Salvo uma hostilidade aberta à fé (e nesse caso é pouco provável que a pessoa procure sequer o sacramento) a presunção deve ser sempre a favor de baptizar.

A prática da Igreja comprova essa generosidade. O sacramento requer um elemento muito comum – a água – e qualquer pessoa, mesmo um ateu, pode administrá-lo validamente. Seja qual for a questão psicológica que uma pessoa transgénero esteja a atravessar, ou com a qual se confronta, a graça salvífica de Deus está ao dispor de todos os que a procuram de coração sincero. Na medida em que reafirma estas verdades básicas, a resposta do Dicastério para a Doutrina da Fé sublinha a visão acolhedora e inclusiva da Igreja a que o Papa Francisco tem dado prioridade.

Ao mesmo tempo, contudo, o documento peca por aquilo que deixa de fora. No rito do baptismo a Igreja, na pessoa do seu ministro, deve afirmar não apenas a verdade sobrenatural do sacramento, mas também a verdade natural do recipiente.

Ao longo do rito do baptismo o ministro, normalmente um padre, opta por pronomes masculinos ou femininos, com base no sexo do baptizando. Um homem pode acreditar que é uma mulher, e talvez até escolha usar um nome de mulher. Em si, isso não o deve desqualificar de ser baptizado. Contudo, o padre tem obrigação de se referir a ele como um homem. Por exemplo, na oração antes do baptismo propriamente dito, o padre diz: “Ajudemos com as nossas preces este nosso irmão, preparado para receber a vida nova do Baptismo. Oremos a Deus nosso Pai, para que, na sua grande misericórdia, o guie e acompanhe até à fonte baptismal.” Só nesta oração, a masculinidade – se for o caso – do catecúmeno é afirmada três vezes.

A Igreja não pode ser cúmplice do erro. Referir-se a este catecúmeno como uma mulher, usando a linguagem correspondente, seria tomar parte de uma mentira e semear mais confusão. Pastoralmente, a escolha da linguagem a usar no rito devia fazer parte de uma conversa mais longa com o candidato, bem antes da realização da cerimónia, em que o padre explica, com sensibilidade e com clareza, a antropologia da Igreja, procurando também compreender melhor o entendimento e motivação do candidato em procurar o sacramento. Infelizmente, estas considerações – pastoral, doutrinal e litúrgica – não constam da recente resposta do Vaticano.

Mas este problema não está limitado ao baptismo. A afirmação do sexo biológico estende-se também ao papel de uma pessoa transgénero enquanto padrinho ou testemunha. A Igreja pede que haja, sempre que possível, um padrinho, pelo menos um, embora possa haver – e frequentemente haja – dois. Nesse caso deve ser um padrinho e uma madrinha.

Esta paternidade espiritual deve espelhar a paternidade física. Se um homem transgénero, que se considera mulher, se apresentar para ser padrinho num baptizado, e partindo do princípio que preenche os restantes critérios, deve ficar bem claro que ele se apresenta como padrinho, junto de uma madrinha.

Aceder ao pedido de que este homem seja uma madrinha, junto de um padrinho, seria uma distorção do significado espiritual da instituição de padrinho e, novamente, confirmaria e perpetuaria o erro identitário de que este indivíduo sofre. Tal acomodação representa uma falsa compaixão e a subordinação da verdade objectiva à subjectividade dos sentimentos.

Os sacramentos não são propriedade da Igreja, mas de Cristo. Servem para conformar a alma mais perfeitamente com Ele, que é a verdade e que nos convida a permanecer nessa verdade. Essa verdade inclui a biologia da pessoa, que Deus criou homem e mulher.

Ao deixar de fora estas importantes considerações, o documento do Vaticano levanta mais questões do que aquelas a que responde. A confusão dos nossos tempos requer que a Igreja seja uma voz cada vez mais firme no deserto, por mais impopular ou desconfortável que isso possa ser.

O fenómeno transgénero não dá quaisquer sinais de retroceder. Pelo contrário, existe um esforço agressivo em todos os sectores da sociedade – e até dentro da Igreja – de o normalizar e até de penalizar quem utiliza os “pronomes errados”.

Por isso, a Igreja tem de ter a coragem das suas convicções. O seu acolhimento é também, e sempre, um convite e um desafio à conversão, convidando cada alma a deixar para trás o “velho eu” e revestir-se de Cristo. Essa é a identidade que o baptismo oferece, e a transformação que promete.


Brian A. Graebe, é padre na arquidiocese de Nova Iorque e autor de Vessel of Honor: The Virgin Birth and the Ecclesiology of Vatican II (Emmaus Academic).

(Publicado em The Catholic Thing na terça-feira, 14 de Novembro de 2023)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing



Tuesday, 16 May 2023

O selo do Vaticano para a JMJ

Está aí uma nova polémica, desta vez com o selo do Vaticano que comemora a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa 2023.

Tanto quanto consigo perceber há duas razões pelas quais o selo está a ser criticado:

Por aqueles que simplesmente não gostam do desenho, nomeadamente porque tem tons inegáveis de arte do Estado Novo, com as criancinhas a seguir o líder – neste caso o Papa – enquanto abanam bandeiras nacionais. Neste contexto, o Padrão dos Descobrimentos não ajuda.

Por aqueles que identificam o próprio padrão dos descobrimentos como um símbolo fascista, e por isso opõem-se ao seu uso neste ou em qualquer outro contexto.

Sem me querer alongar, simpatizo com os primeiros e não tenho grande paciência para os segundos.

Em relação ao primeiro ponto, parece-me que bastaria que alguém em Portugal tivesse olhado para o selo para poder identificar as suas fragilidades estéticas. Isto não aconteceu? Noutros casos semelhantes a emissão de selos foi feita em conjunto com os serviços postais dos respectivos países, houve algum contacto com os CTT a este respeito? Já não seria expectável que o artista italiano que desenhou o selo tivesse conhecimentos para saber que o Padrão dos Descobrimentos, que é de facto um monumento magnífico e emblemático de Lisboa, tem esta associação tão grande ao Estado Novo e aos descobrimentos, que a Torre de Belém e os Jerónimos, por exemplo, não têm.

Por fim, cumpre dizer que esta polémica, por mais piada que possa ter, não é mais do que um fait divers. É um selo, não um manifesto político; é uma emissão do Estado do Vaticano, não de Portugal; é de um artista italiano, não português. O mundo continua e não será certamente isto que vai manchar as memórias que a JMJ vai deixar nas mentes dos lisboetas e dos portugueses.

Para permitir alguma comparação, junto aqui os selos de edições das JMJ anteriores. Penso que não há mais do que estes, pelo menos eu não encontrei.








Wednesday, 4 January 2023

Multidões no adeus a Bento XVI

É paradigmático. O Papa que passou o seu pontificado inteiro a surpreender os mais cépticos com a sua popularidade está a fazer o mesmo na morte. As autoridades em Roma esperavam cerca de 30 mil pessoas por dia no velório de Bento XVI, mas os números têm sido mais ou menos o dobro.

O enterro do Papa Bento XVI é amanhã e quem quiser pode acompanhar na SIC Notícias, onde eu estarei, em estúdio, a comentar.

Logo no dia em que o Papa morreu publiquei um post em que coloquei links para os principais artigos, reportagens, etc., sobre Bento XVI. Deixei de o actualizar nos últimos dias, pois a informação já é excessiva, mas convido-vos a ler este meu texto em que elogio a sua capacidade teológica, recordando um episódio que foi de grande importância também nas relações da Igreja com o mundo judaico.

Esta semana o The Catholic Thing publicou uma série de textos de homenagem a Bento XVI, por isso em vez de um artigo mais longo, hoje publiquei no blog dois desses pequenos textos, traduzidos para português. Um é do criador do site, Robert Royal, o outro do comentador David Warren. Ambos valem a pena.  

Há mundo para lá de Roma, e infelizmente as tragédias também não param. Em Moçambique, novo ataque em Cabo Delgado, desta vez a um par de aldeias cristãs.

E a guerra na Ucrânia também continua, tal como o meu acompanhamento das principais declarações dos líderes religiosos relevantes. Os quatro principais foram actualizados ao longo dos últimos dias, com particular destaque para o Patriarca de Moscovo, Cirilo, e para o primaz da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, Sviatoslav Shevchuk.

Tuesday, 27 September 2022

Comentário na SIC Notícias sobre nomeação de D. José Tolentino

Esta terça-feira estive na SIC Notícias para falar da recente nomeação do cardeal D. José Tolentino para o Dicastério da Cultura e da Educação.

Podem ler aqui o artigo e ver a entrevista. 


Brought to you by SIC Notícias

Monday, 26 October 2020

Peter Stilwell sobre a Universidade de São José, em Macau e o cristianismo na China

Esta é a transcrição integral da entrevista que fiz ao Pe. Peter Stilwell. A entrevista resultou em dois artigos que podem ser lidos aqui e aqui.

Foi chamado para a Universidade de São José numa missão de "bombeiro", para apagar fogos. Sente que a deixou melhor do que a encontrou?

Acho que no conjunto dos oito anos, e graças ao trabalho de todos os que estão dentro da Universidade, e aos apoios que recebemos dos que estão fora, muitos dos projetos do professor Ruben Cabral que tinham sido desenhados, do novo campus e de ter uma universidade que pudesse ter critérios internacionais, foi possível realizá-los ao longo dos meus dois mandatos. Por isso, sem dúvida que os oito anos foram de crescimento e de estabilização e hoje a universidade é vista com respeito pelas outras universidades locais. 

Quando saiu de Portugal levava uma grande experiência académica, mas sempre em Portugal e na Europa. Foi fácil adaptar-se à realidade asiática?

Macau tinha um sistema de ensino superior muito nos primórdios. A primeira universidade propriamente de Macau, a Universidade de Macau, foi criada em 1992, exatamente 20 anos antes de eu ir para lá. Tinha havido uma outra universidade antes, que era uma universidade particular, mas foi criada por gente de Hong Kong, para Hong Kong, como Universidade da Ásia Oriental porque não puderam criá-la em Hong Kong. Foi essa que foi comprada pelo Governo de Macau e foi desdobrada num politécnico, na Universidade de Macau e numa universidade aberta que mais tarde seria comprada por uma entidade particular e se tornou a Universidade Cidade de Macau. 

Portanto quando eu cheguei a Macau as universidades estavam a pensar reorganizar os seus estatutos, ter uma nova lei do ensino superior que pudesse corresponder às exigências que o ensino superior tem hoje em dia a nível mundial, todo o processo de Bolonha tinha sido introduzido na Europa e depois com impacto mundial no princípio deste milénio, por isso tudo era bastante recente. Eu tinha a vantagem de ter assistido aqui e ter sido responsável na Faculdade de Teologia pela adaptação da Universidade Católica ao sistema de Bolonha, portanto conhecia por dentro as exigências desse sistema e que nos tinha levado a repensar o que era o ensino superior e como se podia desenvolver. 

Portanto eu levava muitas vantagens e coincidiu ser num momento em que a própria região autónoma de Macau estava a desenvolver o seu ensino superior para uma nova etapa.

E a nível da relação com as autoridades chinesas?

Quando pensamos em Macau temos de pensar em duas autoridades. Temos a autoridade regional e depois temos o Governo central que está presente no território com duas grandes entidades, os Negócios Estrangeiros e Segurança, porque isso está a cargo de Beijing e a região autónoma é depois supervisionada por um gabinete de ligação e esse gabinete de ligação tem um setor responsável pela educação e que acompanhou o que nós íamos fazendo. De vez em quando a nossa equipa ia sentar-se à mesa para explicar o que é que estávamos a fazer e eles acompanharam-nos sempre com muita simpatia e muita boa-vontade, dando-nos algumas orientações. Perguntámos como é que viam a Universidade de São José e diziam que a viam como uma entidade que mantinha a ligação com a Europa, enquanto que as outras universidades locais estavam a tender, sobretudo na área do Business, para se articularem com os Estados Unidos e com o Canadá e eles achavam que a ligação com a Europa e a maneira de gerir negócios na Europa era muito importante e que não se perdesse esse ponto de vista. 

Também a ligação aos países lusófonos, achavam que nós tínhamos uma posição privilegiada pela nossa ligação com a Universidade Católica, porque um número significativo dos professores da Universidade de São José é oriundo da Universidade Católica Portuguesa, portanto havia várias possibilidades de nós enriquecermos as ligações com os países lusófonos. E gradualmente ao longo dos oito anos foi-se sentindo que a Universidade de São José era cada vez mais solicitada para fazer coisas que interessavam localmente, mesmo ao Governo central. 

Um dos seus objetivos quando foi para lá era conseguir que alunos da China continental fossem estudar para a Universidade. Não conseguiu. Foi um fracasso?

A Igreja Católica está em Macau há mais de 400 anos a tentar posicionar-se na China de maneira a tornar presente a mensagem do Evangelho e tem, ao longo desses 400 anos, tido avanços e sofrido recuos. E, portanto, não me surpreendeu que fosse uma coisa lenta conseguir a autorização para que os alunos da China viessem estudar para a Universidade de São José. 

Um pouco como o Vaticano, também a China pensa em décadas e séculos mais do que em anos e eu percebia nas entrelinhas que lhes fazia alguma confusão que a Igreja dedicasse tanto esforço à construção e implantação de uma Universidade e que isso não fosse para criar adeptos da Igreja Católica. Um dos altos funcionários do Estado perguntou-nos se obrigávamos os alunos a rezar no início da aulas, se os obrigávamos a ir à missa, se os obrigávamos a estudar catequese e nós explicámos que não, que não perguntávamos a religião das pessoas ao inscreverem-se, nem ao sair da Universidade, que os princípios cristãos eram os que estavam presentes na gestão da vida comum da Universidade e na maneira como geríamos a vida universitária, o que não é difícil, já que as universidades nasceram no seio da Igreja Católica, na Idade Média europeia. Havia esse receio, portanto acho que há um compasso de espera enquanto as autoridades esperam para ver se a Universidade é perigosa. 

Há que acrescentar aqui um elemento que se torna circunstancialmente importante, que é a questão de Hong Kong. Porque certos grupos dos jovens que animaram estas manifestações que tem havido em Hong Kong vieram dos quadros de escolas cristãs – não só católicas – portanto aos olhos das autoridades estão marcados como sendo de proveniência cristã. Não fazem imediatamente confusão, mas andam um bocadinho de pé atrás. 

Mas voltando à questão inicial, porque é que a Igreja investe tanto na educação, se não quer criar mais adeptos? E fomos explicando que é uma das obras de misericórdia, ensinar. Um dos altos funcionários dos Negócios Estrangeiros, perguntei-lhe onde tinha estado antes e disse que tinha estado na Índia, e eu perguntei se tinha visitado a casa da Madre Teresa de Calcutá, e ele disse que sim, que ficou muito sensibilizado com o trabalho delas. E eu disse que ela tinha esse princípio que acolhia pessoas indiferentemente da religião e não as procurava converter à força. E isso é porque a nossa experiência cristã, uma das vertentes da nossa experiência espiritual, é encontrar Deus nessas obras de misericórdia, seja no cuidado pelos pobres, no ensino aos ignorantes, isso faz parte da experiência tipicamente cristã. Não sei se ficou convencido, mas era a minha justificação repetida às autoridades. 

Houve protestos muito graves em Hong Kong, mas Macau também teve leis semelhantes e não houve protestos significativos. Como é que se explica esta diferença?

Quando houve os acordos para Hong Kong e depois Macau voltarem à soberania chinesa, ou à administração chinesa – porque no caso de Macau a soberania chinesa existiu sempre – foi acordado que os negócios estrangeiros e a segurança nacional pertenciam a Beijing, como acontece connosco com os Açores e a Madeira, são regiões autónomas, mas debaixo da soberania nacional. Ficou acordado também que cada uma das regiões iria elaborar a sua lei de segurança nacional. Foi uma concessão por parte de Beijing que fossem os parlamentos locais a decidir sobre uma lei que, claro, levaria o placet de Beijing. Macau avançou e fez a sua lei, que foi aprovada e a lei de Macau mantém tudo dentro de Macau. Se há casos considerados de perigo para a segurança nacional são julgados pelos tribunais de Macau e ficam dentro de Macau. No caso de Hong Kong tem havido esta longa sessão de protestos que remonta já há uns tempos e Hong Kong avançou com uma proposta de lei de segurança que foi chumbada, por assim dizer, nas ruas, pelas manifestações e a recusa da oposição no Parlamento em discutir e votar a lei.

Passados anos, e tendo aumentado os protestos em Hong Kong, o Governo central disse então fazemos nós e aplicaram uma lei de segurança nacional que é pior do que aquela que estava prevista pelas autoridades de Hong Kong, porque estabelece que conforme a gravidade dos crimes, segundo as autoridades locais e as centrais, as pessoas podem eventualmente ser extraditadas de Hong Kong para serem julgadas por um tribunal na China continental. Isso é bem pior – na perspetiva dos manifestantes de Hong Kong – do que aquilo que aconteceu em Macau e do que aquilo que eles chumbaram. 

Universidade de São José

Há uma diferença na forma como macaenses e Hong Kong vivem a relação com o Governo central da China?

Macau é muito pequeno, são 700 mil habitantes. Hong Kong são sete milhões. É quase o tamanho de Portugal, em termos demográficos. Portanto há aí uma diferença substancial. Hong Kong tem o estatuto de um grande centro financeiro mundial que ombreava com Nova Iorque, Londres e os grandes centros mundiais da Finança. Era um lugar onde as empresas que queriam negociar com a China vinham estabelecer as suas bases e, portanto, tinha um estatuto económico e cultural, sentia-se seguro de si próprio. 

Hong Kong também é composto em grande parte – se as minhas informações estão corretas – por gente que se refugiou da invasão dos japoneses, das guerras civis na China, enfim, gente que saiu da China e que eventualmente nunca esteve de acordo com o que aconteceu no final da Guerra Civil. Um pouco como aconteceu em Taiwan.

Já Macau existe há 450 anos, tem uma população luso-asiática, a comunidade macaense, que está lá há gerações, à volta da qual se constituíam mais duas comunidades ou três, uma de chineses vindos para trabalhar ou em fuga, mas que eram menos; filipinos de língua inglesa que vinham trabalhar e com portugueses que vinham agora mais recentemente por causa das crises económicas na Europa e em Portugal que iam lá trabalhar.

No centro está esta comunidade que faz a ponte entre a cultura chinesa e a ocidental há séculos e que conhece e sempre soube gerir estas relações com a China continental ao longo de mudanças de regime, de imperadores, de dinastias, sabendo que às vezes é preciso recuar, outras avançar nestas negociações, é preciso ter calma, não ser confrontacional e isso explica um pouco a diferença. Eu notei, nas pessoas com quem lidava e contactava, que havia algum receio de um "spillover" de Hong Kong para Macau. 

Houve uma ou outra pequena manifestação a certa altura, há uns anos, mas depois as pessoas viram que em Hong Kong aquilo estava a levar a uma situação que ninguém queria para Macau, de instabilidade e insegurança nas ruas, e, portanto, não notei que houvesse grande tentação. 

As autoridades estavam preocupadas com as universidades e perguntavam-nos que medidas é que tínhamos. Nós respondemos que tínhamos as medidas que eram habituais em todo o mundo, que o campus universitário não era espaço para debates politico-partidários, esse género de coisas, mas nunca sentimos que da parte dos nossos alunos houvesse movimentação que notássemos. 

Sei que houve um momento mais difícil com um docente que criticava abertamente o regime de Beijing e por isso foi afastado. Foi criticado por isso. Acha que tomou a decisão certa?

Fui o responsável. Não posso deixar de pensar que agi bem. O processo está em curso, nos tribunais, sei que haverá uma audição agora no dia 17 de novembro. Espero que seja a última e que seja possível ver como uma autoridade independente, como são os tribunais, ajuíza uma decisão sem dúvida difícil na altura.

Durante os seus mandatos celebrou-se o acordo entre o Governo da China e o Vaticano. Como é que recebeu esta notícia?

Foi com surpresa. Eu sabia que as negociações estavam em curso, mas depois na última fase não sabia que tinham chegado ao ponto de assinar o acordo. Depois ninguém o viu, portanto não sabemos exatamente o que lá está escrito. E não foi assinado pelos tops, não foi assinado pelo Papa e pelo Secretário de Estado do Vaticano e um ministro do Governo chinês, foram figuras de segunda linha que terão assinado esse documento. 

Ele terminou em setembro e estão em curso negociações para saber se se prolonga através de um novo acerto [NOTA: O acordo já foi renovado por dois anos]. Abrangia, pelo que conseguíamos perceber, a nomeação dos bispos, que é sempre uma questão delicada, e não se sabe muito bem o procedimento, mas parece que Beijing avança com dois ou três nomes e o Vaticano tem a última escolha. Pode dizer que sim ou que não. E se disser que não haverá outra seleção a seguir. Havia um acordo semelhante com Espanha no tempo de Franco, portanto não é uma coisa que seja estranha à tradição da Igreja. No Século XIX houve entendimentos desse género com vários países. O que faz mais confusão às pessoas é que seja um regime comunista, que se diz aberta e publicamente ateu, a escolher os dirigentes da Igreja Católica. Mas isso faz parte da própria visão que o regime tem de si próprio. 

A China não se entende como um Estado acima dos partidos, mas como um partido acima do Estado. É uma visão diferente. É um pouco o prolongamento da visão que tinham os imperadores, portanto havia toda a administração burocrática, que no Ocidente dizemos que são os mandarins, que eram supostamente um regime meritocrático, ou seja, as pessoas entravam na função pública através dos seus méritos, através de exames públicos. O próprio Matteo Ricci e os jesuítas entraram para a China e entraram em diálogo com as autoridades chinesas através desse processo, fazendo o exame e tornando-se funcionários públicos. Mas acima dessa função pública, semelhante à nossa ideia de Estado, havia o imperador e o imperador não era governado por nenhuma outra lei a não ser o que era considerado o mandato celeste.

Desde que ele, ou ela, contribuísse para que o Povo se desenvolvesse harmonicamente, e havia esta ideia da harmonia com a natureza e com o Céu, então o mandato do Céu ia-se prolongando. E há um pouco essa continuação, um pouco parecido com o absolutismo régio que tínhamos no ocidente, em que os reis consideravam que eram reis por direito divino, que estavam acima dos parlamentos. O partido considera-se sucedâneo disso e enquanto o partido contribuir para que o povo se desenvolva, que viva em harmonia, que possa ganhar projeção mundial – e olhando para os últimos 30 anos da China ela posicionou-se como não se tinha posicionado há mais de mil anos, é a segunda potência mundial em termos económicos, e há muitos chineses que ainda se lembram dos tempos da fome e de comer grilos porque não havia outra carne para comer. 

Portanto este desenvolvimento como que garante que o Partido tem legitimidade para governar, está acima dos tribunais, dos parlamentos, etc., e há essa perspetiva, mesmo em relação às igrejas é o partido que tem a última tutela para dizer o que contribui ou não para o desenvolvimento da sociedade e é isso que faz confusão quando vemos estas negociações. 


Aquilo que se chama a Associação Patriótica tem diversos ramos, tem um ramo para cada uma das religiões reconhecidas na China e aí cabem o Budismo, naturalmente, o Islão e dentro do Cristianismo as autoridades chinesas vêem duas religiões, o Catolicismo e o Protestantismo. E cada uma delas tem os seus responsáveis centrais, uma espécie de tutela do Partido Comunista e supostamente as autoridades dentro de cada uma delas tem de assinar, para ser reconhecido publicamente, um reconhecimento da soberania do Partido. Portanto os bispos têm de fazer isso, é o que se quer dizer quando se diz que é exigido aos bispos tornarem-se membros da Associação Patriótica, ou o padre assinar a dizer que reconhece a autoridade do partido. É uma coisa que causa algum conflito de consciência para os padres que tenham estado fora desse sistema, portanto na chamada Igreja Clandestina, ao entrarem agora para uma China em que as duas comunidades supostamente devem estar a harmonizar-se porque o Vaticano assinou com o Governo chinês, ao saírem da clandestinidade têm de assinar um acordo de reconhecimento do partido. 

Houve muitos críticos em relação ao acordo – o cardeal Zen é um dos exemplos – mas a maior parte dos críticos apontam para o facto de a perseguição aos cristãos estar a aumentar com a atual administração da China. É justo misturar as duas coisas?

Eu não isolaria a Igreja Católica disso. Um dos discursos nos primeiros anos do Xi Jinping foi para os membros do partido. É preciso lembrar que o PCC tem 100 milhões de militantes, portanto é dez vezes o tamanho de Portugal em militantes, e ele fez um discurso muito contundente, falando da questão da corrupção e recordando que o partido é ateu e não se pode ser membro de uma religião e do partido. 

O facto de ele ter identificado essa questão da religião dá-nos a entender que provavelmente havia membros do partido que se sentiam sensibilizados pelo Taoismo, ou pelo Confucionismo e eventualmente por outras religiões. Portanto o apelo ao ateísmo surgiu daquele que é hoje em dia o homem com mais poder na China desde Mao Tsé Tung, que é Xi Jinping e é compreensível que num país da dimensão da China haja quem queira avançar com os seus projetos, com a sua carreira, e se queira mostrar mais papista que o Papa e portanto quando se deitam abaixo igrejas, ou se retiram cruzes, é bem possível que haja gente a ultrapassar o que se faria em Beijing. Em Beijing não se vê isso, não se vêem igrejas a serem fechadas forçosamente, longe disso. 

Portanto é preciso matizar e perceber que talvez não seja a mesma imagem em todo o lado. É evidente que não há amizade para com as religiões, foi implementada uma lei que, segundo me dizem já existia mas que caiu em desuso, que proíbe a entrada nas Igrejas de jovens entre os seis e os 18 anos, portanto eles não se vêem nas igrejas. Isso é supostamente para que os jovens não sejam desencaminhados pelas "falsas doutrinas" das religiões.

A meu ver é uma faca de dois gumes. Atinge as comunidades, eu participei em missas em vários lugares da China e notava-se que havia bebés nos braços das mães e depois havia gente a partir dos 20 e tal anos, mas não havia ninguém de idade intermédia, nem entre os acólitos. 

Isso levou-me a pensar que às vezes o fruto proibido torna-se apetecível e portanto pode ser que isto acabe por sair o tiro pela culatra e os jovens poderão querer saber o que é isso que lhes estava proibido e quem sabe se não vai levar a que haja mais fiéis. 

Encontrei vários jovens nas minas viagens pela China, que não foram muitas, mas encontrei vários que se tinham aproximado do Cristianismo, uma do catolicismo e outra do protestantismo, outro que fez a viagem entre ambos, tornou-se católico mas depois por razões de trabalho deslocou-se para outra zona do país onde só havia comunidades protestantes e portanto ia às comunidades protestantes e depois ficou com problemas de consciência, de que talvez tivesse passado de uma religião para a outra. Mas em termos capilares o que está a surgir é uma inquietação religiosa entre as pessoas, uma procura e as pessoas estão a bater à porta das igrejas. 


Que futuro é que vê para o catolicismo na Ásia?

Como se sabe, excetuando as Filipinas e Timor-Leste, o Catolicismo e o Cristianismo em geral na Ásia é ultraminoritário, não tem nada a ver com a nossa visão na Europa, Estados Unidos, América Latina ou mesmo na África, onde o Cristianismo acaba por ser a religião marcante. Depois no Médio Oriente temos o Islão, na Indonésia temos o Islão e naquelas zonas da Ásia é o budismo ou, no caso da China, os restos de religiosidade popular que renascem. 

Quanto ao futuro da Igreja, e é essa a preocupação do Papa, estou convencido, é de que na China o crescimento do Cristianismo é muito grande. 

Diz-se que no ano 2030 a China ultrapassa o Brasil como maior país cristão do mundo. Apesar de isso continuar a ser uma minoria da população. 

Há um outro fator interessante presente, que as autoridades chinesas eventualmente têm consciência ou não, não sei, mas ao introduzirem o comunismo e o capitalismo na China como grandes fatores para o desenvolvimento económico e a articulação social do país, introduziram dois sistemas que têm raízes judaico-cristãs. e portanto que têmm uma antropologia que é estranha à antropologia confuciona e budista. Portanto está na matriz económica e do desenvolvimento económico e social, um gérmen cristão que faz com que quando as pessoas se inquietam com o sentido das suas vidas as religiões que mais correspondem ao tipo de desenvolvimento em curso são as religiões ou protestante ou católica, e portanto o crescimento dessas religiões dentro da China. 

Essa é a minha impressão neste momento. O que pode acontecer a médio prazo só Deus sabe. 

Falámos de perseguição às igrejas. Enquanto estava em Macau chegavam-lhe ecos daquilo que se passa com a comunidade muçulmana na China, que está a ser muito duramente perseguida? 

Chegavam, a maior parte delas através dos meios de comunicação ocidental. 

Tínhamos acompanhado com alguma preocupação notícias do interior da China de atentados à faca em Beijing e noutros pontos do país, que eram depois atribuídos a gente inquieta da zona de Xinjiang, portanto os uigures e muçulmanos, e agora chega-nos esta notícia de grandes campos de reeducação. Vamos ver o que é que dá. É um sinal do tipo de regime, mas também do medo que o regime tem ao criar esta dinâmica da rota da sede, de retomar a rota da seda, que todos aqueles estados que ficam a ocidente do norte da China, são todos países de maioria muçulmana e portanto há medo de que aquela luta interna que o Islão vive neste momento pelo seu coração, que tem dado origem a vários grupos extremistas, possa vir a ter influência na China, e a estabilidade social é uma coisa fundamental para o Governo. 

A identidade portuguesa de Macau está para ficar?

Acho que sim, no sentido de que estão lá essas famílias luso-asiáticas e com passaporte português, porque na altura da transição foi dada a oportunidade aos macaenses de obterem passaporte português e muitos têm. Muitos não falavam português, mas fizeram o passaporte para o que desse e viesse. E depois descobriram que isso lhes dá acesso à União Europeia, dá acesso aos seus filhos às universidades na Europa, pelo preço dos europeus, e portanto isso, acompanhado da ideia de que o Governo central abençoou a relação com países lusófonos e que tem muita preocupação com isso, porque tem consciência de que a sul do equador a língua mais falada é o português, no Brasil, Angola, Moçambique e o pequeno Timor, levou a que o prestígio de Portugal tem vindo a subir na China. 

Houve um impacto, um reflexo em Macau. O Governo central também disse a Macau que Macau devia ser a plataforma de encontro entre a China e os países lusófonos e quando Macau não tem feito o suficiente nessa área o Governo tem espicaçado e tem substituído pessoas e mostrado que isso não foi simplesmente uma coisa escrita num papel, é um interesse que se desenvolveu. Portanto neste momento estuda-se mais português, fala-se mais português em Macau, na comunidade chinesa, do que no tempo da administração portuguesa. 

O seu sucessor é um diácono galês, mas é da diocese de Southampton. Que conselhos é que lhe deixou?

Ele teve dois ou três anos na Universidade. Por sugestão minha, quando o bispo mostrou interesse em ter esta pessoa como futuro reitor sugeri que ele se adaptasse conhecendo a partir da base o que era a universidade, portanto ele foi diretor da Faculdade de Estudos Religiosos, ou seja, de Teologia, conheceu a Universidade Católica, participou em atividades da Federação Internacional de Universidades Católicas e portanto conhece a universidade por dentro. Eu pude-lhe dar alguns conselhos, mas grande parte daquilo que tinha acontecido na Universidade estava no papel, nos procedimentos instituídos. Ele teve a sorte, por assim dizer, de que para o ajudar agora nas relações com as autoridades chinesas o reitor da Universidade Cidade de Macau, que era a nossa rival, quis vir para vice-reitor dele, portanto eu sinto isso como um elogio ao trabalho feito, porque a Universidade ganhou prestígio suficiente para uma pessoa sair de reitor de uma universidade e querer vir para vice-reitor de outra. Ele é um chinês, com experiência também fora da China, nas altas esferas do ensino superior na China e espero que consiga ajudar a fazer pontes com a China. 

E agora?

Acho que o merecido descanso, para mim, para os alunos e para os colegas. Falaram-me de no próximo ano poder eventualmente dar uma cadeira a nível dos doutoramentos; estou a ajudar a Faculdade de Teologia a constituir o seu Conselho Estratégico e pediram-me para retomar o projeto Cinatti na Universidade. O Patriarca pediu-me para retomar o departamento do diálogo inter-religioso e das relações ecuménicas, e por isso já tenho coisas mais que suficientes, e estou ainda a arrumar a casa! Tenho muita coisa para arrumar. 

Tuesday, 15 October 2019

Apelos ao diálogo, da Síria à Catalunha

Antes de mais, se está a pensar ir ao lançamento do meu livro, amanhã, mando em anexo um croqui a mostrar onde são as entradas para o Pina Manique. É às 19h e não haverá multibanco, portanto se quiserem comprar o livro (€12,50) têm de levar dinheiro. Trocos deve haver.
Qualquer dúvida, é só perguntar.


A situação na Síria deu uma cambalhota com a entrada em cena da Rússia e do exército do regime. O Papa pede diálogo. O conflito está explicado aqui.

Num ambiente menos bélico, mas também tenso, os bispos da Catalunha também pedem diálogo.

Houve 13 de outubro, entretanto, com mais centenas de milhares de fiéis e apelos à participação nas Jornadas Mundiais da Juventude por parte do arcebispo Andrew Yeom Soo-jung, da Coreia do Sul.


Monday, 1 July 2019

Newman e ditadores ressuscitados

O Cardeal John Henry Newman vai ser canonizado no dia 13 de Outubro!

Espanha vai apresentar queixa formal sobre o núncio apostólico. A culpa é do Franco, claro.

Numa altura em que o segredo da confissão está sob ataque em vários sítios, o Vaticano emitiu um documento a falara da importância da inviolabilidade.



Ultimamente tenho lido, sobretudo nas redes sociais, várias referências aos trabalhadores das organizações que resgatam migrantes no Mediterrâneo como “negreiros” e traficantes humanos. Segundo esta lógica, evidentemente, as freiras que ajudam prostitutas são chulos e as instituições que socorrem grávidas adolescentes estão a incentivar a sexualidade desregrada. É a lógica dos “bloquistas de direita”.


Thursday, 29 March 2018

O bom chefe é quem serve

Aproveito já para desejar uma Santa Páscoa a todos os cristãos! De hoje a segunda-feira só publicarei post em caso de notícias urgentes. Se tudo correr bem, não as haverá!

O Papa celebrou esta quinta-feira a Ceia do Senhor com reclusos, a quem lavou os pés, dizendo que bom chefe deve servir. Antes, na celebração da missa crismal, Francisco tinha pedido aos padres para serem próximos.

Mas não tem sido um dia fácil para o Vaticano. O jornalista italiano Eugenio Scalfari, que apesar de ter 93 anos insiste em transcrever conversas de memória, sem gravação e sem notas, publicou mais uma “entrevista” com o Papa. O Vaticano já negou a sua fiabilidade.

Também esta manhã a sala de Imprensa da Santa Sé publicou um desmentido, dizendo que não há assinatura “iminente” de qualquer acordo com a China. Um caso que temos acompanhado de perto.

O tríduo pascal em Fátima vai ter tradução simultânea em Língua gestual.

E esta quinta-feira apresentamos uma entrevista de fundo com D. José Traquina, bispo de Santarém. O bispo diz que as instituições sociais não estavam preparadas para ser empresas e levanta algumas questões sobre o acompanhamento de divorciados, dizendo que a resposta a este problema não pode ser discutir “que bispo tem a melhor nota”.

Wednesday, 28 March 2018

Coelhos fora-da-lei e heróis dos nossos dias

Cabeça de coelho ilegal na Áustria
Morreu D. António Santos, bispo emérito da Guarda. O funeral foi hoje.

Foi homenageado o polícia francês que deu a vida pelos reféns no caso de terrorismo da semana passada. Conheça também a história da menina nigeriana que recusou converter-se ao Islão e por isso continua refém do Boko Haram. Heróis dos nossos dias.

Continuamos na expectativa de saber se vai, ou não, haver acordo entre a China e o Vaticano. Entretanto os sinais que chegam não são os mais positivos, com mais um caso de um bispo leal a Roma detido.

Uma portuguesa entregou esta quarta-feira um presente muito original ao Papa Francisco. Veja aqui as imagens.

A Áustria aprovou o ano passado uma lei anti-burqa. Até agora foram advertidos turistas asiáticos, esquiadores e até a mascote do Parlamento. Um fracasso total, diz a polícia.

Hoje temos novo artigo do The Catholic Thing. Robert Royal reflecte sobre o encontro pré-sinodal que teve lugar em Roma a semana passada e pesa os prós e os contras desta forma de pastoral juvenil. Uma análise interessante que vale a pena ler.

Monday, 12 March 2018

Acordo com a China à vista?

Estarão Roma e a China à beira de um acordo histórico? Há quem diga que sim… Falei com um missionário que passou alguns anos na China e ele diz que é céptico, enquanto fala de como foi evangelizar “à socapa” naquele país comunista.

Paulo VI e Oscar Romero vão ser canonizados ainda este ano. O Papa autorizou esta quarta-feira.

Já foram escolhidos os três jovens que vão representar Portugal no encontro pré-sinodal, em Roma.

Hoje é dia de The Catholic Thing. Em tempo de Quaresma, venha daí um elogio a um aspecto da vida da Igreja que é muitas vezes desvalorizado… Viva a água benta!

Thursday, 13 July 2017

Russos em Fátima e Yazidis preocupados

Bispo Clemens Pickel, russófono
É dia 13, por isso é dia de Fátima. Neste momento está no santuário uma comunidade de católicos de língua russa. Um dos seus bispos sublinha a importância de Fátima para eles.

Temos também uma entrevista de João César das Neves, autor do livro “O Século de Fátima”.

Notícia de dois ex-funcionários do hospital Bambino Gesu, em Roma, que são acusados de desviar fundos e que serão julgados por isso no Vaticano.

Hoje publico a transcrição completa de mais uma das entrevistas que fiz para a série “E depois de Mossul?”. Neste caso trata-se de Mirza Dinnayi, um activista da comunidade Yazidi que fala sobre a posição deste povo num eventual braço-de-ferro entre curdos e árabes no Iraque.

Não deixem de ler o artigo desta semana do The Catholic Thing, sobre como a crença num sistema de valores objectivo implica acreditar em Deus.

Wednesday, 24 May 2017

Trump, Francisco e a Mantilha de Melania

Nossa Senhora Auxiliadora da China
A notícia do dia é o encontro entre Trump e o Papa Francisco. Falaram sobre muita coisa e trocaram presentes mas claro que o que gerou mais atenção foi a roupa de Melania e de Ivanka Trump. Se não sabe porque é que estavam de preto, aproveite para descobrir.

Hoje é dia de oração pela Igreja na China. O cardeal Joseph Zen reza mas aproveita também para criticar o regime.

Uma capela na Índia dedicada a Nossa Senhora de Fátima foi vandalizada por fanáticos hindus.

Sabia que existe uma Bíblia escrita em verso? Pois é verdade! E é de autoria portuguesa…

O Papa nomeou novos cardeais. Há surpresas não só pelos locais representados, mas também pelo facto de um deles ser bispo auxiliar de uma diocese cujo bispo não é cardeal.

E os terroristas continuam a fazer das suas. Na segunda-feira à noite deu-se o terrível ataque em Manchester, mas nas Filipinas também houve novos confrontos.

Leiam também o artigo desta quarta-feira do The Catholic Thing em que o padre Gerald Murray escreve sobre a importância da verdade e da realidade também nas relações ecuménicas. O tema aqui é a validade das ordens anglicanas, o que pode parecer uma ninharia,mas na realidade tem bastante importância.

Thursday, 10 March 2016

Marcelo II e bispos corajosos em Luanda

Marcelo II coroado de flores
O Papa quer tornar os processos de canonização mais transparentes, incluindo do ponto de vista financeiro.

O dia de ontem foi dominado pelas notícias da inauguração da presidência de Marcelo Rebelo de Sousa, de onde destaco dois momentos importantes do ponto de vista religioso. Em primeiro lugar, a notícia de que Marcelo vai visitar o Vaticano já para a semana, na sua primeira viagem oficial.

A meio da tarde o novo presidente visitou a mesquita de Lisboa para um encontro com representantes das diversas religiões em Portugal. O Presidente disse que quer ser um garante da liberdade religiosa e D. Manuel Clemente, que também marcou presença, disse que o gesto é um bom sinal para o mandato de Marcelo.

No meio das festas da coroação, aliás, inauguração de Marcelo, poderá ter passado despercebida a nota pastoral dos bispos angolanos que faz críticas arrasadoras ao governo de Luanda. Para o especialista António Pacheco este pode ser uma porta aberta para uma “reflexão profunda sobre o regime”. Veremos.

Também ontem publiquei um novo artigo do The Catholic Thing. David Warren pergunta se os cristãos do Ocidente não se estão a transformar em yezidis… Vale a pena ler (e ler até ao fim) para perceber onde ele quer chegar.

Thursday, 11 February 2016

O Vaticano está mesmo a dizer aos bispos para não denunciarem casos de abuso às autoridades?

Será assim?
Está a circular uma notícia que indica que o Vaticano defende que os bispos católicos não devem informar as autoridades dos seus países aquando de acusações de abuso sexuais praticados por membros do clero.

Há aqui muita coisa que é preciso esclarecer.

Tudo começou numa notícia do vaticanista John Allen Jr. que numa coluna de opinião indicou que durante uma formação para novos bispos, estes tinham sido informados pelo formador que “os bispos não têm o dever de informar a polícia de alegações, esta é uma escolha que cabe às vítimas e às suas famílias”.

Daqui foi parar ao Guardian e do Guardian apareceu na imprensa portuguesa, mas já com indicação de que o Vaticano está a dizer que os bispos “não devem” informar as autoridades destes casos.

O principal ponto do artigo de Allen, que os outros relegaram para segundo plano, é que a comissão criada pelo Papa para lidar com o assunto dos abusos não está envolvida nesta formação. Allen critica isto, com toda a razão.

Quanto ao que foi dito na formação, há vários pontos a ter em consideração.

Para quem vive num Estado de direito parece evidente que a Igreja deve informar as autoridades, que agirão em conformidade. Mas as indicações do Vaticano são universais e nem todos os bispos e católicos vivem em estados de direito. Há países em que a denúncia oficial às autoridades faria mais mal que bem.

Por exemplo, um bispo clandestino na China deveria denunciar um padre suspeito de abusos às autoridades? O que poderia acontecer tanto ao padre (inocente até prova em contrário) como ao próprio bispo e à vítima?

Em partes de África, onde sabemos bem que a homossexualidade é duramente reprimida, um bispo deveria colocar tanto vítima como abusador em perigo de vida, denunciando o caso às autoridades?

As indicações do Vaticano têm sido claras no sentido de que nos Estados de direito e democracias, como é o caso de Portugal, existe essa obrigação. Roma exigiu já há vários anos que cada país elabore um guião de conduta para estes casos. Portugal já o fez e essas indicações são claras.

“Ao serviço da humanidade, sem procurar servir-se a si mesma, cada pessoa jurídica canónica cooperará com a sociedade e com as respetivas autoridades civis; tomará em atenção todas as indicações que lhe cheguem e responderá com transparência e prontidão às autoridades competentes em qualquer situação relacionada com abuso de menores, na salvaguarda dos direitos das pessoas, incluindo o seu bom nome e o princípio da presunção de inocência.”

Em todo o caso, em 2013 passado houve uma situação em que houve uma suspeita de abusos no norte do país e a PJ só soube através da imprensa. Na altura falei com um jurista, pensando que ele me diria que a Igreja tinha errado ao não informar logo as autoridades do caso, mas ele disse que sendo a Igreja uma instituição jurídica internacional, deveria ter autonomia para poder, primeiro, averiguar se o caso era credível, antes de falar com as autoridades.

Fiquei admirado com a resposta, e sublinho que o jurista em causa, muito respeitado, tanto quanto sei não é católico por isso dificilmente pode ser acusado de estar a proteger a Igreja.

Concluindo, há ainda muito para fazer neste campo e certamente os novos bispos beneficiarão de uma formação mais completa que será possível com a participação da comissão para a protecção dos menores. Contudo, já muito foi feito e é simplesmente errado fazer manchetes a dizer que a Igreja está de algum modo a aconselhar os bispos a não colaborar com as autoridades em casos de abusos sexuais.

Monday, 25 January 2016

A Guerra Secreta de Pio XII Contra Hitler

George J. Marlin
Há muitos anos – pelo menos desde o teatro de 1963 de Rolf Hochhuth “O Deputado" – que o mundo tem aturado a conversa de que Pio XII foi o “Papa de Hitler”. Há décadas que pessoas bem informadas suspeitam que isso se trata de uma distorção deliberada, mas agora temos a certeza, sem margem para dúvidas, de que tais acusações não só estavam erradas como são precisamente o oposto da verdade.

Quando o Cardeal Eugenio Pacelli se tornou Pio XII, em 1939, o chefe das SS, Heinrich Himmler, ordenou a Albert Hartl, um padre laicizado, que preparasse um dossier sobre o novo Papa. Hartl documentou como Pacelli tinha usado a Concordata que tinha negociado com o Governo de Hitler em 1933 de forma vantajosa para a Igreja, fazendo pelo menos 55 queixas formais por violações da mesma.

Pacelli também acusou o Estado nazi de conspirar para exterminar a Igreja e “convocou todo o mundo para lutar contra o Reich”. Pior, pregava a igualdade racial, condenava a “superstição do sangue e da raça” e rejeitou o anti-semitismo. Citando um oficial das SS, Hartl concluiu a sua análise dizendo “a questão não é saber se o novo Papa vai lutar contra Hitler, mas sim como”.

Entretanto, Pio XII estava a reunir-se com cardeais alemães e a discutir o problema de Hitler. As transcrições mostram que ele se queixou que “os Nazis tinham frustrado os ensinamentos da Igreja, banido as suas organizações, censurado a sua imprensa, fechado os seminários, confiscado as suas propriedades, despedido os professores e fechado as escolas”. Citou um oficial nazi que gabou que “depois de derrotar o bolchevismo e o judaísmo, a Igreja Católica será o único inimigo restante”.

O Cardeal Michael von Faulhaber, de Munique, retorquiu que os problemas tinham começado depois da encíclica de 1937 “Com Grande Ansiedade” (Mit Brennender Sorge, publicada em alemão e não em latim). O texto, escrito em parte por Pacelli antes de este se ter tornado Papa, enfureceu o Hitler. O Papa disse a Faulhaber, “a questão alemã é a mais importante para mim. O seu tratamento está reservado directamente para mim… Não podemos abdicar dos nossos princípios… Quando tivermos tentado tudo, e ainda assim eles quiserem absolutamente a guerra, lutaremos… Se eles recusarem, então teremos de lutar”.

Faulhaber recomendou “intercessão de bastidores”. Propôs que os bispos alemães encontrassem “uma forma de fazer chegar a Sua Santidade informação precisa e actualizada.” O Cardeal Adolf Bertram acrescentou que “é preciso fazê-lo de forma clandestina. Quando São Paulo se fez descer num cesto das muralhas de Damasco, também não contava com a autorização da polícia local”. O Papa concordou.

Assim nasceu o plano para construir uma rede de espionagem que apoiaria, entre outras coisas, planos para assassinar Hitler.

No seu interessantíssimo livro “Church of Spies: The Pope’s Secret War Against Hitler”, Mark Riebling recorre a documentos do Vaticano e actas secretas acabadas de divulgar que descrevem detalhadamente as tácticas clandestinas usadas por Pio XII para tentar derrubar o regime nazi.

Depois de Hitler ter invadido a Polónia em 1939 o Papa reagiu aos relatos de atrocidades contra judeus e católicos. A sua encíclica “Summi Pontificatus” rejeitou o racismo, dizendo que a raça humana está unificada em Deus. E condenou também os ataques ao judaísmo.

O Papa foi amplamente louvado por isto – um título do New York Times dizia “Papa condena ditadores, violações de tratados, racismo” – mas ele próprio sentia que era pouco.

Convencido de que o regime nazi cumpria os requisitos para justificar o tiranicídio, conforme os ensinamentos da Igreja, Pio XII permitiu aos jesuítas e aos dominicanos, que respondiam directamente a ele, que colaborassem com acções clandestinas. O seu principal agente – a quem os nazis se referiam como “o melhor agente dos serviços de informação do Vaticano” – era um tal Josef Muller, advogado e herói da Primeira Guerra Mundial.

Muller organizou uma rede de “amigos das forças armadas, escola e faculdade, com acesso a oficiais nazis e que trabalhavam em jornais, bancos e até mesmo nas SS”. Eles forneciam o Vaticano com informação vital, incluindo planos de batalha que eram depois passados aos aliados. Em 1942 Muller conseguiu introduzir Dietrich Bonhoeffer no Vaticano para planear uma estratégia cujo objectivo era “fazer as pontes entre grupos de diferentes religiões, para que os cristãos pudessem coordenar a sua luta contra Hitler”.

As tentativas de assassinato de Hitler falharam todas, devido ao que Muller apelidou de “sorte do diabo”. Mas em relação a estes planos, Riebling comenta: “Todos os caminhos vão de facto dar a Roma, a uma secretária com um simples crucifixo, com vista sobre as fontes da Praça de São Pedro”.

Depois do falhanço do plano Valquíria a Gestepo prendeu Muller. Descobriram uma nota escrita em papel timbrado do Vaticano por um dos assistentes de topo do Papa, o padre Leiber, que dizia que “Pio XII garante uma paz justa em troca da ‘eliminação de Hitler’”.

Muller foi enviado para Buchenwald. No dia 4 de Abril de 1945, juntamente com Bonhoeffer, foi transferido para Flossenburg. Depois de um julgamento fantoche foram condenados à morte.

Bonhoeffer foi imediatamente executado. Mas temendo a aproximação de forças americanas, as SS transferiram Muller e outros reclusos para Dachau, depois para a Áustria e, finalmente, para o Norte de Itália. Foram então libertados pelo 15º Exército dos EUA.

Agentes dos serviços de informação dos EUA levaram Muller para o Vaticano. Quando o viu, o Papa abraçou-o e disse que se sentia “como se o próprio filho tivesse regressado de uma situação de grande perigo”.

Riebling revela que durante a visita de Muller ao Vaticano o diplomata americano Harold Tillman perguntou porque é que Pio XII não tinha sido mais interventivo durante a guerra.

Muller disse que durante a guerra a sua organização anti-Nazi na Alemanha tinha insistido muito que o Papa evitasse fazer afirmações públicas dirigidas especificamente aos nazis e condenando-os, tendo recomendado que as afirmações públicas do Papa se confinassem a generalidades (…) Se o Papa tivesse sido específico os alemães tê-lo-iam acusado de ceder às pressões das potências estrangeiras e isso teria colocado os católicos alemães ainda mais na mira dos nazis do que já estavam, tendo restringido imensamente a sua liberdade de acção na resistência ao regime. O Dr. Muller disse que a política da resistência católica in interior da Alemanha era de que o Papa se colocasse nas margens enquanto a hierarquia alemã levasse a cabo a luta contra os nazis. Disse ainda que o Papa tinha seguido sempre este seu conselho durante a guerra.

Graças à pesquisa incansável de Riebling, agora podemos finalmente descartar as alegações absurdas sobre Pio XII. Ele não era o “Papa de Hitler”, era o seu nemesis.

Pode adquirir um exemplar de “Church of Spies” da loja do The Catholic Thing na Amazon, clicando aqui.


(Publicado pela primeira vez na Quarta-feira, 13 de Janeiro de 2016 em The Catholic Thing)

George J. Marlin é editor de “The Quotable Fulton Sheen” e autor de “The American Catholic Voter”. O seu mais recente livro chama-se “Narcissist Nation: Reflections of a Blue-State Conservative”.

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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