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Thursday, 12 October 2023

A complexa relação entre cristãos e Israel

[Artigo escrito originalmente em 2012, actualizado em 2023]

Este tema dava para um livro, ou vários, e por isso vou ser o mais sintético possível. O meu objectivo é elaborar aqui um ‘mini guia’ para os leigos compreenderem alguns dos aspectos mais relevantes de uma relação complexa.

Embora o Estado moderno de Israel só exista há 75 anos, as relações entre este e as diferentes igrejas cristãs são influenciadas por muitos aspectos que antecedem a fundação do país. A isso deve-se somar a existência de diferentes igrejas cristãs, cada uma com os seus interesses estratégicos, o que neste contexto não significa necessariamente “interesseiros”.

Comecemos pelos “melhores amigos” de Israel. Ao contrário do que se possa esperar, nem sempre os melhores amigos de Israel são os judeus noutros países - muitos dos quais são até bastante críticos do Estado Israelita, mas sim cristãos evangélicos. Isto é particularmente verdade nos Estados Unidos, onde estes cristãos têm maior expressão, influência e força, mas não é uma realidade confinada à América.

Os evangélicos americanos acabam por reflectir a posição genérica das diferentes administrações em Washington, mas por razões mais complexas. Em alguns casos pelo menos, não digo que seja em todos, está em causa uma visão milenarista que defende que a existência de Israel enquanto Estado político independente é uma pré-condição necessária para o fim dos tempos, a segunda vinda de Cristo e o Juízo Final.

Claro que muitos desses cristãos acreditam que os judeus que agora tanto defendem serão condenados ao inferno por não terem acolhido a salvação que vem de Cristo, por isso é uma amizade um tanto ou quanto estranha. Mas é palpável e não apenas moral, assumindo a forma de ajuda financeira e política.

A situação muda de figura com as igrejas evangélicas mais liberais/progressistas, que tendem a apoiar mais a causa palestiniana, mas estas são menos expressivas, porque menos organizadas.

Na Europa, por exemplo, a situação é bastante diferente. Em alguns países mantém-se uma lamentável desconfiança dos judeus que se traduz em atitudes anti-Israelitas. Outras pessoas simplesmente não concordam com as políticas daquele Estado face aos palestinianos, o que não deve ser necessariamente confundido com antissemitismo. Isto aplica-se tanto a cristãos como a não-cristãos, mas nos últimos tempos tem-se tornado particularmente a bandeira de uma certa esquerda radical, que é também anticristã, e por conseguinte tem empurrado alguns cristãos para o lado contrário.

Protesto anti-israelita na Grécia
No plano oficial, porém, a atitude dos cristãos na Europa, sobretudo da hierarquia católica, rege-se pela linha orientadora do Vaticano que tem defendido consistentemente o direito à existência de Israel, aliado a uma defesa dos direitos dos palestinianos, o que se traduz na defesa da solução de dois estados para aquela região.

Os interesses do Vaticano na Terra Santa são representados pelo Patriarcado Latino de Jerusalém, cujo Patriarca, Pierbattista Pizzaballa, foi recentemente elevado a cardeal. Quando recebeu do Papa os símbolos cardinalícios, este disse-lhe "força, coragem!", mostrando entender a delicadeza da sua posição, de ter de cuidar de cristãos de ambos os lados da barricada e de lidar com as autoridades árabes e judaicas.

Do ponto de vista geopolítico e ideológico isto até poderá parecer estranho. Nos dias de hoje, não têm os judeus mais em comum com os cristãos face à ameaça comum que representa um Islão em expansão? Talvez. Note-se que a nível de diálogo inter-religioso, por exemplo, o Judaísmo é tratado de forma diferente do que o Islão, em reconhecimento dessa maior proximidade.

Contudo, e aqui chegamos ao aspecto mais importante, há que recordar o factor dos cristãos árabes. Uma boa percentagem da população palestiniana é cristã, tanto no território da Administração Palestiniana (mais na Cisjordânia do que em Gaza, mas a diminuir em ambos), como em Israel propriamente dito, onde são cerca de 10% da população palestiniana.

Tradicionalmente estes cristãos palestinianos eram tão ferozmente anti-israelitas como os seus compatriotas árabes. George Habash e Nayef Hawatmeh, por exemplo, dois dos pioneiros da luta armada contra Israel, eram ambos cristãos e aquele que foi talvez o único exemplo de um bispo detido por tráfico de armas foi o palestiniano Hilarion Capucci.

George Habash, cristão e pioneiro da luta armada palestiniana
Esta tendência alarga-se ao resto do mundo árabe. Geralmente os cristãos árabes são anti-israelitas e culpam o conflito israelo-árabe pela instabilidade da zona, que acaba por desembocar em perseguições anticristãs.

Compreende-se por isso que a Igreja Católica, uma vez que muitos destes cristãos árabes são católicos, tenha que manter um, por vezes difícil, equilíbrio entre uma maior proximidade ideológica com os israelitas democráticos e ocidentalizados - sobretudo reconhecendo uma dívida para com o povo judaico, fruto de séculos de perseguição - e a defesa de alguns direitos elementares de justiça e dignidade para os palestinianos, muitos dos quais são cristãos. Nem sempre é um jogo fácil de jogar e as relações diplomáticas entre a Santa Sé e Israel são tensas. Ainda recentemente, quando começou este novo conflito em Outubro de 2023, o Governo israelita criticou o Papa por apelar à paz e à contenção de ambas as partes, acusando-o de falsos paralelismos.

Por fim, temos o factor ortodoxo. Aqui sente-se de forma particular o peso da história. Recordemos que até à Primeira Guerra Mundial toda a Terra Santa pertencia ao Império Otomano, a grande potência do mundo islâmico.

Havia cristãos em vários territórios do Império Otomano, que viviam com uma boa dose de liberdade, incluindo na Terra Santa. O Patriarcado de Constantinopla tinha a sua sede precisamente na capital deste mesmo Império.

Clérigos ortodoxos gregos em Jerusalém
Aos olhos dos Otomanos, os cristãos ortodoxos, fiéis ou a Constantinopla ou a Moscovo, mas não a Roma, eram de maior confiança que os católicos, que mais facilmente podiam ser encarados como “agentes” dos países ocidentais. Os ortodoxos ganharam bastante com isso. O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém é ainda hoje o maior detentor de terras em Israel, possuindo por exemplo o terreno no qual está construído o Knesset, o parlamento israelita.

Ao mesmo tempo os Russos investiram muito dinheiro em Jerusalém, construindo inúmeros mosteiros, albergues para os seus peregrinos e outras instituições, estabelecendo uma significativa presença na Terra Santa.

As boas relações que os ortodoxos tinham com o Império Otomano chegaram ao fim com a guerra e não são as mesmas com o Estado de Israel. Por um lado, os ortodoxos e os judeus têm obrigatoriamente que se entender, mas da parte dos ortodoxos não existem as mesmas atenuantes que há em Roma para moderar a desconfiança ou mesmo ódio que os fiéis árabes sentem pelo Estado Judaico.

Quem são os cristãos na Terra Santa?

Normalmente olhamos para a Terra Santa, e para o conflito entre Israel e a Palestina, como uma dicotomia judaica-muçulmana, mas são muitos os cristãos que vivem nestes territórios. 

Os mais numerosos são os cristãos árabes, identificados hoje em dia como palestinianos. Neste momento estes constituem cerca de 3% da população na Faixa de Gaza e da Cisjordânia, embora historicamente tenham sido uma percentagem muito maior, que foi diminuindo pelo facto de os cristãos emigrarem em muito maior proporção que os muçulmanos. 

Entre a comunidade árabe/palestiniana que vive em Israel a percentagem de cristãos é significativamente maior, cerca de 7%, o que representa a vasta maioria dos cristãos israelitas (75%). Os cristãos palestinianos dividem-se mais ou menos em igual número entre católicos e ortodoxos, sendo que existem católicos de rito latino e de rito oriental, principalmente melquita. 
Judeus messiânicos

Os restantes cristãos em Israel são de diferentes comunidades, incluindo entre três e seis mil arménios. Há um número muito significativo de russos de ascendência judaica que emigraram para Israel mas cujas famílias tinham entretanto convertido ao cristianismo, pelo que existem dezenas de milhares de fiéis da Igreja Ortodoxa Russa no país. O mesmo se aplica a alguns milhares de membros da comunidade etiope em Israel. 

Existe também uma relativamente pequena, mas significativa comunidade de cristãos de língua hebraica. Integrada na Igreja Católica de rito latino, esta comunidade é composta por judeus convertidos ao Cristianismo, mas também por descendentes de católicos que já nasceram em Israel e para quem o hebraico é a língua materna.

Por fim, existem algumas comunidades protestantes, a mais polémica das quais são os chamados "judeus messiânicos", que são judeus que acreditam que Jesus é o Messias prometido a Israel e que são por isso cristãos, mas continuam a vestir-se e a comportar-se como judeus, procurando muito activamente converter outros judeus à sua fé. Por causa do seu proselitismo, são muito mal vistos por judeus devotos em Israel. Segundo alguns dados, existem mais de cinco mil judeus messiânicos em Israel.

Thursday, 21 April 2022

A posição de Francisco sobre a Ucrânia, e a posição da Ucrânia sobre Francisco

Nos últimos dias têm surgido alguns sinais de desagrado da parte de figuras religiosas ucranianas, nomeadamente da Igreja Católica, em relação ao Papa Francisco e ao Vaticano.

Há duas grandes razões para esse desagrado:

   1. O facto de Francisco continuar a insistir em manter os planos para se encontrar com o Patriarca Cirilo, de Moscovo, apesar de este teimar em manter a ligação a Vladimir Putin, de falar da guerra na Ucrânia como se tratasse de uma guerra santa e benzer as forças armadas que partem para a Ucrânia para matar ucranianos e ocupar o seu país.

2.   O facto de o Vaticano ter planeado colocar duas famílias – uma russa e uma ucraniana – a carregar juntas a cruz na décima terceira estação da Via Sacra na Sexta-feira Santa.

Acresce que alguns lamentam o facto de Francisco nunca ter referido pelo nome Vladimir Putin, nem a Rússia, nas suas condenações da guerra.

Alguns destes protestos são compreensíveis, outros nem tanto. Mas o que não é aceitável é concluir que Francisco tem uma posição dúbia sobre esta guerra, nem sobre quem é culpado pela tragédia que se está a desenrolar na Ucrânia.

Aqui no blog tenho juntado todas as declarações dos principais líderes religiosos relevantes sobre esta guerra, desde o seu início. Pelas minhas contas, para além do líder da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, que divulga todos os dias uma mensagem de vídeo sobre a situação, e do líder da Igreja Ortodoxa Autocéfala da Ucrânia, o Papa Francisco é o que mais se tem expressado sobre o conflito. Eu conto 17 pronunciamentos públicos, para além de quatro gestos significativos: a ida em pessoa à embaixada da Rússia na Santa Sé, o telefonema a Zelensky, o telefonema ao líder da Igreja Greco-Católica e a conversa por videoconferência com o Patriarca de Moscovo.

Mas mais importante que a quantidade é mesmo o conteúdo das declarações do Papa.

·       Francisco começou logo por dizer, no dia 6 de Março, que esta é uma guerra, desmentindo assim linha oficial de Moscovo de que se trata de uma “operação militar especial”.

·      Antes, a 27 de Fevereiro, quarto dia da guerra, referiu-se ao “povo sofredor da Ucrânia” e disse estar de “coração partido” com o que se está a passar.

·   No já referido dia 6 anunciou ainda o envio de dois cardeais para a Ucrânia, em sua representação.

·       No dia 13 de Março pediu que se pusesse fim ao “massacre” de Mariupol e referiu a “barbárie” da matança de crianças. Nesse mesmo dia publicou uma oração especial pelo fim da guerra na Ucrânia em que identifica Cristo com os bebés que nascem debaixo de bombas em Kiev e com as crianças que morrem nos braços das suas mães em Kharkiv, pedindo a Deus que “trave a mão de Caim”, que aqui é claramente identificado com a Rússia.

·     No dia 15 de Março classificou o ataque à Ucrânia como um “abuso perverso do poder e dos interesses partidários”.

·     No dia 20 de Março referiu-se à guerra como uma “agressão violenta contra a Ucrânia” e um “massacre sem sentido”, falando de matanças e atrocidades. Disse ainda que a guerra é desumana e foi mais longe, apelidando-a de “sacrilégio”, no que pode ser entendido com uma resposta aos que a consideraram uma guerra santa.

·     No dia 2 de Abril, em Malta, disse: “Mais uma vez alguma potência, tristemente apanhada em reivindicações anacrónicas de interesse nacional, está a provocar e fomentar conflito”. No mesmo discurso classificou a pretensão russa de invadir a Ucrânia de “infantil” e disse que “essa criancice, infelizmente, não desapareceu. Reemergiu com força nas seduções da autocracia, novas formas de imperialismo, agressividade em larga escala”.

·      No dia 3 de Abril, ainda em Malta, falou na “guerra injusta e selvagem” na Ucrânia e mais tarde, nesse mesmo dia, voltou a dizer que esta guerra, em particular, é um “sacrilégio”.

·     No dia 6 de Abril referiu-se ao massacre em Bucha, um massacre que os russos dizem que nunca aconteceu, e exibiu publicamente uma bandeira da Ucrânia vinda precisamente dessa cidade.

·     No dia 10 de Abril referiu-se aos “odiosos massacres e cruéis atrocidades levadas a cabo contra civis indefesos”.

·      No sermão de Domingo de Ramos, também no dia 10 de Abril, disse que na guerra Cristo volta a ser crucificado.

·      No dia 13 de Abril disse que esta guerra “é um ultraje contra Deus, uma traição blasfema da Ceia do Senhor, uma preferência pelo falso Deus deste mundo”.

·      E finalmente, na bênção Urbi et Orbi, no dia 17 de Abril, Domingo de Páscoa, disse guardar no coração as muitas vítimas ucranianas, descrevendo-as em detalhe.

A tudo isto acresce o envio dos dois cardeais à Ucrânia, e tudo o que eles têm dito e feito para expressar o horror perante a tragédia e a solidariedade para com a Ucrânia, com o cardeal Krajewski a dizer que tal como Cristo, a Ucrânia ressuscitará.

Portanto não, o Papa não se referiu diretamente a Putin, nem invocou o nome da Rússia, mas é preciso uma enorme dose de má vontade para interpretar as suas muitas palavras e gestos desde que esta guerra começou como qualquer coisa que não seja uma duríssima condenação da Rússia e do regime russo, como responsáveis por esta guerra e tudo o que ela espoletou.

Arrumada esta questão, analisemos então as principais queixas dos ucranianos em relação a Francisco.

A insistência do Papa em encontrar-se com Cirilo é de facto complicada de compreender. Cirilo é a figura religiosa que saiu mais desacreditada em todo este conflito. Incapaz de sair debaixo da asa de Vladimir Putin, incapaz de perceber que esta estratégia é um enorme tiro no pé naquilo que ele considera serem os seus principais objectivos estratégicos, nomeadamente manter os ortodoxos ucranianos debaixo da autoridade de Moscovo e, também, de se afirmar como o principal líder na comunhão ortodoxa, remetendo o Patriarca de Constantinopla para segundo lugar, se tanto.

Depois deste terrível fiasco, muito dificilmente Cirilo será levado a sério pelo mundo, incluindo o mundo religioso. Nesse sentido, um encontro com o Papa é tudo o que ele pode desejar para tentar projectar alguma credibilidade. Com tudo o que se tem passado, porque é que o Papa insiste em dar-lhe esta “borla”?

Não posso fingir saber o que se passa na Santa Sé nem no coração do Papa, mas posso especular que o Papa sabe que por mais que Cirilo esteja na lama, neste momento, não deixa de ser o líder da maior Igreja Ortodoxa do mundo, e que o diálogo ecuménico com o mundo ortodoxo nunca irá a lado nenhum sem a Rússia a bordo. Se as outras igrejas ortodoxas estão dispostas a entrar no mesmo barco que Cirilo ou não, é outra questão, interna, mas o Vaticano não pode simplesmente cortar os laços.

Por outro lado, Cirilo sabe que o Papa poderia perfeitamente não fazer isto, sacudir as mãos dele, como muitos fizeram, e por isso é possível que ele se revele agradecido a Francisco pelo gesto de o manter à tona de água, e que isso dê frutos ecuménicos no futuro.

Finalmente, por mais tentador que seja analisar tudo isto pela perspectiva do poder, devemos lembrar-nos que a lógica do Cristianismo não é a do poder e que o Papa sabe isso.

Chegamos assim ao segundo ponto que causou atrito nos últimos dias. A decisão do Vaticano de ter duas famílias, uma russa e outra ucraniana a escrever em conjunto uma das meditações da Via Sacra caiu muito mal na Ucrânia. E não foi só entre ortodoxos, mesmo o Arcebispo-maior Sviatoslav Shevchuk, da Igreja Greco-Católica da Ucrânia, condenou a iniciativa, sugerindo que ela passava a imagem de que o sofrimento dos dois povos era equivalente.

Perante a pressão, o Vaticano cedeu e mudou a meditação, que foi substituída apenas por um apelo à oração silenciosa pela paz, enquanto duas jovens mulheres, uma russa e uma ucraniana, seguravam na cruz.

Mesmo essa versão mais “light” não foi aceite pelos ucranianos, e pela primeira vez em anos os meios de comunicação católicos do país não transmitiram a cerimónia em directo.

Esta reacção dos ucranianos apenas se compreende no contexto da enorme injustiça a que estão a ser sujeitados. Mas compreender não é dar-lhes razão. Pelo contrário, diria que imagens de russos e ucranianos lado-a-lado, a condenar a guerra, são exactamente o que faz falta neste momento. Houvesse mais!

É importante não confundir o regime de Putin com o povo russo e é importante não esquecer que quando esta guerra acabar há dois países enormes e dois povos numerosos e antigos que precisarão de encontrar forma de sarar as feridas e viver em conjunto. Qualquer gesto nesse sentido parece-me ser de louvar em vez de criticar.

Infelizmente estas críticas ucranianas não são novas. Na recente conferência em que participei, organizada pela Capela do Rato, o padre da Igreja Ortodoxa Moldava, que está ligada a Moscovo, disse que tinha tentado ir com padres da Igreja Ortodoxa Russa em Portugal prestar apoio aos refugiados ucranianos que chegaram a Cascais, mas foram impedidos de o fazer por ordem da Embaixada da Ucrânia em Portugal. Convém esclarecer que o padre Petru tem falado abertamente contra a guerra e até – de forma corajosa – contra a liderança da Igreja Ortodoxa Russa, e ainda que os três padres russos em Portugal neste momento são signatários da Carta dos Padres Russos pela Paz, que é dos documentos mais bonitos que já li – do ponto de vista cristão – contra esta guerra. Mantê-los longe de refugiados porque são da “confissão errada” foi uma decisão cruel e injusta.

Esta insistência em ver a realidade de uma perspectiva nacional/étnica é, infelizmente, uma das fraquezas inerentes ao Cristianismo oriental. Mas Roma, por mais que simpatize com a Ucrânia e esteja convencida da razão da sua causa, não pode partilhar dessa visão reduzida.

Thursday, 31 March 2022

Hospital de Campanha - Episódio 2

Chegou o novo episódio do Hospital de Campanha.

Este episódio conta com a ajuda do nosso amigo Octávio Carmo, jornalista e vaticanista da Agência Ecclesia. Já o Duarte não pôde estar, mas volta em breve!

Juntos discutimos a importância da Guerra na Ucrânia para as relações ecuménicas entre a Igreja Católica e os Ortodoxos, a consagração da Rússia e da Ucrânia a Nossa Senhora de Fátima e, por fim, a reforma da Cúria Romana, um assunto para o qual a presença do Octávio foi fundamental. 

Podem ouvir no Spotify ou no Google.

Friday, 18 March 2022

A imagem de Nossa Senhora em Lviv

Aqui podem ver a minha participação ontem na CNN Portugal para falar da visita da imagem peregrina de Fátima a Lviv. Começa em 1'15 minutos do vídeo, 21h13, se se guiarem pela hora da emissão. 

Nos minutos antes da minha participação há uma interessante reportagem feita no local, que também devem ver.

Thursday, 2 January 2020

Religião - onde realidade e ficção são por vezes difíceis de distinguir

Como prometi no último, a partir deste ano estes mails servirão mais para partilhar textos de opinião e análise do que apanhados de notícias. É precisamente com esse objetivo que vos escrevo hoje, na esperança de que tenham tido um Santo Natal e uma excelente entrada em 2020.

Ao longo dos próximos dias vou tentar publicar uma série de curtos textos sobre coisas a que devemos estar atentos em 2020. Hoje começo com os Estados Unidos, onde teremos a possível reeleição de Donald Trump e como isso poderá afetar o Supremo Tribunal, cuja importância é muitas vezes subestimada por quem não vive naquele país.

Tenho também para partilhar convosco o artigo do The Catholic Thing em português, em que Stephen P. White analisa a forma como está a mudar a nossa visão dos bispos e o seu papel e convida os leigos a assumir as suas responsabilidades para que a Igreja se renove verdadeiramente.

Noutras notícias, destaque para o número de missionários assassinados em 2019, que inclui a “nossa” irmã Antónia e também para este explicador sobre o filme “Os Dois Papas” – onde acaba a realidade e começa a ficção? Devo dizer que tenho acompanhado com interesse o debate em torno do filme, mas como ainda não tive oportunidade de o ver, não escrevi nada sobre ele.

Por fim, este texto ajuda a compreender o conflito em Montenegro que envolve a Igreja Ortodoxa e aqui podem ler sobre o pedido de desculpas do Papa Francisco por ter feito a uma peregrina aquilo que eu faço aos meus filhos quando me puxam a mão, várias vezes por dia…

Wednesday, 6 February 2019

A Transformação do “Pulmão Oriental”

Myroslav Marynovych

Embora quase ninguém no mundo ocidental tenha reparado, houve recentemente um desenvolvimento importante para o Cristianismo global. Durante o Sínodo da Igreja Ortodoxa de Kyiv, no dia 15 de Novembro de 2018, foi criada uma nova Igreja Autocéfala da Ucrânia. A medida foi saudada pela Igreja Greco-Católica da Ucrânia.

Estaremos perante mais um caso de “nacionalismo ucraniano” numa altura em que a Rússia se tem tornado cada vez mais ativa? Ou será este o resultado da rivalidade entre Constantinopla e Moscovo por influência sobre a Ucrânia? E o que é que isto representa para os Ortodoxos e para a Igreja Católica?

Na realidade, estamos perante uma mudança gigantesca na Igreja. O Papa João Paulo II convidou a Europa a respirar com dois “pulmões” – o Ocidental e o Oriental. Normalmente sabemos bem o que é o “pulmão ocidental”, mas o que é o oriental?

Entre os séculos XI e XIV a resposta era inequívoca: O oriente cristão estava organizado em torno de dois centros: a Igreja de Constantinopla (incluindo a Grécia e Atenas) e a sua Igreja “filha”, a Igreja de Kyiv, de onde o Cristianismo se espalhou para outras terras orientais.

Entre os séculos XV e XVIII aconteceu uma “deriva continental” tremenda e Moscovo acabou por substituir Kyiv (Kiev). A partir de então o Oriente Cristão passou a estar centrado em Constantinopla e Moscovo. Muscovy absorveu em si mesmo tanto o território da antiga Rus’ de Kyiv como a Metropoly eclesiástica de Kyiv, tornando-se o Império Russo.

As características distintivas da antiga espiritualidade de Kyiv foram rigorosamente limitadas para se conformarem com os interesses do modelo russo de Cesaropapismo. Livros eclesiais “suspeitos” foram queimados. Figuras dissidentes da Igreja foram reprimidas.

Kyiv passou a estar submetida à “Terceira Roma” (Moscovo) tanto debaixo do Czar como das ditaduras comunistas. Foi só com o colapso da União Soviética que o glaciar estalinista descongelou. O que a propaganda do Kremlin classificava de nacionalismos locais, que alegadamente destruíam a unidade cristã, era a libertação dos povos e das suas comunidades eclesiásticas da influência monopolista do mais poderoso dos nacionalismos, o chauvinismo russo.

Na Ucrânia voltou a nascer a ideia de uma Igreja Ortodoxa autocéfala. O Kremlin, e a Igreja Ortodoxa Russa que lhe era subserviente, responderam de duas formas.

A primeira foi uma descriminação metódica contra os desenvolvimentos eclesiais e políticos na Ucrânia. Nas palavras de um observador ucraniano, a propaganda russa usava terminologia aparentemente retirada do “dicionário ocidental de ‘valores humanitários’, mas na verdade operava com ideias-lobisomem, ideias-parasita e ideias-fantasma” (Andriy Baumeister). O mundo ocidental não deu por esta manipulação e, pelo menos até recentemente, aceitou-a de forma acrítica.

O segundo método consistia em propagar o conceito do “mundo russo” avançado por Cirilo, o Patriarca de Moscovo, que na verdade é uma doutrina imperial quasi-religiosa que proclama a “unidade espiritual” de todos os russófonos e povos ortodoxos. 

Isto tornou-se uma forma de legitimar a guerra da Federação Russa contra a Ucrânia, alegadamente em nome da defesa da população russófona. Agora a propaganda do Kremlin está a preparar o mundo para um possível novo ataque contra a Ucrânia, para “proteger” a população ortodoxa.

Assim, hoje estamos a assistir a uma profunda transformação do “pulmão oriental”. O Patriarcado Ecuménico de Constantinopla pressentiu para onde as coisas estavam encaminhadas e tomou a medida pouco comum de intensificar as suas atividades no mundo ortodoxo. Apesar de o Patriarcado Ecuménico ser apenas um “primeiro entre iguais” – e não o líder solitário da Igreja (como acontece com o Papa no Ocidente) – ele assumiu a responsabilidade pelo destino da Igreja ucraniana, que tinha sido separada de Constantinopla.

Há vários sinais de que o Oriente Eslavo do “pulmão Oriental” é ainda largamente disfuncional. O comunismo foi um profundo trauma do qual os povos das antigas repúblicas soviéticas ainda não recuperaram inteiramente. Em muitos lugares as pessoas perderam a cultura cristã e a compreensão do verdadeiro significado da fé cristã. Por isso, ainda poderemos vir a ter notícias preocupantes – tanto políticas como religiosas – de Kyiv. Mas, apesar de tudo, está em curso uma importante reorganização e as mudanças futuras afetarão o mundo cristão por inteiro.

Metropolita Epifânio, da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia
A influência de Constantinopla poderá acabar por ser extremamente importante. Isto já foi manifestado através da promulgação do Estatuto da recém-constituída Igreja Ucraniana, que alterou substancialmente os procedimentos administrativos, democratizando-os.

Até aqui os cristãos ocidentais têm-se preocupado sobretudo com a preservação do status quo com Moscovo, como se o oriente cristão se resumisse à Igreja Ortodoxa Russa. Aos olhos ocidentais isto parecia ser essencial para a paz cristã e o diálogo ecuménico. A diplomacia do Vaticano tem sido cuidadosa em não intervir nos assuntos internos dos ortodoxos.

Mas a situação atual apresenta um desafio claro para a Igreja Católica. Nas palavras do cardeal Christoph Schönborn, de Viena: “Como é que o Vaticano deve relacionar-se com a nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia? Se a reconhecer, isso levará a um conflito com o Patriarcado de Moscovo. Se não a reconhecer, isso conduzirá a um conflito com o Patriarcado Ecuménico.”

As Igrejas Ocidentais têm de compreender que o antigo status quo já não é sustentável. A situação exige uma mudança radical das posições atuais, incluindo a reconsideração dos atuais modelos de ecumenismo.

Os cristãos conscientes não podem continuar a considerar aceitável a linguagem de ultimatos e de exclusões usada pela Rússia. Os crentes ortodoxos da Ucrânia são uma parte legítima da oikumene cristã e estão, atualmente, sob cerco.  

Eles podem tornar-se um catalisador para uma transformação civilizada de todo o espaço pós-soviético, a começar pela Rússia. Os ocidentais devem compreender as novas realidades na Europa Oriental e perceber que a inclusão das Igrejas Ucranianas no diálogo com o mundo pode trazer mais benefícios do que o isolamento continuado.

Depois da queda do comunismo muitos ocidentais esperavam que o mundo eslavo, silenciado durante tanto tempo, ficaria finalmente livre para contribuir corretamente para a cultura cristã e para todo o mundo. Hoje, com a criação de uma Igreja Ortodoxa Ucraniana, pode ser que uma voz importante esteja finalmente a fazer-se escutar.



Myroslav Marynovych é vice-reitor para missão na Universidade Católica da Ucrânia, em Lviv, na Ucrânia, e president do Instituto de Religião e Sociedade da mesma universidade. Foi fundador do Ukraninian Helsinki Group e prisioneiro de consciência entre 1977 e 1987. Presidiu às estruturas da Amnistia Internacional na Ucrânia entre 1991 e 1996 e foi também president do Centro Ucraniano da PEN International.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 2 de Fevereiro de 2019)

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The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 23 May 2018

Uma Viagem à Montanha Sagrada

John Farina
O Estado Monástico Autónomo da Montanha Sagrada é um dos locais mais peculiares do mundo. É uma civilização de monges, por monges, para monges. A península escarpada na costa leste da Macedónia sempre foi remota e selvagem. O Monte Athos situa-se no meio, a uma altura de 2000 metros. Para um lado e para o outro há montes muito íngremes, tornando a viagem muito difícil. Não se pode chegar aos mosteiros por terra, todos devem viajar por mar.

Aninhados ao longo da costa encontram-se os grandes mosteiros, aldeias de monges com muitas capelas, igrejas e residências, suficientemente grandes para que cada monge tenha a sua cela e, nos edifícios maiores, para albergar os milhares de peregrinos que todos os anos vêm em busca de iluminação. No seu auge, os mosteiros maiores tinham até 500 monges e os maiores, como o Grande Lavra e o Pantokratoros até criaram pequenas dependências, chamadas sketes, um nome que deriva do local no Egipto onde os Padres do Deserto deram início ao monasticismo no século III.

Eu cheguei ao Monte Athos com um grupo de académicos ortodoxos da Grécia e da Roménia, com quem já tinha estado em Véria (a “Berea” de São Paulo) numa conferência sobre São Gregório Palamas (1296-1356), um dos mais famosos teólogos associados à forma de oração seguida pelos monges de Athos. Palamas passou os seus anos de formação no mosteiro de Kallipetras, a viver em grutas ao longo do Rio Haliacom, na Macedónia central, não muito longe de Véria. Kallipetras nunca foi um mosteiro grande, mas Gregório foi o seu abade durante muitos anos.

Hoje apenas três monges vivem lá, todos com menos de 40 anos. Um é médico, outro é técnico de informática e todos falam não do jeito de Palamas enquanto administrador (mais tarde tornou-se bispo de Thessaloniki) mas da sua vida de oração. Dois dias por semana ele deixava o mosteiro e ia para um gruta na falésia. Reza a lenda que Gregório passava o fim-de-semana inteiro na câmara mais profunda. Os monges desciam-lhe pão e água através de um pequeno buraco. Mesmo ao meio-dia essa câmara é totalmente escura e silenciosa: Privação sensorial total durante 48 horas seguidas.

A gruta de Palamas
Porquê? Gregório acreditava que estava a praticar a oração do coração. Estava a levar à letra os conselhos do salmista David: “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus” (Salmo 46,10). Deus fala-nos na quietude, ou hesychia em grego, dizia Gregório. A escuridão não conduziu a cegueira. Pelo contrário, era uma “escuridão resplandecente”. A luz que brilhava era como aquela que os apóstolos Pedro, Tiago e João viram no Monte Tabor quando Cristo se transfigurou.

Essa luz não é apenas uma metáfora para a iluminação espiritual, mas sim uma participação real na natureza divina. Deus partilha connosco as suas energias por causa do seu amor extático, através do qual somos transformados, assumindo uma natureza semelhante à de Cristo. Em Cristo, como disse Atanásio, Deus é feito homem, para que nós nos tornemos Deus.

Contudo, este partilhar da natureza divina não é uma forma de panteísmo, nem uma forma de autoexaltação em que reivindicamos, como na tentação de Eva por Satanás, o estatuto de deuses. É uma partilha em comum, a koinoneia, uma participação em conjunto no amor.

Deus mantém a sua transcendência. A sua essência não é partilhada, permanecendo desconhecida e desconhecível. A divina escuridão leva-nos para além do nosso conhecimento para uma iluminação, mas não é possível eclipsar totalmente o desconhecimento. Deus é tanto essência como energia, conhecido e desconhecido, presente e transcendente, acção e fundamento do ser.

Esta é a experiência dos santos. É por isso que são representados com auréolas, luz tabórica, que viram e que emana através deles. Mas as suas experiências não se reservam aos santos.

No Cristianismo ocidental não se pensa que as experiências místicas sejam limitadas a santos especiais. Não se devem procurar e não nos salvam. A pessoa comum ficaria confusa, por isso não devemos concentrar-nos muito nelas. No Oriente, contudo, é diferente, especialmente para aqueles que, como Palamas, insistem que a experiência da participação na natureza divina, a teósis, está aberta a todos e deve ser procurada por todos.

Hoje o hesicasmo é praticado na Rússia, na Roménia e na Sérvia, mas em lado nenhum persiste com tanta força como na Montanha Sagrada. Todos os monges de Athos se dedicam a ela.

Os mosteiros do Monte Athos surgiram durante o Império Bizantino. Os monges vivem naquela península continuamente desde o ano 800. A tradição diz que durante uma viagem, com São João Evangelista, Nossa Senhora visitou Athos e declarou-o o paraíso santo, com o qual o seu filho estava agradado.

Por respeito a ela, os monges decidiram há 1000 anos que nenhuma mulher devia ser permitida na Montanha Sagrada. Ao longo dos anos um conjunto de aventureiras, entre as quais a antiga Miss Europa Aliki Diplarakou, entraram disfarçadas de homens. Diplarakou fê-lo na década de 30, mas só contou a história vinte anos mais tarde.

Para lá chegar apanha-se o ferry que parte diariamente de Ouranoupolis para o porto de Dafni, no Estado Autónomo. Desembarcamos e passamos por filas de peregrinos para apanhar um autocarro para a capital, Karyes. É um local minúsculo, com estradas de terra, uma mão cheia de cafés – como as povoações da Guerra das Estrelas, mas sem os maus. Há um edifício municipal, algumas igrejas e, claro, mosteiros. Depois apanhamos outro autocarro que, como o primeiro, viaja lentamente sobre estradas de terra impossivelmente íngremes. Atravessamos um posto fronteiriço, com um guarda leigo, empregado pelo Estado Autónomo, que retira um adolescente da Ucrânia que sem visto nem passaporte. Quando finalmente se abre o portão, entramos nas terras do Mosteiro de Vatopedi.

Vatopedi
Na década de 80, a vasta estrutura, com 150 quilómetros quadrados de edifícios, era habitada apenas por sete monges idosos, que viviam ao estilo idiorritmico. Então chegou um novo grupo, chefiado por um monge cipriota chamado José, que tinha vindo até Athos em 1946, tornando-se discípulo do famoso asceta José o Hesicasto, que morreu em 1959. Daí até 1987 o José mais novo reuniu um grupo de discípulos idealistas. Em 1987 viram uma oportunidade de reavivar Vatopedi e mudaram toda a comunidade para lá. Estes tipos tinham ideias diferentes dos monges mais velhos. A primeira coisa que fizeram foi mudar todo o mosteiro para o sistema cenobítico. Isto tornou-os menos independentes, mas mais capazes de trabalhar em conjunto para alcançar objectivos práticos.

Um desses objectivos era o restauro dos edifícios. O arquitecto Phaido Hagianthonious chegou a Vatopedi em 1983, contratado pelo governo grego. Casado, tinha de deixar a família para trás aos dias de semana para restaurar os edifícios decrépitos que tinham mais de 600 anos. Os monges mais velhos não percebiam porque é que ele estava a gastar tanto tempo a preocupar-se com o carácter histórico das estruturas, eles só queriam que os telhados deixassem de ter buracos, independentemente de serem reparados com técnicas e materiais autênticos.

O orçamento era baixo e a equipa praticamente inexistente. Um dia, no início do seu projecto, estava no segundo andar da igreja central, a reparar um telhado, quando, ao abrir o tecto, caíram centenas de manuscritos medievais que os monges lá tinham escondido dos muitos piratas e invasores que, ao longo dos anos, pilharam Vatopedi e outros mosteiros, todos localizados junto ao mar, isolados, com nada mais que as muralhas para os defender.

Para ele foi um momento marcante para a carreira. Percebeu que não estaria apenas a tapar buracos mas a escavar um local arqueológico importante e a restaurar tesouros sem preço. E a descoberta foi acompanhada de uma feliz coincidência: a União Europeia começou a canalizar dinheiro para preservações históricas. A UNESCO decretou Athos património mundial e os jovens monges alinharam em tudo. Phaido reformou-se após 32 anos, durante os quais foram investidos quase 40 milhões de euros para restaurar o campus. Hoje até brilha.

O conjunto de igrejas, residências, refeitório e muros situa-se por cima de uma falésia à beira-mar, rodeado de jardins, onde os monges cultivam muita da comida que consomem. Do mar chega-lhes peixe, dos campos legumes e fruta. Não comem carne. Cerca de metade do ano abstêm-se de comer peixe e óleo. As sua refeições são simples, servidas em mesas de mármore milenares, onde comem e bebem em silêncio enquanto um monge lê textos espirituais de um ambão elevado. Bebem água e vinho. A comida pode ser simples mas é nutritiva e não falta. Os índices de cancro e de doença cardíaca são baixos e a maior parte vive até aos oitentas e muitos.

Vatopedi
Em Vatopedi há cerca de 120 monges. Há barbas grisalhas com sessentas, e mais, mas são relativamente poucos. Homens entre os vintes e os quarentas são às dezenas. Vigorosos e intensos, sempre com as longas vestes negras do mosteiro e sempre com barba. Aqui as barbas são tão selvagens como a paisagem. O monasticismo ortodoxo centra-se no deserto.

Os seus heróis não são estadistas, nem académicos na universidade de Paris, ou líderes nos centros políticos de Roma ou de Constantinopla, mas homens selvagens como Palamas, que viviam em grutas. A Igreja no seu todo reverencia estes monges de uma forma que faz falta no Ocidente.

Mas falarei mais sobre isso numa futura ocasião.



John Farina foi investigador na Faith and Reason Institute e foi editor-chefe da Paulist Press Classics of Western Spirituality, e da série Sources of American Spirituality, para além das séries Crossroad Herder e Herder Spiritual Legacy. Atualmente é professor associado de estudos religiosos na George Mason University.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing no sábado, 19 de Maio de 2018)

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Friday, 5 February 2016

Papa e Patriarca de Moscovo encontram-se para a semana!

It's happening boys!
O Papa vai-se encontrar com o Patriarca de Moscovo. Não é possível sobrestimar a importância desta notícia!

O encontro vai realizar-se já na próxima semana, em Cuba, e para o arquimandrita Phillip Jagnisz, do Patriarcado de Constantinopla no norte de Portugal e Galiza, trata-se de um importante gesto de boa-fé que pode ter implicações ao nível ecuménico.

Oficialmente os dois líderes cristãos vão discutir a perseguição aos cristãos no Médio Oriente. Esse é precisamente o objectivo da renúncia quaresmal de Évora, este ano.

Tudo se encaminha para que o Presidente Cavaco Silva tenha de assinar as leis sobre o aborto e sobre a adopção por pessoas do mesmo sexo. Mas ainda assim, o Patriarca D. Manuel Clemente espera que os deputados ainda reconsiderem e que haja mais debate sobre o tema.

Tuesday, 25 February 2014

Heróis na RCA, cobardes na Nigéria

Evangelho em acção na RCA
Começo com uma notícia preocupante e boa ao mesmo tempo. Preocupante porque numa vila na República Centro-Africana 800 muçulmanos estão cercados por milícias cristãs que os querem chacinar. Boa porque esses muçulmanos encontraram guarida numa Igreja Católica e os padres estão dispostos a dar a vida para os salvar.



A Igreja Ortodoxa da Ucrânia fiel a Moscovo distancia-se de Yanukovich e dá sinais de querer dialogar com as outras igrejas ortodoxas a operar no país.

D. Manuel Clemente recebeu esta tarde a UGT para uma audiência no Patriarcado de Lisboa e ouviu elogios ao trabalho social da Igreja.

O meu artigo no blogue sobre casos em que os “direitos” dos homossexuais colidem com a liberdade religiosa foi actualizado novamente. Não deixem de ler e sintam-se à vontade para colaborar, enviando-me casos que conheçam.

Tuesday, 7 January 2014

Bom Natal Ortodoxo!

Com o país a recuperar das ondas destruidoras e da onda de homenagens a Eusébio, voltamos à actualidade religiosa dos últimos dias.

Assim, começamos por destacar que esta terça-feira muitos cristãos orientais, ortodoxos ou católicos, celebram o Natal. Para alguns foram horas de apreensão, mas felizmente não houve notícia de ataques.

Ainda a propósito dos ortodoxos, o Patriarca de Constantinopla convocou uma reunião de primazes, parte do processo para a convocação de um sínodo que poderá ser histórico.

Este é o mesmo Patriarca que, se tudo correr bem, se vai encontrar com o Papa em Maio, na Terra Santa, recordando o famoso abraço entre Paulo VI e Atenágoras, há 50 anos.

O presidente da CNIS está preocupado com o possível colapso das instituições sociais e o Papa visitou um presépio vivo, mostrando como é que um pastor pode ficar com o “cheiro das ovelhas”.

Por fim, em França várias cidades proibiram a actuação de Dieudonné M’Bala M’Bala, que é considerada anti-semita.

Tuesday, 3 December 2013

A Alegria do Evangelho - O Papa

Esta é uma das áreas mais importantes, a meu ver. O que é que Bergoglio vai fazer do Papado?

A mim, isto interessa-me sobretudo do ponto de vista ecuménico, na perspectiva em que uma reforma do papel do Papa na Igreja pode, ou não, contribuir para a unidade dos cristãos, sobretudo com as Igrejas Ortodoxas.

Mas este é um tema muito sensível. Tradicionalmente, qualquer pessoa que questione o poder e a autoridade do Papa é imediatamente classificado como perigoso fanático progressista. De facto, a única pessoa que o pode fazer sem ser acusado de odiar o Papa e a Igreja é o próprio Papa. Veremos no que isto dá.

João Paulo II já tinha levantado esta lebre, precisamente com esta intenção ecuménica, mas pouco ou nada mudou, como aliás recorda Francisco:

Dado que sou chamado a viver aquilo que peço aos outros, devo pensar também numa conversão do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto às sugestões tendentes a um exercício do meu ministério que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e às necessidades actuais da evangelização. O Papa João Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar «uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova». Pouco temos avançado neste sentido. (#32)
Esta mudança teria de passar por algo que assegure os líderes ortodoxos de que a sua autonomia não será posta em perigo com uma união com Roma. Um primeiro gesto neste sentido, mais até do que proceder a grandes reformas das funções do Papa, seria dar total autonomia às Igrejas Católicas de Rito Oriental.

Actualmente estas igrejas estão limitadas de uma maneira ridícula e anacrónica. Houve oportunidade para mudar isso depois do sínodo para os bispos do Médio Oriente, em 2010, mas foi desperdiçada. Por exemplo, os católicos orientais continuam oficialmente proibidos de ordenar homens casados nas diásporas “tradicionalmente” latinas e os seus patriarcas não têm autoridade directa sobre os seus fiéis a viver fora dos seus territórios tradicionais.

É evidente que os ortodoxos olham para os seus irmãos católicos orientais e vêem-nos limitados na sua acção pastoral e até evangélica. É isso que dá a união com Roma? Então bem podem esperar sentados, pensam.

Antes, precisamente sobre a questão da descentralização, o Papa já tinha escrito:

Penso, aliás, que não se deve esperar do magistério papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as questões que dizem respeito à Igreja e ao mundo. Não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar «descentralização». (#16)
Esta é uma velha discussão na Igreja. O Concílio pediu esta descentralização, mas desde então o Vaticano resistiu. Olhando para a qualidade de alguns dos bispos no mundo latino, não se pode se não compreender esta posição, mas por outro lado, o responsável essas nomeações é precisamente o Papa, por isso é uma pescadinha de rabo na boca.

Não vejo com maus olhos esta descentralização, mas ela deve ser acompanhada de uma reforma na nomeação de bispos. Precisamos de bispos mais evangélicos, mais pastorais, mais intelectuais. Bispos à imagem dos apóstolos no Pentecostes. Se os tivermos, então venha toda a descentralização que quiserem, que nada haverá a temer.

No meio disto teria de ficar assegurado, claro, o papel do Papa enquanto sucessor de Pedro com a responsabilidade de confirmar os seus irmãos na fé. Mas como digo sempre quando discuto esta questão, o Papa nem sempre teve o papel que tem agora. Este papel foi-se consolidando num contexto de separação com a esmagadora maioria das outras igrejas tradicionais e por isso não podemos esperar que eles aceitem algo com o qual nunca tiveram de conviver durante os mil anos em que a Igreja esteve unida.

Que o Espírito Santo inspire o Papa Francisco neste seu esforço de reforma do seu próprio cargo, que seja para o bem da própria Igreja.

Wednesday, 18 September 2013

Algumas considerações sobre casamentos e segundas uniões

O Papa repetiu esta segunda-feira que a Igreja tem de reflectir sobre a questão dos segundos casamentos e coisas que tais. A primeira vez tinha sido no avião, a regressar do Rio de Janeiro, mas na altura isso ficou quase esquecido no meio de tantas outras coisas que disse.

Este é um dos assuntos que a sociedade mais discute. Todos conhecemos casais que sofrem por isto.

Por isso esta é uma discussão em que a sociedade vai querer participar. Para isso, convém ter presente algumas considerações.

Em primeiro lugar, a Igreja não pode nem deve inventar nestes assuntos. Simplesmente não é assim que ela funciona. A Igreja tem 2000 mil anos de tradição em que se apoiar e tem as escrituras em que se fundamentar. Qualquer nova abordagem ou solução terá de se apoiar nesses dois pilares.

O que temos no Evangelho? Jesus é muito claro em relação a este assunto. Ele condena a noção do divórcio, que existia no seu tempo. Fá-lo utilizando uma palavra que deixa bem claro que a união entre um homem e uma mulher não é para ser rompida e que essa é a ordem das coisas desde a fundação do mundo. Simples. Mas num dos evangelhos o Senhor deixa uma ressalva, que varia de tradução para tradução e que nalguns casos tem sido traduzido assim:

“Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, salvo em caso de adultério, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério”.

Noutros casos aparece “salvo em caso de união ilegal”.

Muito se debate o verdadeiro alcance destas palavras, mas o Cristianismo Oriental usa isto como base para permitir, em certos casos, o segundo casamento. Foi a isto que o Papa se referiu no avião e a mudar alguma coisa na prática ocidental, seria muito provavelmente neste sentido.

De que estamos a falar?

A esta prática entre os orientais chama-se geralmente divórcio de misericórdia. Basicamente, o que a Igreja faz é, por uma questão de misericórdia e de reconhecimento da fraqueza humana, dá uma “segunda chance” a casais cujo primeiro casamento acabou em fracasso.

Uma nota muito importante é que esse segundo casamento é uma celebração penitencial, nunca alegre. Reconhece-se, nesta prática, que a situação não é ideal nem desejada, mas é o que aconteceu.

A Igreja Católica ocidental reconhece e respeita esta prática, embora a sua seja diferente.*

Contudo, há uma comparação possível na prática da Igreja Católica, quando permite a homens que foram ordenados padres que sejam dispensados dos seus votos de celibato, para poderem casar.*

Casamento ortodoxo
A tradição da Igreja é que o sacramento da ordem é impeditivo do casamento (já o contrário não é verdade, mas isso é outra discussão). Por isso, bem vistas as coisas, um padre que seja dispensado ou que abandone o sacerdócio não devia nunca poder casar numa Igreja. Contudo, a Igreja, por uma questão de misericórdia (o termo mais correcto é o grego oikonomia), reconhecendo que a situação não é ideal, dispensa generosamente o sacerdote, que nunca deixa de o ser em verdade, para poder contrair um matrimónio legal aos olhos da Igreja.

Basicamente é isto que os ortodoxos (e católicos de rito oriental) fazem em relação ao casamento.

A situação está assim explicada, mas isto não implica que a Igreja deva necessariamente seguir este percurso, significa apenas que, se o fizer, é um percurso ancorado na tradição da Igreja Universal e por isso defensável.

Pessoalmente custa-me. Mas este género de problemas tem sempre duas dimensões que devem ser consideradas, a pessoal e a social.

Pessoalmente, esta podia de facto ser uma solução boa para muitos casais que se encontram em situações tristes e que não são capazes de aceitar a sugestão da Igreja de viverem o resto da vida em celibato ou a viver “como irmãos” com os seus novos parceiros.

Contudo, socialmente, e por mais que a Igreja explicasse o assunto, isto seria sempre apresentado como uma rendição ao mundo e à sociedade moderna. Se os processos de nulidade são mal compreendidos, como é que se explicaria uma mudança destas?

No nosso mundo o ensinamento da Igreja é um farol que faz muita falta, para realçar a sacralidade do casamento, esse farol ficaria necessariamente ofuscado.

Como disse antes, o debate vem aí, todos têm a sua opinião, mas o importante é partirmos de bases sólidas e com conhecimento e não discutir num vazio, como se não existissem já caminhos a seguir.

Filipe d'Avillez

*Desde que escrevi este artigo muita coisa mudou e os assuntos foram aprofundados. Noto agora que ele contém algumas incorrecções. Em primeiro lugar, segundo o prefeito para  Congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Müller, a Igreja Católica não aceita nem reconhece a validade dos segundos casamentos ortodoxos a que me refiro aqui e, mais, elas não são praticadas pelas Igrejas Católicas de Rito Oriental.

Em segundo lugar, a comparação entre a dispensa dos sacerdotes que deixam o ministério para poder casar e os segundos casamentos não é exacta, uma vez que a proibição dos ministros ordenados contraírem casamento não é doutrinal, mas disciplinar. Existe casos raros de dispensa, por exemplo no caso de diáconos permanentes que enviúvam, para poderem contraír um segundo casamento, mantendo-se no ministério activo.

Correcção feita a 20/02/2014

Monday, 18 March 2013

Primavera em Roma, tensão no Médio Oriente

Penso que no oficial a estrela e
a flor de nardo são douradas...
Realiza-se amanhã a missa de inauguração do pontificado do Papa Francisco (e não a entronização, que será mais tarde). Quem quiser pode ir ao auditório do Colégio São João de Brito e lá assistir à transmissão da celebração, a partir das 08h00. A Renascença fará de lá uma transmissão especial que pode ser acompanhada com imagem através do site.

Entretanto hoje foi divulgado o brasão do novo Papa, que é essencialmente igual ao seu brasão de bispo, mas adaptado ao pontificado.


Ontem foi o primeiro Angelus. Estavam milhares de pessoas em São Pedro, incluindo vários portugueses.

Mudando de ares, mas ainda no Cristianismo. Há tensão entre ortodoxos. A Igreja Grega de Antioquia ameaça mesmo romper comunhão com a de Jerusalém.


E paz é coisa que já não há no Tibete há muito tempo. Mais um monge imolou-se pelo fogo este fim-de-semana.

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