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Wednesday, 2 September 2020

Rezar pelos Agressores

David Warren

O polícia de Minneapolis que foi filmado a ajoelhar-se sobre o pescoço de um George Floyd prostrado chama-se Derek Chauvin. Este, e outros três agentes presentes naquele momento, já foram acusados de homicídio. Começam agora a surgir provas num sentido e noutro, mas as consequências já se fizeram sentir.

Arrisco dizer que todos os leitores já ouviram falar neste incidente e que também estão a par dos motins que ele desencadeou. Três meses mais tarde, há ainda problemas em muitas grandes cidades americanas e há bairros inteiros que são incendiados todas as noites, por este e outros incidentes que ocorreram entretanto.

Os activistas de esquerda, que já mostraram e bem ao que vêm (deixando um rasto de muitas vítimas inocentes), não dão qualquer sinal de abrandar. Porém, ainda só temos informação parcial sobre cada um dos eventos.

Mas hoje não pretendo analisar o contexto passado dos incidentes, nem as suas consequências. É evidente que qualquer ser humano decente se sentiu horrorizado com o vídeo original. Então porque é que grandes segmentos da população estão a ser condenados, como se fossem cúmplices do crime?

É demasiado fácil refutar os argumentos feitos pelos Antifa e militantes do Black Lives Matter, ou dos ideólogos dos media, mundo académico e política que estão a explorar a questão – quase sempre no mesmo sentido, mas no outro também. Aqui não me estou a debruçar sobre a “loucura das multidões”.

Antes, vou focar o evento original – o aparente homicídio de George Floyd – com base no pouco que já sabemos do que se passou. Houve um homicida e o homem que foi morto, tanto quanto se pôde ver; um agressor e a vítima. O sentido de injustiça é um motivador potente em qualquer sociedade humana.  

Com quem é que nos identificamos? Esta é precisamente a pergunta errada.

A nossa resposta pode bem explicar, ou mesmo determinar, onde nos posicionamos em relação à justiça. Neste caso devia ser simples, e para a maioria das pessoas que estão actualmente vivas, é de facto bastante simples. Só ouvi falar de uma pessoa que defendeu a actuação de Chauvin e mesmo esse pensou melhor e retratou-se mais tarde. Duvido que mesmo os acusados sintam que agiram de forma correcta.  

Mas aqui estou a usar o termo “identidade” de forma perigosa, como o mundo o faz, jogando o jogo dos esquerdistas. Nesse mundo identificamos de forma abstrata. Questões de raça, credo, cor e outras são trazidas à baila, quer sejam imediatamente relevantes ou não. É precisamente com este tipo de fogo que a “política da identidade” brinca.

Mas mais fundamentalmente, será que o leitor se identifica pessoalmente com Derek Chauvin? Consegue, mesmo nos seus pensamentos mais obscuros, imaginar-se a agir da mesma forma? Não no sentido “será que eu faria uma coisa destas?”, mas “porque não o faria?”

Não podemos saber o que aconteceu antes, e temos de assumir que poderia ter acontecido qualquer coisa. Mas o leitor alguma vez odiou tanto alguém que até pensou em matá-lo? E, pelo caminho, de o torturar?

Parto do princípio que, caso o tenha feito, terá abandonado o pensamento, talvez instantaneamente. Alguns de nós, porém, já cometeram homicídio no seu coração e se somos adultos devíamos saber que milhares, se não milhões, já passaram dos pensamentos aos actos. Os seres humanos já fizeram coisas tão sórdidas que já devíamos ter noção do que somos capazes.

Pensemos aqui um pouco nos santos, incluindo aqueles que perdoaram, antecipadamente, os seus carrascos. Enquanto cristãos, espero que não nos limitaríamos a dizer que tinham uma noção de justiça deficiente. Não se esqueceram simplesmente, no excitamento do momento, do mandamento de Moisés contra o derramamento de sangue inocente. Isso é o que fazem os assassinos, não as suas vítimas.

O acto verdadeiramente radical do perdão, elevado aqui ao seu expoente máximo, coloca-se em oposição à profundidade da culpa, que na nossa religião associamos ao Diabo. Pelo menos na nossa religião como ela era encarada até à pouco tempo.

Rezamos pelas vítimas, e ao nosso Salvador que foi, por definição, a vítima perfeita. Rezamos por vítimas muito menos perfeitas e, em momentos em que confundimos a justiça com a misericórdia, rezamos pelas vítimas porque achamos que é a coisa correcta a fazer. E todos os que rezaram, e rezam, pela alma de George Floyd fazem bem.

Mas o mesmo se aplica a todos os que rezaram, e rezam, por Derek Chauvin. Na verdade, ele poderá precisar mais das nossas orações, embora não possamos saber isso ao certo, uma vez que isso deve ser deixado ao juízo daquele que escrutina corações mais profundamente do que nós conhecemos o nosso próprio.

Penso aqui em como a perda da doutrina cristã, a começar com a doutrina do Pecado Original, nos debilitou.

Não é apenas o facto de não perdoarmos, é que cada vez mais somos incapazes do perdão. Até podemos compreender que os seres humanos são, em abstrato, capazes de males terríveis. Mas esquecemos que eu, enquanto ser humano, sou capaz de mal terrível.


E esquecendo isto perdemos tudo o que foi conquistado, a grande preço, através das gerações quando fomos cristianizados.

Podemos ver as consequências disto nas ruas; nas caras dos manifestantes; ou nas caras daqueles que ficam enfurecidos pelos manifestantes. É o que acontece quando a sociedade, no geral, perde a capacidade de perdoar. Passo a passo tornamo-nos mais, e não menos, capazes de actos monstruosos.

E pior, sentimo-nos bem com isso, como se tivesse sido feita justiça (“karma”). Na ausência da misericórdia, da magnanimidade, do perdão – as verdadeiras qualidades que ficam frequentemente para lá do alcance das palavras – a distinção entre homicida e vítima desaparece. A alma humana é reduzida a um fragmento no contexto de um malévolo “nós contra eles”.

Claro que a é preciso fazer-se justiça. Talvez alguns polícias deviam ir para a forca, ou para onde o consenso liberal decidir. Mas se procuramos apenas justiça, a justiça será a última coisa que alcançamos. E, como os cristãos de ontem bem sabiam, a história não termina no cadafalso.

 

David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 28 de Agosto de 2020 em The Catholic Thing)

© 2020 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 3 June 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

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