terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Uma Igreja em Mudança

Stephen P. White
Às vezes as grandes mudanças na Igreja acontecem de uma assentada e de forma evidente, como aconteceu com certas reformas do Concílio Vaticano II. Outras mudanças – mesmo algumas monumentais – acontecem de forma muito mais lenta e podem ser difíceis de percepcionar na altura. Às vezes é evidente que estamos perante o fim de um estado de coisas, mas há incerteza quanto ao que vem a seguir. São tempos de apreensão e de esperança.

O episcopado está a mudar. A ênfase do Papa Francisco na sinodalidade e na colegialidade fazem parte deste processo. A reformulação do colégio dos cardeais para incluir bispos das periferias também. Mas talvez a mudança mais significativa seja mais subtil: as expectativas dos leigos em relação aos seus bispos estão a mudar também. A deferência dos leigos para com o clero – sobretudo os bispos – está em baixa. A confiança esbateu-se.

Claro que o principal factor são os escândalos dos últimos 18 meses. É difícil imaginar um bispo católico a gozar do tipo de prestígio nacional e adoração de que gozava o ex-cardeal Theodore McCarrick no auge da sua popularidade, muito antes de se tornarem públicas as suas depravações. Hoje em dia é tão provável os católicos americanos olharem os seus prelados com cepticismo ou até suspeita do que com admiração.

Se acrescentarmos a isto os efeitos da polarização do nosso sistema político e da sociedade, a agressividade das redes sociais, as polémicas internas da Igreja (algumas sérias, outras verdadeiramente patetas) e todos os outros factores promotores de cinismo em que estamos a marinar. O resultado, pelo menos a curto prazo, é que os bispos são menos exaltados (o que é provavelmente uma coisa boa) e estão mais distantes dos seus rebanhos (o que é claramente mau).

Se a imagem que os leigos têm dos seus bispos está a mudar, também parece verdade que os nossos padres estão a ficar com uma imagem diferente, talvez pior, desse cargo eclesiástico.

Recentemente o cardeal Marc Ouellet disse a um órgão de informação espanhol que quase um terço de todos os homens escolhidos pelo Papa para serem bispos recusam a nomeação. De acordo com Ouellet, que é prefeito da Congregação para os Bispos desde 2010, o nível de recusas triplicou desde há uma década.

O facto de haver mais homens a recusar nomeações não é propriamente surpreendente para a maioria dos especialistas. Há já algum tempo que se especula sobre esta tendência. Na verdade, não é a primeira vez que o cardeal Ouellet menciona que a taxa de recusas tem aumentado, embora seja a primeira vez que lhe atribui um número. Vale a pena verificar que a tendência é anterior a esta última vaga de casos de abusos.

Quanto às razões de quem recusa, Ouellet oferece apenas uma consideração generalista. “Pode ser porque não se sentem capazes, por falta de fé, porque têm alguma dificuldade nas suas vidas e preferem não causar mal à Igreja”. Provavelmente nunca teremos uma explicação mais completa de quem verdadeiramente sabe. Ainda assim temos de pensar: a Igreja está a perder bons candidatos ou a ser poupada aos maus?

Um padre que aceita uma nomeação episcopal no actual ambiente eclesiástico está no fundo a aceitar submeter-se a um escrutínio público intenso e por vezes hostil. Devido aos grandes desafios de se ser bispo hoje em dia, quem aceita ansiosamente este dever deve ser especialmente humilde e generoso ou então invulgarmente ambicioso e carreirista.

Muitos dos nossos bispos encontram-se numa posição quase impossível. Espera-se que sejam pastorais e pessoais – com o cheiro das ovelhas e tudo o mais – enquanto passam uma quantidade enorme do seu tempo e energia a tratar de exigências burocráticas e administrativas. Hoje em dia, convém não esquecer, esses deveres podem incluir o trabalho ingrato de conduzir uma diocese através de um processo de falência, fechar dezenas de paróquias ou lidar com processos judiciais.

Não finjo saber qual será o efeito a longo prazo de tudo isto. Mas parece-me certo que à medida que mudam as expectativas em relação aos nossos pastores é necessário que se alterem também as que temos em relação aos rebanhos. Entregar toda a responsabilidade pela saúde e vitalidade (ou o seu oposto) aos nossos bispos é uma forma de clericalismo invertido. Coloca exigências impossíveis de cumprir nos ombros dos pastores enquanto nós – os leigos, a vasta maioria dos católicos – ficamos convenientemente isentos da responsabilidade da nossa própria missão baptismal.

A questão aqui não tem a ver com a culpa pelos pecados e crimes de padres e de bispos. A questão é que os homens escolhidos para liderar o rebanho nos próximos anos e décadas precisarão – caso se queira que sejam bem-sucedidos – da ajuda e da colaboração de um laicado inteiramente comprometido e dedicado ao trabalho do discipulado. Para isso não é preciso quebrar as distinções entre leigos e clero, ou alterar as divisões de tarefas nas sedes das dioceses para dar preferência ao envolvimento de leigos. Esta última opção poderá ser prudente, ou até mesmo necessária, mas nunca será suficiente para a verdadeira missão da Igreja.

Cada vez estou mais convencido de que a questão para a Igreja nos próximos anos e décadas é esta: Se a vocação dos leigos fosse vivida bem e por inteiro – com os leigos a levar a sério o dom e a responsabilidade do seu baptismo – com que Igreja ficaríamos?

Estou convencido de que uma Igreja assim seria uma Igreja de verdade, fortalecida e confirmada na sua missão. Uma Igreja renovada.


Stephen P. White é investigador em Estudos Católicos no Centro de Ética e de Política Pública em Washington.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quinta-feira, 19 de dezembro de 2019)

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