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Friday, 15 December 2023

Devem os bispos meter-se em política? Tolentino é Prémio Pessoa 2023

Esta semana houve novos dados sobre a questão dos abusos na Igreja em Portugal, com o Grupo Vita a revelar alguns números. A falta de detalhes dos dados revelados impede-me de usar estes números para actualizar as minhas tabelas e listas, porque não tenho como saber se não se tratam de casos duplicados. Na mesma altura, o novo Patriarca de Lisboa afirmou que não pode haver vítimas de primeira e de segunda, e que se as vítimas da Igreja devem ser indemnizadas, então as vítimas do resto da sociedade também.

Na véspera, o JN publicou um artigo em que tenta explicar quantos dos padres que foram originalmente afastados cautelarmente por constarem das listas da Comissão Independente já foram reintegrados, e quantos continuam afastados. O artigo consegue a proeza de dar números gerais correctos, mas com base em números parciais errados. Neste artigo eu desmonto a questão, mostrando onde estão os erros dos números do JN, mas também a explicar que é exactamente por esta razão que a Igreja devia tomar a iniciativa de ter e fornecer dados centralizados e tratados de forma homogénea.

O artigo do The Catholic Thing desta semana explica como alguns católicos apoiaram o regime da Nicarágua que agora se voltou contra a Igreja com toda a sua força. São detalhes interessantes e lições importantes a reter, e na semana passada disse neste boletim que os bispos da Baviera, na Alemanha, tinham condenado o partido Alternativa para a Alemanha, o que gerou alguma polémica na caixa dos comentários. O que estas duas notícias têm em comum é o envolvimento da Igreja no campo da política partidária. Neste artigo publicado hoje, partilho alguns pensamentos sobre essa questão, deixando ainda algumas ideias sobre a realidade portuguesa, numa altura em que nos preparamos para as novas campanhas políticas e eleições. Leiam e juntem-se à discussão.

Continua a terrível guerra no Médio Oriente. A paróquia católica de Gaza foi novamente atingida, desta vez por estilhaços de bombas que causaram alguns danos materiais. Felizmente há quem esteja a prestar apoio material aos cristãos em Gaza e no resto da Terra Santa, que também estão a sofrer os efeitos deste conflito. Saiba tudo aqui. E se querem dar uma ajuda material mais imediata, vejam como aqui.

E soube-se hoje que D. Tolentino Mendonça venceu o Prémio Pessoa deste ano, um dia depois de ter proferido na Assembleia da República uma conferência sobre a liberdade religiosa, dizendo que é fundamental “escutar a sabedoria das religiões”.

Numa notícia algo curiosa, o bispo da Guarda, D. Manuel Felício, anunciou que pediu ao Papa Francisco que aceite a sua resignação, três anos antes da idade limite dos 75 anos, para que se possa dedicar a uma missão fora da diocese.

Termino com uma recomendação. Se é aluno, pai ou professor, e se preocupa com quem dá formação sobre educação sexual nas nossas escolas, então sigam este link para conhecer uma organização de confiança que trabalha neste campo. São iniciativas destas, mais do que petições ou constantes lamúrias, que conseguem realmente mudar alguma coisa no terreno.

Por hoje é tudo. Não sei ainda se volto para a semana, mas caso não o faça, ficam desde já os desejos de um Santo Natal!

Thursday, 14 December 2023

Bispos e política, falar ou não falar?

Causou alguma polémica a notícia de que dei conta a semana passada de que os bispos da Baviera tinham denunciado o partido Alternativa para a Alemanha (AdF), que muitos consideram ser de extrema-direita.

Embora alguns tenham considerado que o facto de eu divulgar a notícia constituía apoio da decisão, a verdade é que eu não sei mesmo o que pensar sobre este assunto. É, sem dúvida, um terreno muito complicado.

Entretanto, acabei de publicar ontem um artigo do TheCatholic Thing que explica como o regime da Nicarágua, que tem perseguido de forma implacável a Igreja Católica, chegou ao poder com o apoio de muitos católicos, que chegaram a desempenhar cargos no Governo.

Sem dúvida, a intervenção da Igreja na política é um campo difícil e pantanoso. Normalmente os pântanos evitam-se, mas quando é preciso ir para lá – e às vezes é preciso – deve-se caminhar com o maior cuidado para não se afundar no lodo.

Se é verdade que não tenho uma posição firme sobre este assunto, tenho certamente várias ideias soltas que acho que podem contribuir para uma discussão interessante, a que vos convido a dar seguimento na caixa de comentários* ou nas redes sociais.

  • Os primeiros interessados em que os bispos se mantenham calados sobre questões de política partidária são os políticos. Talvez seja mesmo uma das coisas que mais une a esquerda e a direita.
  • Pelo contrário, acho que os bispos têm não só o direito como mesmo o dever de falar de política, sobretudo para alertar os fiéis para políticas, medidas ou propostas que sejam claramente contrárias à doutrina e aos valores cristãos.
  • Obviamente, este zelo dos bispos pelo bem-comum deve-se aplicar tanto à direita como à esquerda. Quando isso não acontece, os bispos perdem credibilidade e expõem-se a críticas que acabam por desviar a discussão daquilo que é essencial.
  • A Igreja alemã tem um historial recente louvável de intervenção pública e denúncia de políticas anticristãs. Foi firme, e sofreu devidamente, durante o regime nazi. Isso está muito bem documentado. Esse é um legado que honra os católicos alemães.
  • Há uma tendência hoje em dia para confundir direita populista com extrema-direita. Existem ligações, mas não são a mesma coisa. Eu não sei se a AdF é de extrema-direita ou não, mas aceito que os bispos da Baviera sintam que existe uma ameaça suficientemente grande para que deva ser denunciada. Agora, a AdF é a única força partidária que defende posições anticristãs? Todos os outros partidos na Alemanha defendem posições compatíveis com a doutrina católica? Tenho sérias dúvidas. A solução não é os bispos estarem calados, é os bispos falarem, mas falarem de tudo, e não apenas da ameaça mais recente ou mais premente.

E em Portugal?

Estamos a meses das eleições e os partidos preparam-se para entrar em campanha. Devem os bispos falar sobre a previsível subida da direita populista em Portugal? Podem fazê-lo sem falar sobre os perigos de reeleger uma esquerda supostamente moderada, mas que continua a insistir em presentear-nos com medidas perigosíssimas como a lei da autodeterminação de género nas escolas, a eutanásia e o aborto?

A questão, a meu ver, é que a Igreja em Portugal parece distinguir entre os partidos do sistema – com os quais tem anos de ligação, diálogo e experiência, e que por isso considera serem “seguros”, ainda que discorde e se pronuncie pontualmente sobre certas políticas isoladas – e os partidos “antissistema”, especialmente os novos. No caso da direita populista, por exemplo, acresce o facto de alguns tentarem apresentá-lo como estando alinhado com os valores católicos. Eu percebo que para os bispos seja mais fácil alertar contra esses partidos novos, e pessoalmente não acho mal que o façam, mas acho que estamos num ponto em que não podem continuar a confiar cegamente nos partidos “do sistema” que continuam a inquinar o mesmo, tornando-o impróprio para consumo, alimentando assim a impaciência e a revolta que fazem subir os partidos populistas e extremistas.

Pessoalmente, gostava de ver bispos com coragem de criticar abertamente as políticas anticristãs do populismo da direita e da esquerda, mas que critiquem com igual vigor as políticas dos partidos supostamente moderados que continuam a destruir a família, a impor uma cultura da morte e a tratar os nossos filhos como matéria-prima para formatação ideológica.

É possível fazer isto? Não é certamente fácil. Mas talvez se os bispos demonstrassem vontade firme de criticar as medidas e propostas condenáveis de qualquer partido, mesmo que isso implique criticá-los a todos, elogiando as medidas que verdadeiramente promovem o bem comum e os valores cristãos, ainda que isso implique elogiar medidas em todos os partidos, isso leve os próprios partidos a passar a tomar em consideração a possível reacção da Igreja – como força formadora de consciências – quando elaboram e anunciam os seus programas políticos.

Utópico? Talvez. Mas se não acreditarmos que há uma saída deste lamaçal, então só nos resta o desespero, e o desespero transformado em votos costuma dar muito mau resultado.  


* Há algum tempo que adoptei a prática de não entrar em diálogo com autores de comentários anónimos. Eu assumo tudo o que escrevo e digo, espero o mesmo de quem quer conversar comigo. 

Wednesday, 13 December 2023

As raízes jesuítas da guerra contra a Igreja na Nicarágua

Robert W. Shaffern

Desde Agosto que o governo Sandinista declarou guerra à Igreja Católica no pequeno país centro-americano da Nicarágua. Bispos e padres têm sido detidos ou exilados. O Governo congelou as contas bancárias e pensões de padres. A Universidade da América Central (UAC), uma instituição católica, foi confiscada e acusada de servir de centro de treino para terroristas. O regime sandinista tem ignorado as repreensões de figuras da Igreja e de Governos de todo o mundo e parece determinado a erradicar a Igreja Católica do seu território. O presidente sandinista Daniel Ortega quer criar uma Nicarágua onde só cabem as opiniões do Estado.

Para sua grande vergonha, algumas figuras da Igreja Católica da Nicarágua contribuíram significativamente para esta catástrofe, cujas sementes têm estado a germinar desde a conclusão, em 1979, da guerra civil brutal e sangrenta que sacudiu o país durante uma década. Nesse ano os bolcheviques sandinistas expulsaram os últimos membros da dinastia ditadora Somoza do país. Muitos membros do clero católico apoiaram os sandinistas, especialmente membros da ordem jesuíta.

Em vésperas da II Guerra Mundial os jesuítas aumentaram a sua presença na América Central. Em 1937 a Sociedade de Jesus criou a vice-província da América Central, separando-a da região administrativa do México. O Padre Pedro Arrupe Gondra, superior geral da Sociedade de Jesus entre 1965 e 1983, elevou a vice-província a província plena em 1976, quando a guerra civil da Nicarágua estava no seu auge.

Na sua tentativa de aliviar o sofrimento das massas de pobres naquela região, e preocupados em evitar o surgimento de um regime comunista, os jesuítas que trabalharam na América Central durante as décadas de 1940 e 1950 promoveram a formação de partidos e movimentos democratas-cristãos semelhantes aos que foram criados na Europa depois da II Guerra Mundial. Uma grande contribuição para esta missão aconteceu em 1960, quando os jesuítas fundaram a Universidade da América Central. Ironicamente, foi a família Somoza que doou o terreno onde viria a ser construída a única universidade privada da Nicarágua.

Durante os anos 60 e 70, porém, os jesuítas da América Central foram-se aliando cada vez mais à extrema-esquerda, seguindo os passos de figuras oitocentistas como Abbé Sieyès e Talleyrand. Foram arautos e aliados da vitória dos comunistas sandinistas. Aliás, muitos jesuítas chegaram a desempenhar cargos importantes no regime sandinista, incluindo os irmãos Fernando e Ernesto Cardenal, Miguel D’Escoto e Edgar Parrales, que foram todos teólogos da libertação que apoiaram a revolução armada contra o regime Somoza.

Depois de 1979, todos eles ocuparam posições no governo. Fernando Cardenal foi ministro da Educação (que obviamente promovia propaganda do regime), Ernesto Cardenal foi ministro da Cultura (igualmente propagandística), e D’Escoto foi Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Por sua parte, Arrupe apelou a uma espécie de ralliement na Nicarágua, parecida com a do Papa Leão XIII, quando este pediu aos católicos franceses, em 1892, para não rejeitarem os governos anticlericais da III República Francesa. Arrupe pediu aos jesuítas e a outros para dar o seu “generoso apoio” aos sandinistas. Porém, Arrupe tinha algumas reservas em relação aos comunistas, e dizia que estes também deviam ser criticados quando necessário.

Infelizmente, um estudo feito pela UAC no final dos anos 90 encontrou pouco para criticar no Governo. Os jesuítas receberam os sandinistas de braços abertos.

João Paulo II de dedo em riste a 
repreeender Ernesto Cardenal
A resposta mais firme a estes jesuítas sandinistas veio do Papa João Paulo II, que os fez ver que segundo o cânone 285 do Direito Canónico, um padre não deve ocupar cargos políticos. Em 1985 os jesuítas expulsaram Fernando Cardenal, sob pressão do Vaticano, mas ainda assim ele manteve-se como Ministro da Educação e continuou a viver numa residência jesuíta em Manágua.

Os jesuítas reabilitaram-no em 1997, depois de ter repetido o noviciado. Tal como um moderno Georges Danton (que virou de apoiante para opositor do Reino de Terror francês), Cardenal acusou o movimento sandinista de corrupção, e renunciou a sua ligação ao mesmo em 1994.

À medida que o tempo foi passando, a brutalidade do regime de Ortega foi-se tornando cada vez mais evidente. Ortega perdeu a eleição de 2001, mas não se retirou da política. Pelo contrário, arregimentou os seus apoiantes e acabou por regressar à presidência. Apenas cinco anos mais tarde, com o apoio de alguns líderes católicos, foi reeleito presidente da Nicarágua. Desta vez, muitos padres foram significativamente menos acolhedores do que tinham sido em 1979, mas Ortega continuou a gozar de algum apoio. O jornal dos estudantes da UAC não o apoiou directamente, mas a linha editorial continuou a revelar simpatia para com os sandinistas.

Contudo, nem todo este apoio católico impressionou Ortega, que manipulou cinicamente os seus aliados na Igreja. Quando alguns líderes católicos manifestaram o seu desagrado com o facto de ele ter uma amante, decidiu casar. Claro que o casamento não foi realizado por arrependimento dele, ou da sua amante, mas apenas para conseguir mais apoio de católicos de esquerda. Estes foram na conversa.

No final dos anos 60 o filósofo italiano Augusto del Noce avisou que o catolicismo progressista estava num beco sem saída, porque na coligação entre os católicos e os esquerdistas o elemento progressista, que rejeita os ensinamentos básicos do catolicismo sobre a pessoa, predominaria. Sob pena de terem de abdicar dos seus objectivos utópicos no campo da política, economia e sociedade, os marxistas não tinham como não perseguir e suprimir a Igreja Católica. O marxismo rejeita totalmente as realidades transcendentais que o Cristianismo entende como sendo o fundamento de tudo o que existe, bem como a esperança última da raça humana.

O guião deste drama infeliz já tinha sido encenado na Revolução Francesa. O pai de todos os movimentos de esquerda da civilização ocidental, o jacobinismo, tentou erradicar o Catolicismo. Os jacobinos Robespierre, Danton, St. Just e outros, enviaram milhares de católicos para a guilhotina entre 1793 e 1794 por considerarem que a sua religião fomentava a superstição, a credulidade e a intolerância. Ser católico era – alegavam – rejeitar o patriotismo. Mais tarde movimentos semelhantes, como o bolchevismo, seguiram o mesmo caminho.

A Igreja na Nigarágua está apenas a colher o que os jesuítas e os teólogos da libertação semearam.


Robert W. Shaffern é professor de história medieval na Universidade de Scranton. Também lecciona cursos de civilizações antigas e bizantinas, bem como sobre o Renascimento Italiano e a Reforma. É autor de The Penitents’ Treasury: Indulgences in Latin Christendom, 1175-1375.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na sexta-feira, 8 de Dezembro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 25 October 2023

Ser de Deus

Pe. Paul Scalia

Devolve a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Com esta frase, Nosso Senhor evitou a armadilha que tinha sido montada pelos fariseus e os herodianos. Mas é mais do que apenas uma fuga inteligente, as suas palavras também estabeleceram um dos princípios mais importantes da história do pensamento humano: governo limitado e a distinção entre Igreja e Estado.

Para nós tudo isto pode ser um dado adquirido, mas o mundo antigo não conhecia tais distinções. Note-se que os fariseus e os herodianos juntam-se contra Jesus. Estamos a falar de dois grupos que, normalmente, não trabalhariam juntos. O que eles partilham neste contexto é a convicção de que o político e o religioso deviam ser uma só coisa, sem limites e sem distinções. Jesus não se limita a frustrar o objectivo imediato de o conseguirem entalar, consegue também obrigá-los a repensar essa mundivisão.

A primeira parte da resposta de Jesus – devolve a César o que é de César – indica claramente que o Estado desempenha uma função legítima e goza de autonomia. Mesmo os líderes pagãos devem ser obedecidos. Ninguém pode dizer: “Este não é o meu Imperador!”

Os apóstolos dão seguimento a este ensinamento de Cristo. São Paulo diz: “Cada qual seja submisso às autoridades constituídas, porque não há autoridade que não venha de Deus; as que existem foram instituídas por Deus”. E são Pedro escreve: “sede submissos, pois, a toda autoridade humana, quer ao rei como a soberano, quer aos governadores”

A Igreja reconhece, por isso, e respeita a função e a autonomia legítimas do Estado. A larga maioria dos assuntos políticos não carecem de uma resposta especificamente católica, e devem ser deixados aos que exercem cargos públicos. O papel da Igreja não é de exercer o governo, mas de formar consciências e identificar os princípios de discernimento na praça pública. Os detalhes devem ser deixados àqueles a quem foi confiado o serviço do bem comum.

Mas depois temos também a segunda parte da frase: devolver a Deus o que pertence a Deus. Isso estabelece um limite à autoridade do Estado. Portanto, existe uma linha a partir da qual a Igreja diz ao Estado: “Daqui não passas”. Mas que linha é essa?

Bom, se o que tem a marca de César pertence a César, então o que tem a marca de Deus deve pertencer a Deus. O Homem, criado à imagem e semelhança de Deus, pertence a Deus. Ele não pode ser submetido ao Estado. Assim, a verdade, a dignidade e os direitos da pessoa são os limites – e ainda o propósito – da autoridade do Governo. A Igreja não pede às autoridades públicas que traduzam em lei a doutrina e os morais católicos, mas sim que governem de acordo com a verdade da pessoa.

Mas quando o Estado ultrapassa os limites e assume sobre a pessoa uma autoridade que não lhe compete, como quando redefine o conceito de casamento, quando rejeita a realidade do homem e da mulher, quando mata os inocentes no seio das suas mães, ou quando viola a liberdade religiosa, então estamos perante casos em que César tomou conta daquilo que pertence verdadeiramente a Deus. Então os pastores da Igreja têm a responsabilidade de falar, de defender os direitos de Deus e a verdade do homem. 

Haverá quem critique, e recite os slogans antigos: que a política não tem lugar no púlpito; que devemos manter a religião fora da política; separação da Igreja e do Estado! Claro que ninguém acredita em nada disso. Afinal de contas, uma das críticas mais comuns que se faz da Igreja é de que os seus pastores não ergueram as vozes o suficiente para criticar a escravatura, ou Hitler, ou a segregação racial. E ninguém desculpa esses silêncios dizendo que a política não tem lugar no púlpito.

Evidentemente, um padre não devia absolutizar os muitos assuntos sobre os quais católicos fiéis podem exercer juízo prudencial e ter diversidade de opinião. Não existe uma solução especificamente católica sobre a imigração, ou o serviço nacional de saúde, ou a Ucrânia, etc. Podemos discutir legitimamente esses assuntos. Mas devemos discuti-los como filhos de Deus, de acordo com o ensinamento católico.

Mas quando os pastores erguem as vozes contra o aborto, ou a redefinição do casamento, ou os atropelos à liberdade religiosa, não estão a meter-se na política, estão a defender os direitos de Deus contra as intromissões dos políticos. O direito à vida, o significado do casamento, a realidade do masculino e do feminino – estas coisas pertencem a Deus. Não podemos colaborar em entregá-los a César. Quando a Igreja ergue a voz sobre esses assuntos está simplesmente a ecoar as palavras do seu divino Esposo: Devolve a Deus o que é de Deus.

Devolve a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Existe um outro sentido para este verso, mais pessoal. Tu pertences a Deus, não a César. Pertences à oração, não à política. Sim, deves estar informado e envolvido na política, até certo ponto, mas a política não é a única coisa, ou sequer a mais importante. Se investires mais tempo na política do que na oração; se lês mais sobre a próxima eleição do que sobre o teu Senhor; se estás mais preocupado com o governo da terra do que a do Céu – então destes a César o que pertence a Deus. César tornou-se o teu deus.

A primeira forma de defender os direitos de Deus contra as intromissões do Estado é de assegurar que estás a viver a tua vida como alguém que lhe pertence; a pensar mais no seu Reino do que na tua própria pátria; a passar mais tempo a contemplar as verdades eternas do que a ser absorvido por aquilo que passa por notícias. Quando colocas a oração e o serviço ao Deus eterno acima de tudo o resto, então relativizas a autoridade do Estado e dás a Deus aquilo que lhe pertence.


O Pe. Paul Scalia é sacerdote na diocese de Arlington, pároco da Igreja de Saint James em Falls Church e delegado do bispo para o clero. 

(Publicado pela primeira vez no domingo, 22 de Outubro de 2023 em The Catholic Thing

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.   



Wednesday, 18 October 2023

Autoridade Apostólica e Prudência Cívica

Randall Smith

A capacidade de fazer juízos prudenciais sobre o bem comum de um Estado em particular, com as tradições, os hábitos e a forma de vida que o caracteriza, é algo que apenas se ganha com a experiência. Promulgar boas leis, que não sejam demasiado opressivas, nem demasiado liberais; que façam sentido para a maioria dos cidadãos e cujo cumprimento possa ser imposto de forma apropriada, requer uma capacidade de discernimento que normalmente se adquire através de aprendizagem paciente e longa experiência. Eu não nego que Deus possa, em certas ocasiões, simplesmente infundir num indivíduo a prudência necessária para desempenhar uma tarefa em particular, sobretudo quando se tratar de um assunto urgente. Mas que isso não seja uma desculpa para a preguiça ou falta de preparação.

Consideremos a posição daqueles que dizem que quem governa o estado deve obedecer às autoridades eclesiais. Se por “obedecer”, ou “ser governado por”, quisermos dizer que as autoridades civis devem, ao fazer os seus próprios juízos de prudência, deixar-se guiar pelos princípios morais revelados na Escritura e clarificados através de séculos de reflexão, passada ao longo das gerações pela tradição da Igreja, então, sim. O que também se aplica a quando as autoridades eclesiais avisam, com toda a autoridade dos seus cargos, que as autoridades seculares estão a violar os preceitos fundamentais do direito natural, que não admite exceções. Também aqui seria bom que as autoridades seculares fossem obedientes a esse juízo da Igreja.

Mas, se o que queremos dizer é que os juízos prudenciais das autoridades eclesiásticas devem governar ou sobrepor-se aos de líderes seculares bem-intencionados e com uma boa compreensão da justiça e do direito natural, então a resposta teria de ser não.

Os bispos não têm mais capacidade do que qualquer outra pessoa para julgar se devemos aumentar ou baixar os impostos, se o défice está demasiado alto ou não, qual é o número ideal de imigrantes, ou o ordenado mínimo adequado, ainda que sejam bispos verdadeiramente santos. O carisma da autoridade apostólica não é um garante de prudência cívica. Logo, as autoridades eclesiásticas que opinam publicamente sobre tais assuntos, enquanto ignoram outros como a matança de bebés por nascer, estão a confundir a natureza do seu carisma e da sua autoridade.

Seria melhor então afirmar que uma verdadeira prudência levaria a pessoa a reconhecer os limites das suas próprias capacidades e habilidades, de tal maneira que um bispo com uma prudência perfeita jamais assumiria a função (nem tentava impor publicamente) juízos prudenciais sobre assuntos em relação aos quais não possui qualquer conhecimento especializado. Presumivelmente, um tal santo bispo reconheceria que demorou anos a alcançar a sabedoria e a experiência necessárias para compreender o seu povo e governar sabiamente a sua diocese – sempre com a assistência e a orientação do Espírito Santo – e que pela mesma ordem de razões deve demorar anos a alcançar a sabedoria necessária para governar de forma sábia uma comunidade cívica.

Presumo que um verdadeiro estadista deve ter-se informado bem, estudado diligentemente a arte de governar e visto outros legisladores em acção, para aprender o que resulta e o que não resulta. Terá tido encontros suficientes com os seus concidadãos para compreender as suas necessidades e a sua tolerância pelas várias regras e imposições à sua liberdade. E os juízos prudenciais de tal legislador seriam ainda informados pela admoestação de São Tomás de Aquino de que “as leis impostas ao homem devem ser coerentes com a sua condição pois, como diz Isidoro, a lei deve ser ‘exequível, tanto no quadro da natureza como no quadro dos costumes do país’”.

Tomar decisões prudenciais deste género não é apenas uma questão de consultar uma lista de ditames morais num qualquer manual de justiça social e depois traduzi-las em leis. A prudência necessária para formar esses juízos requer treino e experiência, adquire-se com o tempo, através de tentativa e erro, aprendendo com os erros e com os bons exemplos dos outros. Os cristãos acreditam que este processo é possível com a orientação e graça do Espírito Santo. Mas nesta matéria aplica-se a frase de São Tomás de Aquino: “A Graça não viola a natureza, antes a aperfeiçoa”.

Mas não fará sentido pelo menos exigir que os nossos líderes cívicos também sejam católicos? Isso depende. O historial das universidades católicas sugere que contratar pessoas que se dizem católicas, ou mesmo praticantes, não é nenhuma garantia de compreensão da missão católica da instituição, ou de compromisso para com a mesma. É raro encontrar alguém mais anticatólico que um católico zangado ou alienado. Mais vale contratar um judeu devoto que se preocupa com a educação do que um católico que não se interessa.

Também convém dizer que a exigência de aceitar apenas líderes católicos aproxima-se perigosamente da visão calvinista de que apenas os eleitos são capazes de governar a cidade ou a nação. Os católicos nunca subscreveram esta ideia. Antes pelo contrário, sempre defenderam, como escreve Heinrich Rommen no magistral O Estado no Pensamento Católico:

A autoridade política assenta na lei natural. O governante, ou de forma mais genérica, a autoridade política não precisa de qualquer aprovação ou legitimação eclesial, nem o governante não-cristão necessita de qualquer tipo de consentimento específico por parte dos seus súbditos cristãos. Não existe uma libertas Christiana que proíbe os não cristãos de governarem os cristãos, como tem sido defendido por sectários desde os primeiros séculos da era cristã. A legitimação única e satisfatória da autoridade política é a lei natural em geral e, em concreto, o cumprimento do seu dever para com o bem comum.

Os católicos não devem procurar repetir os erros do Século XX, quando, na década de 30, por exemplo, muitos católicos apoiaram o austríaco Engelbert Dolfuss que dissolveu o Parlamento para edificar um estado “católico”, ou quando os católicos apoiaram o ditador António Salazar em Portugal, ou Francisco Franco em Espanha, que utilizaram a censura e a polícia secreta para suprimir a oposição. Nem me parece que os católicos devam recordar com saudade e orgulho o governo absolutista de Pio IX sobre os Estados Pontifícios.

Ter um governante ou um executivo católico, mesmo um que seja ortodoxo e santo, não é nenhuma garantia da virtude da administração cívica prudente.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na terça-feira, 17 de Outubro de 2023)

© 2023 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

Wednesday, 22 December 2021

O que é que Esperamos?

Joseph R. Wood

Sabemos que o tempo do Advento é um tempo de espera. Tendo ouvido as leituras da liturgia de Novembro sobre o fim dos tempos, e fechado o ano com a Solenidade de Cristo Rei, começamos o novo ano à espera do que acabámos de escutar e de celebrar.

Mas também sabemos que a época das “festas” pode ser um tempo de discussões. Como Cristo prometeu, muitas famílias e amigos estão perigosamente divididos sobre quem Ele é, bem como sobre o que deve ser a nossa organização política.

Estas épocas estão muito ligadas. Estamos a aguardar que Cristo regresse finalmente para nos salvar e enquanto esperamos estamos a discutir sobre o que deve ser a nossa política.

“Venha a nós o vosso Reino”, rezamos nós em cada missa, seis vezes em cada terço e umas quantas vezes enquanto penitência. Trata-se de uma aspiração importante sobre o que o Governo deve pretender, que nos foi dada pessoalmente por Cristo. É-nos dito que devemos buscar primeiro o Reino de Deus e a sua bondade. Talvez a mais importante divisão na nossa política ao longo dos últimos séculos radique daqui. Há quem acredite que devemos fazer os possíveis para tornar as coisas melhores nas nossas comunidades políticas, enquanto aguardamos a chegada do Reino. Outros estão fartos de esperar e querem implementar o sistema político perfeito aqui e agora (normalmente estes últimos são descritos como progressistas).

Eis a raiz das grandes discussões que se desenrolam todo o ano e que parecem tornar-se mais intensas durante as festas.

Mas ambos os lados do argumento sabem que devemos esperar algo melhor, uma política melhor, ou um reino melhor e final. Como é que estas coisas se relacionam entre si?

Em ambos os casos esperamos por justiça. E queremos o que é certo.

Os salmos estão cheios de apelos à justiça, de louvor pelo homem justo, e da crença de que a justiça triunfará quando Deus reinar. Do Salmo 48: “Grande é o Senhor, e digno de louvor, na cidade do nosso Deus! … [Os senhores da terra] viram-no e ficaram atónitos, fugiram aterrorizados”. Salmo 97: “O Senhor Reina; exulte a terra e alegrem-se as regiões costeiras distantes! … Pois tu, Senhor, sois o altíssimo em toda a terra”. E o Salmo 89: “A rectidão e a justiça são os alicerces do teu trono; o amor e a fidelidade vão à tua frente”.

Não admira que Cristo nos diga para rezar por este Reino.

Mas outras fontes também clamam por esta cidade. No romance de Mark Helprin, “Winter’s Tale”, uma das chaves da história consta de uma inscrição numa grande salva: “Que se pode imaginar de mais belo que a visão de uma cidade perfeitamente justa a exultar somente na justiça?”.

Todos ansiamos por essa cidade, essa comunidade de pessoas que conjuga a verdade, a beleza e a bondade. Fontes mais antigas também comprovam este anseio. No diálogo “Estadista”, de Platão, Sócrates observa e aprova enquanto um visitante a Atenas ajuda um jovem, que também se chama Sócrates, a compreender o que é um verdadeiro estadista, um bom governante. Tal estadista conhece a alma dos seus cidadãos suficientemente bem para poder tecer as suas virtudes para o bem da cidade, nomeando os corajosos para serem líderes em tempo de guerra e os moderados para os tempos de paz.

O visitante descreve seis tipos de governo: governo para o bem comum de um, de poucos ou de muitos; e governo tirânico ou egoísta de um, de poucos ou de muitos. Este é um esquema de análise que pode ser útil ainda hoje, quando falamos de política.

Mas o visitante fala ainda de uma sétima forma de governo, uma que “devemos separar das outras constituições, como um deus dos homens”. Este governo divino excede a capacidade humana. Um bom estadista só pode conhecer de forma imperfeita as virtudes dos seus cidadãos. É preciso um governante divino para conhecer os homens perfeitamente, e assim apenas um deus pode governar de forma perfeita.

Sócrates e Platão sabiam que é assim que ansiamos ser governados. Sabiam também que tal não será possível na terra.

Igualmente, Aristóteles, aluno de Platão, descreve os seis tipos de governo mas também vê como as cidades gregas na realidade encaixam nesse esquema. Em “Política” (Livros IV e VII), ele procura separar os regimes ou as constituições que são realmente possíveis dos governos “pelos quais se reza”. Os filósofos disputam o sentido destas palavras, claro, mas parece ser um piscar de olho ao sétimo regime divino de Platão.

A grande exposição desta tensão entre comunidades políticas terrenas e o governo de Deus, e a esperança pela resolução dessa tensão, encontra-se em “A Cidade de Deus” de Santo Agostinho. O título vem dos salmos.

Santo Agostinho vê a divisão entre a cidade terrena, aqueles que apenas se preocupam com o que está à nossa volta, e a Cidade de Deus, os santos no Céu e aqueles que ainda estão na terra, mas na comunhão dos santos. Estes últimos escolhem Deus como seu fim, acima dos prazeres físicos e materiais, do conforto e da facilidade.

Santo Agostinho diz-nos que estas duas cidades vivem misturadas aqui na terra, até ao fim dos tempos. Às vezes os governantes terrenos tenderão para a justiça e “tranquilitas ordinis”, ou uma “tranquilidade ordenada” nos assuntos terrenos que tem por base a paz e a justiça. Paz na Terra e boa vontade para com os homens. Esta ordem é um reflexo da paz eterna do Céu.

Outros governantes opõem-se a essa tranquilidade.

Mas nunca poderemos alcançar o sistema político perfeito na terra. A paz eterna apenas será realizada naquele sétimo, divino regime em que as aparentes contradições que atormentam a política terrena sejam resolvidas.

Onde, nas palavras do Salmo 85, “O amor e a fidelidade se encontrarão; a justiça e a paz se beijarão. A fidelidade brotará da terra, e a justiça descerá dos céus”.

Esperamos pelo Senhor. Esperamos e discutimos sobre a justiça na nossa política. Esperamos por aquilo que teremos de forma completa e infinita apenas no Seu Reino, o Reino que não é deste mundo.


Joseph Wood é professor no Instiute of World Politics em Washington D.C. e colaborador na Cana Academy.

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 17 de Dezembro de 2021 em The Catholic Thing

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Wednesday, 4 November 2020

Onde estão os Eleitores Católicos?


David Carlin
Nos anos 30 e 40 do Século XX a esquerda americana dividia-se em três grupos:

Primeiro, a extrema-esquerda (os vermelhos) – composta sobretudo por membros do Partido Comunista dos Estados Unidos.

Depois, a esquerda mainstream (os rosas) – composta sobretudo por socialistas, alguns dos quais anticomunistas e outros pró-comunistas (companheiros de estrada).

Em terceiro lugar, a esquerda moderada, composta por liberais, quase todos democratas, como Walter Reuther, Hubert Humphrey, Franklin e Eleanor Roosevelt.

Nessa altura a extrema-esquerda influenciava a esquerda mainstream e esta influenciava a esquerda moderada. Por outras palavras, os comunistas influenciavam os socialistas e os socialistas influenciavam os democratas liberais. Assim, indiretamente, os comunistas influenciavam os democratas.

Quando começou a Guerra Fria, logo depois da II Guerra Mundial, e as relações amigáveis que existiram durante a guerra entre os EUA e a União Soviética se dissolveram rapidamente, os democratas liberais decidiram que deviam erguer um “muro de separação” entre eles e todos os que se situavam à sua esquerda. Por isso os liberais tornaram-se ferozmente anticomunistas e antissoviéticos e expulsaram os comunistas e os seus companheiros de estrada dos sindicatos. A anterior atitude de “nenhum inimigo à esquerda” deu lugar a uma atitude de “todos à esquerda são inimigos”.

Este “muro de separação” não só permitiu aos liberais evitar qualquer influência vermelha ou cor-de-rosa, como lhes permitiu ainda formar alianças políticas e culturais com os centristas, ou seja, os americanos comuns que não se consideram nem de esquerda nem de direita, nem liberais nem conservadores.

Era esta aliança entre os liberais e os centristas que caracterizava o Partido Democrata, configurada em personalidades como Harry Truman, John Kennedy e Lyndon Johnson. Isso permitiu aos liberais (isto é, esquerda moderada) apresentarem-se como 100% americanos. Os liberais podiam apresentar-se como sendo tão patriotas como a direita e mais, convenciam-se que o seu patriotismo era mais inteligente, logo mais eficiente, que o patriotismo desmiolado da direita.

Esta era uma aliança que se adequava perfeitamente à razão e ao coração dos católicos americanos. Por razões religiosas os católicos opunham-se fortemente ao comunismo e a qualquer forma de esquerda ateia, e por causa do seu estatuto socioeconómico (eram na esmagadora maioria operários ou de classe média baixa) tendiam a apoiar políticas sociais de esquerda moderada. Um Partido Democrata liberal-centrista caía-lhes no goto, tanto que se podia dizer que o Partido Democrata era o partido católico.

O pico desta aliança liberal centrista chegou em Novembro de 1964 quando Lyndon Johnson foi eleito Presidente por esmagadora maioria. Isto aconteceu poucos meses depois da passagem da Civil Rights Act de 1964 e poucos meses antes do Voting Rights Act de 1965.

Mas depois veio a Guerra do Vietname. As secções mais radicais da esquerda americana, que tinham permanecido do lado de lá do “muro da separação” há cerca de vinte anos, começou a desmantelar esse muro. A esquerda radical foi, logo desde o início, fortemente contra o envolvimento no Vietname enquanto que a esquerda moderada (democratas liberais) apoiava o envolvimento americano.

Com o passar dos meses e dos anos o apoio liberal pela guerra foi amolecendo; cada vez mais a esquerda radical e a esquerda moderada começaram a concordar quanto à oposição à guerra. Este consenso antiguerra da esquerda tornou-se perfeitamente claro em 1968 quando dois liberais, Eugene McCarthy e Bobby Kennedy, concorreram à candidatura democrata com base numa posição antiguerra. O muro de separação estava a ruir. (Ironicamente foi Hubert Humphrey, um dos arquitectos desse muro, quem se tornou o candidato democrata nesse ano).


Entretanto a esquerda americana mudou. Em meados dos anos 60 a esquerda radical já não era composta sobretudo por membros do Partido Comunista, uma vez que o comunismo tradicional da União Soviética e dos seus satélites já não exercia grande atração para os radiais americanos, que eram sobretudo jovens imbuídos do espírito da revolução. Outras formas de comunismo já eram mais atraentes para estas pessoas, como por exemplo o de Mao, na China e o de Castro, em Cuba. Estes regimes pareciam genuinamente revolucionários, ao contrário do comunismo maçadoramente burocrático da União Soviética.

Com o passar dos anos e a chegada dos anos 70 o apoio pela guerra do Vietname desapareceu quase por completo entre os liberais e passou a existir sobretudo entre conservadores como o Presidente Nixon e Henry Kissinger. Eventualmente até eles desistiram.

O muro de separação tinha desaparecido. Entre liberais, a ideia era: “Durante anos estávamos errados sobre o Vietname, mas os radicais tinham razão. Devíamos tê-los escutado. Mais, se se eles tinham razão quanto ao Vietname, talvez tivessem razão sobre outras coisas. Devemos dar-lhes um lugar à mesa”.

Desde os anos 70, portanto, a esquerda radical e as suas ideias têm entrado aos poucos para o Partido Democrata. Cada vez mais o partido influenciado pela esquerda mainstream, que por sua vez é influenciada pela esquerda radical, abraçou crenças e valores radicais. O centro de gravidade do partido derivou muito mais para a esquerda.

E é assim que o partido veio gradual, mas enfaticamente, a abraçar ideias radicais em relação ao aborto, à homossexualidade, casamento entre pessoas do mesmo sexo e transgénero. Com a subida de influência de Bernie Sanders caminhou cada vez mais no sentido de que a América se devia tornar “socialista”, querendo com isso dizer que o Governo federal deve ter enormes poderes para dirigir a economia nacional tanto na produção como na distribuição. Agora podemos dizer que a esquerda radical não só está dentro do partido como quase o controla completamente.

E onde é que ficam os católicos, outrora tão satisfeitos com o partido de Roosevelt, Truman, Kennedy e Johnson? O católico comum tem estado a derivar – lentamente, sem grandes certezas – em direção ao Partido Republicano. Será que os católicos vão conseguir transformar o Partido Republicano naquilo que o Partido Democrata já foi, um partido quase católico? Teremos de esperar para ver.


 David Carlin é professor de sociologia e de filosofia na Community College of Rhode Island e autor de The Decline and Fall of the Catholic Church in America

(Publicado pela primeira vez na sexta-feira, 30 de Outubro de 2020 em The Catholic Thing)

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Wednesday, 3 June 2020

Conflito Total, a Toda a Hora

Francis X. Maier

Cerca de 60% dos americanos acredita na existência do Inferno. Para o benefício dos que não acreditam, temos assistido a uma réplica bem fiel nas nossas ruas desde 25 de Maio, quando um polícia assassinou George Floyd. Se o Inferno é uma imagem demasiado forte, pense antes na República de Weimar. Mas Inferno é mais próximo da verdade.

As pessoas tendem a pensar no Inferno como um lago de fogo, graças às Escrituras, ou então como nove círculos descendentes de tormenta, graças a Dante. Mas eu suspeito que o Inferno é ao mesmo tempo mais prosaico e mais aterrador. É mais próximo da resposta obtida por Fausto quando perguntou ao demónio Mefistófeles como é que conseguia sair do inferno, uma vez que tinha sido condenado. “Mas isto é o inferno”, respondeu o demónio, “eu não saí”.

Tal como o amor é a energia que alimenta o Ceu, a fúria – com todos os seus afluentes de confusão, desespero, frustração e conflito – irradia o inferno. Os condenados não podem escapar porque não podem escapar a si mesmos. O inferno tem a forma que eles próprios fizeram.

Mas o que é que isso tem a ver com os últimos dias (e noites) a que assistimos na América?

Henri de Lubac notou certa vez que, nos tempos modernos, o ódio pelos hereges diminuiu. Mas isso não se deve, disse ele, ao facto de os nossos corações se terem tornado mais caridosos. Simplesmente transferimos os nossos interesses e os nossos ódios para a política. A nossa verdadeira paixão hoje é o poder e a eliminação de tudo o que esteja entre nós e o seu exercício.

A revolta na América causada pela morte de George Floyd tem raízes profundas e legítimas. O racismo é um dos pecados primordiais da nossa nação. Os seus resíduos continuam a envenenar a nossa vida pública. Muitos dos motins a que assistimos ao longo da última semana resultam de uma explosão de fúria por causa de mais uma dose desse veneno. As frustrações acumuladas por causa da quarentena da Pandemia, receios de saúde e problemas por causa do desemprego ajudaram a alimentar o caos nas ruas. Mas os motins também provocaram uma violência sistémica e um ódio político que não víamos há décadas.

Ao longo da vida da geração “boomer” houve uma altura em que a maioria dos americanos acreditavam que eram corresponsáveis pelo Governo da nação. A maioria conhecia as ideias básicas da Fundação. É verdade que a política americana sempre teve um lado feio e toda a gente que viveu os tempos conturbados dos anos 1960 sabe que a unidade nacional não passa de uma ilusão.

Mas apesar das diferenças, a maioria dos americanos sentia que tinha alguma responsabilidade partilhada pelo curso do país. E muitos ainda acreditam. Mas à medida que os anos passam, esse acto de fé parece ter cada vez menos bases factuais. Eramos uma república. Agora, pelo menos em termos substanciais, somos um império.

Mudanças económicas e demográficas, sentenças judiciais e guerras estrangeiras ao longo dos últimos 50 anos transformaram a realidade americana. As nossas instituições públicas e estruturas legais dão ares de perdurar, mas não são imortais. Para sobreviver têm de ser alimentadas por confiança popular, um espírito de compromisso e uma sensação partilhada de propósito nacional que vá para além do “e o que é que eu ganho com isso?”

Uma cultura consumista – que é o que temos – é excelente para saciar os apetites pessoais, mas não consegue promover ou suster nada para além do eu. Essa fraqueza congénita começa por esvaziar de vida uma política de solidariedade e depois substitui-a por tribalismo e uma guerra hobbesiana de tudo contra todos. Esse ambiente de conflito total, a toda a hora, é um bom retrato do Inferno.


Seria fácil culpar a actual falta de nível da nossa política em Donald Trump, na sua tendência para o insulto desnecessário, os seus tweets beligerantes e o seu estilo pessoal agressivo. Muitos querem fazer isso mesmo e certamente ele merece alguma da responsabilidade. Mas ele é um sintoma e não a causa.

Líderes democratas como Pelosi, Schumer, Schiff e outros também fizeram mais do que a sua parte para alimentar o tom tóxico e extremista do nosso ambiente político. Sem um sentimento partilhado de obrigação para Deus ou um poder superior que nos responsabilize pelas nossas acções – algo a que hoje apenas se presta homenagem com a boca na nossa vida pública – a política não passa de um mecanismo para alcançar o poder e a guerra travada nesse sentido.

E a intensidade do espírito de conflito em D.C. desce para a população, levando a incontáveis tabuletas a dizer “O Ódio Não Tem Lugar Aqui” nos jardins, alguns dos quais são sinceros, mas outros que apenas mascaram as suas próprias sementes de amargura, fingindo virtudes.

É fácil sentirmo-nos demasiado pequenos diante da dimensão dos problemas que temos de enfrentar. A questão é, o que fazer? Posso oferecer duas ideias.

A primeira vem novamente de De Lubac. Ele escreveu que “Eu não preciso de conquistar o mundo, mesmo para Cristo: Tenho de salvar a minha alma. É disso que me devo lembrar sempre, contra a tentação de sucesso no apostolado. E assim me guardarei contra meios impuros. Não é nossa missão fazer triunfar a verdade, mas testemunhá-la.”

A segunda é da Primeira Epístola de São Pedro: “Deixem, portanto, toda a espécie de maldade, toda a mentira, fingimento, invejas e murmurações … Comportem-se como pessoas livres e não usem a liberdade como uma desculpa para fazerem o mal, mas para servirem a Deus. Respeitem toda a gente, amem os irmãos na fé, tenham temor a Deus” e, sim, até “respeitem o rei”, independentemente de quem ele seja. (1 Pedro, 2, 1-18)

Não é uma mensagem muito satisfatória. Temos vontade de justificar os bons e punir os maus, tenham eles a forma que tiverem. Mas fazemo-lo, ironicamente, através da forma que construímos e assumimos para nós mesmos. As nações mudam quando nós mudamos. E destas, a segunda é a tarefa mais difícil.


Francis X. Maier é pesquisador em Estudos Católicos na Ethics and Public Policy Center.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na Quarta-feira, 3 de Junho de 2020)

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Wednesday, 28 February 2018

A Igreja é uma Realidade Política ou Espiritual?

Nicholas Senz

Quando os futuros repórteres aprendem as artes do jornalismo nas faculdades e universidades, o assunto sobre o qual costumam aperfeiçoar as suas técnicas costuma ser política. Por outras palavras, a maioria dos repórteres treinam para ser jornalistas políticos. Não é nada que não faça sentido, uma vez que a maioria dos empregos para jornalistas serão aqueles que cobrem o campo da política. Mas o factor negativo é que todas as outras áreas tendem a ser vistas pela lente da política e isso pode conduzir a uma cobertura distorcida.

Os exemplos abundam, mas existem sobretudo no campo do jornalismo religioso. E vemos esta tendência não só em órgãos de imprensa seculares, que cometem erros tão básicos como confundir um crozier [báculo] com “crow’s ear” [orelha de corvo] ou a apelidar carmelitas de freiras da Luz do Karma [Karma Light]. Claro que bastaria uma pesquisa de cinco segundos no Google para resolver isto, desde que haja noção do que não se sabe. Mas o que é mais perturbador é que tendemos a ver estes mesmos erros básicos em órgãos de informação católicos. Os jornalistas católicos importam frequentemente termos políticos para as suas reportagens sobre assuntos de Igreja e os resultados são tudo menos esclarecedores.

Uma das armadilhas mais frequentes e que mais têm formado, ou deturpado, o discurso eclesial é a divisão da Igreja entre “progressistas” e “conservadores”. Para o jornalista que vê tudo pela lente da política, isto seria uma perspectiva natural. A política tem sobretudo a ver com facções com interesses diferentes a competir pelo poder para poderem aplicar as suas agendas ou ideias. Na política americana as facções tendem de facto a caber nestes dois campos. Por isso, quando um jornalista participa num encontro da Conferência Episcopal e ouve os bispos a discutir se deviam dar prioridade a questões de vida ou de justiça social, não acha muito diferente de republicanos e democratas a debater os detalhes de um orçamento no senado.

Mas o ensinamento da Igreja não cabe tão bem nesta quadrícula da política secular e as tentativas de projectar os prelados neste ou naquele campo tendem a ser fúteis. Quem lê os textos do arcebispo Jose Gomez ou do Cardeal Sean O’Malley sobre questões de vida, classifica-os de conservadores; mas se ler as suas declarações sobre a imigração ou salários justos, parte do princípio que são progressistas. A verdade é que nem um termo nem outro se aplica a um contexto eclesial, mas demasiados jornalistas católicos insistem em usá-los. Este hábito só serve para exagerar e exacerbar as divisões entre os católicos.

A aplicação destes termos à realidade interna da Igreja é ainda menos apropriada. Tipicamente, os católicos que defendem os ensinamentos e a prática da Igreja são apelidados de “conservadores” enquanto aqueles que fazem pela mudança (normalmente por algo mais em linha com a moral secular), são apelidados de “progressistas”. Mas não deveria ser a doutrina da Igreja que serve para medir as outras coisas? Uma pessoa que simplesmente defende preservar a doutrina da Igreja devia ser considerada “moderada”. Os próprios termos são reveladores dos preconceitos daqueles que os usam.

Outro problema tem a ver com a forma como os repórteres e meios de comunicação descrevem os próprios ensinamentos da Igreja. Para os católicos estes ensinamentos são e entendidos como verdades, enraizadas nas Escrituras e passadas de mão em mão pela tradição apostólica, desenvolvida ao longo do tempo pelo Magistério. Mas demasiadas vezes vemos os jornalistas católicos a descrever estas verdades com recurso a termos políticos. Diz-se que a contracepção é “proibida” pela Igreja, que esta tem uma “política” contra a ordenação das mulheres e “regras” sobre eutanásia. Esta terminologia é inteiramente desadequada e enganadora. As proibições podem ser levantadas. As políticas podem ser alteradas. As regras podem ser mudadas. As verdades não podem.

Freiras da Luz do Karma
Todos estes termos podem ser usados correctamente numa análise política, em que as diferentes facções lutam pelo poder para poderem implementar as suas preferências, vendo-as anuladas e revertidas quando o partido da oposição as expulsar do poder. Usá-los para descrever os ensinamentos da Igreja apenas deixa o leitor com a impressão de que a doutrina e o dogma são alteráveis, sujeitos a guerrilhas de poder e acordos. Imagine-se os cardeais a fazer acordos sobre parágrafos do Catecismo como os deputados fazem acordos sobre projectos de lei.

Dito isto, claro que há elementos de verdade nesta forma de falar sobre a Igreja. Qualquer pessoa que conheça as tricas dos funcionários do Vaticano poderá dizer-lhe que muito do que se passa lá é política. Enquanto a Igreja for povoada por seres humanos – e não por anjos – continuará a haver facções e politiquices.

Mas esta não é a essência da Igreja. Não define o que a Igreja é, o que ensina nem a sua mensagem salvadora. A Igreja é composta por pessoas, mas é uma instituição fundamentalmente divina. É o corpo de Cristo, vivificado pelo Espírito de Deus, trazendo pessoas para o Pai através dos seus ensinamentos, sacramentos e vida diária.

Sem essas fundações, a Igreja ter-se-ia dissolvido há muito tempo. Esta deve ser a visão que guia a Igreja. Mas boa sorte em conseguir que as escolas de jornalismo compreendam, ou ensinem, isso.


Nicholas Senz é Director da Formação de Crianças e de Adults na Igreja Católica de St. Vincent de Paul, em Arlington, Texas, onde vive com a sua mulher e dois filhos. Tem um mestrado em Filosofia e Teologia da Dominican School of Philosophy and Theology em Berkeley, Califórnia.

(Publicado pela primeira vez em The Catholic Thing na quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2018)

© 2018 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

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Wednesday, 4 October 2017

Justiça restaurativa, sangue e sofrimento

Está em discussão em Cascais a Justiça Restaurativa. Seria capaz de perdoar ao seu agressor? Concorda que os reclusos estrangeiros em Portugal sejam apoiados? Estas e outras questões debatidas num assunto fundamental.

O Papa Francisco dedica o mês de Outubro à oração pelos direitos dos trabalhadores e esta quarta-feira renovou o apelo de Fátima de se rezar pela Igreja.

Igreja essa que nas Filipinas continua a fazer frente ao carniceiro Rodrigo Duterte. Agora os bispos oferecem guarida e ajuda a quem quiser testemunhar contra a “guerra à droga”.


Sabia que um em cada cinco países do mundo tem religião oficial? E que a maioria desses países são muçulmanos? Mas o cristianismo é das religiões que mais tem tratamento preferencial.

Esta quarta-feira publicamos um artigo do The Catholic Thing sobre o sentido do sofrimento. É algo que toca a todos durante as nossas vidas. Como entender e tirar graça da dor? O médico Philip Hawley deixa a sua opinião.

Monday, 18 September 2017

E você, já rezou pelos políticos hoje?

Como tinha avisado, estive fora na semana passada e por isso não pude partilhar nenhuma das muitas notícias que foram publicadas por causa da morte inesperada de D. António Francisco, do Porto. Aqui podem recuperar algumas das mais importantes notícias e homenagens a um homem que era unanimemente considerado um cristão exemplar com um grande coração.

Esta segunda-feira o Papa alertou para a necessidade de se rezar pelos políticos, acrescentando que quem não o faz deve admiti-lo no confessionário. Ontem Francisco falou da necessidade de se perdoar e na incoerência de quem se recusa a fazê-lo.

Entretanto foi libertado o padre indiano que tinha sido raptado no Iémen há um ano e meio e um funcionário da nunciatura do Vaticano, em Washington, está a ser investigado por suspeita de pornografia infantil.

Durante a semana também publiquei um artigo novo do The Catholic Thing. David Warren recorda o autor Hillaire Belloc que previu, num livro escrito em 1938, que o Islão iria recuperar a sua força e continuar a ameaçar o Ocidente. Não perca!

Thursday, 27 August 2015

Como é que a História nos vai Julgar?

Pe. Mark A. Pilon
Passo a apresentar um pouco de história revisionista, claramente inventada, mas que vale a pena contemplar nos dias que correm.

Suponhamos que do início da década de 30 até 1945 a Alemanha tinha-se mantido uma democracia, em vez de se transformar numa ditadura de partido único, como foi com o Terceiro Reich. Suponhamos ainda que muitos representantes democraticamente eleitos de partidos liberais e conservadores tinham juntado forças com os Nazis de Hitler no que diz respeito às políticas antissemitas. Por fim, imaginemos que mesmo alguns deputados católicos da oposição tinham votado em conjunto com o Partido Nazi para levar a cabo a chamada “solução final” para a questão judaica e que tinham apoiado publicamente a sua implementação. Suponha, por agora, que tudo isto eram factos históricos.

Vamos então um bocado mais longe. Imagine que os bispos alemães não tinham tomado qualquer acção disciplinar contra esses políticos católicos, seja de que partido fossem, quer excomungando-os, quer negando-lhes os sacramentos. (Sabendo hoje que estas medidas já foram aplicadas pelos bispos alemães nos nossos dias apenas por não se pagar o chamado imposto da Igreja ou para com católicos que não se registam como tal com o Governo). Mas imaginemos que naqueles dias negros não se tinha feito nada do género e imaginemos ainda que as sondagens mostravam cada vez mais católicos alemães confusos sobre estas questões moralmente graves ou decididamente a favor das medidas racistas e genocidas.

Como é que acha que um historiador julgaria esses bispos e esses líderes religiosos? Alguém acreditaria que os bispos alemães tinham desempenhado fielmente o seu papel de proteger a fé dos seus rebanhos – incluindo dos políticos católicos – sem pressionar os católicos no parlamento para defender as vítimas inocentes, fazendo tudo o que estivesse ao seu alcance para impedir as atrocidades do Governo? Será que a Igreja local teria, mais tarde, que se arrepender e pedir perdão, mais até do que os papas têm feito nos últimos anos em reconhecimento de erros do passado?

Talvez se considerasse que os leigos católicos tinham sido apanhados pelos tempos e pela mentalidade tão sagazmente difundida pela máquina de propaganda Nazi. E poderia ser considerada uma atenuante o facto de terem ficado naturalmente confusos com o facto de verem os políticos católicos a evitar serem disciplinados pelos líderes eclesiais e a receber publicamente a comunhão e outros sacramentos, enquanto se continuavam a apelidar de católicos fiéis e alinhados com a Igreja.

Mas voltemos à nossa realidade e ao nosso mundo actual. Durante os últimos 50 anos os leigos católicos na América ouviram os seus bispos a condenar muito claramente o crime monstruoso do aborto. Mas ao mesmo tempo têm visto políticos católicos a apoiar abertamente o chamado direito ao aborto e a combater as medidas para o restringir – com alguns até a defender os horrores da Planned Parenthood, sobre a qual vários bispos já falaram, mas pouco mais. Entretanto estes políticos continuam a apelidar-se de católicos e a receber a comunhão publicamente, por vezes das mãos dos próprios bispos.  

Ao longo deste tempo mais de 55 milhões de seres humanos foram chacinados, o que supera até as terríveis monstruosidades do Terceiro Reich. Entretanto, mais de metade da população católica deste país passou a apoiar o direito ao aborto. Devemos acreditar que não existe ligação entre este distanciamento em massa da verdade e prática moral do Catolicismo e a recusa dos bispos em disciplinar os políticos católicos?

Na verdade, a maioria dos políticos pró-aborto, católicos ou não católicos, são vistos frequentemente a receber homenagens de instituições católicas. Universidades que se dizem católicas contratam professores que divergem publicamente do ensinamento moral católico e, mais uma vez, os leigos não vêem qualquer acção disciplinar. Não surpreende, por isso, que exista muita confusão, sobretudo entre jovens, acerca do ensinamento católico relativo ao aborto e ao casamento. Será que os bispos vão assumir a responsabilidade por esta perda de fé católica em questões tais como o aborto, o casamento, a eutanásia e outros temas morais que se deve à ausência de censura pública de políticos católicos ou de instituições cujos funcionários apoiam estes desvaneios morais?

Como é que a história vai julgar esta geração de líderes da Igreja quando a carnificina chegar finalmente ao fim? Como é que as gerações futuras de católicos julgarão os líderes espirituais desta geração se olharem para trás e virem que nenhum político católico foi alguma vez disciplinado por apoiar e votar favoravelmente não só o aborto como a perversão do casamento? Os mesmos políticos católicos que apoiaram o direito a acabar com vidas humanas inocentes estão agora a apoiar o direito ao casamento homossexual e até a pedir à Igreja que mude os seus ensinamentos. A seguir virá, sem dúvida, a eutanásia, disfarçada de misericórdia.

Até parece que a democracia se tornou um absoluto que supera tudo. Se o aborto é imposto democraticamente, ou legalizado por juízes que trabalham num enquadramento democrático, então os líderes da Igreja ficam como que paralisados quando toca a disciplinar os seus próprios fiéis políticos ou juízes. Se agem no contexto de uma democracia, têm carta branca, é isso? Não podemos dar a ideia de estar a minar a democracia disciplinando sequer católicos que votam pelo direito a matar os inocentes?

Um abortista católico está automaticamente excomungado, mas com o político católico que vota de forma a permitir que o abortista possa exercer o seu trabalho, não se passa nada? Se o juiz [do Supremo Tribunal] Anthony Kennedy atropelar o ensinamento católico com uma decisão bizarra no caso Obergefell [que legalizou o casamento homossexual nos EUA], com ele também não se passa nada. Os políticos e os juízes católicos não podem ser beliscados pela disciplina católica, porque agem a coberto da democracia e da separação entre a Igreja e o Estado e tudo isso. Por isso o juiz Kennedy continua a ser tratado como homem honrado e – mais ainda – pode continuar a afirmar-se um bom católico sem demais consequências.

Questiono-me se um futuro Papa terá de pedir perdão por toda esta hesitação da parte dos bispos de exercer a sua liderança através da disciplina pública, e não só por palavras, mas cobrindo-se de saco e sentando-se em cinzas, penitenciando-se pela fraca resposta dos líderes da Igreja enquanto dezenas de milhões de novos e velhos pagavam o preço dessa inacção com as suas próprias vidas.


O padre Mark A. Pilon, sacerdote da Diocese de Arlington, Virginia, é doutorado em Teologia Sagrada pela Universidade de Santa Croce, em Roma. Foi professor de Teologia Sistemática no Seminário de Mount St. Mary e colaborou com a revista Triumph. É ainda professor aposentado e convidado no Notre Dame Graduate School of Christendom College. Escreve regularmente em littlemoretracts.wordpress.com

(Publicado pela primeira vez na quarta-feira, 19 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

© 2015 The Catholic Thing. Direitos reservados. Para os direitos de reprodução contacte: info@frinstitute.org

The Catholic Thing é um fórum de opinião católica inteligente. As opiniões expressas são da exclusiva responsabilidade dos seus autores. Este artigo aparece publicado em Actualidade Religiosa com o consentimento de The Catholic Thing.

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