quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Nossa Senhora da Realidade

Anthony Esolen
Uma amiga nossa perguntou a um padre idoso e devoto porque é que os católicos pedem a intercessão de Maria sob vários títulos. “O que significa ter uma devoção a Nossa Senhora de Fátima ou a Nossa Senhora de Guadalupe”, perguntou, “quando afinal de contas é a mesma mulher, porque só existe uma Maria?”

Ele respondeu, recordando-lhe das circunstâncias da aparição de Maria a Juan Diego em Guadalupe e aos pastorinhos em Fátima. Veio esmagar a cabeça do paganismo azteca no México, com a adoração do sol e sacrifício humano. Veio avisar os homens ocidentais de uma enorme apostasia, exortando-os a rezar pela conversão da Rússia antes da revolução que veio elevar a impiedade a um princípio de governo.

Não é Nossa Senhora que está dividida, é a nossa atenção. Quando nos sentamos à cabeceira de uma criança moribunda, a quem nos podemos virar? Não ao estoico pagão Epictetus, que imaginou os seus discípulos a dizer: “O seu filho morreu”, ao que ele responde: “alguma vez eu disse que ele era imortal?”. Claro que os católicos se voltam para Deus, mas Deus também nos deu este dom inestimável da mulher pura e sem pecado, Maria, a segunda Eva, o exemplo do que seríamos se fossemos inocentes. Suplicamos a Nossa Senhora das Dores, que segurou o Cristo morto junto ao peito quando O desceram da Cruz, pedindo que ela reze por nós na nossa noite escura.

Quando nos encontramos numa encruzilhada, quando cada caminho diante de nós é incerto, quando seja qual for a nossa escolha esta implicará sofrimento, voltamo-nos para Nossa Senhora, Sede de Sabedoria, que carregou debaixo do seu coração a segunda Pessoa da Trindade, Cristo, a Sabedoria de Deus, e pedimos que ela reze por nós, para que possamos esperar pacientemente e calmamente para que a decisão correcta seja revelada. Ou então voltamo-nos para Nossa Senhora do Bom Conselho, que disse aos criados em Caná, “Façam tudo o que Ele vos disser”.

Essa conversa fez-me pensar, que título é que seria mais apropriado para Nossa Senhora se ela nos aparecesse agora? Consigo pensar em vários:

Para pessoas cuja alma foi deturpada por pornografia, Nossa Senhora da Pureza.

Para pessoas que dão mais importância à casa do que ao lar, e que entregam os filhos para serem criados por estranhos, Nossa Senhora da Vida Familiar.

Para pessoas que deixam aos filhos a factura da sua própria insensatez, hedonismo ou ambição, Nossa Senhora dos Santos Inocentes.

Para pessoas cuja atenção é deturpada pelas inanidades da política e do entretenimento de massas, Nossa Senhora das Horas Caladas.

Para pessoas que procuram preencher o vazio das suas vidas com coisas, Nossa Senhora da Pobreza.

Mas talvez haja um título que vá mais directamente ao cerne de toda a loucura que subjaz às nossas dificuldades. Achamos que uma coisa muda porque lhe damos um nome em vez de outro: Um homem torna-se uma mulher apenas porque diz que sim. Ou então recusamo-nos a acreditar que as coisas têm natureza sequer: Um homem não é um homem porque não existe sequer tal coisa. Ou catalogamos uma coisa de acordo com as suas características superficiais, e dizemos que algo é uma democracia só porque existem eleições, mesmo que a influência de um homem sobre o seu governo seja de facto menor que a de uma pulga sobre um elefante.

Ou então rimo-nos da ideia de que uma coisa possa ser melhor que outra, mais bonita ou mais verdadeira, e por isso temos os nossos museus de arte moderna cheios de coisas que pessoas saudáveis de outra cultura qualquer considerariam hediondas, absurdas, ineptas ou triviais e as bibliotecas, depois de terem vendido os seus livros verdadeiros a três dólares cada e despejado o resto em aterros, enchem as suas prateleiras de vazio.

Nossa Senhora da Realidade
O título em que estou a pensar é: Nossa Senhora da Realidade. Não estou a brincar.

Pensem em Maria na sua casa em Nazaré. Ela não sofreu com as desvantagens deste mundo. Nós somos bombardeados com irrealidades e a nossa relação com a criação sólida e misteriosa de Deus é ténue. Maria sofreu as desvantagens salutares de um mundo em que uma mulher simples, casada com um carpinteiro, tinha de mergulhar na realidade. Tinha de levar trigo para ser moído. Tinha de meter as mãos na massa, para trabalhar o fermento. Tinha de tecer a lã para fazer linha. Apenas um telhado de palha a separava do sol do Verão. Apenas uma parede forrada a lama servia de barreira ao frio invernal.

Quando ouviu dizer que a sua prima Isabel estava grávida apressou-se a ir para os montes, possivelmente de mula mas provavelmente a pé. Estava lá quando nasceu o Baptista. As suas mãos poderão ter sido mesmo as primeiras a tocar no corpo do recém-nascido. Quando nasceu Nosso Senhor, ela apertou-o junto ao peito enquanto os animais na manjedoura batiam os pés e se ajeitavam. Em Maria existe sempre esta firmeza que vem de estar ancorada na criação.

“Como será isso”, perguntou ao anjo, “se eu não conheço homem?” Essa é a pergunta de uma realista. Quando o anjo responde que o que será feito será obra do Espírito Santo – mais real que as coisas passageiras que seguramos nas mãos, mais verdadeiro do que nós próprios – ela submete-se à maior das realidades: “Seja feita em mim a Vossa vontade”.

Um dia a neblina dissipará e as sombras fugirão e tudo o que é irreal desaparecerá como um sonho. Aí poderemos ver o Filho que ela nos deu. Eu imagino-O a aparecer como um rapaz, a chamar por nós com a alegria juvenil nos olhos. “Vou subir para as montanhas”, diz. “Vem comigo”.


Anthony Esolen é tradutor, autor e professor no Providence College. Os seus mais recentes livros são:  Reflections on the Christian Life: How Our Story Is God’s Story e Ten Ways to Destroy the Imagination of Your Child.

(Publicado pela primeira vez na Terça-feira, 27 de Agosto de 2015 em The Catholic Thing)

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