quarta-feira, 30 de julho de 2014

A Fuga do Iraque

David Warren
Quando os americanos (“e aliados”) ocuparam Cabul, descobriram que um dos velhos clichés sobre o Afeganistão estava, afinal, errado. Não era verdade que já não existiam judeus no país. Um cavalheiro idoso surgiu de entre os destroços, um certo Ishaq Levin (que Deus o guarde). Durante todos aqueles anos tinha evitado dar nas vistas, mas agora estava convicto que era seguro emergir.

E ainda havia outro. Talvez tenha ouvido falar nele uma vez que a sua história foi adaptada para uma pequena peça de teatro em Londres. Zabolon Simenov (a ortografia varia) era negociante de tapetes e vendedor de kebabs e tinha sobrevivido aos Talibans, mantendo-se secretamente judeu. A sua família, incluindo duas filhas, tinha fugido para Israel há muito tempo.

Da última vez que ouvi falar nele continuava a recusar partir, acreditando que enquanto filho e neto de rabinos distintos, vivendo no que restava de uma sinagoga, tinha a obrigação de permanecer, se possível. O negócio dos kebabs, contudo, já não é o que era – as bombas persistentes mantêm os clientes à distância – pelo que foi obrigado a fechar o restaurante.

Lembrei-me desta história pouco depois de ter escrito no meu próprio site, no passado domingo, que “pela primeira vez em mais de 18 séculos, não há cristãos em Mossul”, no Iraque. Actualmente, a informação de que disponho é de que dezenas, talvez centenas, permaneceram e encontram-se escondidos.

Mas os poucos milhares que havia anteriormente, apesar de uma variedade de provações, naquilo que em tempos já foi uma cidade cristã e continua a ser a sede nominal da Santa Igreja Apostólica Católica Assíria do Oriente [que não se encontra em comunhão com nenhuma outra Igreja apostólica], fugiram, na sua maioria para o Curdistão.

A alternativa dada pelo Estado Islâmico, o exército fanático que actualmente controla regiões inteiras do Oeste do Iraque e Este da Síria, que rebaptizou de “califado”, era a morte. Os relatos na imprensa repetem mecanicamente que as outras opções eram a conversão ao Islão ou o pagamento da jizyah, mas não têm espaço para explicar que estas não eram alternativas viáveis.

Já não vimos muitas reportagens sobre o Iraque, agora que as forças ocidentais foram retiradas, e a nossa escolha de amigos regionais limita-se aos terroristas de um lado e, do outro, dois regimes, do Assad na Síria e de Maliki, no Iraque, que se tornaram clientes de Teerão.

Ao abandonar as suas responsabilidades morais no Iraque, os nossos líderes ocidentais deixaram a outrora numerosa comunidade cristã entregue a si mesma. Mesmo enquanto as nossas tropas permaneciam no local, e tinham os meios para evitar o pior, o destino dos cristãos foi em larga medida ignorada. Estes, juntamente com outras minorias dentro do Iraque, eram um factor inconveniente num jogo maior.

Seria preciso um texto longo para explicar a impossibilidade da actual situação, mas vou tentar fazê-lo num parágrafo.

Embora os cristãos sempre tenham tido uma existência ténue em terras islâmicas (e vice versa, numa visão ainda mais longa), as suas comunidades maiores conseguiram sobreviver durante 14 séculos, através de um acordo tácito com os seus senhores muçulmanos. O Islão “tradicional” reconhecia de facto os cristãos e os judeus que permaneceram como “povos do Livro”, com algum direito à vida, embora não reconhecessem a conversão a estas religiões. Os muçulmanos taxavam-nos para conseguir rendimentos, inteligentemente impedindo os fanáticos de matar a galinha dos ovos de ouro. Mas com a subida do Islamismo “ideológico”, depois do nacionalismo árabe do século XX, tudo se complicou.

Cristãos obrigados a abandonar Mossul
Vale a pena mencionar dois factos importantes, que facilmente passam despercebidos na confusão dos nossos tempos. O primeiro é que em sítios como Raqaah, na Síria, a sobrevivência dos refugiados tem dependido dos vizinhos muçulmanos os esconderem, alimentarem e transportarem, uma vez que as suas casas foram marcadas e foram roubados pelos islamitas de tudo quanto possuíam.

Notem bem: Os muçulmanos defendem-nos quando nós os abandonámos.

Quando rezamos pelos cristãos devemos também rezar pelos muçulmanos que arriscam tudo para os abrigar – obviamente com a maior discrição. Isto ajuda-nos a não generalizar, dizendo que todos os muçulmanos são iguais, como se dizia que todos os alemães eram nazis. Mesmo que uma maioria tenha sido, no auge do sucesso de Wehrmacht, também existiam aqueles que os judeus apelidam de “justos entre as nações”.

Devemos aspirar a isto quando nos encontrarmos entre uma raça de perseguidores.

A outra questão a assinalar é sobre a “esperança”, em relação ao “tempo”. Talvez esteja a chegar o dia em que há tantos cristãos no Médio Oriente como judeus – isto é, um número que pode ser arredondado para zero. E talvez se siga um dia em que aconteça o mesmo na América, onde os cristãos são já uma minoria desprezada.

Mas isto não belisca o valor das comunidades cristãs que se perdem, cujas casas e igrejas são agora irreconhecíveis, eliminadas da paisagem.

Elas existiram, no seu tempo, como nós existimos no nosso. Essa dura realidade nunca pode ser apagada. Não há pardal que caia do céu que passe despercebido aos olhos de Deus.

Mas é este o nosso mundo, cheio de perseguições e injustiças, cheio de homens impiedosos e homicidas, à espera das suas oportunidades, até que as portas do Inferno se abram para poderem correr por elas a dentro. Tem sido sempre assim entre os homens, estes homens caídos em desgraça. É isso que os cristãos ensinam e não devemos abandonar a nossa fé agora que verificamos que os ensinamentos são verdadeiros.

A propósito, as cruzadas foram lançadas porque os cristãos da Terra Santa estavam a ser massacrados e o acesso aos lugares santos negado. A Cristandade oriental já tinha sofrido a sua quota-parte de derrotas, e sofreria mais até ser totalmente invadida. A Cristandade Ocidental decidiu contra-atacar, foi por isso que sobreviveu.

Não me parece haver “boas opções”, pelo menos nenhuma que possa preservar o modo de vida cristão quando este é atacado no Oriente e no Ocidente. Hoje, tudo o que sabemos defender são as nossas fontes de rendimento.

Mas Cristo prevaleceu, mesmo quando os seus apóstolos O abandonaram e ficaram reduzidos a um homem.


David Warren é o ex-director da revista Idler e é cronista no Ottowa Citizen. Tem uma larga experiência no próximo e extreme oriente. O seu blog pessoal chama-se Essays in Idelness.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 26 de Julho de 2014 em The Catholic Thing)

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