quarta-feira, 2 de julho de 2014

Tash e a Salvação dos Muçulmanos

Pe. Dwight Longenecker
No seguimento da visita do Papa Francisco ao Médio Oriente, o encontro de oração nos jardins do Vaticano e a renovação de combates entre fundamentalistas islâmicos no Iraque, que esperança podemos ter acerca da possível salvação de pessoas religiosas que prefeririam morrer mil vezes do que converter-se ao Cristianismo?

C.S. Lewis tinha o hábito de polvilhar as suas histórias infantis com teologia. Aquilo que ele pensa sobre a possível salvação de não-cristãos encontra-se na história final dos livros de Narnia. É evidente que os calormanos, o povo que invade Narnia, representam os muçulmanos. Os homens do sul têm nomes de estilo turco, usam cimitarras e recorrem ao engenho e ao subterfúgio para invadir. Embora traiçoeiros, usam uma linguagem muito formal, que faz lembrar a cultura islâmica, pelos salamaleques.

Em Narnia, um símio chamado Shift alia-se a Tisroc – o líder Calormano – e dá-se início à invasão de Narnia. Depois de cobrir o burro Puzzle com uma velha pele de leão, fazendo-o passar pelo grande Leão Aslan, Shift consegue conquistar o fascínio dos Narnianos e rapidamente começa a conspirar com os Calormanos para subjugar toda a Narnia.

A história leva uma volta com a chegada de Tash, o deus-demónio dos Calormanos. Uma criatura terrível com o corpo de homem com quatro braços e cabeça de falcão. O capitão calormano Rishda Tarkaan conjuga as duas divindades em “Tashlan”. No estábulo onde se encontrava o falso Aslan, Tash espera para devorar todos os que entrem.

Entre os Calormanos encontra-se um nobre chamado Emeth que aprendeu a amar e reverenciar Tash. Quando ouve dizer que Tashlan se encontra no estábulo, pede para entrar. Quando Rishda Tarkaan o procura impedir, Emeth responde: “Vós dissestes que Aslan e Tash são um só. Se isso é verdade, então é Tash que se encontra adiante. Como dizeis, então, que não devo ter nada a ver com ele? Morreria alegremente mil vezes pela oportunidade de poder ver a face de Tash uma única vez”.

Emeth desaparece para dentro do estábulo, e a história continua até que as crianças de Narnia perdem a derradeira batalha e são lançados também elas para o interior. O estábulo, porém, é “maior por dentro do que por fora” e transforma-se na passagem para a verdadeira Narnia, de onde testemunham a morte silenciosa da Narnia que conheciam até aí.

Viajando pela verdadeira Narnia encontram Emeth, que lhes fala do seu encontro com Aslan:

Veio ter comigo um grande Leão... então caí aos seu pés e pensei, “Certamente é chegada a hora da minha morte, pois o leão saberá que servi a Tash todos os dias da minha vida, e não a ele”... Mas o Glorioso baixou a sua cabeça dourada e tocou na minha testa com a sua língua, dizendo: “Sede bem-vindo filho”.

Respondi, “Mas Senhor, eu não sou vosso filho, mas sim um servo de Tash”. Mas ele replicou: “Filho, todos os serviços que prestaste a Tash eu contei como serviços prestados a mim... Nenhuma obra vil pode ser feita em meu nome e nenhuma que não seja vil pode ser prestada a ele”.


Emeth respondeu, “Porém, todos os meus dias eu procurei Tash”.

“Amado”, respondeu o Glorioso, “Se a vossa busca não fosse por mim, não teríeis procurado tão longamente e com tanta verdade, pois todos encontram aquilo que verdadeiramente procuram”.

Lewis teria certamente estendido a um muçulmano a mesma generosidade que revelou para com o nobre calormeno. Emeth procurou com todo o seu coração aquilo que era belo, bom e verdadeiro. Por isso, na história de Lewis, acabou por encontrar Aslan, a figura de Cristo. Pelo contrário, qualquer dos filhos de Aslan que vivesse na decepção, crueldade e no mal acabaria por ser devorado por Tash.

Esta é a nota que atravessa todo o pensamento de Lewis – uma misericórdia divina que é universal sem ser universalista. Para Lewis há um juízo e um juiz, mas o juiz é mais a alma individual do que o Todo-poderoso.

Em “O Grande Divórcio”, ele afirma claramente: “No final de contas há dois tipos de pessoa: os que dizem a Deus, ‘Seja feita a vossa vontade’ e aquelas a quem Deus acaba por dizer, ‘Seja feita a vossa vontade’. Todos os que estão no Inferno estão lá porque o escolheram. Sem essa escolha não poderia haver Inferno. Nenhuma alma que deseje a alegria de forma séria e constante a poderá perder. Quem procura, encontra. Àqueles que batem, abrir-se-á.”

Como é que este espírito generoso encaixa com as palavras exigentes de Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim”? A perspectiva de Lewis significa que Emeth chegou de facto ao Reino através de Aslan – pese embora pensasse que vinha através de Tash.

Toda a verdade, beleza  e bondade é uma verdade, beleza e bondade católica. É por isso que apoiamos e acolhemos tudo o que é bom, belo e verdadeiro não só noutras expressões de Cristianismo, mas também noutras religiões mundiais.

Por isso, o Catecismo da Igreja Católica diz: “A Igreja reconhece nas outras religiões a busca, ‘ainda nas sombras e sob imagens’, do Deus desconhecido mas próximo, pois é Ele quem a todos dá vida, respiração e todas as coisas e quer que todos os homens se salvem. Assim, a Igreja considera tudo quanto nas outras religiões pode encontrar-se de bom e verdadeiro, ‘como uma preparação evangélica e um dom d'Aquele que ilumina todo o homem, para que, finalmente, tenha a vida’. [843]

Emeth encontra em Aslan aquele que sempre procurou. Da mesma forma, podemos esperar que os muçulmanos que verdadeiramente procuram o belo, bom e verdadeiro possam um dia ver Cristo e saber que é ele o objecto de todas as suas buscas.

Entretanto, somos chamados a evangelizar incansavelmente para que aqueles que vivem nas sombras possam vir a conhecer a gloriosa luz de Cristo.


O livro mais recente do padre Dwight Longenecker é The Romance of Religion – Fighting for Goodness, Truth and BeautyVisitem o seu blogue, folheiem os seus livros e contactem-no em dwightlongenecker.com

(Publicado pela primeira vez no Domingo, 29 de Junho de 2014 em The Catholic Thing)

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