quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Uma Visão Sacramental do Corpo

Randall Smith
Num artigo anterior realcei que a nossa cultura, que tem encorajado os adolescentes a pensar que se podem tornar pessoas diferentes mudando a marca da roupa que usam, está agora a encorajá-los a acreditar que podem tornar-se pessoas diferentes alterando os seus órgãos sexuais – como quem muda um casaco.

A formo como os publicitários vendem artigos aos jovens é associando-os a um certo tipo de pessoa: cerveja com um tipo porreiro, fixe e universitário; perfume ou roupa com um tipo magro, urbano e social; um carro com um certo tipo másculo, bem-vestido, sofisticado e urbano.

Ironicamente, os jovens dizem muitas vezes que estão a “expressar a sua individualidade” com as coisas que compram, quando isso é o oposto da verdade. A escolha de certos produtos em vez de outros é normalmente motivado por um desejo de se tornar mais como o modelo de pessoa “fixe” a que aspiramos. Logo, longe de se tornarem “mais individualistas”, os adolescentes procuram tornar-se mais como os outros.

Estas práticas culturais reforçam a ilusão moderna de que a nossa identidade não é algo que recebemos (da natureza, de Deus, da cultura, da tradição), mas algo que criamos individualmente, sozinhos.

Enquanto no passado os jovens podiam ver-se como sendo oriundos de (e por isso, de certa forma, em divida para com), uma certa família, tradição cultural ou religiosa, agora, por causa da influência do modernismo, os jovens tendem a ver-se como auto-criadores. Seja qual for o seu passado, sejam de onde forem, independentemente de quem forem os seus pais, podem recriar-se de novo: podem ser “aquilo que quiserem ser”. Têm o dever de se criarem, aparentemente ex nihilo.

Há muito neste ponto de vista que é bom, claro, dado que a Igreja sempre enfatizou a importância do livre arbítrio. Em certo sentido sim, criamo-nos pelas escolhas que fazemos.

Mas há algo que se pode perder com este ponto de vista também: nomeadamente, a noção da nossa ligação e responsabilidade para com os outros. Se eu me crio ex nihilo, então não devo nada a ninguém. Sou responsável apenas por mim e pelo meu projecto de auto-criação. É verdade que isto me poderá induzir a deixar os outros em paz para se dedicarem aos seus próprios projectos de “auto-criação” (embora as crueldades da vida adolescente contemporânea sugiram o contrário), mas poderá também (e mais provavelmente) levar-me a negar qualquer responsabilidade em relação aos outros.

A minha individualidade é mais individual que a tua
Quando falo aos meus alunos sobre a forma como os agentes do marketing procuram seduzir os adolescentes, um deles dirá algo como: “Mas temos de vestir alguma coisa”. Respondo que sim, “mas seria melhor se, em vez de encararmos as nossas escolhas como expressões de uma individualidade radical, as víssemos como expressões de socialização. Isto é, eu escolho as roupas que escolho precisamente para me poder misturar mais facilmente em certas situações sociais. Uso fato e gravata quando é apropriado usar fato e gravata, mas roupa mais casual quando isso contribui para que as pessoas à minha volta se sintam mais confortáveis. A minha roupa não serve para me definir como algo que está à parte e é diferente dos outros. Seria melhor encará-la como algo que posso usar para me ajudar a unir a eles”.

E se tivéssemos uma visão “sacramental” das coisas, incluindo do corpo humano? E se eu visse o meu corpo (ou a minha roupa) como algo que serve de instrumento do meu amor a Deus e ao próximo?

João Paulo II dizia frequentemente que não podemos amar o nosso próximo – não nos podemos revelar a ele ou tornar-nos presentes a ele – se não através do nosso corpo. Deste ponto de vista, o meu corpo e tudo aquilo que ajuda a formar a minha “personalidade” deve ser entendido como estritamente “meu” de um ponto de vista, mas também de outros e para os outros. Eu moldo o meu carácter de certas formas porque quero ser prestável aos outros e poder cuidar deles.

Tal como a modernidade nos levou a adoptar a noção de propriedade como algo essencialmente “meu”, posto à parte dos outros e unicamente para meu usufruto, agora também temos a ideia dos nossos corpos e das nossas identidades como sendo algo que nos põe à parte dos outros e com os quais os outros não devem interferir. É significativo que as pessoas falam hoje dos seus corpos como sendo da sua “propriedade”, a serem usados como entenderem.

João Paulo II sugeriu, pelo contrário, que uma vez que somos feitos à imagem de um Deus trinitário, descobrimo-nos ao fazer de nós mesmos um dom sincero aos outros. Por isso ele propôs que ao trabalharmos seja para nós mesmos, mas também com e para os outros, e insistiu numa noção de propriedade “privada” que é ao mesmo tempo “minha” mas também sempre para outros.

O mundo boémio da liberdade sexual esteve sempre claramente ligado ao mundo burguês do capitalismo laissez-faire. Ambos assentam numa noção de individualismo radical e auto-criação que a Igreja sempre rejeitou. É por isso que os ensinamentos autênticos quer da moral sexual quer da justiça social ofendem sempre uma das partes nos debates entre conservadores individualistas e liberais individualistas. É por isso que “conservadores” e “liberais” estão sempre a tentar afirmar um dos lados do ensinamento da Igreja, enquanto evitam o outro, embora uma compreensão autêntica quer da moral sexual quer da justiça social insista que ambos se baseiam na mesma visão “sacramental” de toda a realidade criada, na qual todas as coisas criadas, incluindo nós mesmos e os nossos corpos, devam ser entendidas como “instrumentos” do amor de Deus.

“A verdadeira queda do homem”, escreveu o grande teólogo ortodoxo Alexander Schmemann, é viver “uma vida não-eucarística num mundo não-eucarístico”.


Randall Smith é professor de teologia na Universidade de St. Thomas, Houston.

(Publicado pela primeira vez no Sábado, 4 de Janeiro 2014 em The Catholic Thing)

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